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#RapBR 2011, um editorial retrospectivo

por Robson Assis | | 27.12.11 COMENTE!

"You never thought that hip hop would take it this far"

A frase na legenda da foto é do Biggie, em Juicy, 'Você nunca pensou que o hip hop fosse chegar tão longe', se referindo ao sucesso do refrão Dah-ha, Dah-ha, do Rappin Duke, também citado na letra. Notorious B.I.G, além de um dos rappers mais famosos que o mundo já conheceu, começou a carreira fazendo história nas batalhas de freestyle nas ruas do Brooklyn. O mesmo freestyle da Rinha dos MCs, a Liga dos MCs, a Batalha do Santa Cruz e de muitos outros eventos espalhados pelo Brasil. Eventos que revelaram em 2011 um núcleo artístico de fazer encolher a língua qualquer Barbara Gância de ideias talhadas nos preconceitos com estilos musicais que se tornem populares demais e pouco manejáveis.

E aí você começa a lembrar do que fizeram esses dois da foto esse ano. Começa a ver que, independente do que acreditam, foram os melhores do ano não só nas maiores premiações musicais, mas em tudo ao que se proporam. Estiveram pelo menos em todas as listas de melhores do ano que você encontrar. São revolucionários por um ponto de vista de quem só ouviu falar deles depois do Coachella ou do VMB. Daquele lado que conheceu o rap esse ano, que DESCOBRIU o Criolo, que não entendeu como o Emicida e o Kamau fizeram freestyles monstros em entrevistas de última hora, que se espantaram com a criatividade aliada desse pessoal ganhando o mainstream com a facilidade de quem ganha uma rifa de panetone e com o respeito e aval dos mestres de outrora.

'A virada' não define muito bem. Talvez 'O Acerto', 'A Confirmação' e porque não 'É Tudo nosso'? Esse ano vimos o rap roubar a cena do jeito que qualquer fã -mesmo os ortodoxos- sempre sonharam, sem mais, nem menos. Vimos uma discussão de cabeças grandes da música saindo do círculos de tios do pavê da crítica especializada. Tudo isso remanescente do barulho proporcionado pelo incrível Nó na Orelha que Criolo deu em todos que ouviram sua obra. Mais que isso, vimos esses dois nomes da foto no topo encabeçarem todas as rodas de discussão sobre música, das rodas de boteco às colunas especializadas. E foram muito mais longe do que se podia imaginar, B.I.G tinha razão.

Algo me incomoda sempre que ouço alguém dizendo que o rap precisa se afastar da favela, precisa parar de cantar o sofrimento, porque a dor não vende (o que contraria absolutamente o raciocínio que tornou o Datena sucesso de público). De certa forma, eu concordo com parte dessa mudança toda, é realmente mais comercial falar da madrugada e da rua do que de um barraco três por quatro com goteira no teto e invadido pela PM. E se existe algo de que o rap estava precisando em 2011 era abandonar algumas amarras e saber caminhar na corda bamba que diz 'OK, somos da periferia, passamos por dificuldades também, mas somos felizes e talvez isso soe melhor no disco'. Sem o moralismo de ter que denunciar o que todo o mundo já sabe, ou deveria saber.

Mas não me entenda errado. Por um outro lado, se não existe mais público para a realidade, isso não a impede de existir, certo? Então, na construção dessa base sólida, a periferia continua ativa, como numa primavera de Praga, diria Sérgio Vaz. Você encontra shows de rap em escolas, eventos de fechar a avenida, um programa de rap em canal aberto e salvo por iniciativa do público, saraus, ensaios comunitários, palestras, workshops em grandes feiras literárias, cursos, bibliotecas, centros culturais para crianças, revistas e, bem, talvez seja melhor resumir isso numa palavra: oportunidade. Existe ainda aquela vertente de pensamento de que isso precisa deixar de existir, a ideia de que a música salva pessoas do crime. Acho que negar isso é invalidar o próprio poder transformador da música. Essa história não serve apenas para o crime, o rap pode salvar as pessoas da ignorância, da mediocridade. Negar isso é desmerecer a música como opção de vida, como alternativa para esse mundo de caos ordenado e ineficaz.

Frases só se tornam eternas quando dizem algo que ultrapassa as fronteiras do tempo. Biggie, numa frase simples e sem rodeios, apontou na cara das pessoas dizendo: vocês nunca acharam que isso aqui ia pra frente, né? E em 2011, eles entraram pelo seu rádio, tomaram e você nem viu. Pra terminar antes que esse monte de citações de paráfrases deixem de fazer sentido, estou com Sérgio Vaz quando: "que 2012 seja pior... pior para quem estiver no nosso caminho".

Feliz e próspero 2012 ao #RapBR e a todo mundo desse lado aí.

De bombeta e moletom #5

por Robson Assis | | 23.9.11 COMENTE!


O blog A Polaroid Story fala sobre uma garota que tenta fotografar seus artistas preferidos em uma Polaroid. E sobre a dificuldade dessa aventura em busca de uma foto perfeita, uma vez que é preciso posar na frente (uma vez que a Polaroid parece não trabalhar muito bem com pessoas em movimento). Lá você vai encontrar fotos de J. Cole, Erykah Badu, Method Man, MoS Def, Mayer Howthorne, Guru e Gil Scott-Heron (RIP para os dois últimos), entre muitas outras personalidades da música black.

Neste volume da mixtape deveriam entrar a indicação dos amigos Biw (Biggie Smalls & Frank Sinatra, com Juicy, New York) e Glauber (Promoe, com Long Distance Runner), mas fica aí apenas o link, porque nessa edição, especialmente, tendo em vista esse monte de patacoada teórica sobre a popularização do Criolo e uma pá de Barbara Gancias saindo do armário, temos apenas rap nacional. Pros críticos em geral (e não só 'os intocáveis' da mídia especializada). E um forte abraço a todos os (subdes)envolvidos.

Para baixar, chega aí. Para ouvir o streaming, basta dar o play!

 

01. Akis Kinte, 'Às escuras e as cegas'
02. Emicida, part. Rael da Rima e Fióti, 'Licença Aqui'
03. Terceira Safra part. Projota, 'Assim Segue'
04. Doncesão, 'A Ilusionista'
05. Ogi, 'Eu me perdi na madrugada'
06. AXL & Skeeter, 'Preciso Voltar'
07. Criolo, 'Lion Man'
08. Trilha Sonora do Gueto, 'Fusão Leste-SUl'
09. Inquérito, 'Meu Super-herói'
10. Projota, 'Mais do que pegadas'

Num país nem tão distante

por Robson Assis | | 21.9.11 COMENTE!

O rap e uma pequena analogia sociológica. Tá um saco dizer tudo isso com as mesmas palavras que todo mundo já fez por aí. Basta procurar. Então aqui, não se citam artistas, celebridades, mainstream, sequer música. É apenas uma analogia simples pra entender tudo o que está acontecendo com a música rap no Brasil em 2011.

Cenário I - Disneyland, aqui vamos nós
Imagine um país, escondido do mapa, culturalmente crucificado por transgredir alguns padrões e normas. Um país com algumas deficiências, mas em constante crescimento, ainda que pacato. Imagine que as pessoas que construíram  esse país têm a pátria estampada em seus corações, respiram a parada, fazem de tudo para que o país um dia se torne uma grande potência e possa conversar com os grandes, frente a frente, sem as barreiras erguidas pelo cinismo alheio. E aí, imagine que brecha seguida de brecha, o país começa a conquistar um certo espaço, ter uma certa visão entre os grandes. E que o resto do mundo comece a entender que o caráter transgressor de uma época é preciso ser contextualizado e estudado como parte da história daquele país. E agora que as coisas começam a caminhar bem, com todo esse apelo da mídia mundial em cima daquele país, ele comece a se tornar pop. Seus grandes avatares estampando a capa das revistas, seu estilo de vida sendo estudado minuciosamente por nichos de elite que nunca antes cogitaram tocar no assunto. Seus grandes mestres, outrora vistos como utópicos e desnecessários, transformados em formadores de opinião. E aí o país se torna o centro das atenções. Todo mundo fala do país. Todo mundo ama aquele país desde pequeno. Começa um verdadeiro êxodo, de quem nunca havia conseguido aturar ou assimilar o que aquele país costumava pregar. As pessoas começam a vir morar no país, vislumbrados pelas possbilidades, dão belos passeios pelos centros povoados, quebram algumas redomas de vidro, alguns preconceitos, alguns tabus, começam a ouvir falar de assuntos e enfoques os quais nunca prestaram a devida atenção. É tudo diversão. É tudo descoberta, embora esse bando de turistas não consiga dar a devida atenção para os habitantes naturais que construíram aquele país, pois estão olhando, ainda boquiabertos, tudo o que foi construído com o tempo.

Cenário II - Nascido e criado
Era tudo festa. A organização do nosso país impressionava, grandes eventos, comemorações ano após ano, festejando a última dúzia de meses em que batemos de frente, ou que escapamos com a cabeça erguida. E então as cidades começaram a encher. Os aluguéis de nosso país encareceram, ficou muito mais difícil manter o convívio saudável (com alguns atritos esparsos) que tínhamos antigamente. Talvez seja possível envolver todos esses novos habitantes de uma maneira que eles se sintam cada vez mais em casa, que comecem a se acomodar, espalhar seus pertences pela sala e, em troca, a cuidar disso aqui como um lugar também deles. Acho que se eu pudesse deixar uma mensagem para todos esses novos visitantes, é a de que você não deve sujar a casa de quem deixa as portas abertas para você entrar. Chegue com cuidado, seja lisonjeiro e vamos crescer todos juntos, é tudo o que espero. Mas é preciso esperar. Porque vivemos uma época de épicos, em que tudo é extravagante, excelente e maravilhoso, até que algum monitor conservadorista comece a arrebanhar novamente sua população desgarrada. E aí, os turistas vão embora. Os que restarem, talvez terão assimilado no coração tudo aquilo que o país pode lhe oferecer. E quanto a nós? Acredito que essa pergunta ofenderia muita gente como eu, afinal, nós estamos aqui há tanto tempo que não sabemos como viver de outro jeito.

Cenário III - Num fórum 'fechado' de grandes sociólogos
Era um país pequeno, que não mostrava empecilhos, que sequer fazia cócegas em nossa estrutura. Era um país ao qual não dávamos a mínima, achávamos pedante, panfletário, isso apenas pra não dizer de seus modos repugnantes, seus trejeitos moralistas, antipáticos. Seu linguajar único e suas roupas pavorosas. Em uma conspiração pra ditar a nova moda, o país entrou na onda, virou manchete, dava os primeiros sinais que poderia se tornar um problema caso deixássemos. E começou a crescer, as pessoas se movimentaram querendo descobrir o que poderia ser extraído de lá. E descobriram até demais, guiados por uma base bem organizada por aqueles que já moravam naquele país. Provavelmente nosso maior erro foi ter deixado que isso acontecesse. O que ficou pra nós é a certeza de que eles não podem ser levados a sério enquanto país e que vamos conquistar de volta todas as pessoas sem tanto poder de decisão, derrubando aos poucos os grandes líderes desse país. Mostrando seus pontos fracos, suas petulâncias, seus erros crassos, mesmo que pequenos. É tudo uma questão de enfoque, tudo uma questão de saber polemizar e entrar na mente desses pequenos idiotas que foram atraídos pelo sucesso e pelo hype que deixamos escapar de nossas rédeas. Aos poucos vamos trazendo de volta aquele conceito de que esse país é tão chato quanto parece, que seus defensores são hipócritas hippies que não merecem consideração e que a verdade está apenas do nosso lado.

Cenário IV - Revoluções internas por minuto
Não sei como pode. Vivemos nesse país praticamente durante toda a nossa vida. Conhecemos as melhores formas de crescer e sustentar as bases mínimas pra que nada fosse jogado ralo abaixo. Lutamos juntos por melhores condições, por união, pra que pudéssemos deixar de herança um futuro decente nesse país. Nada levado tanto a sério. Gente como eu aceitando dois tipos que não consigo lidar: um bando de novatos e um bando de aproveitadores. O problema é que não podemos separar o joio do trigo com destreza. Sempre sobrará um que poderá colocar tudo a perder. E isso desanima. Tanto quanto desanima ver os meus se envolvendo em projetos de outros países mais ricos e já bem desenvolvidos. Me incomoda. Saber que era a gente que mandava e desmandava em nós mesmos e o quanto pregávamos que não deveríamos dar ouvido a outros países, nem fazer alianças mesmo nos cenários mais críticos. E agora cada um criou uma olha em torno de si, cada um vê apenas o barco salva vidas que está à sua frente, ninguém enxerga o que enxergávamos antes. E sou visto como ridículo e conservador, óbvio, porque não consigo deixar de pensar naquele tempo em que estávamos juntos, em tudo aquilo que dissemos que seria pra sempre. Talvez eu tenha levado tudo um pouco a sério demais.

Então toma (uma reflexão)

por Robson Assis | | 1.7.11 4 Comentários

Refletia esses dias sobre os clipes novos do rap nacional. Percebi que grande parte essa produção audiovisual dos novos artistas é ligada a estratégia simples e quase inocente de uma câmera na mão e uma idéia na cabeça: preciso fazer um vídeo do meu grupo. Não importa se não houver um diretor de fotografia, ou alguém para gerir a direção artística. Esse pensamento, imagino, deve ser geralmente seguido de "Eu conheço alguém que conhece alguém que..." e o "clipe" se resume ao rapper cantando em frente a um graffiti, fazendo passinhos desastrados numa avenida, na praia, pecados de edição, pouco desafio e pobre linguagem visual.

Aqui entra aquele velho debate do RapBR proposto pelo Giberto Yoshinaga e que volta e meia vem à tona: o fato de que Nem todos serão MC's. A questão navega por quanto seu trampo merece de dedicação, de gente trabalhando em cima. Seu grupo gera emprego, ainda que seja tudo voltado a você, à sua produção, você precisa de gente em volta pra estruturar seu avanço.

Quando vemos um clipe como o novíssimo "Então Toma", do Emicida, fica claro o apreço pelo que é bom, a escolha totalmente acertada de referências não musicais, mas artísticas — se você não viu nesse clipe referências a Cães de Aluguel ou qualquer outro filme de Tarantino precisa urgentemente começar a buscar algumas listas de melhores filmes das décadas passadas —, o que certamente não é algo a se julgar, quando tudo o que falta nesse meio são referências.



O Rap nacional está crescendo a um ponto em que começa a esconder e limar o que é ruim num processo natural em que levar seu grupo nas coxas é algo que deve ser descartado de imediato se você pretende figurar entre os ao menos "aceitáveis". Porque os melhores dedicam todos os seus esforços e tratam o rap como a própria vida, e vice-versa. Nas palavras de Rashid "e se o rap te tratasse como criança já que você trata ele como brincadeira?". Portanto, é preciso correr atrás e acertar, sempre que possível.

Como o Vinicius também citou, é inevitável lembrar de "Sabotage", dos Beastie Boys, um dos clipes mais aclamados da história dos videoclipes.

É até meio evidente citar Tarantino ao tratar desse novo clipe do Emicida. Eu mesmo vi tantas outras referências que quase desisti de escrever o texto. Claro que existe aquele fator pulsante quando você procura referências no que quer que seja: você pode acabar enxergando até o que não existe. Aquele clássico de quando você olha para uma nuvem jurando que ela se parece com um dragão.

O clipe começa com um diálogo nonsense e tem todos os outros elementos básicos dos melhores filmes do diretor: a mala de dinheiro, o corte seco de imagem e áudio entre as cenas, o fator inesperado (neste caso, um homem se debatendo com uma frase do Criolo, rapper que contracena com Emicida no clipe: "não é de bom tom você ter um corpo amarrado na sala da tua casa").

"Então Toma" tudo de uma só vez: Essa história dos diálogo nonsense entre dois personagens no início da trama te leva direto para Pulp Fiction; Os nomes dos personagens no início é a clara referência ao cinema Western que Tarantino sempre gostou de homenagear em seus filmes; Emicida, de terno, nos faz lembrar quase instantaneamente de Cães de Aluguel (sim, você também precisa parar de achar que o CQC inventa alguma coisa) e todo aquele diálogo sobre música e uma possível dupla Emi & Cida, como elemento tragicômico, tal qual a quase piada interna dos integrantes do NX Zero se revoltando ao ler a matéria Rap rouba a cena, da Folha (não sei se preciso lembrar aqui do "Projeto Paralelo" do NX Zero em que o mesmo Emicida participa da música Só Rezo 0.2). Seguindo com os personagens, Chitarra parece nossa Beatrix Kiddo, a especilista em facas protagonista de Kill Bill ao passo que Lola la Loca, poderia facilmente ser uma provável alusão à Jackie Brown (?). É nesse ponto que me imagino vendo muitos dragões em nuvens e prefiro parar de achar referências e curtir os quase seis minutos de vídeo.

Acima de tudo, "Então toma" é uma mensagem ao público de que o rap tem muito mais a dizer do que as gírias e dos protestos que o marcaram no final dos anos 90 (pelo menos aqui no Brasil). Acho que a mensagem certa é: "Não é porque eu vim da favela que todos meus clipes vão ser como versões de Click, Clack, Bang do Conexão do Morro", um clipe também elementar para a história do rap brasileiro, antes que me critiquem. Além disso, é a prova de que o rap vai continuar sua evolução, independente de ser ou não apenas uma bola da vez para o mercado mainstream. "Estamos vivos", diria KL Jay.

"Em vez de reclamar que eu não toco no Espaço Rap, eu fui trabalhar e arrumei espaço pro meu Rap"
--Emicida

Três filmes

por Robson Assis | | 19.3.11 COMENTE!


5x Favela, outro desses épicos sobre as favelas brasileiras, embora fuja de conceitos pré-estabelecidos de que todos os moradores de favela são ligados ao tráfico de uma maneira ou outra, ou de que não existe gente comum, mas apenas os arquétipos carregados de gírias que encontramos em Cidade de Deus e Tropa de Elite 1. São cinco pequenos contos, que não se entrelaçam, mas acontecem num mesmo universo. São pessoas comuns, em vidas e histórias comuns. Um retrato da favela impresso de dentro e não a versão romanceada ou banalizada que convencionou-se fazer no cinema. 5x Favela apresenta uma visão mais novelística sem perder ritmo com voltas desnecessárias no texto. Pela primeira vez um filme brasileiro sobre a periferia que traz algo além da crítica social crua e despreparada. Existe sim, mas ela é implicita, palpável. Está presente sem que possamos notar, tamanha sua onipresença neste ambiente.


Night Catches Us, sobre um período conturbado da história negra americana. Com o final dos Panteras Negras, o próximo passo que se poderia imaginar era a polícia deixando de lado a perseguição a negros nas ruas, o que não acontece. Com um misto de raiva e conspiração, neste período, a polícia está cada vez mais segregacionista, inspirada nos fantasmas deixados pelo grupo rebelde. Uma ficção que esconde e desvenda na medida certa cada ponto sem nó que foi sendo moldado pelos negros no país-império em que os preconceitos são desfeitos com mais cautela, em que a intolerância é colocada praticamente como norma de conduta sem critério para a dor ou desprezo infligido. Cada minuto deste longa vale a pena pelo contexto histórico e pela pequena bela história que é o elo de ligação a todo este passado. O filme traz ainda algumas cenas de época, em preto e branco e um argumento definitivo para você abandonar este blog neste exato momento e correr atrás desse filme: trilha sonora executada com maestria pelo The Roots.


For Colored Girls, tenso, pesado, glorioso. Se você assistiu Precious, vai entender bem onde quer chegar o enredo. São histórias que se cruzam tanto que podem chegar a confundir o público mais desatento. Mas a comparação termina por aí. Precious é um filme com final reticente, de lamento, perda e angústia. Tudo isso está em For Colored Girls, mas em doses estridentes, que revoltam e punem toda a moral fracassada dos nossos tempos. É um filme sobre a mulher negra e para a mulher negra que vive a tragédia em seu cotidiano, que vê serem tomados à força seus sentimentos e vontade de viver. No começo do filme, a composição doentia com vozes de mulheres falando ao mesmo tempo e palavras correndo dizem 'para todas as mulheres negras que já pensaram em suicídio' como uma forma de deixar registrado mais que um simples aviso sobre o teor do que vem a seguir. Um filme forte, urgente e completo. Alguém pode se levantar dizendo que é apenas mais uma obra feminista, com alguma razão. Acredito que este tema é algo que todos gostaríamos de ver ultrapassado. Não é apenas o simples preconceito contra a mulher. Está em jogo a legitimidade e aceitação de suas escolhas pessoais, do homem como companheiro e não dono ou superior. Em atuações incríveis, cada personagem busca dentro de si uma liberdade e isto é o que de melhor o filme pode nos oferecer.