2011, um novo começo

por Robson Assis | | 30.12.10 COMENTE!

Amigos, em 2010 foram quase 4 mil visitas e 6400 pageviews (Analytics, seu lindo), mas isso é de importância menor. Este ano de 2010 fiz incríveis amigos, conheci pessoas novas não tão próximas e descobri meu lugar onde menos esperava. Não estou sempre presente, mas o coração está. É muito importante que seja sempre assim.

Que entre as metas de 2011 estejam o crescimento individual e a felicidade nas pequenas coisas. E que a cada dia tenhamos uma nova busca, um novo caminho que nos guie ao único.

Para o ano que vem, espero poder ter mais tempo para postar e me dedicar aos textos, resenhas e crônicas deste blog. Já estou me programando, sério, espero que não seja só mais um tópico na wishlist.

"Um por um, Deus por nós, tô aqui de passagem / Vida loka, eu não tenho dom pra vítima / Justiça e liberdade, a causa é legítima / Meu rap faz o cântico, dos loucos e dos românticos, vou / Por um sorriso de criança aonde eu for / Pros parceiros, tenho a oferecer minha presença / Talvez até confusa, mas real e intensa..."
Racionais MC's, Vida Loka parte II

Feliz 2011 a todos.

De bombeta e moletom #4 (mixtape)

por Robson Assis | | 8.12.10 COMENTE!


Ilustradora freelancer e designer, Diana Koehne trabalha com pinturas e colagens em diversas esferas da arte. Em seu site oficial, podemos encontrar uma vasta gama de trabalhos desde obras em shapes de skate, até ilustrações publicadas em revistas e livros. Uma das mais impressionantes - embora toda a obra mereça reconhecimento - são seus personagens, sempre caricatos e irreais, às vezes desenhados em post-its, outras em caixas, mas sempre com seu toque e detalhe pessoal.

A mixtape mais despretensiosa da internet volta à baila em sua quarta edição e traz uma coleção de músicas que venho ouvindo no repeat nos últimos meses (ou nos últimos dias, como o caso do single Olha pros Neguinho, do Xará com participação do Emicida). Tem uma indicação boa do meu camarada Max, que me mostrou o Thai, rap asiático, com a música Lost and Confused, além de várias boas, escolhidas sem critério e ao sabor dos ventos.

Tendo isso em vista, ouça abaixo pelo streaming, ou baixe aqui (52.15 MB).



01. SNJ, Se Tu Lutas Tu Conquistas
02. Projota, Véia
03. Blacastan part. Moe Pope, City II City
04. Parteum part. Kamau e Rick, Época de Épicos
05. Xará part. Emicida, Olha Pros Neguinho
06. Eminem part. Dr. Dre e 50 Cent, Crack A Bottle
07. Pentágono, O Q
08. Xis, Tudo Por Você Também
09. Nel Sentimentum, Bóra pro Rolê
10. Wiz Khalifa part. Wale and Trae, The Breeze Cool
11. Primeira Função part. Black Lion, Sociedade Quilombo
12. Thai, Lost and Confused
13. Rashid part. Marechal, Acendam as Luzes

Os livros de novembro

por Robson Assis | | 6.12.10 3 Comentários

Cartas do yage, William Burroughs e Allen Ginsberg - Geração beat em sua forma mais devotada. O livro fora escrito primeiramente com base nas cartas enviadas por Burroughs a Ginsberg na viagem que o escritor empreendeu ao Peru e Colômbia após a morte de sua mulher (ia inserir aqui o 'fatídica morte de sua mulher', mas me pareceu irrelevante). Suas cartas contam sobre a região, a pobreza e a escassez de espíritos livres. É a visão de um turista à procura de uma alucinação, da ayahuasca, como se conhece melhor por aqui, uma droga que promete libertação através dos poderes anestésicos da natureza. Sete anos mais tarde, Ginsberg fez a mesma viagem e a relatou também através de cartas (e alguns desenhos absurdos) para o amigo. Observa-se uma visão limitada e fria sobre a miséria dos países de terceiro mundo do hemisfério sul. Um visão de intelectual norte-americano sobre o que não consegue entender. De qualquer forma, a viagem e as viagens afluentes são extremamente interessantes e absolutamente bem escritas, dignas de apreciação. O livro, curto, de rápida leitura, termina com um texto poético de Burroughs intitulado Estou morrendo, mister?, depois O vinho das visões prodigiosas, de Eduardo Bueno, sobre a geração beat e esta pequena nota de Ginsberg, datada de 1963, que diz muito sobre o livro: A quem interessar possa: autodecifra-se esta correspondência assim: a visão dos anjos-guias que meus companheiros homens e mulheres vislumbraram inteiramente pela primeira vez enquanto o curandero cantarolava com suavidade no estado de transe de 1960 foi a profética transfiguração da autoconsciência, da sensação de medo eterno da alma sem lar na encarnação do corpo sentindo felicidade real.

O senhor dos anéis, As duas torres, J.R.R Tolkien - A continuação. Só depois do segundo, descobri que comecei errado ao ler primeiro a trilogia e não O Hobbit, aventura que explica muito algumas passagens obscuras da saga do anel. Sinceramente, não achei que fosse suportar toda a série após o primeiro livro que traz muita conversa perdida e pouca aventura consistente. A parte disso tudo, As Duas Torres tem algumas aventuras que envolvem escolhas morais simples, mas não menos problemáticas e termina com uma sacada excelente (e que, provavelmente, vai fazer de Sam Gamgi a personificação do sentimento de culpa no terceiro livro). Tem aquilo que já havia falado sobre A Sociedade do Anel, de transportar o leitor para um outro mundo completo, desligar o botão da Terra e o colocar como espectador da história de Frodo e o Anel na Terra Média. A segunda parte de As Duas Torres tem alguns diálogos sensacionais entre Frodo e Sam. Conversas triviais, mas espetaculares e bem encaixadas no contexto da história, do que passou e do que vem pela frente. É, sem dúvida, um livro fluente, que prende sem martirizar ou encher de balelas metafóricas. A história segue em frente e sobram questões demais para O Retorno do Rei, último livro da história. E, bem, ainda não vi os filmes de Peter Jackson e já me alertaram sobre o outro erro que é ler os livros antes de ver os filmes, embora isso não caracterize um grande problema, na minha opinião.

O mundo fora dos eixos, crônicas, resenhas e ficções, Bernardo Carvalho - Uma coletânea com 50 textos publicados originalmente na Folha de São Paulo, entre 1995 e 2005, do autor de Mongólia e diversos outros livros. Além disso, o volume conta ainda com 10 resenhas e seis contos curtos e ficcionais. A maior e mais interessante seção do livro são as crônicas, que, baseadas em um livro, filme, peça de teatro ou obra de arte, trata sobre temas que permeiam o elemento cultural em questão até concluir o ponto em que o autor quer fazer entender. Impossível destacar qualquer crônica destas a não ser por uma divisão estilística ou de gênero. De acordo com meu conceito vago sobre as pessoas que acessam este blog, deixo indicado aqui o texto A tentação de Santo Antônio: ler para ver, em que o autor cita o K.O.S (Kids of Survival), grupo formado no South Bronx, em Nova York, que, sob a orientação de um artista plástico, cria obras de arte a partir de discussões sobre a leitura de textos literários, relacionando a história de sua principal característica (pintar sobre as páginas do livro) ao texto de Flaubert chamado As tentações de Santo Antônio, que na época ganharia uma montagem de Bob Wilson. Bernardo Carvalho consegue perfeitamente englobar em seus textos idéias e conceitos díspares e chegar a um ponto comum de maneira inacreditavelmente lúcida ao transpor o leitor para diversas esferas de pensamento.

O Velho e o Mar, Ernest Hemingway - Minha idéia sobre livros que você sempre quis ler é a de que, invariavelmente, eles acabam caindo na sua mão da maneira menos provável. Encontrei meu exemplar de O Velho e o Mar num destes sebos-banca-de-jornal do centro de São Paulo, quando procurava algum clássico esquecido entre os milhares de livrinhos pocket com histórias eróticas camufladas em nomes de garotas (Jessica, Bianca etc). A história de Santiago não faz alusão a alguma moral ou a um estado de espírito, tampouco se coloca no papel de criticar ordens pré-estabelecidas. É uma excelente história sobre a luta de um homem contra a natureza, mas sem a caretice extrapolada dos neo ambientalistas, sem a visão embaçada e parcial dos que lutam por uma causa. É a história de um velho pescador que tem o mar como segundo lar, como pai, irmão e amante. Um senhor que após mais de 80 dias sem pescar nada em alto mar, consegue um grande feito que o eterniza naquilo ao que realmente dedicou toda a sua vida. Foi o último livro escrito por Hemingway, que não ficou entre os mais bem comentados pela crítica, mas até hoje figura como um de seus clássicos mais influentes e indispensáveis para toda a sua obra.

Duas visões e Um caminho

por Robson Assis | | 29.11.10 COMENTE!

Duas visões completamente necessárias para entender o que acontece nas incursões de pacificação ao Morro do Alemão Rio de Janeiro. A primeira, 'Vale tudo: O Estado pode usar os métodos de criminosos?' no blog do Sakamoto, trata de interesses de governo, mídia e avaliações de caráter moral sobre a onda de pacificação 24 horas em toda a programação da TV aberta.

Do outro lado, Bruno Rico e um conto chamado A guerra em primeira pessoa, que expressa e destrincha o sentimento da periferia à sua maneira poética, mas não como aquela carta entregue ao Jornal Nacional. Rico é meu amigo, morador do RJ, compartilha diversas opiniões como a minha sobre música e literatura marginal, além disso, escreveu alguns dos melhores contos que li este ano. Além do blog Sentimento Crítico, que reúne toda sua produção literária, ainda escreve o excelente blog de opinião Mundo do Rap.

Ficamos por aqui, apenas com este trecho do Tao te Ching, escrito chinês de 600 a.C, uma das leituras do mês que veio bastante a calhar:

"o demasiado
o desmesurado
o desqualificado

os que ajudam o soberano pelo curso
esses não violam com armas o mundo

tal ação provoca reação

onde campeiam tropas    aí crescem espinhos
após grandes combates    sempre anos nefastos

bom é apenas o desfecho
e basta!

não ousar dominar com violência

o desfecho sem apoteose
o desfecho sem repressão
o desfecho sem arrogância
o desfecho porque irremediável
o desfecho sem violência

as coisas reforçando-se caducam

isto se diz: sem curso

sem curso

logo o decurso"

Tao Te Ching, 'O Livro do Caminho e da sua Virtude', Lao Tse

36 anos de Hip-Hop

por Robson Assis | | 12.11.10 2 Comentários

Falo do Brasil, de uma cena independente mais aberta e informal. Do hip-hop que conheci através de amigos que cantarolavam um refrão do Racionais que nunca mais saiu da minha cabeça.

As décadas de 70/80, cerne de toda essa cultura que hoje agrega cada vez mais seguidores, nos entregou o hip-hop e suas primeiras rimas, moinhos de vento, scratches e bombers na parede. E hoje, os precursores de toda essa história colhem seus louros, se não apenas em dinheiro, também em consideração e respeito.

Somam-se quatro programas de rap em São Paulo, na rádio 105FM, um programa na TV aberta, o Manos e Minas que, por ter sua continuidade tão batalhada, tornou-se também, neste 2010, um tópico indiscutível para a história do rap nacional.

Vivemos o começo de uma nova década onde já se debate com menos frequência a virtualização da música, e ainda assim, um MC de talento e vontade surpreendentes consegue montar e vender, sozinho, 10 mil cópias de um disco produzido em casa, com a ajuda de amigos. Se ele não pode ter o direito dos discos de ouro no Faustão, o hip-hop entra em cena e, como um pai que acende a vela do bolo, faz sua própria homenagem.

O graffiti está nos principais museus do mundo, DJs e Bboys ganham respeito, são valorizados enquanto artistas, cotados para ministrar workshops sociais na periferia e trabalhar nas brechas do Estado, o limbo sócio cultural em que nasce a população menos favorecida.

Na internet, o hip-hop está mais presente do que nunca, com portais de informação e debate como a Central Hip-Hop, o Rapevolusom e o Rap Nacional, blogs especializados que trabalham com informação mais focada, reflexiva e detalhista como o Per Raps, XXL Co e Do Lado de Cá. Além das milhares de colaborações e blogs com menos acessos diários, espalhados pela rede, como este em que você está.

Sem falar nos produtores de filmes, como o Jeferson De, responsável pelo já tão premiado Bróder, sobre o Capão Redondo; e o Alessandro Buzo, que recebeu medalha de menção honrosa no 18º Gramado Cine Vídeo pelo documentário Profissão MC; os saraus na periferia da cidade seguem ganhando cadeiras cativas nas palestras das bienais e conquistando espaços cada vez mais inusitados por todo o Brasil. Jornalistas como o Gilberto Yoshinaga e Jessica Balbino, são essenciais para a cultura com seus projetos pessoais, coberturas e comprometimento, guiando os meus caminhos (e o de muitos outros como eu) com suas lanternas, ainda que quilômetros à frente dos meus pés.

Apesar de toda essa evolução e sem uma busca aprofundada a respeito do assunto, as críticas esparsas sobre o hip-hop nos veículos de imprensa tratam esse pequeno pedaço de toda a história negra como uma parte pobre da cultura popular, como um exemplo claro da arte emburrecida e banalizada. A culpa, como sempre, é direcionada às massas por algum erro de percurso com os trilhos excludentes da arte.

Que desculpem o ego, a pompa e circunstância, mas hoje a festa é apenas deste lado. A toda essa catarse de falso moralismo da mídia, o Hip-Hop manda um abraço e, incisivo, deixa o aviso pelas palavras de Thaíde: 'NADA PODE ME PARAR'.

***

Robson Assis, jornalista, conheceu o hip-hop em 1998, enquanto se divertia com os amigos num hidrante quebrado, na periferia de São Paulo. É feliz proprietário de seus blogs, seu carro, uma vasta coleção de livros e do coração de uma garota. Além disso, escreve perfis próprios em terceira pessoa, só por diversão.

MAIS SOBRE OS 36 ANOS DE HIP-HOP

Ali, Bumaye

por Robson Assis | | 4.11.10 2 Comentários

Quando Éramos Reis conta a história de Muhammad Ali, um dos maiores atletas de toda a história da humanidade

Conheci a figura de Muhammad Ali ao ver pela TV aquela Olimpíada em que ele acendeu a tocha, ovacionado por todo o estádio ao qual não consigo me recordar agora. Já era um senhor e portava com óbvia tristeza e marcas de superação o seu Mal de Parkinson. Esta semana, o Telecine Cult transmitiu o documentário Quando Éramos Reis, de 1996, sobre a luta do século entre Ali e George Foreman, que aconteceu no Zaire (atual Congo), em 1974.

O vídeo é baseado na história da luta, primeira organizada pelo polêmico Don King, embora o roteiro seja mais centrado em Ali. Amigos, parentes e jornalistas falam sobre o pugilista com a fidelidade que só compete a testemunhas oculares, comentando seus trejeitos espalhafatosos, embora carismáticos e suas frases soltas sempre (ou em grande parte das vezes) provocativas, quando não políticas e panfletárias.

Em meio a uma América do Norte separada pelo apartheid, Cassius Clay (nome real do lutador) enfrenta principalmente a mídia esportiva que o ridicularizava em comparação ao até então campeão mundial George 'brutamontes' Foreman; e as forças armadas com a qual teve de se explicar por ter se negado a participar da Guerra do Vietnã.

Já em solo Africano, Ali encontra uma multidão e se torna ídolo imediatamente, ao entrar em contato mais próximo ao povo local, fazendo uma multidão gritar 'Ali, bumaye' que significa algo como 'Ali, mate-o'. Em um trecho, um africano comenta que Foreman, mesmo sendo mais negro que Ali, representava o povo branco norte-americano, talvez por seu distanciamento, seu caráter recluso e seu comportamento de celebridade. O fato é que Ali, ao se misturar na multidão, se tornou representante de seus fãs africanos apenas por seu carisma e cumplicidade.

Uma das cenas mais tocantes do vídeo é quando, após ter vencido a luta (pronto, contei, mas você já devia saber) Ali diz que aprendeu muito com o povo africano, e uma de suas citações não gravada, mas dita no dia seguinte à luta e comentada por um dos jornalistas, me chamou a atenção. Ali disse algo como: 'Povo africano, na América, não somos tão bons quanto vocês. Alguns de nós somos ricos em Nova York, mas vocês tem uma dignidade em sua pobreza que nós não temos. Nós somos mimados na América, nós perdemos o que vocês têm aqui na África'.

Quando Éramos Reis mostra todos os lados daquele que é considerado o maior pugilista - e, por que não, atleta - de toda a história. De atleta e popstar carismático com a humildade de um verdadeiro rei, até seus inflados discursos, sejam eles egocentristas ou políticos, Muhammad Ali mostra porque deve ser lembrado durante muitas gerações.

O vídeo está disponível em oito partes no Youtube, sem legendas, pra quem quiser se arriscar.

Os livros de setembro e outubro

por Robson Assis | | 3.11.10 3 Comentários

Desculpas pela ausência estão ficando repetitivas uma vez que os motivos continuam os mesmos: Trabalho e falta de tempo. Portanto, amigos, aí estão os livros dos dois últimos meses.

Wunder Blogs, Vários autores - O nome do livro é retirado de um antigo (2004) portal de blogs (alguns ainda hoje disponíveis no Apostos.com) reunindo textos de seus autores com idéias esparsas sobre literatura, filosofia, a vida, o universo e tudo o mais. Cada um a seu modo tratando assuntos de interessse pessoal com indiscutível originalidade e senso de humor oblíquo. O livro traz textos de 11 autores da era de ouro da blogosfera brasileira, posso dizer. Uma ótima leitura, obviamente homogênea. Em cada novo capítulo um autor diferente lhe tranposrta a um mundo completamente distinto quando se trata de estilo e narrativa. Indico aqui também uma excelente entrevista com Felipe Ortiz na Folha, que define bastante o portal de blogs. Wunderblogs.com é um livro que você precisa ler com a mente desapegada e livre de preconceitos, sejam eles quais forem.

Gothica, Gustave Flaubert - Contos juvenis do autor de Madame Bovary. Personagens problemáticos e diabólicos em impressionantes diálogos e reflexões. Um total de cinco contos em um excelente livrinho pocket. Histórias sinistras, fúnebres, um lado mais psicótico e um pensamento menos tolerante sobre a humanidade. Lidos estrategicamente no escuro, antes de dormir, para contribuir com o clima sombrio. Curto, de fácil leiturae com histórias tão completas que acaba garantindo seu entretenimento. Corriqueio, enigmático. Ainda não li Madame Bovary, clássico do autor. Mas pelo que me permito conhecer da história, ela não passa perto do ambiente de Gothica, um livro infitamente mais adolescente e desprendido de regras. Como diz a introdução, uma aventura do autor pela parafernalha gótica dos contos de horror. Um bom companheiro para distrair a mente, isso posso assegurar.

Um grande garoto, Nick Hornby - O segundo romance da carreira de Nick Hornby. Tal como Alta Fidelidade, virou filme retrato-de-uma-geração. Confesso ter achado meio enfadonho todo aquele clima do sujeito vagabundo que não entendia a vida mesmo depois dos trinta - como se em alguma idade a gente pudesse compreender tudo -, mas o livro começa a embalar pela forma que a história é contada a partir de diversos pontos de vista. Do vagabundo trintão, do garoto que usa uma lógica ortodoxa para lidar com situações corriqueiras, de sua mãe depressivo-maníaca, até do Kurt Cobain em fase terminal. Ao final de tudo, uma história simples de famílias desestruturadas e um personagem alheio a humanidade se torna uma trajetória emocionante de confiança, respeito e aprendizado, escrita no melhor estilo que o Nick Hornby sabe fazer, ilustrando cenas com músicas, nomes de cantores e jogadores do Arsenal.

Elite da Tropa, Luis Eduardo Soares, Rodrigo Pimentel e André Batista - Existe aquela teoria de que a história do livro é sempre melhor que a história do filme. Neste caso, considero a história de Elite da Tropa contada de maneira mais pesada e cruel do que no filme, provavelmente por questões de mercado. As duas histórias são excelentes, sem dúvida, mas o livro revolta mais, deixa a ferida mais aberta ao denunciar - ainda que por meio da ficção, os golpes e esquemas praticados pela Polícia Militar. O livro é dividido em duas partes: na primeira, contam-se causos sobre a polícia corrupta, com um discurso sanguinário a ponto de louvar a execução de marginais na frente de seus parentes, quando não a execução sumária de seus parentes, extinguindo possíveis testemunhas. Na segunda parte, uma só história que envolve guerras entre favelas e facções rivais gerenciada pelos interesses político-econômicos de secretários, deputados, delegados e, inclusive, o governador. Interessante, para não dizer trágico, Elite da Tropa é uma denúncia maior do que o discurso 'quem financia quem?' do primeiro filme, colocando na vitrine uma polícia despreparada que trabalha através do jogo, dos pequenos golpes e da certeza de impunidade.

O Gato preto e outras histórias, Edgar Allan Poe - Releitura do clássico. Lembro de ter lido este volume nos idos de 2003/2004, provavelmente algum exemplar emprestado da livraria em que trabalhava na época. Gosto do clima sombrio de seus contos, dos personagens emparedados, das histórias macabras, da tenue relação entre o mundo real e diabólico. Personagens em um momento tranquilos, no outro bêbados e esquartejando a esposa. Poe cria climas pesados e agoniantes em histórias comuns. Cria como um maestro sua obra, que vai evoluindo até um ponto que você não consegue mais acelerar a leitura para saber o que acontece na cena seguinte. E o ápice é seguido de um final deslumbrante e inesperado, sem largar a expectativa, ou a emoção, ou a sensação de estar encurralado, sem poder respirar e sem forças para se livrar dos grilhões que o afligem. Chega de besteira, O Gato Preto e outros contos é um livro para ser lido diversas vezes, de muitos modos. Um livro curto e empolgante demais para acabar tão rápido. Apesar disso, deve ser lido em uma sentada, como dizia Poe.

Antes tarde do que sempre, Bertoldo Gontijo - "O relógio do Mickey marcava 8h45. Acordei com saudade. Saudade de mim mesmo. Do tempo em que eu encarei meus medos e venci. Do tempo em que eu peguei a rotina à unha e mudei meu destino". Indicado no último post dos livros do mês, por minha grande chegada Mirian Pulga, o livro de Bertoldo Gontijo conta a história do mesmo personagem em duas épocas de sua vida. Como a infância influenciou e modelou sua maturidade (ou a falta dela). Me lembrou muito de Alta Fidelidade e aquelea história do homem de meia idade perdido em suas próprias más escolhas. Além disso, o livro é cercado por uma atmosfera quase adolescente, embora envolva problemas e crises adultas. O autor brinda cada capítulo com uma trilha sonora adequada perfeitamente à história, desde os covers de Alice Cooper e Stones executados por sua antiga banda até 'What's Wrong with This Picture?', do Van Morrison, em uma fase mais confusa de sua vida. Poético e bem estruturado, um livro com muitas histórias em apenas uma, para ler em pressa e com a mente aberta. O livro possui versão digital que pode ser baixada gratuitamente no Livros Grátis, para quem quiser.

Jay-Z, Bing e Marketing de Guerrilha

por Robson Assis | | 18.10.10 COMENTE!

Jay-Z se uniu ao serviço de buscas Bing e à agência Droga5 para a divulgação de seu primeiro livro de memórias já intitulado Decoded, que deve chegar às lojas norte-americanas em novembro.

Nos EUA, páginas do livro serão colocadas em locais estratégicos de Nova York, como por exemplo o bairro onde Jay-Z cresceu, com dicas fornecidas através do Bing, Bing Maps e Bing Entertainment.

A ação promocional vai fornecer um total  de 200 prêmios aos usuários que encontrarem páginas do livro pela cidade, incluindo um grande prêmio com dois ingressos para os shows de Jay-z e Coldplay, em Las Vegas, na véspera do ano novo.

Esta ação de marketing utiliza técnicas de guerrilha - meios não convencionais para atingir de maneira inusitada um determinado público alvo - acontece quase um mês antes do lançamento do livro, que tem data prevista para 16 de novembro.

via Mashable e Media Bistro

*só pra constar, o post dos livros de setembro fica pra novembro, junto com os livros de outubro. Complicado assim, desculpem o transtorno.

History of RAP

por Robson Assis | | 5.10.10 3 Comentários

Performance de Justin Timberlake no Late Night com Jimmy Fallon. Um sensacional medley de quatro minutos com a história do rap:


Encontrei no blog do Maestro Billy, que disponibiliza também a tracklist.

Quem sampleou?

por Robson Assis | | 4.10.10 COMENTE!



O Who Sampled é um site gringo que oferece uma base completa de dados sobre músicas sampleadas e remixadas de diversos artistas. O texto institucional detalha: 'Este site é sobre a descoberta de novas e antigas músicas, a exploração de influências musicais e o compartilhamento do conhecimento'.

Sem a internet podemos acreditar que essa busca só seria possível por meio de uma pesquisa quase paleológica em sebos e lojas de discos. Ou com a sorte de ter um seleto grupo de amigos wikipédicos.

Aniversariante ainda recente - completou dois anos de existência no dia primeiro deste mês - o site conta com a impressionante marca de 26 mil artistas cadastrados e 64 mil músicas e samples disponíveis. E os números não param de assustar: são 3 mil moderadores, 15 mil usuários registrados e cerca de dois milhões de visitas, desde sua criação.

Através de algumas regras simples explicadas com minúcias no FAQ, qualquer um pode enviar informações sobre um sample que em seguida deve ser analisado pelos moderadores antes de ser disponibilizado.

Em uma busca simples por artistas nacionais, encontrei páginas do RZO, Racionais, Thaíde & DJ Hum, Xis e 509-E. Além da infinidade de artistas internacionais. Excelente para descobrir e orientar a discussão sobre influências no mundo da música.

Os livros de agosto

por Robson Assis | | 8.9.10 3 Comentários

Os sofrimentos do jovem Werther, Goethe, 1774 - tragédia romântica clássica, Werther é um homem entregue aos delírios do amor por uma mulher intangível, sensata e talvez pouco honesta acerca de seus sentimentos. Através de cartas do protagonista, o autor descreve a vida tediosa de um homem que vai até as últimas consequências, mesmo ciente da impossibilidade de ter para si a mulher de seus sonhos. Fácil leitura, grande livro, angustiante e claustrofóbico conforme o desenrolar da história. Nas páginas finais - e isso é um detalhe que gostei muito nessa coleção da Abril - tem um pequeno resumo sobre a época em que a obra foi lançada, em que circunstâncias, sobre a vida do escritor, além de fotos e ilustrações originais da época do autor e familiares. Um posfácio classe.

Mensagem, Fernando Pessoa, 1934 - Mensagem foi o último livro de Fernando Pessoa, o que carrega a célebre frase "tudo vale a pena se a alma não é pequena" e muitas outras também memoráveis. O único livro publicado em vida pelo autor, foi lançado um ano antes de sua morte. Um livro ufanista, que exalta Portugal até não poder mais e reúne o melhor de todos seus heterônimos, um livro que retoma a fé do autor em Deus. Um livro para releituras semanais, sempre que preciso. Também da coleção de Clássicos da Abril, segundo livro que leio. Recomendável tanto para os amantes da boa literatura quanto para os que não sabem por onde começar. E eu nunca sei por onde começar.

O Abusado - O dono do morro Dona Marta, Caco Barcellos - A biografia romanceada de Marcinho VP, um dos maiores e mais comunicativos traficantes cariocas. Mais do que isso, neste livro Caco Barcellos descreve uma cronologia do crime organizado nos morros do Rio de Janeiro. Um livro reportagem, uma biografia, um estudo sociológico, não importa. O Abusado é, sem dúvida um livro excelente e de perfeita fluência para ler dentro do coletivo, por exemplo. Uma das resenhas que li sobre o livro, dizia algo como "para entender o tráfico de drogas é preciso entender os criminosos", mas considero esse um pensamento superficial. Pode-se entender os crimes e as inflexões sociais da pobreza e da miséria através de uma história tão completa e reveladora quanto esta, mas não se pode medir tudo o que acontece em um lugar onde não se vive. O livro é instigante, violento e necessário. Torcer pelo lado certo da vida errada, onde o antagonista é o personagem principal é a receita para uma obra desta grandeza.

Ratos e Homens, Jonh Steinbeck, 1937 - Uma história trágica entre dois amigos de infância que viviam juntos, trabalhando em fazendas com o sonho de juntar dinheiro e adquirir suas próprias terras. Contrastes entre força, inteligência, oportunismo e ingenuidade. Uma história pesada, pra não dizer triste e premeditadamente infeliz. Um ótimo livro, mas não posso dizer o melhor de Steinbeck sem antes ler As Vinhas da Ira. Além de tudo é pocket, curto, rasteiro, eficaz. Outra coisa: Lembrei que o Sawyer lia esse livro em alguns capítulos de Lost.

De bombeta e moletom #3 (mixtape)

por Robson Assis | | 24.8.10 7 Comentários


A ilustração acima é feita pelo Finho, de Salvador-BA. No flickr dele você pode encontrar mais trampos originais desse tipo entre graffitis, desenhos, tatuagens, pinturas e até alguns rascunhos originais. Quem me indicou foi o Bruno, parceiro ouvinte desta singela mixtape.

Esta edição começa com Racionais e, por que não a participação de Mano Brown em Umbabaraúma, do Jorge Ben? Temos uma seção "bate-cabeça", com House of Pain e Delinquent Habits, até um Cypress Hill escondido na versão ao vivo de How I Could Just Kill a Man, do Rage Against the Machine. E vários outros aperitivos nas entrelinhas.

Nessa edição pedi uma ajuda final para meu mano Jefferson, que num Top 3 a la Nick Hornby indicou Mos Def, Facção Central e Dead Prez, sutilmente fechando a lista.

Aprecie via streaming ou faça o download aqui:



01 Racionais, Jesus Chorou
02 Jorge Ben feat. Mano Brown, Umbabarauma
03 RATM Feat Sen Dog & B-Real, How I Could Just Kill A Man
04 Xis, A Fuga
05 Delinquent Habits, Tres delinquentes
06 House of Pain, Put your head out
07 Correria MC, Show de Rap (Part Projota)
08 Dr. Dre f. Eminem, Forgot About Dre
09 MV Bill feat. Chuck D, Transformação
10 Pharoahe Monch, Simon Says
11 Dead Prez, Propaganda
12 Facção Central, Anjo da Guarda vs. Lúcifer
13 Mos Def, The Rape Over

Entrevista com Diego Bernal

por Robson Assis | | 23.8.10 COMENTE!



You find the english version, right here.

Diego Bernal é um beatmaker de San Antonio, no estado norte americano do Texas, cuja música ultrapassa os limites do hip-hop instrumental, fato este que o levou a assinar contrato com uma gravadora de música eletrônica. Bernal nasceu em uma família de educadores, ativistas e intelectuais, o levando a ser advogado de uma organização de direitos civis nacionais em seu país.

Com dois discos lançados - Besides e For Corners -, a música de Bernal parece caminhar sobre a linha tênue do beat puro e instrumental, sem a necessidade do flerte com a rima, uma vez que a complexa intensidade das batidas cumpre bem o trabalho de criar a perfeita ambientação clássica do rap. Samples extrovertidos e harmonicamente precisos se misturam à música latina em suas composições trabalhadas como obras bastante inusitadas.

Gente fina, aceitou tranquilamente essa entrevista por e-mail, em que fala sobre sua carreira, influências, música digital e inclusive sobre o começo da produção de seu terceiro disco Here for Good.

Robazz: Conta um pouco da sua história, em que fase da sua vida você começou a criar beats? Como isso aconteceu?
Diego Bernal: Obrigado, cara. Eu comecei fazendo beats durante o Ensino Médio, só por diversão e com equipamento básico de DJ, nada muito extravagante. Foi algo que amei e fiz por muitos anos, só para mim mesmo. Não foi tão longe, tempos depois um amigo meu, Ernest Gonzalez, que é dono da Exponential Records me convenceu que o material que eu tinha compilado poderia ser usado num disco decente. Eu nunca esperei que as coisas caminhassem nessa direção, mas fico realmente feliz que tenha acontecido dessa forma.

Robazz: E como define sua música, seu estilo?
Diego Bernal: No meu pensamento é hip-hop instrumental, mas eu acredito que outras pessoas ouvem de diversas outras maneiras, e eu gosto disso. É legal, é beat music. Podemos ficar aqui lançando rótulos o dia todo, mas no final o que temos são os beats... com uma corrente latina.

Robazz: Seus discos são distribuídos gratuitamente nessa rede de informação maravilhosa que é a internet. Como você pensa isso da distribuição de música nos nossos dias?
Diego Bernal: Sabe, sou realmente feliz por não depender de venda de discos pra viver. Conheço artistas com muito mais sucesso e carreiras mais prolíficas em comparação com a minha que ainda lutam pra sobreviver. Dito isto, eu adoro a forma que a música permite ser compatilhada e como ela facilmente viaja através do mundo (essa entrevista agora é a prova real disso), mas eu também acho que as pessoas devem se lembrar que se você quer mais dedicação de um artista, você precisa gastar algum dinheiro com ele. Você gosta do primeiro álbum de alguém? Você quer o segundo? Compre o seu disco.

Eu acho que a música digital é ótima, mas eu também acho que isso cria uma cultura onde a música é descartável. As pessoas ouvem alguma coisa uma ou duas vezes, ou por uma semana, e então deixam de lado. É por isso que eu crio álbuns e não simplesmente singles, porque a experiência com a música se torna mais aprofundada e reflexiva. Eu não quero uma aventura de final de semana, quero um romance completo.

Robazz: Na descrição do disco For Corners, "A música caminha entre camadas de música latina, das triunfantes explosões de chifres até o descontraído groove de melodias lowerider" no que a música latina te complementa e quais foram as influências mais marcantes para a sua música?
Diego Bernal: Eu cresci ao redor do hip-hop, country, heavy metal, discos da Motown, Soul da Filadélfia e música latina. Vindo de San Antonio, nós sempre misturamos nossos gêneros. O soul e o funk do estado têm sido minados até a morte, então pensei em colocar um pouco de mim na música e foi isso o que saiu. Se você me dissecar abrindo meus discos, são estes sons que vão se derramar. Se os Native Tongues remixassem meu bairro, estes dois álbuns (For Corners, Besides) são as linhas que, eu acho, resultariam.

Robazz: A pergunta padrão, conhece algo da música brasileira?
Diego Bernal: Eu conheço um pouco. Não muito e não o suficiente. Compartilha aí, me diga o que ouvir. Sou todo ouvidos.

Robazz: O que você tem ouvido ultimamente?
Diego Bernal: Mexicans With Guns, Flying Lotus, Led Zeppelin, Sharon Jones, The Roots, Erykah Badu, Trio Los Panchos, DJ Dus e o El Michels Affair.

Robazz: Diga-nos sobre os próximos projetos na sua carreira.
Diego Bernal: Tenho alguns remixes pra fazer, e a partir daí eu estou realmente pensando em começar a trabalhar no meu terceiro disco. Eu não espero finalizá-lo até o início de 2012, então curtam o que está disponível! Eu posso te dar o título desse novo trabalho que eu tenho até então, chama-se: "Here for Good". É uma espécie de busca da minha vida dentro e fora da música.

Robazz: Deixe sua mensagem para os beatmakers brasileiros.
Diego Bernal: Acredite em você mesmo. Trate seus trabalhos como arte, não como mercado. Você é bom, é melhor do que imagina. Mais importante de tudo, encontre uma sonoridade que seja sua. Se você fizer isso, todo o resto vai se tornar mais fácil.

Site oficial: http://diegobernal.net

Salve o Manos e Minas #salveomanoseminas

por Robson Assis | | 6.8.10 1 Comentário

"Tamo vindo aqui do sul pra falar de hip hop
É nosso jeito se ser, preocupaçao não é ibope
É idéia que somos, é o dia após o outro
É morrer e renascer de novo"

--Da Guedes, Minha Cultura

Até onde sabemos, a TV Cultura vai cancelar a exibição do programa Manos e Minas, último suspiro da cultura de rua na programação da TV aberta, agora prestes a ter um fim como o Yo! MTV Raps, dos anos 90.

Desde ontem, no Twitter, acontece uma enxurrada de protestos através da tag #salveomanoseminas, com o intuito de transmitir o descontentamento da cultura hip-hop com a decisão já tomada pelo presidente da Fundação Padre José de Anchieta, João Sayad. A tag entrou no Trending Topics de quinta-feira, entre os assuntos mais comentados na rede social.

A legião de seguidores do hip-hop não é ingênua e sabe das consequências que um protesto como este podem ter. Não é preciso acreditar que esta grande quantidade de tweets vão ganhar forma e serão ouvidos, uma vez que as decisões burocráticas e de mercado envolvidas tiveram peso que não podemos medir. Além do Manos e Minas, outros excelentes redutos de informação cultural como os programas Vitrine e até mesmo o recente Login serão extintos da grade.

Deste modo, o debate e a posição dos usuários quanto ao fim da exibição do programa - ainda que com a possibilidade de ser apenas um tiro seco no escuro - denota uma cultura com mais foco, que sabe por quais caminhos utilizar suas forças e propagar sua mensagem. Isso se torna mais visível nos momentos de adversidade que acompanham toda a história do movimento.

"Quero idéia e flow, saca?
Direto eu vejo Hip-Hop na maca,
Com gente igual eu dizendo: 'Pelo amor de Deus, doutor'
E vários lá sugando como se a cultura devesse um favor"
--Emicida, Hey Rap

O escritor e agitador cultural Alessandro Buzo, que apresentava o quadro Buzão - Circular Periférico resume em seu blog a responsabilidade do programa para a cultura "encarava o Manos e Minas como um trabalho e uma missão (mostrar a periferia que o Datena não mostra)".

Os meios de contato com a TV Cultura estão abertos e devem ser utilizados pelo público que quer a continuidade do programa. É possível protestar através do Fale Conosco no site, ou mesmo através de replies para o perfil @tvcultura no Twitter. Ou ainda através da tag #salveomanoseminas que continua com força nesta sexta-feira.

Os livros de julho

por Robson Assis | | 4.8.10 4 Comentários

J.R.R. Tolkien, Senhor dos Anéis vol. 1, A Sociedade do Anel - Provavelmente todos conhecem a história de Frodo, Gandalf, Aragorn e Bilbo, o bolseiro. Menos eu, que assisti os dois primeiros filmes sem dar a devida importância. Embora o tamanho da saga (3 livros de 300, 400 páginas e outros dois livros adicionais O Hobbit e Silmarillion) assuste os primeiros olhares, se mostram tranquilos e envolventes na medida do possível. Este primeiro livro parece preparar o terreno para os outros todos, descrevendo histórias, contos e cantos da Terra-Média até que você esteja completamente submerso ao mundo criado por Tolkien. Não menos sensacionais são os processos de identificação com os personagens, de maneira que você pode ser surpreender ao perceber que está falando daquele pilantra do Boromir, como um antigo amigo seu que perdeu a confiança. Além, de tudo, a natureza a descrição dos lugares e dos povos garante a perfeita sensação de já ter conhecido aqueles lugares e pessoas.

Caco Barcellos, Rota 66 - Uma crítica densa aos policiais da ROTA, de São Paulo, do pós ditadura ao começo anos 90, quando a obra foi lançada. O ponto de partida é o caso que dá nome ao livro, o assassinato de três jovens de classe alta, num bairro nobre da capital. Em cada caso, o autor utiliza os argumentos de uma perícia que nunca existiu neste tipo de crime, envolvendo os vigilantes das ruas. Aponta ainda diversas falhas do sistema jurídico, em que muitas vezes as provas e depoimentos são omitidos e/ou esquecidos quando se trata de acusar policiais. Who watch the Watchmen?, sabe? Sem esquecer o papel amendrontado de hospitais públicos forçados a receber corpos de vítimas já mortas como se estivessem em estado grave, uma prática comum aos assassinos da ROTA, como se pode verificar através do banco de dados criado pelo jornalista. O que poderia ser um livro de ficção quase fantasmagórico e apelativo, é uma realidade crua e que faz parte do cotidiano dos bairros pobres da periferia de grandes cidades. A cada caso, uma família despedaçada pelo acaso de atravessar o caminho de uma Veraneio cinza.

Charles Baudelaire, Escritos sobre arte - Quatro ensaios sobre arte do poeta e escritor de Flores do Mal - que mais tarde descobri ser também um ensaísta e crítico influente. Formato pocket book, mostra-se uma leitura (a) hábil quando dos detalhados conceitos como no ensaio sobre o riso, (b) densa quando trata de arte filosófica e (c) amável quando fala sobre a vida e obra de Montaigne. Um livrinho quase imperceptível para uma estante, um livro gigante para coroar a mente com conceitos artísticos e formas de expressão crítica.

Racionais pra tudo

por Robson Assis | | 20.7.10 1 Comentário


Visita obrigatória para fãs e ouvintes de Racionais MC's é o Tumblr Racionais pra tudo. O conceito é utilizar frases do grupo de rap relacionadas à imagens inusitadas porque "Pra tudo nessa vida (loka) existe uma rima dos Racionais, sugere a descrição do blog. Irreverente e descompromissado, dá pra perder umas boas horas navegando pelo histórico.

O primeiro livro que li na vida

por Robson Assis | | 8.7.10 4 Comentários

Ontem, no Jornalirismo, encontrei uma bela crítica sobre o primeiro livro que li na vida: O gênio do crime, de João Carlos Marinho. Hoje, lendo meus feeds pela manhã, encontro no blog do Alessandro Martins uma corrente de blogueiros, para falar sobre seu primeiro livro. A corrente foi iniciada no blog da Flávia Durante e segue por aqui.

O gênio do crime é uma história simplista e ficcional, sobre o mercado negro de figurinhas da Copa do Mundo. Os personagens principais são garotos que se transformam em detetives colhendo pistas e procurando pistas, caminhos inversos.

Não foi Flaubert, Jorge Amado ou os Contos de Machado de Assis. Acho que só me apaixonei pela leitura por ter começado a ler como uma criança, para mais tarde me encantar com novas fábulas, outras idéias.

Pra gostar de literatura, pra se apegar aos livros, o que você lê precisa estar em conformidade com seu estado de espírito. Ler todos os clássicos da literatura até a quinta série tem mais poder para criar alunos desinteressados do que para ensiná-los a gostar mais de um livro do que de um programa de televisão.

Meus livros posteriores foram de uma coleção de contos infantis ilustrados de Hans Christian Andersen. Aos 11 anos, queria ler mais, sempre que ia ao mercado com meus pais ficava vendo os livros, na esperança que me comprassem um exemplar do Paulo Coelho (As capas eram demais naquela idade). E, bem, só estou contando isso porque nunca ganhei nenhum livro do mago. Talvez - deixando de lado minha opinião sobre os livros do autor - tenha sido melhor assim. Não me imagino pré-adolescente lendo histórias de ocultismo.

A edição de O Gênio do Crime era emprestada da biblioteca da escola. Lembro de ter ido na Bienal do livro de SP quando pequeno, poucos anos depois. Perguntei - melhor, pedi pra minha mãe perguntar - sobre o livro e, na época, estava esgotado.

Só pude encontrá-lo novamente anos atrás, de passagem, num sebo/banca de jornal, no Taboão da Serra, SP. Estremeci quando peguei a edição tão antiga quanto a que eu tinha lido pela primeira vez. Cena de filme. Mesmo.

***

Seguindo a corrente, convido vocês Leonardo Pollisson, Sandra Camargo, Jessica Balbino, Bruno Rico, Sérgio Vaz e Juliana Cunha que escrevam também um post sobre o primeiro livro de suas vidas.

E vocês, amigos, sintam-se à vontade também para escrever sobre seus primeiros livros! Deixem o link aqui no box de comentários. =)

Os livros de junho

por Robson Assis | | 7.7.10 1 Comentário

Sandman ed. definitiva vol. 1, Neil Gaiman - Sandman é uma obra de 75 volumes. Neste primeiro livro da edição definitiva, são os primeiros 14 deles. A história do rei dos sonhos. Você termina com vontade de engolir todos os outros. Sandman passeia pelos sonhos, pelo inconsciente, criando medo ou felicidade no mundo dos sonhos de cada ser humano. Não me lembro exatamente o nome, mas tem um capítulo sobre gatos sensacional. A história dos colecionadores de órgãos também é invejável. Embora a mais espetacular de todas seja a do homem que queria ser imortal, seguida daquela sobre a obra Uma noite de Verão de Shakespeare, que, no universo DC, teria sido escrita por Sandman. Tudo num climão sombrio, afinal, Sandman é um personagem gente fina, mas sempre com esse ar misterioso de imortal. Nunca encontrei um quadrinho tão completo em toda minha vida.

Cartas a um jornalista, Voltaire - O livro é dividido em duas partes. Na primeira, elementos do jornalismo da forma que são estudados na faculdade, na outra escritos do autor para jornais de sua época. Interessante como algumas regras ou valores não precisam ser datados. É um livro sobre crítica, como escrever bem uma crítica sobre arte de forma subjetiva e coerente, sem perder foco na narrativa para que seus leitores ainda o aturem. Um livro excelente, que deviam ter me indicado antes. Termina com uma crítica positiva às obras de Delacroix pouco após sua morte. Livro da coleção Voltaire Vive, da editora Martins Fontes. Faltam três.

Cândido, Voltaire - A saga filosófica no melhor dos mundos possíveis. A história envolve ingenuidade e o-mundo-lá-fora, contradições, otimismo exagerado e fuga da frustração. Traz também uma moral sobre causa e efeito de causar arrepios, além da frase chavão do autor "Tudo isso está bem dito... mas devemos cultivar nosso jardim". Um clássico leve, uma saga muito bem feita. Na introdução dizia que foi um dos primeiros contos que tratavam temas filosóficos de maneira aberta e pouco demagoga. Livro da coleção Voltaire Vive, da editora Martins Fontes. Faltam dois.

A Origem da Desigualdade do Homem, Rousseau - O filósofo que disse que o homem nasce bom e a sociedade que o corrompe, falando sobre a natureza, sobre as nuances e falta de entendimento entre o homem selvagem e civilizado, sobre como chegamos a desigualdade no século XVIII e como tudo poderia piorar. Um clássico intocável ou como diz aquele site uma crítica feroz e contundente contra a sociedade moderna e um grito de alerta sobre a exploração do homem pelo homem. O livro é de uma coleção da editora Escala que era vendida anos atrás em bancas de revista por R$ 4,90 cada exemplar. Se alguém souber de alguém que sabe de alguém que tenha, por favor avise no box de comentários.

Persépolis, Marjane Satrapi - Uma auto biografia em forma de graphic novel. O crescimento de uma garotinha numa família progressista do Irã em meio à revolução islâmica. Questões como o uso do véu, a opressão policial e a determinação por um estilo de vida ditado pela revolução são tratadas com maestria pela autora. Enquanto cresce, Marjane vai entendendo o que se passa. Fala de Deus, do Xá, de Marx e Bakunin. Livro leve, fácil de compreender e entrar no clima da história. Difícil de largar desde o começo. A edição da Companhia das Letras apresenta os três volumes compilados.

***

Escrito às pressas, me perdoem, amigos. O lado corporativo da minha vida anda cada vez mais tenso, pra deixar às claras. 24 x 7, tá ligado. Mas vamo aí, como diz a música: "tá com medo de que? Nunca foi fácil, então junta seus pedaços e desce pra arena".

(R)evolução é uma coisa

por Robson Assis | | 15.6.10 COMENTE!

Em 2008, o programador Vinicius Kmax causou uma pane na edição Brasileira da Campus Party, evento anual de tecnologia que acontece em vários lugares do mundo. A reação dos organizadores foi menos sadia que a intenção da brincadeira. Kmax foi repreendido e, inclusive, processado pela Telefônica, alvo do "ataque".

Dois anos mais tarde, a mesma Campus Party ainda patrocinada pela mesma empresa convidou para uma de suas palestras Kevin Mitnick, ex-hacker norte-americano que roubou dados de grandes empresas como Nokia e Motorola e que hoje trabalha como consultor de segurança. Não vou julgar o assunto, uma vez que o Gravataí Merengue escreveu esse excelente texto sobre a ironia contida em tudo isso.

Mesmo Brasil, mesmos anos e praticamente a mesma história. O grupo que atacou o vão livre da Bienal em 2008, entra pelas portas da frente do evento. Ainda marginalizada, pouco entendida e desvalorizada, a pichação faz parte da programação da 29ª Bienal de São Paulo como ponto focal de discussões sobre arte e política, exatamente pela subversão da ordem ocorrida em 2008, que ganhou destaque após a prisão da gaúcha Caroline Pivetta da Mota.

Em entrevista ao IG, o pichador Djan Ivson, um dos responsáveis pela ação de 2008 afirma que "a luta na realidade é de legitimar a pichação como cultura brasileira, mas sem tirar nada da essência dela".

Os dois casos tratam de falta de aceitação e oportunidade, repudiados com ações drásticas e julgados de maneira antiquada dados os seus meios (internet e arte). Tanto na história de Kmax quanto na dos pichadores, fica claro que a evolução de pensamento seja de quem patrocina, divulga ou simplesmente aprecia determinado assunto depende também de alguns equívocos que resultem numa visão mais panorâmica da realidade e na ampliação do pensamento.

Mano Brown, Jorge Ben, Zegon, Ganjaman, amém

por Robson Assis | | 14.6.10 2 Comentários

Começo este texto dizendo que corro o risco de passar por fã.

Tem essa parada. Gosto mais dos raps gringos que levam ao passado com bases de violino ou acústicas, com backing vocals gospel, sem o carrasco do auto-tune, sem as batidas chapadas de efeitos eletrônicos. Aquela música que faz você lembrar de 2Pac, Notorious, Wu-Tang Clan e Ruff Riders.

Em comparação, os raps nacionais têm o mesmo efeito quando são misturados à música popular de qualidade. Faz você se sentir a vida sendo contada por gerações diferentes do mesmo universo.

Mano Brown, sua rima, sua levada e sua voz são patrimônios históricos da música brasileira. Tais quais os acordes de Jorge Ben, os refrões vívidos e suas eternas vocalizações. Sem contar com a produção de Daniel Ganjaman e DJ Zegon.

E a Copa do Mundo sob seus pés.



É, passei por fã.

Os livros de maio

por Robson Assis | | 2.6.10 3 Comentários

Leite Derramado, Chico Buarque - Um livro de lamentos. Segunda obra que leio deste autor e como no best seller Budapeste, ao final, chego à sensação de ter lido uma letra de música contada em diversos capítulos. Uma leitura rápida, recomendável e simplista. A história de um senhor internado em um hospital, que relembra fatos de sua infância e adolescência, o poder quase imperial que era designado aos membros de sua família em tempos mais remotos. O grande trunfo é contar histórias através da visão burguesa de um velho à beira da morte, cuja consciência lhe oferece um grande combate afim de não se repetir ou contradizer. A frase mais marcante deste livro: "Se com a idade a gente dá para repetir casos antigos, palavra por palavra, não é por cansaço da alma, é por esmero". Vale a leitura casual, esperta e despretensiosa deste grande autor.

Olho de Gato, Margareth Atwood - Ao receber um convite para ser homenageada em Toronto, no Canadá, cidade onde foi criada, a pintora Elaine Risley começa a refazer toda a trajetória de sua vida por meio de recordações da infância, adolescência até a maturidade. A relação estreita e confusa com seu irmão aficcionado por ciência, seu pais que não cumpriam o papel de maneira significativa como ela via em outras famílias até a amizade com Carol, Grace e Cordelia, amigas de infância, que impunham restrições e pesados jogos psicológicos sempre que podiam. No meio deste embaralhado contexto de convivência pessoal, a protagonista passa a formar uma consciência sólida controversa e baseada naquilo que aprendeu a esquecer. Suas amigas passam, com exceção de Cordelia, amiga que Elaine leva consigo, ao menos em pensamento. Uma história bonita, sobre amadurecimento, mas principalmente, sobre a forma que as pessoas e situações de nossas vidas têm numa visão enriquecida pelo início da velhice.

Resumos da Semana

por Robson Assis | | 29.5.10 COMENTE!

Montei um esquema para não perder atualizações aqui. Sábado é o dia das paradas que vi durante a semana, seguem as principais. Tipo um "links de sexta" daqueles blogs nerds, mas com algo mais interessante que vídeo cassetadas, montagens e memes.

2012, ou quase isso, no http://ryotiras.com/

Laerte, dispensa introduções.

Mallu Magalhães se fazendo entender em uma entrevista! Claro que é sacanagem do Cala a Boca, Piangers, um blog sensacional por sinal, vale a leitura.



Cor no Capão Redondo, matéria do Catraca Livre sobre o projeto do arquiteto Marcelo Rosenbaum que está fazendo uma espécie de revitalização no bairro.

Tratamento contra o crack?, a polêmica experiência sobre o tratamento de viciados em crack feito baseado em uma terapia com maconha. Dartiu Xavier, professor de psiquiatria da Unifesp e especialista em dependência química abandonou o projeto por medo de ser tratado como marginal ou traficante. Uma excelente cobertura de Gilberto Dimenstein sobre o caso.

Per Raps Entrevista Amanda Diva, primeira parte da matéria com a rapper de descendência caribenha com jeitão de brasileira, formada em estudos afro-americanos, designer e dedicada às artes plásticas com opiniões muito abertas sobre a música independente.

De bombeta e moletom #2 (mixtape)

por Robson Assis | | 26.5.10 COMENTE!


A segunda edição da mixtape tem um som à capella do Emicida, mashup com Notorious e The XX, além de várias outras coisas novas, desde o peso do Cypress Hill com participação de Tom Morello (Rage Against the Machine) até a excelente "Hora de Acordar", do Rashid, música que também intitula seu novo EP.

A arte que ilustra o post é uma prévia de como está ficando o novo trampo d'Os Gêmeos em parceria com BLU e SAM3 em Lisboa. Dá uma conferida na cobertura fotográfica feita pelo blog Stick 2 Target e acompanhe o processo de criação.

E ouça (ou baixe - porque estou usando o modo imperativo ao extremo?) a playlist com carinho!



01. Eu quero ver quando a quarta-feira chegar, EMICIDA
02. Juicy, Notorious B.I.G vs. The X.X
03. Strangers, Reflection Eternal feat. Bun B
04. I rep that West, Ice Cube
05. Reflections, Atmosphere
06. Hino do Rei, Sandrão
07. Rise Up, Cypress Hill & tom Morello
08. Protagonista, Lívia Cruz
09. Hora de Acordar, Rashid
10. Viver, Bruce Slim Beats part. Rael da Rima, Coruja, Barcelona e 100%
11. Smooth Sailing Remix, Wu Massacre

What about LOST?

por Robson Assis | | 24.5.10 2 Comentários


Meu ponto final sobre a série que mais se fala por aí.

LOST foi uma série sobre o ponto de fusão entre ciência e fé, incluindo viagens no tempo e realidades alternativas relacionadas com a crença de que os dias melhores sempre chegam. Mais do que isso, fala sobre como você pode estar buscando o caminho errado fazendo o que parece ser a coisa certa ou o contrário disso.

Para conseguir uma boa moral da história produzindo um seriado cool, J.J Abrams incluiu todas estas questões morais em paralelo à uma queda de avião com sobreviventes em uma ilha esquecida pela humanidade. Um mote simples que por si só já resultaria em um bom roteiro de ação e aventura - lembra de O Náufrago? - mas que, quando agregado à primeira idéia, adiciona ficção e drama em sua receita.

O que também ajudou a colocar a série em outro degrau distante do convencional foram as referências a livros e filósofos. Personagens como John Locke, Desmond David Hume, Danielle Rousseau, Mikhail Bakunin, além de outras diversas citações literárias, como Ratos e Homens, O Senhor das Moscas, Ardil 22 e O Mágico de Oz. Ainda que, no fundo, sejam apenas citações e não tenham íntima relação com o resultado final da obra, são signos que oferecem grande impacto ao espectador.

Acredito que o resultado final de LOST traz paz a muitas questões e a toda mitologia criada ao seu redor. Claro que não para os que teorizaram demais, este nicho de fãs neuróticos para o qual qualquer final seria incompreensível, vendido e decepcionante.

Interessante saber como os consumidores de cultura atualmente já não se contentam mais em saber apenas o que acontece nos livros, filmes ou séries. São necessários jogos interativos, fóruns, notícias meticulosas com ou sobre os criadores, spoilers inusitados às vezes, inclusive, falsos. Tudo isso cria uma nova categoria relacionada àquele produto em especial, destinada a atender outros novos fãs e espectadores.

Mas OK, não vou entrar nos méritos do impacto social criado pela série, porque o especial LOST no blog Trabalho Sujo, já disse tudo o que eu poderia pensar em dizer, com direito a um manuscrito do filósofo Gilles Deleuze. O especial conta também com textos de grandes referências da internet, inclusive do próprio Alexandre Matias, que é dono do blog e editor-chefe do caderno Link, do Estadão. Vale conferir.

Os livros de abril

por Robson Assis | | 5.5.10 1 Comentário

Mês do meu aniversário, acabei lendo bem pouco.

A Tragédia de Eloá, Márcio Campos - A história da garota que revelou em rede nacional a que extremos pode chegar um relacionamento doentio. Impressiona pelo relato de um dos jornalistas que faziam a cobertura na ocasião. Distante do modelo habitual de livro reportagem, mas interessante para captar os aspectos subjetivos de um jornalista profissional. Um livro curto e preciso, em que Márcio Campos deixa clara sua opinião sobre os diversos aspectos que envolveram a notícia: a família de Eloá elevada e livre de culpa, a família de Lindemberg como uma ponta distante da árvore genealógica dos Earnshaw, personagens épicos de Emily Bronte, a posição falha e inescrupulosa da imprensa, oportunismo, ações despreparadas da polícia. Tudo isso, dito por alguém que estava no front. Indicado para estudantes de jornalismo e entusiastas de crítica de mídia.

Amor Lúbrico, Vários autores - Um livro com altos e baixos extremamente bem definidos. Dividido em duas partes, é resultado de um concurso para escritores realizado pela prefeitura de Suzano, em São Paulo. Em uma comparação talvez injusta, o primeiro bloco do livro, com poesia é melhor que o segundo, que reúne contos. Os poemas são realmente bons, mesmo os que não gostei não consegui classificar como ruins. Embora a segunda parte da obra tenha me desapontado um pouco, encontrei algumas criações literárias excelentes. Antes que me esqueça, a antologia teve a proposta de tratar sobre as doenças sexualmente transmissíveis e os riscos do sexo sem proteção, ou seja, hedonismo nova escola em alta voltagem.

***
E a biblioteca pessoal, que devia estar diminuindo, não supre meus consumos momentâneos. Domingo passado comprei uma versão pocket de Por que ler os Clássicos, de Italo Calvino e na terça, outros três exemplares da coleção Clássicos Abril Coleções, que a muito custo está abastecendo minhas prateleiras e enchendo o quarto de alguma cor.

O RAP foi pro CEU

por Robson Assis | | 30.4.10 COMENTE!

Em 2007, após o confronto com a PM após a fatídica quase-apresentação do Racionais MCs na Virada Cultural, o RAP e seus seguidores foram execrados pela imprensa que habilidosamente culpou a música e os fãs, criando nas pessoas um sentimento de revolta por um estilo musical visto apenas como violento e errado. Não era difícil ouvir de conhecidos que o RAP não devia estar ali, uma vez que um evento deste porte não podia apoiar este estilo de música marginal.

A diminuição da presença do RAP nas edições posteriores já era esperada. Em 2008, restringiram as apresentações a um palco - o único com revista policial. Em 2009, apenas uma apresentação de DJs no centro e uma programação esparsa pelos CEUs da capital.

Em 2010, a organização da Virada Cultural restringiu os shows de RAP aos CEUs da cidade e dois shows na Pista Santa Ifigênia (Thaíde e Cabal). José Mauro Gnaspini, diretor do evento, afirmou em coletiva de imprensa que o RAP e seus entusiastas precisam buscar o seu espaço novamente: "mas aí tem que ser um passo de cada vez, quer dizer, a gente faz uma pista, não tem problema, mostra pra todo mundo que não tem problema, introduz um nome, introduz outro, e aos poucos a gente vai reconquistando esse espaço".

Gnaspini entende a importância do hip-hop para a cidade de São Paulo, diz ser também entusiasta e confessa ainda o erro da organização na edição de 2008: "em vez de premiar acabamos segregando sem querer".

Portanto, na edição de 2010, o Hip-Hop ficou restrito a pequenos e mais afastados shows. Embora tenhamos ainda Rapin Hood, EMCIDA, Nelson Triunfo, Záfrica Brasil, B Negão e outras atrações, este sem dúvida não é o suporte ideal que se esperava num evento do tamanho da Virada Cultural.

PROGRAMAÇÃO DE RAP NA VIRADA CULTURAL 2010
CEU - Lajeado
R. Manuel da Mota Coutinho, 293 - Lajeado
17h00 - Rappin Hood

CEU - Sapopemba
R. Manuel Quirino de Matos, s/nº - Sapopemba
18h30 - Damata
16h00 - Nelson Triunfo

CEU - Vila Curuçá
Av. Marechal Tito, 3.400 - Vila Curuçá
18h00 - EMICIDA

CEU - Vila do Sol
Av. dos Funcionários Públicos, 369 - Jd Angela
19h00 - Z'áfrica Brasil
17h00 - Bnegão

\\Programação completa em: http://viradacultural.org/programacao

Os Brasis

por Robson Assis | | 27.4.10 COMENTE!

Para carregar os dois e assistir na ordem alfabética!


O RAP pode mudar o mundo?

por Robson Assis | | 19.4.10 3 Comentários

Foto por Luciana Faria a.k.a Playmobeats

Estava produzindo um texto gigante sobre como o RAP se afastou de seu cunho social. Qual o verdadeiro papel social do RAP na cultura hip-hop, que obrigações poderia ter e que direitos poderia reservar. Separei tudo em tópicos e subtópicos, com explicações resumidas e conclusão em três partes. Considerei um bom tema para um TCC futuro - se um dia eu precisar fazer outro.

E então, como que por um toque divino de "esquece isso aí", encontrei essa introdução de "O Retrato de Dorian Gray", clássico de Oscar Wilde:
"O artista é o criador de coisas belas.
O objetivo da arte é revelar a arte e ocultar o artista.
O crítico é aquele que sabe traduzir de outro modo ou para um novo material a sua impressão das coisas belas.
A mais elevada, tal como a mais rasteira, forma de crítica é um modo de autobiografia.
Os que encontram significações torpes nas coisas belas são corruptos sem sedução, o que é um defeito.
Os que encontram significações belas nas coisas belas são os cultos, Para esses há esperança.
Eleitos são aqueles para quem as coisas belas apenas significam Beleza.
Um livro moral ou imoral é coisa que não existe. Os livros são bem escritos, ou mal escritos. E é tudo.
A aversão do século XIX pelo Realismo é a fúria de Caliban ao ver a sua cara ao espelho.
A aversão do século XIX pelo Romantismo é a queixa de Caliban por não ver a sua cara ao espelho.
A vida moral do homem faz parte dos temas tratados pelo artista, mas a moralidade da arte consiste no uso perfeito de um meio imperfeito. Nenhum artista quer demonstrar coisa alguma. Até as verdades podem ser demonstradas.
Nenhum artista tem simpatias éticas. Uma simpatia ética num artista é um maneirismo de estilo imperdoável.
Um artista nunca é mórbido. O artista pode exprimir tudo.
Sob o ponto de vista da forma, a arte do músico é o modelo de todas as artes. Sob o ponto de vista do sentimento, é a profissão de ator o modelo.
Toda a arte é, ao mesmo tempo, superfície e símbolo. Os que penetram para além da superfície, fazem-no a expensas suas. Os que lêem o símbolo, fazem-no a expensas suas.
O que a arte realmente espelha é o espectador, não a vida.
A diversidade de opiniões sobre uma obra de arte revela que a obra é nova, complexa e vital.
Quando os críticos divergem, o artista está em consonância consigo mesmo.
Podemos perdoar a um homem que faça alguma coisa útil, contanto que a não admire. A única justificação para uma coisa inútil é que ela seja profundamente admirada.
Toda a arte é completamente inútil."
E com toda a discussão sobre os novos trilhos do RAP nacional, cheguei a conclusão de que não vale questionar a responsabilidade da arte pelo meio social. A música deve ser entendida como uma expressão ou desabafo, um resultado do que o artista tenha a expor ou interpretar. Pode também ser analisada como uma ferramenta, mas apenas como um fim em si mesma. Para ilustrar: Um garoto pode usar o rap para se livrar do ócio e da criminalidade, mas isso não quer dizer que sua produção artística tem obrigação de ser panfletária ou assistencialista. Esta "ferramenta" já faz efeito quando um garoto deixa o crime para se tornar um artista. O que ele vai dizer quando estiver sobre os holofotes é consequência.

O problema de encarar essa nova visão é ter sido "criado" em uma cena em que a expectativa sobre o rap era inversamente proporcional ao espaço e investimento disponível aos artistas. Isso criou um estilo musical controverso e marginal, que entre erros e acertos evoluiu muito. Hoje, acredito que todos sabemos, a LAPA é um celeiro de grandes artistas, o mesmo Racionais que fazia shows na Favela Godoy, faz shows na Europa e o Indie Hip-Hop vai bem, obrigado.

Continuo ouvindo os mesmos Realidade Cruel, A286, Racionais, GOG, Visão de Rua e NDee Naldinho, mas entendi porque comecei a prestar maior reverência a artistas da nova escola que ultrapassaram a barreira do rap denúncia e trataram temas menos restritos que a crítica social. Entendi os moleques que me xingaram no Youtube quando comentei em caráter pejorativo o clipe do Pixote com participação do Helião. O que entristece é o fanatismo em torno de artistas com pouco a dizer e a embaçada visibilidade para alguns rappers mais afiados.

Finalizo ainda com a frase principal deste texto de Oscar Wilde supracitado:
"A diversidade de opiniões sobre uma obra de arte revela que a obra é nova, complexa e vital."

Ainda acredito que o RAP possa mudar o mundo. Não com a mesma inocência e rebeldia, mas como um estilo musical livre, consistente e aberto a reflexão.

Vatos Locos, Ese! - Cabron Set (mixtape)

por Robson Assis | | 1.4.10 1 Comentário


A mixtape de hoje é produção do Thiago DJ, amigo de vários shows de hardcore e rolês insanos na Block Rockin Beats, festa que na época rolava toda sexta-feira na Toy Lounge (hoje é no Kitsch Club). Agitador cultural, toca no IDHC, Inferno, Bleecker Street e outros. Cabron é um set com o melhor da música latina, de Jennifer Lopez a Cypress Hill, este último já reverenciado por ele em outro set intitulado Hits From Tha Bong. Veja a agenda do malandro no fotolog.

Arte por meu parceiro em vários projetos musicais Leandro "From" Andrade, que também é designer profissional, ilustrador e grafiteiro nas poucas horas vagas. Também um admirador de Marcados pelo Sangue. No Flickr você encontra muitos dos seus trampos.



01. Cypress Hill Ft. Marc Anthony & Pitbull - Armada Latina
02. Mellow Man Ace - Mas Pingon
03. Molotov - Gimme Tha Power
04. Psycho Realm & Delinquents Habits - Midnite Spin
05. El General - Pun tun tun
06. Frost - Mari
07. DJ Muggs & sick Jacken - El Barrio
08. Control Machete - Compreendes Mendes
09. Molotov - Rap, Soda & Bohemia
10. Agrupasion MAmanis - Himno del Cucumelo
11. Delinquents Habits - Tres Delinquents
12. Frost - La familia
13. Eric Bobo Ft Cultura Londres & Kemo the Blaxican - Fiesta
14. Los Poca Soda - Passo Mal
15. Todos Tus Muertos - Scubidu
16. Todos Tus Muertos - Andate
17. Gerardo - Rico y Suave
18. Kid Frost - La Raza
19. Mellow Man Ace - Mentirosa
20. Red Hot Chilli Peppers - Cabron
21. Jim Carrey - Cuban Pete (Arkin Movie Mix)
22. Molotov - Puto
23. Afrika Bambaataa - Electro Salsa (Thiago DJ Extended Version)
24. Ari Borger - Latin Funk
25. DJ Laz & Danny D - Sopa de Caracol
26. B.O.S.E. - Vamos a la playa
27. DJ Laz - Mami El Negro
28. Jenifer Lopez - Lets Get Loud