Quem Sou eu

por Robson Assis | | 28.12.08

Nasci no Capão Redondo, zona sul de São Paulo. Cresci ouvindo Toquinho, Legião Urbana, Originais do Samba e Raul Seixas, por influência de meu pai. E comecei a escrever, também por indicação do velho, que me escrevia cartas antes ainda que eu tivesse nascido. Assim vieram as primeiras palavras, um diário de viagem (Maranhão) e a vontade diária de escrever.

Atualmente, além deste blog, escrevo resenhas publicitárias no Ponto Frio, além de poesias e contos esparsos no Sindicato dos Escritores Baratos e pensamentos impublicáveis no Staying alive was no Jive

FORMAÇÃO PROFISSIONAL
Jornalista por formação, escritor inveterado desde os 8 anos de idade, blogueiro inconstante desde 2002. Trabalhei no site Guia SP como repórter e editor de Artes/Espetáculos, Música e Bares/Baladas. Mais tarde fiz freelas de apenas 15 dias com o CAT, para a agência Magnet, experiência incrível para adquirir referências em tecnologia, mas que durou pouco por conta de meu inglês terrível na época. Em 2007 trabalhei na Voice Assessoria de Imprensa como Analista de Mídias Sociais, criando planilhas e relatórios da visibilidade dos clientes da carteira da empresa. Uma experiência válida pelo fato de conhecer uma das novas profissões que começavam a despontar com a Web 2.0. Foi logo depois, ainda em 2007, que comecei a trabalhar na produção e redação publicitária de produtos para os sites e-commerce: Americanas, Submarino, Shoptime e, atualmente, Ponto Frio.

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Festival Indie Hip-Hop 2008

por Robson Assis | | 15.12.08 1 Comentário

O domingo despertava frio na zona sul de São Paulo, de onde saímos. Mesmo com essa cara de chuva que o fim do ano promete, a tarde parecia clarear conforme chegávamos ao ABC, onde acontecia a sétima edição do maior festival de rap alternativo do Brasil, o Indie Hip-Hop, organizado desde 2002 por Rodrigo Brandão (Mamelo Sound System). Do lado de fora, às 18h20, já com o som rolando, uma multidão ainda se aglomerava nos portões do Sesc Santo André, alguns esperando amigos, outros finalizando seus drinks, ou apenas na tentativa desesperadora de conseguir um dos ingressos tão concorridos para o espetáculo.

Na entrada, uma breve revista com seguranças mais tranquilos do que o convencional braço cruzado, cara fechada e "abre-essa-carteira-aí-preu-ver". Uma moça bonita rasgou o ticket enquanto eu a admirava por dentro de seus olhos. Na descida pelo corredor escuro, lembrei de quantas vezes fui em casas de shows menos respeitosas com o público em locais mais elitizados e com funcionários que não se relacionavam como pessoas, com ações robotizadas e pouco humanas. Claro que lembrei disso tudo em duas frações de segundo.

No final da descida, avistei o palco. O Projeto Manada já destrinchava seu repertório dançante e empolgava os presentes que já lotavam metade do espaço destinado ao público. Apresentando o show do disco Urbanidades, lançado neste ano, o grupo abriu o segundo dia da festa, que no sábado contou com Doncesão & Dr Caligari, Sombra (ex-SNJ) e Subsolo. O PM fez um show bastante seguro e muito próximo do público. Segundo o MC Prizma afirma no myspace do grupo, a apresentação "foi o marco de um processo dificil que foi a concepção do disco".

Muito som rolando nas pick-ups após o primeiro show. Dei um tempo do lado de fora, na praça de alimentação. A fila enorme era recompensada pelo encontro com amigos e conhecidos, algumas palavras, o clima era de total coletividade. Algumas cervejas depois, entra em cena o Kamau. Já conhecia seu disco anterior e confesso não ter gostado muito do que ouvi. De qualquer forma, parei para prestar atenção e pude reconhecer o som do cara como algo muito original. Ele lançava também seu disco Non Ducor Duco, de agosto/2008. Batidas e levadas mais pesadas, com uma rima sublime e um tipo de métrica poética bastante particular. Fora isso o cara agitou muito a platéia que já tomava conta de todo o local.

DJ KL Jay tocou antes do nova-iorquino, muitos clássicos, muito rap nacional de qualidade, algumas emendas ótimas, um trabalho de indiscutível qualidade e que todos dançavam sem parar. Entre um som e outro, algumas homenagens ao DJ Primo, que faleceu este ano vítima de pneumonia. Todos aplaudiam e algo de emocionante acontecia dentro de cada um dos presentes, sempre que citavam o nome do DJ.

A noite já dava o ar da graça, quando sobe ao palco Talib Kweli, o norte-americano convidado especial. Já é praxe do festival chamar algum grupo de destaque internacional (em edições anteriores já passaram por lá Hyerogliphics, Jurassic Five e De La Soul) e desta vez, a escolha foi de uma exatidão milimétrica. O rapper que já fez parcerias com Madlib, Mos Def e Hi Tek, além de ser dito o queridinho de Jay-Z fez um set preciso que agitou a galera do início ao fim, sem delongas, sem corpo mole e com muita vibração positiva.

Ao terminar a noite acredito que todo mundo tenha voltado para casa com a sensação de um direito cumprido. Não podemos pagar para ver um Kanye West endeusado, mas podemos ver shows tão bons ou até melhores com a autenticidade de um evento que ano após ano vem ganhando em qualidade e acrescentando muito à cena de hip-hop independente nacional.

Foto por Pedro Pinhel (http://originalpinheirosstyle.blogspot.com/)

Um simples pedido

por Robson Assis | | 10.12.08 1 Comentário

Querido Papai Noel,

Neste natal, quero que o senhor suma e leve junto o Coelhinho da Páscoa e as datas que comemoramos apenas para esquentar o mercado e as gigantes ações promocionais do varejo. Gastamos todo o nosso dinheiro com baboseiras tremendas que não conseguimos pagar de imediato e nos levam a obter dívidas durante todo o ano seguinte. Assim, peço para que o senhor nos deixe apenas comemorar as datas, mas insisto que sejam proibidos comerciais de televisão e em outras mídias. Acredito que assim, o ato de dar um presente vai se tornar mais amigável e sincero.

Peço que suma, pois conheço muitos pais de família que não vão conseguir dar a seus filhos os presentes que aparecem na TV, com parcelas que decolam junto com os juros. Conheço crianças que vão ver na novela meninos ganhando carrinhos, roupas caras e brinquedos eletrônicos e não vão esquecer disso quando crescerem.

Portanto, este é meu pedido: Trabalhe menos, apareça menos em rede nacional, tome um porre e espero não ter que vê-lo no ano que vem. Estamos combinados?

Desgaste, e-commerce, fim de ano

por Robson Assis | | 9.12.08 1 Comentário

Este fim de ano está pancada. Muito trabalho, muita correria, muita perda de tempo, que após o desfecho de 2008 será seguida de uma perda de tempo ainda maior e mais intensa, minhas férias. Mas até que chegue essa bagaça, por aqui é só transtorno mental. Mal consigo parar e pensar um pouco, ou mesmo escrever qualquer porcaria. Pelo menos até então está valendo a pena.

Eu pedi a Deus um trabalho e que eu conhecesse a estrada. Ele, ligeiro, me deu uma casa no Capão e um trampo em Barueri. A velha história dos coelhos mortos com uma cajadada só.

Memórias privadas, pensamentos soltos

por Robson Assis | | 5.12.08 COMENTE!

Luzes apagadas. Hoje o dia não começou bem, pra variar. Alguns sempre voltam a este lugar com expectativas de reencontrar a esperança, ou coisa que o valha. E eles gritam. De noite, eles gritam por dentro, choram, agonizam, morrem e voltam no outro dia, os bastardos.

O cheiro podre exala dentro de nós, a merda desse esgoto que passa aqui ao lado é como um pequeno rio do inferno em que o Diabo não veste Prada e não desfila com sua bela donzela em barquinhos venezianos. Ele caminha sobre túnicas de entulho com cheiro de cadáveres, em pedaços de madeira cobertos de estilhaços de vidro sobre a merda acumulada de ricos imundos que também passa por aqui.

E eu que já não sonho mais estar naquela sala grande, fechada com vidros e quadros, laptops e um telefone sem fio importado, pouco me lixo para os que lá estão. Sei que não gostam de mim e eles sabem que meu ódio por eles talvez seja o triplo. Quem apanha acumula mais sentimentos maus. Só não quero imaginar o que acontece quando a gente coloca todos esses sentimentos pra fora.

Mas o dia segue sem luz. Continuo minha viagem louca pelo mundo afora, mesmo dentro destas grades. Sabe aquela sensação de que tudo vai continuar do mesmo jeito pelo resto de nossas vidas? Aqui isso acontece o tempo todo. Se houvesse um purgatório que levasse só para o inferno, talvez esse fosse o lugar.

Não falava disso, falava sobre expectativas. Só resiste quem as possui. E só é possível tê-las, com o pensamento longe daqui. Além dessa lógica quase que abstrata, existe um sentido mútuo em nossas esperanças. Todas elas nos querem bem, mesmo que tenhamos de fazer o mal para consegui-las. Quem foi o cara que disse "os meios justificam os fins"? Enfim, a esperança segue em mim e talvez só por isso eu ainda esteja vivo, era isso o que queria dizer.

Sobre a luz dessas velas eu tento tampar meus ouvidos para não escutar todo esse silêncio fúnebre que me rodeia. Uma experiência de morte em sua própria vida, sabe. Ser preso em uma estação de trabalho é resumir um espaço de tempo de sua vida em um local quatro por quatro, uma cabine em que você tem direito às suas necessidades básicas de sobrevivência, às vezes menos do que isso. E, acredite, privar você de coisas habituais como ver o sol pela manhã ou ouvir o barulho das árvores balançando, não é tão bom quanto parece ser nos longas metragens de Hollywood.

Sonetos Trágicos #002

por Robson Assis | | 28.11.08 1 Comentário

Não me faça outras perguntas
Não me venha com desculpas
Meu desafeto é tatuagem borrada
Tua honra, tua glória, teu nada

O afago do desprezo nesta noite gelada
Acalenta vil a doce lágrima
Que corre meus lençóis e mata
Que explode sobre a dor e a desgraça

O mundo é uma coleção de primeiras tentativas
Aquele que sabe lidar, pode entender
Errar às vezes pode ser uma grande saída

O social criou sua horda de homicidas
Marchando sós pelas quebradas cinzas
Armas em punho, uma nobre guerra contra a vida.

Sonetos Trágicos #001

por Robson Assis | | 26.11.08 COMENTE!

Só mais um pouco de tensão
Para amenizar a dor e a emoção
Que os dias frios levam de nós
E nos oferecem tanto em vão

Jazigos de sentimento oculto
À porta, nossos obscuros vultos
Que tremem e marcham quais zumbis
Hão de comentar teus absurdos

Muros cobrem cinismo e liberdade
Para cada homem rico um pobre pede piedade
Folhas de Napalm explodem pelas árvores da cidade

Como o céu cinza de ontem à tarde
E os cigarros secos no maço deste covarde
Nossas feridas sangram mais que nossas verdades.

"Negra Ângela" no Anonimato S/A

por Robson Assis | | 21.11.08 1 Comentário

Salve salve,

Saiu um novo conto meu intitulado Negra Ângela, para a revista digital Anonimato S/A. Uma história sem final feliz, com alguma emoção e certo sentimento, feita para a seção Amores Urbanos, que escrevo mensalmente.

Nesta edição o site traz também a festa de aniversário do padre Hamilton Enes, com uma missa que ressalta a cultura afro numa paróquia católica do Brás, zona leste de São Paulo. A inusitada seleção brasileira de futebol de rua, composta por meninos moradores de periferia que vão participar do campeonato mundial em Melbourne, em 2009. Um relato sobre casais que optam por namorar em estações de metrô. E para fechar 'Periferia: uma autobiografia', uma ótima matéria sobre arte na quebrada, uma aula de vontade e, sobretudo, resistência.

Leitura obrigatória, jornalismo lírico e não convencional!

www.anonimatosa.com

Seu Pedro e os domingos realmente espetaculares

por Robson Assis | | 16.11.08 COMENTE!

Domingo é sempre nostálgico. Abro a janela, vem aquele vento e aquela luz que só este dia nos proporciona. Sento em frente ao espelho e começo a me lembrar da noite anterior. Faço mil juras até me lembrar de qua nada daquilo vai realmente mudar. Me levanto, bebo um pouco de água, vejo as crianças correndo e levando a sério milhares de brincadeiras bobas, como sempre fazemos quando somos menores.

Não tento mais ligar a televisão, não consigo mais ver o Silvio Santos,nem o Faustão, sequer a gostosa da Eliana, que agora também tem um "novo" programa imbecil. Sobram alguns clipes da MTV, alguns livros espalhados pela cama e minhas músicas. Talvez uma ou outra cerveja. Sem exagero, pois amanhã voltamos à rotina.

O desespero começa a aumentar de tarde, assim que as crianças param de brincar e já estão em casa vendo TV. A noite chega, o frio aumenta um pouco, há quem diga que o final do dia é deprimente. Pra mim, soa desesperança. Por me lembrar de pessoas que não precisam acordar na segunda-feira de manhã, se matar dentro dos coletivos da cidade. Nós vamos continuar correndo o resto de nossas vidas e não fazer nada do que realmente gostamos. Para muitos de nós, a vida vai e volta assim.

Tenho diversas recordações de domingos em que ia na casa da minha avó, num desses churrascos com a família toda presente. Meu avô tocava algumas modas de viola, pouquíssimos de nós conheciam, mas certamente todo adoravam. Seu Pedro era a essência de minha família. Mesmo achando quando moleque que ele fumava charuto demais e contava histórias fantásticas demais, ao crescer percebi o quanto aquilo fora importante no meu trajeto de vida.

Ele falava pouco, não atropelava ninguém nas conversas. Mas quando ia falar, todos paravam para prestar atenção. Digo mais, para prestar reverência aquele que foi nossa base. Meu avô se foi faz uns 6, 7 anos. E o que ele deixou é imortal demais para se desfazer com o tempo. Minha família se desfez. Nunca mais houve churrascos de domingo. O dia se tornou apenas um marco pra mim, daquela gente louca que gostava de coisas muito mais simples como conversar, jogar truco, comer, beber e estar junto.

Hoje é domingo, e eu estou em casa com saudades do meu avô.

Pelinho e Mônica

por Robson Assis | | 14.11.08 COMENTE!

Eu, Diguinho e a banca inteira ao fundo



Sábado passado foi casamento do André Lutz, vulgo Pelinho, amigo meu de milidias, batalhador. Uma dessas pessoas que dá o significado à expressão "gente fina", compreende? Estávamos todos - ou quase todos - presentes na cerimônia. Eu prestava atenção à missa, mas o padreco não ajudava, então olhava para os lados e via meus amigos gesticulando o primeiro gol do São Paulo no jogo, ou comentando sobre a (linda) camera-girl, que filmava todo o evento.

Era um sítio-buffet em Parelheiros. Lugar bonito, cheio de verde, passamos uma quebrada bem parecida com o lugar em que morei quando pivete, até chegarmos naquele lugar. No carro, pensei alguns segundos sobre isso, mas era dia de festa. Dionísio não se entristece, Tolstoi pode esperar, eu não vou salvar o mundo em cinco minutos.

A festa começou por volta das oito da noite. Tudo na tranquilidade, apesar da minha falta de cigarros, esquecidos no caminho. Bebemos muito, talvez isso tranparecesse mais se não tivéssemos os garçons como álibi, sempre descolando uma desculpa pra trazer aquela dose servida de whisky na nossa mesa, ou na nossa roda.

Casamentos são bonitos. Mas não imagino o trabalho que o casal deve ter no dia D. Estive presente em alguns esse ano e vi os noivos até cansados de tirar fotos para o álbum, cumprimentar pessoas, participar daquelas cerimônias do tipo beber champagne com os braços entrelaçados, o bouquet dela, a gravata dele.

De qualquer forma, é muito bom ver famílias felizes e confraternizando junto aos novos membros. Além de unir gerações e transcendências, prezo por aqueles que optam por esta maneira singela de dizer que ainda existe união e esperança entre as pessoas deste mundo. Ao Pelinho, chegado, um grande salve e que os dias que se sigam sejam cheios de alegrias e realizações.

Pra constar, depois fomos para a Augusta comemorar em alguma Jukebox de um bar ruim, com brindes em copos americanos e doses de bebidas mais comuns. A lua de mel dos loucos.

Aquisições de um final de semana freak

por Robson Assis | | 10.11.08 COMENTE!

Sábado passei no Extra da Marginal Pinheiros, sentido Interlagos. Pensei em comprar um refrigerante e algo pra comer. Ao entrar, reparei naquele monte de promoções de CDs e DVDs. Parei pra olhar um pouco quando vi DVDs por R$ 4,95. Comecei a olhar, tinha capítulos do Chaves, Chespirito e outros pastelões mexicanos, pouco dignos de minha prateleira. Mais à frente, CDs. Coletâneas do Boticário, artistas falidos e seus discos esquecidos. No meio deles, um Slipknot. Não sou fã desta banda, aliás, pouco conheço. Entretanto, o disco era duplo e ao vivo, por R$ 4,95. Coloquei no carrinho, papel dado a meu antebraço. Continuei vasculhando e encontrei um Jair Rodrigues com versões de várias canções nacionais. Carrinho. Saí do lugar quando comecei a pensar em levar um exemplar do Planeta Pop. Passei na ilha de DVDs e, desta vez não encontrei mexicanos, mas o Zé do Caixão! Comprei quatro filmes dele e, de quebra, um Mazzaropi perdido no meio daquela enxurrada de filmes desconhecidos e thrashbusters. Tive que deixar de lado - por conta de meu curto orçamento - A Coisa, um documentário sobre o Morissey, outro do Placebo, todos eles com pesar. Com todas as aquisições quase caindo de meu antebraço, saí do mercado com uma conta de R$ 30 e mais história para a coleção de filmes baratos que tenho em casa. Pra resumir esta opereta, esta semana tenho trinta reais a menos na conta, 5 filmes clássicos na estante e já posso dizer se gosto ou não de Slipknot.

IMPÉRIO DO MAL - Sig Sauer

por Robson Assis | | 6.11.08 COMENTE!

Eles te compraram não adianta mudar
Eles tem sua vida nas mãos
Garantem seu futuro e um lugar pra morar
Eles criam a ilusão

GRANDES CORPORAÇÕES GERAM CINISMO MORAL!
GRANDES CORPORAÇÕES GERAM CINISMO MORAL!

Funcionário do mês, um idiota outra vez
Com sua foto no mural
Dos meus melhores amigos, seus idealismos
Se vendem todos no final.

GRANDES CORPORAÇÕES GERAM CINISMO MORAL!
GRANDES CORPORAÇÕES GERAM CINISMO MORAL!

GRANDES CORPORAÇÕES, IMPÉRIO DO MAL.

McCain x Obama

por Robson Assis | | 4.11.08 COMENTE!

Quem será que vai apoiar a volta da ALCA? E do NAFTA? Quem defende a omissão às patifarias do Chavez, quem não quer a Rússia por perto? Em consideração ao mundo, você sabe em quem votaria hoje, nos EUA? As respostas não são claras, tampouco fáceis de saber. Quem decidirá pelo futuro do mundo, pelas guerras, pela diminuição da poluição, pela extinção da pobreza. Nenhum deles! As prioridades governamentais são gerar riqueza e lucros em bancos que fabricam dinheiro inexistente, marginalizam a sociedade em dívidas e colocam como seu principal meio de sua sobrevivência, a nossa subserviência. Não, eu não acredito na democracia. Não acredito e acho ridículo acreditar que um cidadão possa decidir por milhares de outros, isso é, no mínimo, inaceitável. Se você não vai com a cara nem do seu vizinho rabugento que conhece a anos, por que acreditaria em alguém que sequer ouviu falar? Sem mais perguntas, a decisão fica a cargo da nossa ilusão, fica pela crença indecorosa de que dias melhores virão.

Para refletir:

Quem será o dono do mundo?
http://noticias.uol.com.br/ultnot/especial/2008/eleicaoeua/infograficos/quiz-bush.jhtm

Documentário:
Orwell Rolls in His Grave (quem quiser uma cópia eu gravo)

Reflexões acerca do cárcere de trabalhar

por Robson Assis | | 23.10.08 1 Comentário

I.
De manhã me levanto com aquele despertador
Que mais parece querer que eu me suicide naquele instante
Tudo na porra do meu dia parece querer isso
Me entreolho no espelho, com as luzes apagadas
Para não acordar ninguém que ainda esteja sonhando
Vejo meus livros, meus K7s, minhas revistas
E por mais forte e pesado que eu insista
Não consigo mais ver vida dentro daquele lugar
Pego o carro, passo por bairros conhecidos
Uma estrada que chega até o rio e me leva ao trabalho.
Estaciono, passo o crachá em algumas catracas
Subo sonolento as escadas, com raiva
A última catraca me cede passagem, sento à mesa
Mensagens, cobranças, planilhas, notas fiscais
Certamente há quem sinta pena
Vejo o dia clarear, o sol adentra a sala por uma janela com frisos
Realmente parece um cadeião para condenados.
Na hora do almoço, cruzou outras duas catracas
Me sirvo de um bandeco comida sem gosto e pálido
E, pelo menos, me sirvo.

II.
A tarde chega, um calor, telefones que tocam, conversas
Uma dor nas costas provoca e amaldiçoa o desânimo
Vejo milhares de pessoas, milhares de máquinas
Sedentos por algo além de tocável, que se possa mostrar
Carros do ano, apartamentos de luxo, brindes de champagne no natal
E eu com este gosto podre, este fel infernal
Vou matando os segundos até que as horas tenham fim
Não me empenho, não prospero, não tenho esperança
Acho que muito disso morreu em mim ainda quando criança
E o que sobrou foram os restos mortais de um anjo frustrado
Minhas paixões são cada vez mais sobrepostas por esse tédio
Criamos em nossas mentes, ilusões perfeitas
E a omissão a nós mesmos acaba sendo a cura para todas as doenças
Quem sabe um dia isso não terá um fim incerto
Tenho certeza que não vou ouvir isso de ninguém aqui perto.

III.
Mais de 10 horas neste lugar me traz uma angústia
Que eu sequer consigo demonstrar
Entro no carro após o expediente, ligo o rádio
Boto pra escutar as mixtapes que gravo e trago comigo
Volto pela mesma estrada, os mesmos lugares
Os mesmos acidentes, o mesmo trânsito opaco e frio
O próprio sol já se encarregou de descansar
Cansou de me esperar para ir deitar
Chego em casa, abro a porta
Sinto quando minha presença incomoda
E minha casa se torna o único lugar do mundo
Em que não me sinto em casa.

IV.
Passo a tentar ler algum livro, coisa que o valha
Deito na cama, ligo o som, pego o Baudelaire
Dez minutos depois, sinto que nem ele me quer
E adormeço para no outro dia recomeçar este martírio
Uma detenção sem muros que o poeta cantou
E que por muitos e muitos anos
Ainda aqui estou.

Criando monstros e fantasmas

por Robson Assis | | 20.10.08 2 Comentários

Certas vezes me sinto desleixado. Talvez por ser um jornalista escória da raça. Não leio o Estadão todos os dias, nem tento ler o NY Times - OK, mas só algumas vezes - Sequer tenho tino para escolher matérias boas e mandar para os amigos mais próximos. O que sei é enxergar o jornalismo de fora, como um analista, entender seus fracassos, seus trejeitos.

A mídia, com poucas 'Isabelas' para contracenar na retrospectiva, buscou mais atores, mais vilões, criaram uma minisérie de quatro capítulos com o caso do rapaz que sequestrou a ex-namorada e a amiga em Santo André. Cada dia aquilo, tinha mais cara de produção da Globo. O CDH parecia até com o Projac.

Conspirações à parte, quero que me expliquem. Por que um refém sequestrado voltaria ao seu cativeiro? Como uma equipe policial organizada, tática e meticulosa não consegue invadir um conjunto habitacional? Se havia risco do fulano matar as vítimas, porque não trataram o sequestrador como um criminoso, mas como um ser humano decepcionado com a vida?

Bom, aí vai minha recomendação cinematográfica de hoje para entender porque eu tenho tanta cisma com a mídia:

O Quarto Poder (1997)
Em Madeline, Califórnia, um repórter de televisão (Dustin Hoffman) que está em baixa, mas já foi um profissional respeitado de uma grande rede, está fazendo uma cobertura sem importância em um museu de história natural quando testemunha um segurança demitido (John Travolta) pedir seu emprego de volta e, não sendo atendido, ameaçar a diretora da instituição com uma espingarda. Ele nada faz com ela, mas acidentalmente fere com um disparo acidental um antigo colega de trabalho. O repórter, de dentro do museu, consegue se comunicar com uma estagiária que está em uma caminhonete nas proximidades, antes de ser descoberto pelo ex-segurança, que agora fez vários reféns, inclusive um grupo de crianças que visitavam o museu. Em pouco tempo um pedido de emprego e um tiro acidental se propagam de forma geométrica, atraindo a atenção de todo o país. O repórter convence ao segurança que este lhe dê uma matéria exclusiva e promete em troca comover a opinião pública com a triste história do guarda desempregado. É a sua chance de se projetar e voltar para Nova York, mas nem tudo acontece como o planejado. Os fatos são manipulados pela imprensa e tudo sai do controle, pois apenas altos salários e índices de audiência contam e a verdade não é tão importante assim.

Caio Blat conta como foi morar em Capão Redondo

por Robson Assis | | COMENTE!

(14/04/2008 - 17h49)

Caio Blat
Em entrevista para o jornal carioca O Dia, o ator Caio Blat (Baixio das Bestas) conta que foi humilhado no período em que morou numa favela do bairro de Capão Redondo, na periferia de São Paulo. Ao tentar ser atendido num restaurante, o garçon disse para ele pedir comida direto no caixa, e sumiu, deixando o ator à espera por 15 minutos. Segundo Blat, "na visão de muita gente, um garoto de periferia não pode ir a um restaurante". E completa: "Foi humilhante".

O ator alugou uma casa no bairro, "onde nasceu o rap", para se preparar para o papel de Macu e, ao mesmo tempo, estar mais perto das filmagens de Bróder, primeiro longa de Jeferson De. Ele diz que foi excitante viver um protagonista branco "sob a perspectiva dos negros".

Aos poucos, os resistentes moradores acabaram aceitando o intruso. Até o politizado Mano Brown, líder dos Racionais, o acolheu. Sua casa virou ponto de encontro para jogar vídeo game e ouvir rap.

A experiência parece ter sido realmente marcante. Ao falar da comunidade, Caio menciona o aumento da expectativa de vida, por causa da união das antigas facções do crime com o PCC (Primeiro Comando da Capital), que trouxe uma aparente paz à região. O crime ainda existe, mas "de forma velada". Segundo ele, a máxima da favela é "bandido bom é aquele que não machuca ninguém".
http://cineclick.uol.com.br/noticias/index.php?id_noticia=19095

Como nunca acredito em nada que leio por aí, vou ficar apenas com as impressões dos que me disseram sobre a passagem do ator pelo bairro.

Humilhado? Ele não viu nada mesmo...

As Flores Malditas

por Robson Assis | | 17.10.08 COMENTE!

- A decisão foi sua, o dinheiro era pra semana passada.
- Calma, mano, me dá mais uns dias, a gente é irmão, truta, por fav...

Dona Maria ouviu o disparo como se tivesse sido dentro da sua casa, mas não era. Três ruas acima, na boca do Tiziu, Sandrinho, seu filho, acabara de morrer na mão de traficantes para quem devia dinheiro do crack que havia tentado vender na última festinha da zona norte, com o pessoalzinho da USP. Não conseguiu vender nem metade. Seu vício o fez usar a festa toda, sem miséria. É como se colocassem um crocodilo para tomar conta de um açougue.

Naquele momento Maria, mãe/pai de família, sozinha, havia tirado a mente da TV por alguns instantes. Foi como se o tiro lhe dissesse que havia algo errado na ordem natural das coisas. Levantou, bebeu água, voltou a sentar na frente do aparelho e tentou se distrair. Certa aflição a rondava, não podia imaginar o que era. Assistia a cena do casal romântico, na época o Tarcísio e a Glória, mas nem eles a prendiam mais a atenção.

Percebe que seu maço estava acabando quando acende o primeiro cigarro, vício adquirido após a derrocada de Sandrinho, seu filho, nas drogas, pelas várias vezes que o buscou em lugares distantes, metido em encrencas com a polícia, ou largado após uma boa surra. Sempre se segurava para não ir, tinha dito a si mesma que jamais aceitaria uma coisa dessas em sua casa. Mas nunca tinha jeito, Dona Maria era mãe. E ao lembrar destes dias, de seu filho, da perdição, do primeiro dia em que dormiu chorando quando ele passou um tempo na recuperação paga pelos tios lá de Brasília, da raiva quando expulsou o menino de casa quando ele "noiou" o radinho da sala, ela surtou em silêncio, apertou uma das almofadas do sofá com força, como se fosse rasgá-la. Parou. Aumentou o volume da TV, talvez fosse isso.

Continuou a prestar atenção com certo desprendimento, muitas vezes sem ouvir o que diziam os atores. Parecia olhar mais o relógio do que a própria TV. Finalmente acabou o capítulo. Desligou a TV, arrumou objetos jogados na sala, pegou o boné que Sandrinho havia esquecido e levou ao quarto do rapaz, sentou em sua cama e chorou um pouco. Estava infeliz com a vida que levava, não entendia porque seu filho tinha de se envolver com gente errada, como conseguia se viciar daquele jeito tão triste em compostos químicos que não sabia nem de onde vinham.

Secou as lágrimas, foi até seu quarto. Em um silêncio quase mortal, arrumou a cama de casal que, após a morte de seu marido quatro anos atrás, dividia apenas com suas mágoas e os pensamentos de esperança que enchiam o quarto de uma luz que não existia em nenhum outro lugar do mundo. Se deitou e em exatos seis minutos após a oração levantou e decidiu que não ia conseguir dormir. Talvez esperar o filho, e que dessa vez ele não tenha feito na errado de novo.

Voltou a sala, ligou a TV para desbaratinar o tempo que passava ali. Fumou os dois últimos cigarros do maço. O Jornal trazia algumas notícias de fazendas invadidas por sem-terra cansados de esperar a reforma agrária, crises econômicas quebrando bancos, nada que entendesse muito. Já passava das 11 da noite, seu filho não voltava. Talvez dormisse fora, como em outras ocasiões, mas o estado de alerta dizia que não era bem isso o que tinha acontecido.

Trancou a porta e foi até o bar sem perceber o movimento na travessa, ruas acima de sua casa. Pediu um Lucky Strike, "pra dar sorte", sonhava. Percebeu que os presentes a entreolhavam com desânimo e certo receio. Saiu sem entender nada.

Antes de cruzar o farol, percebeu o movimento. Caminhou pra ver o que era, tinha muita gente na rua e aquela sensação estranha ficava cada vez mais forte com os passos em direção ao tumulto. Aqueles que fechavam a roda sobre o ocorrido olharam pra trás e deram espaço à ela. Todos saíam aos poucos quando viam Dona Maria se aproximando, até que ela conseguiu ver o corpo de seu filho com um tiro no peito. Ajoelhou, colocou as mãos no rosto e finalmente desabou em prantos.

No outro dia, Pilé, um dos meninos envolvidos com o tráfico da região em que morava estava no enterro. Era 'amigo' do finado e sentiu que devia estar lá para presenciar os últimos momentos do corpo do rapaz. Comprou uma rosa na entrada do cemitério e entrou com ela. Parecia mesmo triste, mas conformado e entendedor da situação. Dona Maria o conhecia, sabia de seu envolvimento na boca de fumo. Viu ele de longe, mas não conseguia dizer qualquer palavra desde que acordou.

Ao lado do caixão, Dona Maria ouviu o padre encaminhar a alma de seu filho para os céus. E viu os parentes e conhecidos jogarem as flores sobre seu corpo.

Quando Pilé se aproximou, Dona Maria pegou a flor de sua mão e disse não querer que seu filho subisse ao céu com lembranças dos dias negros que passou neste universo. Pilé ouviu e deu as costas num êxtase momentaneo que o dividia entre a raiva e o discernimento das palavras que aquela mulher acabara de lhe dizer. Dona Maria pisou e viu as pétalas se desfazerem na terra daquele lugar que voltaria anos depois apenas para lembrar seu filho nas datas comemorativas que mais gostava quando pequeno, como seu aniversário, a Páscoa e o Natal.

Dona Maria era mãe. E mais uma vez - ou pela última vez - livrou Sandrinho das flores malditas.

A Nova Ordem do Caos

por Robson Assis | | 15.10.08 COMENTE!

ou "O dia em que João saiu de casa com uma 12 no punho"

"Pesadelo do Sistema não tem medo da morte"
Racionais MC's

Ele descia a rua a milhão. Estava impregnado em seus olhos, claro como as brasas do inferno. A vingança era sua única sede. O ódio sua única verdade. Caminhava sobre as luzes dos postes e pessoas que devagar abriam suas janelas para ver o que acontecia lá fora. Aquele barulho, aquela agitação. Quem será o fulano dessa vez? Carregava consigo uma arma de pesado calibre numa das mãos, no outro, o corpo de um policial já desfigurado de tanto apanhar. Ele não sabia onde tudo aquilo iria acabar, talvez ele nem quisesse que tudo aquilo tivesse fim. Descia, acelerado, solitário e raivoso, descia.

Cansado da polícia, cansado da ordem que os homens de farda colocavam no seu bairro, a ordem fajunta que fazia homens inocentes morrerem em detrimento de um grupo seleto de traficantes que sustentavam estatísticas como a mortalidade infantil e os índices de criminalidade. Ao pensar nisto, suas veia do rosto saltavam e pareciam linhas de trem que cortavam sua face de ponta a ponta. Suor, sangue, e dessa vez sem lágrimas de sua parte.

Mais alguns metros, refletiu sobre o que estava fazendo. Parou, encostou num carro, largou a arma de canto. Esqueceu por alguns momentos o motivo de toda a cena miserável que lhe rodeava. Pôs a mão no rosto, para não ver mais a rua, nem a enxurrada de água que descia junto à guia. Ouviu barulho de carros, música. Quatro garotos desciam devagar com um Fusca, tocando algo que parecia funk carioca. Colocou a mão sobre os ouvidos, não queria voltar. Olhou para a entrada estreita da favela, onde tinha parado. Outros garotos fumavam algo escondido num canto e sussurravam com medo. Largou seus braços, se livrou da água que batia violentamente contra sua face.

Abordou o Fusca. Os garotos estranharam, mas pararam o carro. Um deles apontou uma faca. Quando viu o cano duplo, deixou cair o artefato entre os dedos. Abriu a porta de um dos lados. Disse um simples e furioso: Saiam! Os quatro, possivelmente menores de idade corriam como ratos pelas frestas e entradas escuras da favela.

Olhou por dentro do carro. Viu que o som era de última geração, desses mais caros do que muitos daqueles barracos de palafita que estava acostumado a ver. Deu o primeiro tiro. O capô do carro, aberto, também condenava um alto-falante potente, destruído pelo segundo tiro. Soltou o freio de mão e deixou o carro descer. Para o azar do que premeditava - ver o dito descer até o fim da rua, passar o cruzamento e ter um fim trágico - o automóvel desalinhado bateu no terceiro poste, após passar raspando um Golf estacionado na frente de um bar fechado.

Deu um chute na cara do corpo do policial que carregava e prosseguiu.

Inventava orações hereges durante todo esse trajeto: "Deus dos fortes e justos, me dá alívio na morte de meus inimigos, me dá esperança na tragédia anunciada daqueles que querem o mal da humanidade. Me curvo perante sua bondade e apelo para que não tenha pena de meus adversários e os deixe padecer no conforto do esquecimento eterno. Pela morte cruel, indigna e pela putrefação das almas destes idiotas, Amém".

Faltavam 300 metros para acabar a ladeira, viu uma travessa escura, a qual já havia morado quando menor, com seus pais. O lugar parecia uma ilha perdida no meio do inferno. Ali até gatos e cachorros viviam em harmonia, velhos sentavam na rua até tarde. Viu uma criança que brincava na garagem de casa, despreocupada, sem pensar em maldades alheias, como se estivesse vigiada por uma equipe de seguranças treinados pela CIA. E o fato de haver gente no mundo preocupada com maldade e cercada 24 horas diárias por homens armados e vidros blindados o trazia de volta à sua descomunal condição de monstro.

Ao olhar pra frente, o pesadelo se fez real. Cerca de 8 viaturas fechavam a rua que tinha apenas aquela saída. As travessas e ruazinhas não levavam ao mesmo local. Grande parte delas era sem saída. Um policial fala em um megafone pede para que se entregue. Ele pára. Olha pra trás, vê algumas luzes acesas, janelas entreabertas e olhos escondidos na escuridão daquela noite chuvosa. Olha para frente e larga o corpo por alguns instantes.

Correu para trás de um carro. Alguns policiais que já corriam na frente foram atigidos por seus primeiros tiros. Os outros se seguravam atrás das portas de suas viaturas, com receio do maluco que tinha uma doze na mão. Abriu pelo quebra-vento aquele Gol 91, desvirou o volante, respirou. Tirou da cintura a Automática que havia levado. Soltou o freio de mão.

O carro descia fielmente alinhado, como esperava. Ele, atrás, corria, gritava e atirava nos policiais que revidavam sobre o Gol, que servia de escudo. Arrastou consigo o corpo que trazia. Por algum motivo tinha de levá-lo. Algo parecido com uma gosma já ficava no chão, de tanto arrastar aquela cabeça.

A essa hora, ele já devia saber no que havia se metido. Foi quando tomou um tiro no ombro e provou seu sangue pela primeira vez. Do cartucho de sua automática, saíram os tiros que derrubaram outros três policiais. As baixas da corporação já eram tantas que ele já nem sentia seu tiro, satisfeito do que estava fazendo, gargalhava sob um céu negro e pouco poético da periferia de São Paulo.

Um homem cansado não consegue esperar por um outro dia de sossego. Fizeram de sua vida uma merda, o caos declarado, a guerra fria, ninguém se mexe, ninguém fala, ninguém se levanta. Era só mais um dia comum para ele. Mas naquele dia o senso comum lhe disse que seus ossos não suportariam sequer mais um dia sem poder provar a si mesmo a fragilidade do mundo e a força dos humanos comuns.

Seu pesadelo terminou com 16 tiros no peito e um corpo que definhava em outra cova num cemitério da periferia paulistana. Os jornais do dia seguinte o entregavam como maluco. Alguns faziam referências a Serial Killers, filmes sobre psicopatas. Michael Meyers, Conspiração, Sociopatia, palavras que não faltavam nos periódicos daquela manhã cinzenta. Houve páginas de dedicação aos heróis que salvaram o mundo daquele terrorista e homenagem com presença do prefeito da cidade, cavalaria e salva de tiros.

No outro dia de noite a biqueira pegava fogo, moleques continuavam a esmolar e furtar bolsas de tiazinhas para sustentar seus vícios, fogos de artifício durante o dia todo diziam que a quebrada tava fervendo, o estoque de entorpecentes na boca de fumo estava cheio. O contra-cheque da PM estava pronto, a parte deles feita. Policiais cretinos rezavam de noite para que ninguém mais se revoltavasse contra a ordem que eles mesmos estabeleceram.

Nosso João só queria justiça para os seus.

"E João não conseguiu o que queria quando desceu o Jd. Brasília pra com o diabo ter. Ele queria era falar pro presidente pra por um fim em toda essa gente que só faz sofrer."

Western Day

por Robson Assis | | COMENTE!

Ele descia a rua a milhão. Estava impregnado em seus olhos, claro como as brasas do inferno. A vingança era sua única sede. O ódio sua única verdade. Caminhava sobre as luzes dos postes e pessoas que devagar abriam suas janelas para ver o que acontecia lá fora. Aquele barulho, aquela agitação. Quem será o fulano dessa vez? Carregava consigo uma arma de pesado calibre numa das mãos, no outro, o corpo de um policial já desfigurado de tanto apanhar. Ele não sabia onde tudo aquilo iria acabar, talvez ele nem quisesse que tudo aquilo tivesse fim. Descia, acelerado, solitário e raivoso, descia.

Cansado da polícia, cansado da ordem que os homens de farda colocavam no seu bairro, a ordem fajunta que fazia homens inocentes morrerem em detrimento de um grupo seleto de traficantes que sustentavam estatísticas como a mortalidade infantil e os índices de criminalidade. Ao pensar nisto, suas veia do rosto saltavam e pareciam linhas de trem que cortavam sua face de ponta a ponta. Suor, sangue, e dessa vez sem lágrimas de sua parte.

Mais alguns metros, refletiu sobre o que estava fazendo. Parou, encostou num carro, largou a arma de canto. Esqueceu por alguns momentos o motivo de toda a cena miserável que lhe rodeava. Pôs a mão no rosto, para não ver mais a rua, nem a enxurrada de água que descia junto à guia. Ouviu barulho de carros, música. Quatro garotos desciam devagar com um Fusca, tocando algo que parecia funk carioca. Colocou a mão sobre os ouvidos, não queria voltar. Olhou para a entrada estreita da favela, onde tinha parado. Outros garotos fumavam algo escondido num canto e sussurravam com medo. Largou seus braços, se livrou da água que batia violentamente contra sua face.

Abordou o Fusca. Os garotos estranharam, mas pararam o carro. Um deles apontou uma faca. Quando viu o cano duplo, deixou cair o artefato entre os dedos. Abriu a porta de um dos lados. Disse um simples e furioso: Saiam! Os quatro, possivelmente menores de idade corriam como ratos pelas frestas e entradas escuras da favela.

Olhou por dentro do carro. Viu que o som era de última geração, desses mais caros do que muitos daqueles barracos de palafita que estava acostumado a ver. Deu o primeiro tiro. O capô do carro, aberto, também condenava um alto-falante potente, destruído pelo segundo tiro. Soltou o freio de mão e deixou o carro descer. Para o azar do que premeditava - ver o dito descer até o fim da rua, passar o cruzamento e ter um fim trágico - o automóvel desalinhado bateu no terceiro poste, após passar raspando um Golf estacionado na frente de um bar fechado.

Deu um chute na cara do corpo do policial que carregava e prosseguiu.

Inventava orações hereges durante todo esse trajeto: "Deus dos fortes e justos, me dá alívio na morte de meus inimigos, me dá esperança na tragédia anunciada daqueles que querem o mal da humanidade. Me curvo perante sua bondade e apelo para que não tenha pena de meus adversários e os deixe padecer no conforto do esquecimento eterno. Pela morte cruel, indigna e pela putrefação das almas destes idiotas, Amém".

Faltavam 300 metros para acabar a ladeira, viu uma travessa escura, a qual já havia morado quando menor, com seus pais. O lugar parecia uma ilha perdida no meio do inferno. Ali até gatos e cachorros viviam em harmonia, velhos sentavam na rua até tarde. Viu uma criança que brincava na garagem de casa, despreocupada, sem pensar em maldades alheias, como se estivesse vigiada por uma equipe de seguranças treinados pela CIA. E o fato de haver gente no mundo preocupada com maldade e cercada 24 horas diárias por homens armados e vidros blindados o trazia de volta à sua descomunal condição de monstro.

Ao olhar pra frente, o pesadelo se fez real. Cerca de 8 viaturas fechavam a rua que tinha apenas aquela saída. As travessas e ruazinhas não levavam ao mesmo local. Grande parte delas era sem saída. Um policial fala em um megafone pede para que se entregue. Ele pára. Olha pra trás, vê algumas luzes acesas, janelas entreabertas e olhos escondidos na escuridão daquela noite chuvosa. Olha para frente e larga o corpo por alguns instantes.

Correu para trás de um carro. Alguns policiais que já corriam na frente foram atigidos por seus primeiros tiros. Os outros se seguravam atrás das portas de suas viaturas, com receio do maluco que tinha uma dose na mão. Abriu pelo quebra-vento aquele Gol 91, desvirou o volante, respirou. Tirou da cintura a Automática que havia levado. Soltou o freio de mão.

O carro descia fielmente alinhado, como esperava. Ele, atrás, corria, gritava e atirava nos policiais que revidavam sobre o Gol, que servia de escudo. Arrastou consigo o corpo que trazia. Por algum motivo tinha de levá-lo. Algo parecido com uma gosma já ficava no chão, de tanto arrastar aquela cabeça.

A essa hora, ele já devia saber no que havia se metido. Foi quando tomou um tiro no ombro e provou seu sangue pela primeira vez. Do cartucho de sua automática, saíram os tiros que derrubaram outros três policiais. As baixas da corporação já eram tantas que ele já nem sentia seu tiro, satisfeito do que estava fazendo, gargalhava sob um céu negro e pouco poético da periferia de São Paulo.

Um homem cansado não consegue esperar por um outro dia de sossego. Fizeram de sua vida uma merda, o caos declarado, a guerra fria, ninguém se mexe, ninguém fala, ninguém se levanta. Era só mais um dia comum para ele. Mas naquele dia o senso comum lhe disse que seus ossos não suportariam sequer mais um dia sem poder provar a si mesmo a fragilidade do mundo e a força dos humanos comuns.

Seu pesadelo terminou com 16 tiros no peito. Os jornais do dia seguinte o entregavam como maluco. Alguns faziam referências a Serial Killers, filmes sobre psicopatas. Michael Meyers, Conspiração, Sociopatia, palavras que não faltavam nos periódicos daquela manhã cinzenta. Houve páginas de dedicação aos heróis que salvaram o mundo daquele terrorista e homenagem com presença do prefeito da cidade, cavalaria e salva de tiros.

No outro dia de noite a biqueira pegava fogo, moleques continuavam a esmolar e furtar bolsas de tiazinhas para sustentar seus vícios, fogos de artifício durante o dia todo diziam que a quebrada tava fervendo, o estoque de entorpecentes na boca de fumo estava cheio. O contra-cheque da PM estava pronto, a parte deles feita. Policiais cretinos rezavam de noite para que ninguém mais se revoltavasse contra a ordem que eles mesmos estabeleceram.

Nosso João só queria justiça para os seus.

"E João não conseguiu o que queria quando desceu o Jd. Brasília pra com o diabo ter. Ele queria era falar pro presidente pra por um fim em toda essa gente que só faz sofrer."

Haikai Music I

por Robson Assis | | 14.10.08 COMENTE!

Às vezes é preciso estar só
Para lembrar de que estamos
Largados no universo
Livres como o verso
E o mundo todo temos na palma da mão.

Às vezes é preciso esquecer a impunidade
Para deixar as crianças brincarem até tarde
E fingir simplismo em meio ao caos
Desenhar harmonia e linhas de piano
Em versões punk de Strauss.

Não queremos saber

por Robson Assis | | 8.10.08 COMENTE!

Houve um tempo em que a falta de entendimento de nossa situação foi a causa principal de nossa humilhação. Hoje somos pessoas que aceitam o preconceito, os tapas na cara, a zombaria dos ricos e ainda assim levamos a vida sorrindo e trabalhando, para não me aprofundar em outros gerúndios piores. A civilização inteira é montada sobre esse tipo de gente que somos nós. Que durante a semana recebe ordens, gritos, abaixa a cabeça e no fim de semana bate a laje de casa com os amigos felizes da vida por ter sobrado 30 reais do salário. Enquanto o outro, o que dá as ordens, serve-se de um capuccino italiano, em sua poltrona sueca em couro alemão, enquanto assiste na TV a cabo um documentário sobre a pobreza em Angola. Não há esperança. E sim, omissão.

George Jackson e os irmãos Soledad

por Robson Assis | | 29.8.08 2 Comentários

Ontem eu assisti Agosto Negro, é uma história sobre a comunidade negra norte-americana, mais precisamente sobre George Jackson, um negro que roubou 71 dólares de um posto de gasolina e pegou prisão perpétua. Ficou quatro anos em solitária, lendo clássicos revolucionários que o ajudaram a compor sua crítica sobre o país em que vive. Ficou conhecido por ser militante dos Soledad Brothers, grupo de apoio aos Black Panthers.

De dentro dos muros de San Quentin escreveu cartas à sua família com muitos pensamentos e ideais que construiu na prisão. Todas as correspondências acabaram resultando no livro "Irmãos Soledad". Ainda não consegui encontrar nada sobre este livro em português e creio eu que só exista uma versão do livro em nossa língua em Portugal.

Mas o filme é demais, recomendo.

Carta aos braços cruzados

por Robson Assis | | COMENTE!

Que o silêncio da verdade o puna, esta é minha mais profana e singela maldição. Achou que ia ser enviado à terra para ser um popstar? Pois é, não aconteceu. E agora o tempo passou, suas chances de se lançar ao mundo com algo brilhante estão ficando cada vez menores e mais distantes. E o que fazer? Sentar em frente ao seu computador e sorrir outra vez, talvez não, mas é o que vai fazer. Irresistível a acomodação, não é, seu parasita? Quando perceber que passou em branco pela história da humanidade, vai então querer morrer. E sozinho, outra vez, no vazio do universo, vai ouvir as vozes e os barulhos deste mundo como algo dizendo que você se ferrou. Só então o silêncio será sua própria liberdade.

O pequeno miserável príncipe

por Robson Assis | | 25.8.08 COMENTE!

Tenho o mundo na palma das mãos
Mas não existem palmas
É tudo tanto desespero
Tanta militância, tanto erro
Que no fim só me lembro das lágrimas

Deste planeta sujo e evenenado
De pé olho no céu um fardo
A nos carregar e ser por nós carregado
A relutar e insistir na sobrevivência
Todo nosso sublime e insano pecado.

Cada momento passa solene
Deprimente é levar a garganta doente
Por dizer frases malditas
Blasfemar o mundo todo numa frase
Quero deixar tudo isso, mas ainda não é tão tarde

E quando o sol se desfizer em mistério?
Nossa solidão será tanta neste universo
Outro em meio às multidões
Zumbis de nossas próprias convicções
Caminharemos junto neste verso.

Tudo o que aprendemos ser não é nada
Nosso ensaio sobre a vida é uma grande piada
E sua métrica enfadonha me despreza
Até que morto, eu salte pela relva
A descobrir novos deuses e ciladas.

A vida continua...

por Robson Assis | | 20.8.08 COMENTE!

Péu caminha de lá pra cá no centro movimentado da cidade. É só passar pelo Anhangabaú ao entardecer, naquele horário em que os office-boys se encontram com os vendedores de loja e carros escuros blindados para vê-lo passar com um saco de cola na mão, se der sorte no dia, ele até dorme num lugar coberto, com seu saquinho do lado, dividindo espaço com as baratas e o mau cheiro do centro velho de São Paulo.

Sangue nos olhos desde recém-nascido, Péu não é de deixar qualquer oportunidade passar batido. É dia de show na Tiradentes, milhares de pessoas passam em direção ao local, portando garrafas de bebida, com os mais diversos estilos e cores, malandragens e odores. Ele espera embaixo do viaduto.

Cinco garotos e uma garota passam na frente, se destacando dos outros três atrás. Péu cola na banca que restou pra trás e dá a multa:

- Vai, boyzão, solta uma moeda pra nós aí.
- E aí, mano, suave?

Nunca haviam trocado idéia com ele nestas horas. Geralmente o "boyzão" se caga, dá duas notas de 10, o relógio e sai andando. Péu fica surpreso com a idéia de um cara vir falar algo além de "calma, fica calmo, vou te dar".

- Suave o que, tiozão? Solta o bagulho - Péu tenta outra vez intimidar
- Então, mano, a gente não tem dinheiro não, tio, tamo indo pro show lá que é de graça.
- É memo, e se achar?
- ô, truta, a gente veio lá do Jd. Elba na leste, tamo osso memo.
- Pode cre, mas e os moleque que passaram aí, tem nada também?
- Tem nada, mano, compramos a bebida e viemos.
- Pode cre, moleque, constou a idéia, vocês são pela ordem.
- Firmeza então.
- Mas aí, deixa um gole pra nós desse esquema aí?

Péu pega uma garrafa 600ml que trazia consigo e enche da bebida dos meninos. Os outros três, mais adeptos a fazer amizades com alheios e anônimos, param pra conversar com Péu e abandonam o outro grupo que esperava mais à frente, destacado. Contam de onde vieram, que eram trabalhadores e também suavam frio com a polícia, mas por outro motivo, portavam entorpecentes e tapa da polícia de graça era coisa que ninguém gostava.

O grupo caminha até um dos bancos do Vale e se sentam junto. Conversam, bebem, fumam e começam a dar risada sobre os transeuntes e suas roupas esquisitas. Péu se sentia entre amigos, fato este que não sabia o que era desde 1998, quando o destino lhe tirou de maneira trágica o Bequinha, amigo de infância que, anos depois, ficou sabendo ser seu irmão de sangue por conta das peripécias de sua mãe.

Diz sobre como veio parar na rua para assaltar playboys e ganhar dinheiro diário, conta sobre a outra vida que tinha quando morava num barraco 2x2 na zona oeste e o que aconteceu quando incendiaram a favela em que morava, os primeiros dias na rua, o sopão, a caminhada até o centro e a vida complicada e cruel de hoje.

Conta aos garotos a história de sua vida, desabafa, como dizem os velhos. Logo terminam a garrafa de conhaque bruta que lhes descia o estômago em rasgos absurdos pela garganta. Já relativamente bem consigo mesmo por culpa da bebida, os garotos decidem ir embora para o show que ainda estava longe de começar, mas iriam encontrar seus outros amigos. Se despedem de Péu, que os cumprimenta e agradece por aquela meia hora em que estiveram perto e conseguiram o deixar com a mente distante de tudo o que vivia.

- Firmeza, Péu, demorou, mano, a gente se tromba ainda por aí, cola lá no show?!
- Que nada, boy. A vida continua por aqui, vou ficar no aguardo da vítima.



** A imagem é uma adaptação do flickr do Juca Fii

Lançamento - Sérgio Vaz

por Robson Assis | | COMENTE!

E hoje é dia do lançamento do livro do poeta Sérgio Vaz no Sarau da Cooperifa, no Piraporinha, zona sul de São Paulo (atrás da igreja, é só ir chegando que a multidão já estará na rua). Quem estiver presente vai testemunhar a celebração da alegria e da perseverança de um dos maiores escritores da periferia paulistana.

Um brinde!

SARAU DA COOPERIFA E TRAMAS URBANAS APRESENTAM:

COOPERIFA, ANTROPOFAGIA PERIFÉRICA, livro de Sérgio Vaz
Dia 20 de agosto, às 20h no Sarau da Cooperifa

O Livro conta a história do sarau que reúne centenas de pessoas da periferia de São Paulo em torno da poesia.

Em "Cooperifa, antropogafia periférica", Sérgio Vaz, poeta e criadorda Cooperifa conta um pouco da sua trajetória de vinte anos de poesia e agitação cultural, e sobre o sarau da Cooperifa, movimento cultural que congrega centenas de pessoas em torno da poesia, e que tem se transformado em grande foco de resistência na cultura brasileira.

Do primeiro livro em 1988 à produção da Semana de arte moderna da periferia, está tudo ali, numa pequena viagem nesses vinte anos decorreria do poeta.

O livro é o Sétimo volume da coleção Tramas Urbanas, da Aeroplano Editora.

SARAU DA COOPERIFA
Bar do Zé Batidão
Rua Bartolomeu dos Santos, 797 Chácara Santana (Zona sul/SP)
Info.: 5891-7403 / 7207-4748
Aeroplano Editora
Categoria: Não-ficção
Número de páginas: 284
Formato: 12x19cm
preço: R$25,00 (na Cooperifa)



O Opala

por Robson Assis | | COMENTE!

Era outro dia como estas terças-feiras comuns. Renato tinha acabado de chegar do trabalho e estava a trocar idéia com os seus, no bar do Maurinho, ali mesmo, na vila. Dizia algo sobre como a Veraneio Cinza tinha passado quase tirando tinta de seu carro, com dois manos do lado de dentro. Imaginou em uma fração de segundos como estavam se sentindo aqueles dois, talvez sardinhas enlatadas fossem melhor tratadas e continuou a divagação sobre o que aconteceria se o carro amassasse.

- Imagina se rala... Mano, sei lá, na hora é foda, o sangue sobe, acho que vou atrás.

O Opalão era azul, com quase tudo original, a não ser o som que Tinho, como Renato era conhecido, havia instalado pra "manter o peso da caranga", segundo ele próprio. Pintura metálica, subwoofer, módulo de seis canais, tela de DVD. Se orgulhava até hoje pelo carro estar no principal cartaz daquela oficina de Tuning do centro da cidade.

Tinho era um aficcionado pelo carro. Vivia por ele, trabalhava e honrava todas as suas dívidas, exceto se um acaso tornasse o veículo alvo da degradação do tempo. E todos os seis anos em que estava com o carro, jamais deixara sequer a lâmpada da seta quebrada por mais de dois dias.

- Desce uma gelada que eu tô tenso, pede o malandro.

De praxe, sai por instantes do bar e liga o som e se serve de um copo. Estava tocando aquele programa de rádio que todo mundo do bairro ouvia, então ele ajudava a transmitir aumentando o volume para que até as ruas mais distantes da vila pudessem escutar. Volta cantando Tupac Shakur e gesticulando aos amigos, como se fosse o próprio, em pessoa.

Três cervejas e Nelsinho dichavava a história do Corinthians por pelo menos 15 minutos. Dizia sobre como ele foi parar na segunda divisão, a fraqueza da diretoria até a falta de firmeza da delegação. Tinho ouvia comovido a história de seu time do coração e trocava poucas palavras com o malandro, de tanta atenção que prestava ao que ouvia. havia esquecido dos policiais, quando dois PM's entram pela porta:

- Vai, mão pra cima, filho da puta, mão pra cima, vagabundo!!

A primeira frase do PM depois da geral e das perguntas-procedimento nos seis malandros que estavam no bar foi: "de quem que é essa porra desse carro aqui fora?". Tinho levanta a mão e a cabeça, trêmulo, mas de certa forma, acostumado com essa abordagem policial. Após vários gritos do PM, o primeiro tapa na cara. Tinho novamente abaixa a cabeça e ouve, sem negar nada do que lhe era questionado.

O tempo foi passando, 20, 30 minutos e o policial "embarreirando", palavra com a qual ele contaria o fato na sexta-feira, quando estivesse no rolê com seus parceiros. O fardado caminhava a passos curtos, com um discurso sobre a moral e respeito, que onde eles moravam era um lixo e isso e aquilo, eram "todos vagabundos" e mais. Às vezes parava na frente de um dos suspeitos-de-crime-algum e "pedia" para levantar a cabeça, mandava outra sessão de descarrego de palavras chulas. Seguia o enquadro.

Chamou então os malandros pra fora do bar e pediu para que Maurinho "gentilmente" fechasse as portas àquela hora. Encostados no muro, de braços pra trás, na rua relativamente vazia do boteco, os fulanos, entre eles Tinho, escutavam mais asneiras do PM. "Puta porco insuportável" era o que rondava a mente de todos.

A Veraneio cinza estava parada, dois homens, um em pé e um de dentro do carro, faziam a contenção, enquanto o vacilão do PM, já menos tenso, andou perto do Opala de Tinho e, sem querer esbarrou o cassetete no retrovisor.

- Não, caral..! - Sai espontâneo o grito de Tinho
- Que foi, ladrão, você é maluco? - peita o policial, de encontro ao rapaz.
- Nada mano, é que...
- Mano?!??

Algumas cacetadas e gemidos de dor fizeram um dos PM's na Veraneio levantar e ir "ajudar" o outro policial a "conter a ira" do "suspeito".

Tinho ainda estava no chão quando o policial manda os outros irem embora correndo, "que aquele ali não ia conseguir correr mesmo". Sentam o malandro de frente pro carro e quebram os dois retrovisores, lanternas traseiras e furam o pneu do carro.

- Tá liberado, filho da puta.

O rapaz, sentado no chão da calçada fria da vila, vê seu carro destruído pelos verdadeiros vândalos da ordem social. Além do estrago feito pela vistoria atrás de entorpecentes e armas, agora prejuízos concretos. Ele pega então, do chão, um caco de vidros caído de seu possante e joga na rua, em forma de lamentos. Pensou com seus botões em como seria melhor se eles tivessem apenas ralado seu carro.

Anonimato S/A

por Robson Assis | | 15.8.08 2 Comentários

Saiu um conto meu (Paranóia Passional) no Anonimato S/A. O site traz histórias que não entram para a história, como o próprio Luiz Alberto, dono do site, diz. Escrevo na seção de crônicas e contos chamadas Amores Urbanos e daqui pra frente deve sair uma parada mensal minha no site dele, não deixe de conferir.

Recomendo também as matérias de capa do site, excelentes, informativas e reais.
http://www.anonimatosa.com

Bossa nova para o povo?

por Robson Assis | | 14.8.08 1 Comentário

Sacanagem o que fez a Ticketmaster em relação ao show de comemoração dos 50 anos de Bossa Nova, um show no Ibirapuera com Caetano veloso e Roberto Carlos e preços até que acessíveis. O site informou que abriria a venda de ingressos nesta quinta às 10h da manhã. A venda seria feita apenas pela internet e pelo televendas. Imaginou a confusão? Linhas ocupadas, site fora do ar. Muita gente não conseguiu comprar por conta do óbvio congestionamento da página. E isso resultou num dos mais polêmicos espaços para leitores da Folha. Clientes se sentindo enganados, outros especulando sobre uma máfia dos ingressos e inclusive imaginando que os ingressos sequer foram vendidos.

Portanto não se espante se nos dias 25 e 26 o auditório do Ibirapuera estiver lotado de atores e atrizes da Globo, socialites medonhas e cantores falidos de música sertaneja. Espero que alguém cubra a festa da música popular brasileira que convidou apenas brasileiros mais representativos.

Mesmo considerando a hipótese de que alguém tenha conseguido comprar os bilhetes, este é um número ínfimo em relação à demanda que o show poderia esperar.

Eu não ia neste show, fiquei sabendo do negócio todo através da Luciana, mais uma das que tentaram desesperadamente comprar o ingresso. E olha que ela chegou a comparar a apresentação do Rei e do Magrelo baiano ao show do Rolling Stones. O que me comoveu mesmo foi o fato de uma festa à cultura do povo ser promovida em um lugar com 850 lugares e com maneiras tão complicadas de adqurir ingresso.

Falei.

Bom, se alguém tiver interesse, a exposição Bossa 50 está até o dia 24 deste mês no Pavilhão da Bienal, também no Parque Ibirapuera. A entrada é gratuita.

EXPOSIÇÃO BOSSA 50
Onde: Pavilhão da Bienal - Parque do Ibirapuera, São Paulo
Quando: de 15/07 a 24/08, terça a domingo das 10h às 22h
Quanto: entrada franca.

Os primeiros dias da primavera

por Robson Assis | | 11.8.08 COMENTE!

A garotinha segura uma pomba branca que tenta a todo custo escapar de suas mãos. Não entende o que é um enterro, não entende que sua mãe está dentro daquele caixão e que jamais voltará. Morta em tiroteio entre bandidos e policiais: lugar errado, hora errada, a história de suas vidas. O cemitério São Luis cheirava mal como os outros lugares.

O padre discursa, sua família pequena chora exaustivamente ao lado do caixão, jogam flores, se negam a acreditar. A vida é dura para quem nasce aqui. Um dia ela vai entender quando ver que existe gente de verdade que tem aquele iate da novela, compra roupas em lojas tão caras quanto o barraco em que ela vive, às vezes mais caras, a vida real falha.

Dois funcionários se encarregam de destinar o caixão ao seu devido buraco, vizinho de outros corpos e histórias, algumas inocentes, outras tão culpadas quanto a própria morte. Seu pai joga uma flor e ajoelha, em prantos, a garotinha ainda não entende nada até que começam a jogar terra sobre o leito final de sua mãe.

Ela vai até perto e olha para o pai procurando explicação. As primeiras lágrimas saem de seus olhos como o ácido sobre a rosa mais pura. Nunca havia pensado sobre a morte, sobre a existência ou a falta dela. Talvez a vida fosse outra dali pra frente. A terra cobria cada vez mais o caixão de madeira de sua mãe. Chorava insuportavelmente durante um sol negro de um dos primeiros dias da primavera.

Só então soltou a pomba branca, que voou livre sobre o céu azul esperança do Parque Santo Antônio.

A liberdade (ou a falta de)

por Robson Assis | | 8.8.08 COMENTE!

Uma dor estrondosa no peito insiste que eu desista. Todos os dias de manhã acordar, condução, trabalho, rotina desde a adolescência. Se passaram alguns anos e a batalha por sobrevivência continua. Na única vez em que tive a oportunidade de ter um trabalho digno, próximo à minha casa, fui eliminado por não me portar como um executivo, um homem de negócios e ter prerrogativas mais simples e humanas sobre existir.

Sofrimento e confronto de ideais. Não quero me render, não quero ser mais uma vítima. O sistema nos joga num poço sem fundo e nos deixa caçando saídas, mesmo sabendo que possivelmente jamais as encontraremos. No debate sobre literatura, dias atrás, uma frase não quis mais sair da minha mente: "A vida não é um ensaio". Temos uma tentativa pra fazer tudo dar certo. E se quisermos seguir até o fim nessa, vamos ter o que nos foi reservado pela ordem natural das coisas. Existem caminhos demais para escolher. E dependendo de sua cor, origem, raça e religião, isso pode se tornar um labirinto sem porta de saída para a felicidade.

A crença foi criada pelos homens para que não se sentissem tão solitários no universo. Assim como os extra-terrestres e TV a cabo. Portanto acredito que, por mais que se estude, seja o idealizador de um projeto escabroso na NASA, que vai mudar a vida de milhares de pessoas, lhe render muita grana na conta e uma foto sua estampando a capa dos melhores do ano na revista People, você ainda é tão ignorante quanto aquele moleque soltando pipa da laje no Jd. Santo Eduardo.

Inventem o remédio para a vida eterna, pílulas de emagrecimento precoce, poltronas massageadoras, a cura do câncer, das doenças venéreas, da dependência química, da miséria intelectual e humana, reinventem o mundo oba-oba e acabem com o mercado. E aí pergunte-se: O que estou fazendo aqui neste computador, com estas pessoas ao meu redor e pensando sobre isso? Você vai ver que o mundo pode ser eterno, mas nossa liberdade é por demais limitada.

Disputas internas pelo mesmo território

por Robson Assis | | 6.8.08 COMENTE!

Depois de Hiroshima descobrimos que o mundo tem um botão 'delete'. Há quem diga que não morreremos assim, há quem seja pessimista o bastante para acreditar num apocalipse bíblico cheio de luzes, cantos e arcanjos em que depois só haverá escuridão. Eu acredito na desgraça social que a política nos entrega na bandeja, acredito que eles criaram este mundo em que o ódio nasce onde quer que se plante.

Há exatos 63 anos atrás, uma bomba despojou uma cidade inteira. Entregue, rendida e mesmo assim, aniquilada. Matar por teste foi a ordem. O fato originou a corrida armamentista que tanto nos lembra os livros de história, embora eu não saiba de algum destes livros que possua um capítulo sobre o sangue derramado tão necessário para construir cada episódio de nossa existência.

Declaradamente, Israel, Irã, Coréia do Norte e Líbia dispõem de conhecimento para produção de armas nucleares, isso continua deixando populações inteiras de vítimas que mal sabem o que acontece em seus bairros, quanto mais em seus países.

Einstein disse não saber quais armas serão usadas na III Guerra Mundial, mas tinha certeza que a IV seria disputada com paus e pedras. Eu já acredito que exista uma guerra que travamos em nós mesmos todos os dias para tentar ser um pouco mais lúcidos e extremamente menos lúdicos neste mundo louco. Uma guerra que, por enquanto, ainda estamos perdendo.

O Rap atura a literatura?

por Robson Assis | | COMENTE!

Sabe uma dessas coisas que por destino acabamos conhecendo? Acabei de pegar emprestado um exemplar do Guia da Periferia, um guia cultural em papel couché, gratuito e tudo mais, bem simples, com poucas páginas. Lá encontrei tudo que é samba de quebrada, tudo que é show de madrugada e conheci a FLAP, uma feira literária que acontece em São Paulo faz três anos.

Hoje, às 20h, acontece um evento sobre literatura e rap, lá na rua da Igreja Nossa Senhora do Carmo, no Capão Redondo. Se nada der errado (trânsito no Rodoanel, carro quebrado, essas coisas) estarei por lá.

A FLAP - alguém sabe o que significa FLAP? - vai até sexta-feira, aproveite.

Debate Zona Franca V: o RAP atura a literatura? (e vice-versa)
Horário: 20h

Mediação: Caco Pontes
- Walter Garcia (professor – PUC)
- Trindade (MC - Brasil)
- Martín Barea Mattos (poeta - Uruguai)
- Ferréz (escritor - Brasil)

Após a mesa haverá Jam-freestyle e performances com os convidados da mesa, além da participação de artistas locais e do MC Gaspar (Z'África - Brasil).

Fábrica de Criatividade
Rua Dr. Luís da Fonseca Galvão, 248 - Capão Redondo (Zona Sul)
Telefone: 5511-0055
Lotação: 100 lugares

Grátis!

Cante pro céu

por Robson Assis | | 4.8.08 COMENTE!

Um samba de duas notas só, com todos cantando ao redor da mesa, de preferência espantando o pior. A tarde de domingo nos deixa indecisos sobre como agimos por nossas vidas. É a verdade de quem não se contenta apenas com o pó. De novo o dó, na melodia a nota menor. Dizendo sobre amor, cantamos alto em direção ao céu que espera seus malditos réus, os cúmplices natos, heróis abstratos, filhos bastardos. Que refrão ingrato cantava Cartola, o trovador do pessimismo. Óculos na cara e doce fala: "de cada amor tu herdarás só o cinismo". Me traga um gole de esperança nessa mesa cheia, me traga outra cerveja. Abre a roda, que recomece a dança! Cante pro céu como criança. Vamos festejar nossa solidão e dar asas à nossa esperança.

Ao desespero da vida

por Robson Assis | | 1.8.08 COMENTE!

Durmo à sombra de minhas crenças
Sonho como molduras vazias
As quais não tenho sabedoria
Solidão, a minha doença.

Um trago de mal grado no cigarro
Para fingir ter algo em comum com a morte
E, quem sabe, se tiver sorte
Me tirem mais esse fardo.

Sou escravo de meus próprios ideais
Quem sabe um dia a vida valha
Desconhecer essa verdade canalha

A culpa que existe em estar vivo
É ser refém num calabouço de renegados
Da verdade absoluta com a qual fomos criados.

Os Incautos do Centro Velho I

por Robson Assis | | 31.7.08 COMENTE!

Na rua é tudo tão complicado. Pra domir, o de sempre. Cobertor que ganhei de meu tio Mané, em 2001. Herança, por assim dizer. Eu devia ter uns 13 anos. Já perdi as contas. Não vejo muito futuro na minha frente. Não sou o bacana que pensa em aplicar em fundos de investimento e levar a vida com a aposentadoria aos 60 anos. Eu não faço idéia do que significa investir. Mas tava na capa do jornal algo sobre isso. Leio sempre na banca a maravilha do mundo em que não participo. Meu tio Mané sempre se revoltava: "Covardes", ele dizia puto da vida. E ainda terminava "Neco, a gente é pobre, miserável, você sabe disso. Mas vou te contar, tem dias que, mesmo na rua, não me sinto mais solitário do que era quando tinha uma vida média".

Nunca entendi direito as coisas que ele dizia. Morreu no frio. Mas não de frio. Acho que era novembro, o shopping Light já estava com iluminação de natal. Terça-feira o pessoal daquela Kombi vinha dar sopa perto do escadão do Viaduto do Chá. Lembro como se fosse um sonho estranho. Dessa vez vieram com eles um pessoal diferente com uma câmera, uns seis deles. Um povo assustado, nem desceram da Kombi, sequer abriram a porta. Seu Nelson veio conversar com a gente. Disse que eram de uma faculdade, estudavam jornalismo, estavam fazendo uma reportagem sobre a distribuição de comida nas ruas.

De longe, e com a normal cara de insatisfeito, Mané ouvia tudo. A palavra "câmera", para ele era um trauma, dizia. Eram todos uns mentirosos, falsos, hipócritas. Naquela época eu nem imaginava o que era ser hipócrita. Anos depois fiquei sabendo que meu tio apareceu uma vez na televisão, quando foi espancado por um bando de bacanas em uma travessa da Paulista, três ou quatro anos antes de morrer. Os boys foram soltos, ele não recebeu nem médico. Apareceu ao vivo, todo arrebentado em pleno meio-dia. Foi tido como derrotado pela galera do Anhangabaú.

- Mas eles não vão falar nada comigo não, disse meu tio.
- Po, Mané, calma, eles são gente fina, vieram na boa, estão com a gente.
- É o cacete, vamo ver se alguém desce com câmera aqui, disse já gritando e apontando para a Van, poucos metros à frente.
- Tá bom, deixa pra lá, eu falo com eles, seu Nelson finalizava a idéia.

De dentro do carro, Maurinho, do terceiro ano, provavelmente ouvia Mané dizendo tudo. Esse moleque era maluco. Depois fiquei sabendo, o maluco era lá do Brooklyn. Mas da parte boa, sabe. Abriu a porta e fingia estar apenas ajeitando a câmera, mas todo mundo já tinha visto a luz vermelha acesa. Mané apontava de longe e ainda dava pra ouvir os gritos dos outros. "Fecha a porta, Mau, que merda!".

Meu tio correu em disparda pra cima do moleque. Tirou a câmera da mão dele, afastou todo mundo. Deitou o fulano no chão e distribuiu. Jogou a câmera com força umas 3 vezes na cara, o garotão ensanguentado, já tinha parado de reagir há um bom tempo. Os gêmeos, que estavam segurando o pessoal da sopa, soltaram, apavorados. Seguraram os braços de meu tio, que chorava e tremia muito, não se sabe o porquê.

Mané voltou a correr quando uma viatura parou em cima do viaduto e viu a confusão. Os policiais desciam a milhão os degraus, pulando lances de escada, pareciam uns animais caçando uma presa. Só os mais velhos ficaram no local e ainda assim, foram agredidos até Seu Nelson dizer que eles não tinham nada a ver e comentar sobre meu tio. Eu, que já tinha corrido, fingia dormir do lado oposto de onde estava o tumulto, mas conseguia ver tudo.

Outra vez os policiais farejaram sua caça e foram atrás. O camburão deu a volta e fechou a rua na frente do terminal bandeira. Alguns dizem ter visto meu tio com algemas, outros dizem que ele apanhou como um cão e havia tomado um tiro nas costas. bem que eu havia ouvido uns disparos no dia. A única certeza que tive ao acordar no outro dia de manhã foi a de que jamais veria meu tio novamente. Mas algo dele parece ainda estar em mim. Talvez o espírito de lutar pelo que temos, mesmo sem termos nada, é o que me faz sobreviver dia após dia, sozinho, no inferno do centro de São Paulo.

Dois lados podres da moeda

por Robson Assis | | 29.7.08 COMENTE!

Sobra a eles a rua vazia e um caos que atordoa a mente. O pai deitado sobre o asfalto parece dormir sobre um tapete de sangue. Os policiais chamam reforço e saem em disparada. Quando Neguinho e Biriba tentam entender chega outra viatura. Dois homens fardados chutam a fechadura com força. Estão conseguindo, até que a porta cede. Apontam as armas em suas cabeças, chutam os dois irmãos abraçados para o canto do cômodo. Eles tremem e continuam de olhos fechados, mais unidos do que jamais foram. Ouvem os policiais que derrubam os móveis, viram a casa de ponta cabeça e vão embora. Crescem com aquela cena na cabeça. "Policial não presta". O que a mente humana reserva para dois garotos traumatizados com órgãos de segurança, além de nascidos em bairros periféricos, nunca vamos saber. Quem vai se salvar? Os meninos, com estudo, trabalho e esperança, contrariando o sistema que lhes ignorou desde o início? Ou a socialite rendida dentro da mansão, chorando com uma arma apontada na cabeça? Os índices de violência provam: O futuro reserva mais riscos do que oportunidades.

Um dia em comum com o resto do mundo

por Robson Assis | | 23.7.08 COMENTE!

"E eu seria então o mano mais firmeza da quebrada, só por você..."
Xis

São quatro e trinta e cinco da manhã. Meus olhos quase não conseguem abrir, mas ninguém me mandou ficar acordado até tarde. Com aquele monte de policial na rua não dava pra dormir direito. Certeza que subiam a Principal na captura de alguém. O problema era a gritaria dentro dos becos, os avisos e o silêncio que se fazia quando se ouvia vozes de PMs. Fiquei da laje vendo tudo, enquanto Aninha, minha esposa, já na cama, reclamava.

E agora essa, tudo bem, vou acordar. Naquele momento, desligar o despertador parece a tarefa mais árdua do mundo, mas quando chega a hora do rush a gente esquece disso e percebe que tem coisa pior para enfrentar.

Finalmente consigo me sentar na cama. No disco que coloco no rádio, um Herbert Viana mais jovem e esperançoso canta: "Da cama pro banho, do banho pra sala, o sono persiste, o sol já não tarda, a vida insiste em seguir um velho ritual que sempre segue a tantos outros, o mesmo pão comido aos poucos", quando ouço esse trecho escovando os dentes e me olhando no espelho, pergunto a mim mesmo se o pessoal da rádio pensa nessas coisas.

São cinco e dois da manhã quando coloco os dois pés para fora de casa e desço a Principal, para pegar o primeiro ônibus da viagem. Nesta caminhada passo por algumas marcas de pneu no asfalto e lembro da polícia do dia anterior. Até que hora teriam ficado infernizando? Mão no bolso e sigo em frente.

Mais lá embaixo, vejo a fila quase vazia de ônibus e três garotos esperando o ônibus sentido bairro, dormindo cobertos com suas próprias blusas com marcas de skate que até hoje, vergonhosamente desconheço. Eles entram em um carro, talvez o primeiro do dia para aqueles lados. Eu continuo de pé, na fila.

- Moço, que horas são, por favor? - Me pergunta uma senhora de óculos e voz doce.
- Cinco e quarenta, senhora.
- Obrigado, viu. Tá uma demora esses ônibus, né?

É lei. Se você informar a hora para uma tiazinha e vocês estiverem em filas, salas de espera ou dentro de elevadores, ela vai emendar alguma conversa. Dando um pouco mais de corda, descobri que a senhora estava indo ao médico e pretendia chegar bem cedo. Disse sobre suas filhas, seus netos, mostrou fotos. Fui conversando com ela até o Hospital do Servidor Público, no final da Ibirapuera. Depois disso sentou um fulano que dormiu até às seis e cinquenta, quando chegamos no ponto final. Tive que acordar o cara. Isso, depois de ser acordado por outro que do banco de trás me deu dois tapinhas nas costas, indicando o ponto de chegada.

Desço a Praça da Sé tranquilamente, ainda me dá tempo de parar no boteco do Barba para tomar um café, comprar um maço de cigarros, trocar duas palavras sobre a quebra da invencibilidade do Corinthians na Série B. Chego no prédio dez minutos antes de meu horário. Faço uma brincadeira com Dona Ana, secretária, e vou para a sala.

O dia passa seco. Almoço no Barba, pra variar. Na quarta-feira ele faz a melhor feijuca do centro de São Paulo. Relatórios, arquivos, faço de tudo nessa empresa. Tenho até dois cargos, mas, óbvio, como em qualquer organização de cunho capitalista, recebo apenas por um deles. Já são quatro e vinte e daqui a pouco volto para o ponto que me entregou aqui pouco depois do sol nascer.

Acho que não existe nada mais contrastante do que ver o pôr-do-sol de cima do viaduto do chá. É uma cena lindíssima, gostaria que alguém fotografasse um dia. Ao mesmo tempo em que correm contra a morte os meninos com o saco de cola na mão e as meninas que limpam vidros de carro atrás de trocados.

Apertei um pouco o passo, cheguei no terminal Às seis da tarde.A fila já ganhava proporções que poucos podem imaginar. Duas, três filas de espera. Os ônibus chegam, lotam e saem. As filas só aumentam. As tiazinhas pensam no absurdo que é pegar um ônibus, várias pessoas conversam e sorriem, como se aquilo fosse bonito, ou realmente engraçado. Estranho jeito de levar a vida esse tipo de gente, eu acho. Não consegue entrar no ônibus porque está muito lotado, sorri. É maltratado pela balconista do banco, sorri. Vai entender.

Dessa vez, talvez pelo horário, não consigo lugar para sentar. Vou ao lado da porta, entre a escada de saída e o corredor. Ali é tranquilo. É impressionante como todos os dias eu acho que venho no coleitov mais lotado da cidade. Cada dia um pior. O sistema de transporte da cidade é ridículo, milhares de pessoas e três linhas para o mesmo lugar. Um celular toca funk enquanto dois caras conversam sobre alguma garota em comum.

Nesta hora, pensei na conspiração que rege o mundo: Ou estou sendo muito zoado por alguém que criou essa merda toda, ou é tudo verdade e as pessoas são realmente vazias. Esqueço isso quando vejo uma morena caminhar em plena Avenida santo amaro, com uma saia de seda e um decote que faria qualquer ser humano ter o mais primitivo dos desejos carnais. Dei risada quando lembrei que também sou vazio.

Desço no final, pego outro coletivo ou pouco mais cheio, talvez por ser menor. Pelo menos chego em casa rápido. Vejo a bolsa de Aninha jogada no sofá e imagino que acabou de chegar. Ouço o fogão ligado e a televisão da sala na novela das sete e minha linda mulher assitindo entre a cozinha e a sala. Ela não é a Julia Roberts, mas nem se fosse eu a amaria tanto.

Ainda um pouco suado - não do trabalho, da condução - chego ao seu lado e lhe dou um beijo no rosto, um abraço. Ela pergunta o que eu tenho. Respondo: amor. E ela ri, caminhando para a cozinha e terminando nossa comida. Também dou risada, nem eu mesmo acredito em mim. Mas acho que, sem o amor, nada destes dias tensos e dessa correria maluca por sobrevivência, iria funcionar muito bem.

Neste momento olho para o relógio que marca vinte e três e quarenta e oito. Minha princesa dorme e eu tenho algumas horas de sono para esquecer um pouco toda essa polícia, essa condução, esse capitalismo e essa gente doida - incluindo eu mesmo - do mundo em que vivo. Poucas coisas na vida conseguem dizer "Eu te amo" com tanta propriedade como ver sua garota dormindo ao seu lado. É tanta responsabilidade, tanta mente em parafuso, tanta maluquice, relatório, intriga, briga, desigualdade, maldade e tortura social que às vezes esquecemos de sentir uma simples saudade.

Contos da Sul

por Robson Assis | | 22.7.08 COMENTE!

Letra do grupo Apocalipse 16 que inspirou a criação deste blog. Esta música conta três histórias tenebrosas envolvendo criminalidade e injustiça e são grande fonte de inspiração. Para quem quiser ouvir, a música está no disco "Segunda Vinda, a Cura", de 2000. O último trecho é meio que um manifesto espiritual do rapper Pregador Luo, mas as três histórias são marcantes demais, vale a pena.

Esperança, eu sempre tive esperança. Sempre acreditei num mundo melhor, mesmo quando engravidei ainda sendo de menor. O pai do meu filho, ele me abandonou. Mas ainda assim eu acreditava nas pessoas. Acreditava que um dia pudesse ser feliz. Eu estudava, procurava de todas as formas ser uma mulher honrada. Sonhava com um futuro melhor pro meu filho e minha família. Todo dia cedo ia do Jardim Ângela pro centro à procura de emprego. Meus pais ganhavam pouco, eu tinha que ajudar no susteno na casa. Um dia recebi um telegrama que dizia que eu estava contratada. Naquele dia fui dormir em paz pois logo estaria empregada.

Primeiro dia de trabalho, estava muito feliz, pois minha vida estava começando a ser como eu sempre quis que fosse, todos no escritório foram gentis e doces. Passou a manhã, veio a tarde, o primeiro dia se foi, fui pra casa naquelas condições, condução lotada, porém feliz, estava empregada. Segundo dia de trabalho fiquei até mais tarde a pedido do meu patrão pois havia uma reunião e eu não podia recusar, pois havia o risco dele me dispensar. Deu 21h30 saí, desci, sentido Praça da Bandeira, apertei o passo, fui ligeira no caminho de SAnto Amaro toda parada, dormia, acordava e nada, não via a hora de chegar. Desci do ônibus olhei no rológio, 23h30, vi a rua escura vazia e molhada. Só eu Deus e mais nada. Fui pelo caminho normal, beirando o matagal, tive um presságio mal, parecia que estava próximo o meu final. Mas que nada, nem terminei o colegial, besteira, pensamento normal, antes fosse. Meu pensamento foi interrompido por três indivíduos que não foram doces. Uma pancada na cabeça me deixou atordoada, lembro de ver o mato se abrir e pra dentro ser arrastada. Tive minha roupa rasgada, fui estuprada, torturada, meus sonhos foram sumindo até se transformarem em nada. Dois dias depois fui encontrada, morta, com a cara desfigurada.

Contos da sul!

Lá no Nordeste, eu sempre ecutava falar que São paulo era a terra da oportunidade, imaginei que vindo pra cá eu podia me transformar em alguém de verdade. Onde eu morava tinha seca, faltava água, a comida nunca dava. Acabei vindo pra São Paulo, cheguei aqui sem nada. Só com a esperança de com o meu trabalho conquistar meu carro, minha casa, mandar dinheiro pros meus irmãos. Não demorou pra perceber que era tudo ilusão, acabei tendo que me sujeitar. A maioria dos que vem do norte acaba sempre na periferia. Fui parar num lugar chamado Capão Redondo, onde o crime é cruel o tempo todo, polícia versus ladrão. Aqui eu era só mais um servente de pedreiro, sem nenhuma qualificação.

Logo arrumei um trampo numa construção, emprego de peão, mas para mim já estava bom. Tinha almoço, janta, 100 reais pra começar, um lugar pra me alojar. Não podia reclamar, a memória do meu pai eu jurei que iria honrar. Ele dizia pra eu trabalhar e nunca jamais roubar. Também dizia que isto estava escrito na bíblia em algum lugar. Três meses completou que estou em São Paulo, a mão cheia de calo, o trabalho é pesado, cinco da manhã já estou acordado, ah como eu queria ter estudado. Deito e levanto nisso desde que cheguei aqui, nunca saí nem mesmo pra me divertir. Chegou sexta-feira e os outros caras me chamaram pra ir no bar tomar um trago, jogar carta, dominó ou bilhar, que mal há em os acompanhar? Tava contente, pois pra mim era um presente, um trabalho de verdade, sentia orgulho, eu era gente. De repente, um Opala freou bruscamente na porta do bote eu fiquei esperto, dois cara armado. O de capuz na cara entrou, um deles gritando perguntou quem era o baiano. Me levantei da mesa em que estava sentado tremendo, suando, assustado. Pois esse era o apelido que os mano da obra tinham me dado. O cara de capuz que estava com a automática na mão me mandou deitar no chão, chamou o ouyto, engatilhou, apontou pra minha cabeça e fuzilou. A única coisa que me lembro é do meu sangue escorrendo e os caras saindo correndo. Antes de morrer, ouvi alguém dizer que o Baiano que os cara procurava era o nóia da área, que cheirava e não pagava, não pagava.

Contos da sul!

Na periferia, é sempre assim. O pior fica pra você, o pior fica pra mim. Crescer sem pai, sem mãe, é difícil. O fato de saber que eles morreram num assalto me deixa revoltado, morô? Ai de mim se não fosse o meu avô que me criou, me botou na escola. Se não fosse ele acho que nem tava mais vivo. Mas aí, estar vivo até hoje acho que é o meu castigo. Tem marcas que nunca vão ser apagadas, tem feridas qe vão doer pra sempre na alma da gente. A estrada que eu to até hoje não tem volta, também não dá pra ir pra frente. Quando era pivete, imaginava que tudo fosse diferente.

Lembro-me na infância, eu, moleque, cheio de esperança correndo no campão de terra atrás da bola, perdi a conta de quantas vezes cabulava na escola. O dia todo debaixo do sol, a única coisa que eu queria era ser um jogador de futebol. Era melhor que a maioria dos moleque, jogava o dia inteiro e para mim não tinha breque. Meu avô que me criou, sempre me apoiou, foi ele que me levou a primeira vez no estádio. Quando vi o campo meus olhos brilharam. Meu avô era o único que comigo se importava, ele era a única pessoa que eu tinha, minha família e eu o amava. O tempo passando e eu sempre no campão treinando. Já estava com 16, fiz vários testes no Corinthians, São Paulo, Palmeiras, mas consegui entrar no Juniors da Portuguesa. Meu avô bancava tudo, até minha chuteira, era ponta firme. Queria me ver titular do time, longe do crime. Um dia eu estava treinando no campão junto com os outros manos quando vi um maluco se aproximando. Parou o jogo, chamou todo mundo de canto, olhou pra mim, me deu um barato estranho, percebi que era um pó branco. Mesmo sabendo o que era resolvi experimentar, foi ali que minha vida começou a mudar. Perdi minha paz, sempre queria muito, sempre queria mais e mais, esqueci o futebol e agora jogava o jogo de satanás. Minha vida passou a ser outra, não demorou muito e eu já estava envolvido com os parceiros da vida louca. Mano, como tudo mudou em apenas um ano. Não conseguia me libertar, não tava com disposição, nem mais para assaltar. Era dia do meu aVô retirar a aposentadoria, ele chegou em casa, tinha acabado de receber. No descontrole segurei-o e comecei a bater. Tava na nóia brava, ele gritava dizendo que me amava, eu não ouvia e nem me importava, mas no fundo, em algum lugar aqueles gritos me machucavam. revistei-o por inteiro, mas ele tinha escondido o dinheiro. Saquei o oitão e pá, dei o primeiro. Tentou me explicar que havia guardado para me pagar um tratamento. Infelizmente, nem deu tempo, sem dó descarreguei a arma. Naquele momento matava a única pessoa que me amava, naquele momento eu perdi a minha alma, hoje só tenho lembranças e mais nada. Atrás das grades do Carandiru até a minha honra foi tirada. Preso há quatro anos, sem previsão para sair. Estupro, espancamento e um vírus que está me consumindo por dentro. Mano, eu só lamento, meu Deus, como eu queria poder voltar no tempo, poder voltar no tempo.

Contos da sul!

As injustiças, as desigualdades, um dia vão ter fim. O sol da justiça vai brilhar na periferia, morô? O sangue vai deixar de escorrer pela calçada,a pivetada vai estar segura por aí, correndo. As mães não usarão mais luto pelos seus filhos. Não haverá mais tiros, nem sirenes, não vai ter mais humilhação pela polícia, nem corpos no chão à espera da perícia. As prostitutas e o dinheiro não vão salvar ninguém, morô? A BMW do boy não vai servir pra nada, nem as jóias, nem o ouro, nem a prata. Está chegando o dia da redenção dos humildes. Está chegando o dia da segunda vinda, a cura. Segunda vinda do filho de Deus, Jesus, o Senhor dos senhores, rei dos reis. Então escuta com atenção, confia nele, meu mano, confia nele, mina, somente Deus pra dar paz a sua vida. A paz não é um sonhos, sua palavra senhor é lâmpada pros meus pés. Guia-me pelas veredas da justiça, ele virá, vai voltar pra buscar os justos, os humildes de todas as quebradas do Jardim Guarujá, Vila Moraes, Vila Nhocuné, Vila Cachoeirinha, a paz não é um sonho Heliópolis, Campanário, Jardim Herculano, vocês vão ter paz quando Ele voltar. Monte Azul, Vila Brasilina, Jardim São Bento, Jabaquara, Jardim Damasceno, Parada de Taipas, Morro do Macaco, aí mano, a paz não é um sonho, escuta o que eu to te falando, aí, é muita treta, mas é, vai voltar. Acredita nisso periferia.

Os exterminadores de sonhos

por Robson Assis | | 21.7.08 COMENTE!

Eles nascem em berços de ouro. São criados por empregadas pobres e, geralmente, negras. O pai empresário, a mãe socióloga. Crescem a acumulam bens de consumo, criam fortalezas em suas próprias vidas. Segurança financeira, como se diz por aí. Levam uma vida desregrada na juventude, sua falta de preconceito reflete também no fato deles não se importam com nada. E viram o jogo. Aos 30, outros filhos, outras gerações, novos berços, Hugo Boss e Bausch&Lomb no batizado do moleque. O mundo gira pelo dinheiro e vai jogando pra fora todos os outros, alheios a este "natural" sentido da vida. Sonhos ultrapassados por dificuldades de sobrevivência, idéias atropeladas por necessidades. Enquanto os exterminadores de sonhos acabam de comprar uma cobertura de luxo no novo shopping da Cidade Jardim.

De pé, eles aplaudem

por Robson Assis | | 18.7.08 1 Comentário

Não tem quem faça enxergar
De longe o lugar em que fiz meu lar
Não tem lixeiras gigantes
Nem colchões flutuantes sobre a piscina
Quem dera minha sina
Fosse ter de não ver
A dor da mãe quando o dia amanhecer
Seu filho baleado dentro do carro
Correndo atrás de um futuro ainda blindado
O PM que matou se levanta pra tomar café
A mãe chora e no terço coloca a fé
A rotina de sangue que o poeta cantou
Continua tirando meninos do gol
E colocando na linha
De frente pra morte
O sistema não quer todo mundo morto
Preferem ter alguém no sufoco
Para lamentar a falta de comida
E pedir no programa pra que o Gugu reconstrua sua vida
Aí sim eles vão sorrir
Sentados na sala de estar
E aplaudir no conforto do lar
o menino morto na frente do bar.