O rap e uma pequena analogia sociológica. Tá um saco dizer tudo isso com as mesmas palavras que todo mundo já fez por aí. Basta procurar. Então aqui, não se citam artistas, celebridades, mainstream, sequer música. É apenas uma analogia simples pra entender tudo o que está acontecendo com a música rap no Brasil em 2011.
Cenário I - Disneyland, aqui vamos nós
Imagine um país, escondido do mapa, culturalmente crucificado por transgredir alguns padrões e normas. Um país com algumas deficiências, mas em constante crescimento, ainda que pacato. Imagine que as pessoas que construíram esse país têm a pátria estampada em seus corações, respiram a parada, fazem de tudo para que o país um dia se torne uma grande potência e possa conversar com os grandes, frente a frente, sem as barreiras erguidas pelo cinismo alheio. E aí, imagine que brecha seguida de brecha, o país começa a conquistar um certo espaço, ter uma certa visão entre os grandes. E que o resto do mundo comece a entender que o caráter transgressor de uma época é preciso ser contextualizado e estudado como parte da história daquele país. E agora que as coisas começam a caminhar bem, com todo esse apelo da mídia mundial em cima daquele país, ele comece a se tornar pop. Seus grandes avatares estampando a capa das revistas, seu estilo de vida sendo estudado minuciosamente por nichos de elite que nunca antes cogitaram tocar no assunto. Seus grandes mestres, outrora vistos como utópicos e desnecessários, transformados em formadores de opinião. E aí o país se torna o centro das atenções. Todo mundo fala do país. Todo mundo ama aquele país desde pequeno. Começa um verdadeiro êxodo, de quem nunca havia conseguido aturar ou assimilar o que aquele país costumava pregar. As pessoas começam a vir morar no país, vislumbrados pelas possbilidades, dão belos passeios pelos centros povoados, quebram algumas redomas de vidro, alguns preconceitos, alguns tabus, começam a ouvir falar de assuntos e enfoques os quais nunca prestaram a devida atenção. É tudo diversão. É tudo descoberta, embora esse bando de turistas não consiga dar a devida atenção para os habitantes naturais que construíram aquele país, pois estão olhando, ainda boquiabertos, tudo o que foi construído com o tempo.
Cenário II - Nascido e criado
Era tudo festa. A organização do nosso país impressionava, grandes eventos, comemorações ano após ano, festejando a última dúzia de meses em que batemos de frente, ou que escapamos com a cabeça erguida. E então as cidades começaram a encher. Os aluguéis de nosso país encareceram, ficou muito mais difícil manter o convívio saudável (com alguns atritos esparsos) que tínhamos antigamente. Talvez seja possível envolver todos esses novos habitantes de uma maneira que eles se sintam cada vez mais em casa, que comecem a se acomodar, espalhar seus pertences pela sala e, em troca, a cuidar disso aqui como um lugar também deles. Acho que se eu pudesse deixar uma mensagem para todos esses novos visitantes, é a de que você não deve sujar a casa de quem deixa as portas abertas para você entrar. Chegue com cuidado, seja lisonjeiro e vamos crescer todos juntos, é tudo o que espero. Mas é preciso esperar. Porque vivemos uma época de épicos, em que tudo é extravagante, excelente e maravilhoso, até que algum monitor conservadorista comece a arrebanhar novamente sua população desgarrada. E aí, os turistas vão embora. Os que restarem, talvez terão assimilado no coração tudo aquilo que o país pode lhe oferecer. E quanto a nós? Acredito que essa pergunta ofenderia muita gente como eu, afinal, nós estamos aqui há tanto tempo que não sabemos como viver de outro jeito.
Cenário III - Num fórum 'fechado' de grandes sociólogos
Era um país pequeno, que não mostrava empecilhos, que sequer fazia cócegas em nossa estrutura. Era um país ao qual não dávamos a mínima, achávamos pedante, panfletário, isso apenas pra não dizer de seus modos repugnantes, seus trejeitos moralistas, antipáticos. Seu linguajar único e suas roupas pavorosas. Em uma conspiração pra ditar a nova moda, o país entrou na onda, virou manchete, dava os primeiros sinais que poderia se tornar um problema caso deixássemos. E começou a crescer, as pessoas se movimentaram querendo descobrir o que poderia ser extraído de lá. E descobriram até demais, guiados por uma base bem organizada por aqueles que já moravam naquele país. Provavelmente nosso maior erro foi ter deixado que isso acontecesse. O que ficou pra nós é a certeza de que eles não podem ser levados a sério enquanto país e que vamos conquistar de volta todas as pessoas sem tanto poder de decisão, derrubando aos poucos os grandes líderes desse país. Mostrando seus pontos fracos, suas petulâncias, seus erros crassos, mesmo que pequenos. É tudo uma questão de enfoque, tudo uma questão de saber polemizar e entrar na mente desses pequenos idiotas que foram atraídos pelo sucesso e pelo hype que deixamos escapar de nossas rédeas. Aos poucos vamos trazendo de volta aquele conceito de que esse país é tão chato quanto parece, que seus defensores são hipócritas hippies que não merecem consideração e que a verdade está apenas do nosso lado.
Cenário IV - Revoluções internas por minuto
Não sei como pode. Vivemos nesse país praticamente durante toda a nossa vida. Conhecemos as melhores formas de crescer e sustentar as bases mínimas pra que nada fosse jogado ralo abaixo. Lutamos juntos por melhores condições, por união, pra que pudéssemos deixar de herança um futuro decente nesse país. Nada levado tanto a sério. Gente como eu aceitando dois tipos que não consigo lidar: um bando de novatos e um bando de aproveitadores. O problema é que não podemos separar o joio do trigo com destreza. Sempre sobrará um que poderá colocar tudo a perder. E isso desanima. Tanto quanto desanima ver os meus se envolvendo em projetos de outros países mais ricos e já bem desenvolvidos. Me incomoda. Saber que era a gente que mandava e desmandava em nós mesmos e o quanto pregávamos que não deveríamos dar ouvido a outros países, nem fazer alianças mesmo nos cenários mais críticos. E agora cada um criou uma olha em torno de si, cada um vê apenas o barco salva vidas que está à sua frente, ninguém enxerga o que enxergávamos antes. E sou visto como ridículo e conservador, óbvio, porque não consigo deixar de pensar naquele tempo em que estávamos juntos, em tudo aquilo que dissemos que seria pra sempre. Talvez eu tenha levado tudo um pouco a sério demais.
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(R)evolução é uma coisa
por Robson Assis | tags bienal, campus party, critica, kmax, pixo | 15.6.10 COMENTE!
Em 2008, o programador Vinicius Kmax causou uma pane na edição Brasileira da Campus Party, evento anual de tecnologia que acontece em vários lugares do mundo. A reação dos organizadores foi menos sadia que a intenção da brincadeira. Kmax foi repreendido e, inclusive, processado pela Telefônica, alvo do "ataque".
Dois anos mais tarde, a mesma Campus Party ainda patrocinada pela mesma empresa convidou para uma de suas palestras Kevin Mitnick, ex-hacker norte-americano que roubou dados de grandes empresas como Nokia e Motorola e que hoje trabalha como consultor de segurança. Não vou julgar o assunto, uma vez que o Gravataí Merengue escreveu esse excelente texto sobre a ironia contida em tudo isso.
Mesmo Brasil, mesmos anos e praticamente a mesma história. O grupo que atacou o vão livre da Bienal em 2008, entra pelas portas da frente do evento. Ainda marginalizada, pouco entendida e desvalorizada, a pichação faz parte da programação da 29ª Bienal de São Paulo como ponto focal de discussões sobre arte e política, exatamente pela subversão da ordem ocorrida em 2008, que ganhou destaque após a prisão da gaúcha Caroline Pivetta da Mota.
Em entrevista ao IG, o pichador Djan Ivson, um dos responsáveis pela ação de 2008 afirma que "a luta na realidade é de legitimar a pichação como cultura brasileira, mas sem tirar nada da essência dela".
Os dois casos tratam de falta de aceitação e oportunidade, repudiados com ações drásticas e julgados de maneira antiquada dados os seus meios (internet e arte). Tanto na história de Kmax quanto na dos pichadores, fica claro que a evolução de pensamento seja de quem patrocina, divulga ou simplesmente aprecia determinado assunto depende também de alguns equívocos que resultem numa visão mais panorâmica da realidade e na ampliação do pensamento.
Dois anos mais tarde, a mesma Campus Party ainda patrocinada pela mesma empresa convidou para uma de suas palestras Kevin Mitnick, ex-hacker norte-americano que roubou dados de grandes empresas como Nokia e Motorola e que hoje trabalha como consultor de segurança. Não vou julgar o assunto, uma vez que o Gravataí Merengue escreveu esse excelente texto sobre a ironia contida em tudo isso.
Mesmo Brasil, mesmos anos e praticamente a mesma história. O grupo que atacou o vão livre da Bienal em 2008, entra pelas portas da frente do evento. Ainda marginalizada, pouco entendida e desvalorizada, a pichação faz parte da programação da 29ª Bienal de São Paulo como ponto focal de discussões sobre arte e política, exatamente pela subversão da ordem ocorrida em 2008, que ganhou destaque após a prisão da gaúcha Caroline Pivetta da Mota.
Em entrevista ao IG, o pichador Djan Ivson, um dos responsáveis pela ação de 2008 afirma que "a luta na realidade é de legitimar a pichação como cultura brasileira, mas sem tirar nada da essência dela".
Os dois casos tratam de falta de aceitação e oportunidade, repudiados com ações drásticas e julgados de maneira antiquada dados os seus meios (internet e arte). Tanto na história de Kmax quanto na dos pichadores, fica claro que a evolução de pensamento seja de quem patrocina, divulga ou simplesmente aprecia determinado assunto depende também de alguns equívocos que resultem numa visão mais panorâmica da realidade e na ampliação do pensamento.
O RAP pode mudar o mundo?
por Robson Assis | tags critica, musica, rap, reflexão | 19.4.10 3 Comentários
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| Foto por Luciana Faria a.k.a Playmobeats |
Estava produzindo um texto gigante sobre como o RAP se afastou de seu cunho social. Qual o verdadeiro papel social do RAP na cultura hip-hop, que obrigações poderia ter e que direitos poderia reservar. Separei tudo em tópicos e subtópicos, com explicações resumidas e conclusão em três partes. Considerei um bom tema para um TCC futuro - se um dia eu precisar fazer outro.
E então, como que por um toque divino de "esquece isso aí", encontrei essa introdução de "O Retrato de Dorian Gray", clássico de Oscar Wilde:
"O artista é o criador de coisas belas.E com toda a discussão sobre os novos trilhos do RAP nacional, cheguei a conclusão de que não vale questionar a responsabilidade da arte pelo meio social. A música deve ser entendida como uma expressão ou desabafo, um resultado do que o artista tenha a expor ou interpretar. Pode também ser analisada como uma ferramenta, mas apenas como um fim em si mesma. Para ilustrar: Um garoto pode usar o rap para se livrar do ócio e da criminalidade, mas isso não quer dizer que sua produção artística tem obrigação de ser panfletária ou assistencialista. Esta "ferramenta" já faz efeito quando um garoto deixa o crime para se tornar um artista. O que ele vai dizer quando estiver sobre os holofotes é consequência.
O objetivo da arte é revelar a arte e ocultar o artista.
O crítico é aquele que sabe traduzir de outro modo ou para um novo material a sua impressão das coisas belas.
A mais elevada, tal como a mais rasteira, forma de crítica é um modo de autobiografia.
Os que encontram significações torpes nas coisas belas são corruptos sem sedução, o que é um defeito.
Os que encontram significações belas nas coisas belas são os cultos, Para esses há esperança.
Eleitos são aqueles para quem as coisas belas apenas significam Beleza.
Um livro moral ou imoral é coisa que não existe. Os livros são bem escritos, ou mal escritos. E é tudo.
A aversão do século XIX pelo Realismo é a fúria de Caliban ao ver a sua cara ao espelho.
A aversão do século XIX pelo Romantismo é a queixa de Caliban por não ver a sua cara ao espelho.
A vida moral do homem faz parte dos temas tratados pelo artista, mas a moralidade da arte consiste no uso perfeito de um meio imperfeito. Nenhum artista quer demonstrar coisa alguma. Até as verdades podem ser demonstradas.
Nenhum artista tem simpatias éticas. Uma simpatia ética num artista é um maneirismo de estilo imperdoável.
Um artista nunca é mórbido. O artista pode exprimir tudo.
Sob o ponto de vista da forma, a arte do músico é o modelo de todas as artes. Sob o ponto de vista do sentimento, é a profissão de ator o modelo.
Toda a arte é, ao mesmo tempo, superfície e símbolo. Os que penetram para além da superfície, fazem-no a expensas suas. Os que lêem o símbolo, fazem-no a expensas suas.
O que a arte realmente espelha é o espectador, não a vida.
A diversidade de opiniões sobre uma obra de arte revela que a obra é nova, complexa e vital.
Quando os críticos divergem, o artista está em consonância consigo mesmo.
Podemos perdoar a um homem que faça alguma coisa útil, contanto que a não admire. A única justificação para uma coisa inútil é que ela seja profundamente admirada.
Toda a arte é completamente inútil."
O problema de encarar essa nova visão é ter sido "criado" em uma cena em que a expectativa sobre o rap era inversamente proporcional ao espaço e investimento disponível aos artistas. Isso criou um estilo musical controverso e marginal, que entre erros e acertos evoluiu muito. Hoje, acredito que todos sabemos, a LAPA é um celeiro de grandes artistas, o mesmo Racionais que fazia shows na Favela Godoy, faz shows na Europa e o Indie Hip-Hop vai bem, obrigado.
Continuo ouvindo os mesmos Realidade Cruel, A286, Racionais, GOG, Visão de Rua e NDee Naldinho, mas entendi porque comecei a prestar maior reverência a artistas da nova escola que ultrapassaram a barreira do rap denúncia e trataram temas menos restritos que a crítica social. Entendi os moleques que me xingaram no Youtube quando comentei em caráter pejorativo o clipe do Pixote com participação do Helião. O que entristece é o fanatismo em torno de artistas com pouco a dizer e a embaçada visibilidade para alguns rappers mais afiados.
Finalizo ainda com a frase principal deste texto de Oscar Wilde supracitado:
"A diversidade de opiniões sobre uma obra de arte revela que a obra é nova, complexa e vital."
Ainda acredito que o RAP possa mudar o mundo. Não com a mesma inocência e rebeldia, mas como um estilo musical livre, consistente e aberto a reflexão.
"Toda Noite" e um debate sobre Gangsta Rap
por Robson Assis | tags critica | 19.3.10 2 Comentários
O gangsta rap é um gênero muito criticado por quem não atua no meio ou não está diretamente ligado ao estilo. Os rappers são em geral marrudos e ríspidos em seus modos e traduzem em letra a vida nos subúrbios de grandes cidades. Assuntos policiais como tráfico de drogas, prisões e assaltos fazem parte da temática que também descreve abertamente o sentimento de viver nas periferias e favelas do país. Sem contar o bairrismo, o orgulho de dizer em que lugar do mundo mora, característico dos artistas nacionais.
O estilo é mal visto por ser violento, falar verdades demais, muitas vezes até acusado de induzir os jovens ao crime, às drogas. São olhares críticos superficiais e desvirtuados que não ajudam o desenvolvimento desta música no Brasil. Fábio Rogério, da 105 FM, é um dos agitadores culturais que tentam desvincular a imagem do rap ao crime, com seus chavões "apóie o rap nacional" e "rap é música boa de se ouvir".
Já coloquei em debate neste blog a questão de como o disco novo do Racionais vai ditar os rumos do rap no Brasil e achei que o assunto tinha morrido - pelo menos até o lançamento do novo disco do grupo. Falei sobre a deterioração da música rap, de americanização dos artistas. Foi então que recebi, via MSN, um link para o clipe do Helião e Pixote no Youtube:
E bem, era disso que eu estava falando.
O rap sempre triunfou por tirar jovens da marginalidade e ensinar um novo caminho aos que já estavam sem norte ou expectativa de mudança. Lembro de um rap do Sabotage com participação do RZO e SP Funk que dizia: "um brinde a quem aqui acabou de sair do crime" (TIO FRESH). É o uso da cultura como caminho para o ativismo, para a ação social "de nós pra nós" como se diz, feita do povo para o povo. Outra citação que me veio à cabeça vem da nova escola: "no fim das contas fazer rima é a parte mais fácil" (EMICIDA).
Não quero - e talvez nem precise - fazer uma profunda análise deste rap, pois fica claro que a proposta musical está longe de seu ideal como nunca antes. Botando fogo em minha esperança para com os rumos da música rap gangsta, "Toda Noite" é apadrinhada por um dos rappers mais respeitados no cenário nacional: Helião (RZO). É estranho e constrangedor ouvir pensamentos tão díspares de um artista que sempre foi fiel ao seu contexto.
O fundamento de minha crítica é o pano de fundo deste texto: O rap deveria ajudar a promover uma renovação em cada indivíduo, dar start em um conjunto de revoluções pessoais que levem o artista e o fã a um aprendizado mútuo. Entretanto, se você tem 10 anos de estrada e está "com os flagrante, com os B.O" numa viagem para a França, amigo, posso dizer que o rap fez tanto por você que deu a volta ao ponto zero.
O estilo é mal visto por ser violento, falar verdades demais, muitas vezes até acusado de induzir os jovens ao crime, às drogas. São olhares críticos superficiais e desvirtuados que não ajudam o desenvolvimento desta música no Brasil. Fábio Rogério, da 105 FM, é um dos agitadores culturais que tentam desvincular a imagem do rap ao crime, com seus chavões "apóie o rap nacional" e "rap é música boa de se ouvir".
Já coloquei em debate neste blog a questão de como o disco novo do Racionais vai ditar os rumos do rap no Brasil e achei que o assunto tinha morrido - pelo menos até o lançamento do novo disco do grupo. Falei sobre a deterioração da música rap, de americanização dos artistas. Foi então que recebi, via MSN, um link para o clipe do Helião e Pixote no Youtube:
E bem, era disso que eu estava falando.
O rap sempre triunfou por tirar jovens da marginalidade e ensinar um novo caminho aos que já estavam sem norte ou expectativa de mudança. Lembro de um rap do Sabotage com participação do RZO e SP Funk que dizia: "um brinde a quem aqui acabou de sair do crime" (TIO FRESH). É o uso da cultura como caminho para o ativismo, para a ação social "de nós pra nós" como se diz, feita do povo para o povo. Outra citação que me veio à cabeça vem da nova escola: "no fim das contas fazer rima é a parte mais fácil" (EMICIDA).
Não quero - e talvez nem precise - fazer uma profunda análise deste rap, pois fica claro que a proposta musical está longe de seu ideal como nunca antes. Botando fogo em minha esperança para com os rumos da música rap gangsta, "Toda Noite" é apadrinhada por um dos rappers mais respeitados no cenário nacional: Helião (RZO). É estranho e constrangedor ouvir pensamentos tão díspares de um artista que sempre foi fiel ao seu contexto.
O fundamento de minha crítica é o pano de fundo deste texto: O rap deveria ajudar a promover uma renovação em cada indivíduo, dar start em um conjunto de revoluções pessoais que levem o artista e o fã a um aprendizado mútuo. Entretanto, se você tem 10 anos de estrada e está "com os flagrante, com os B.O" numa viagem para a França, amigo, posso dizer que o rap fez tanto por você que deu a volta ao ponto zero.
Literatura e Resistência, Ferréz (DVD)
por Robson Assis | tags critica, Ferréz, Literatura Marginal, review | 10.3.10 1 Comentário
No documentário biográfico Literatura e Resistência, lançado em 2009, Ferréz expõe a história de sua vida de escritor e prova porque é considerado o principal ícone do movimento literário mais efervescente no Brasil. A literatura marginal, fermentada com o lançamento de Capão Pecado no ano 2000, hoje tem um grande público e amplitude, desde estudos acadêmicos com essa temática até livrarias inteiras dedicadas ao estilo. Ferréz foi o agitador por trás disso tudo.
O documentário de quase uma hora traz fragmentos em vídeo do escritor, que conta histórias de sua vida e do conturbado começo de sua carreira. Em grande parte, são vídeos caseiros de curta duração, interligados pelas histórias contadas pelo próprio Ferréz, parentes, amigos de infância e nobres convidados, entre eles: Eduardo (Facção Central), Chico César, Paulo Lins (autor de Cidade de Deus), Marcelino Freire e Lourenço Mutarelli.
Pra quem não sabe, Ferréz também ataca humildemente no rap com rimas pesadas e bem elaboradas, embora contestável flow. Portanto, nos extras, três clipes: Judas, Periferia Lado Bom e Os Inimigos não mandam flores, este último uma compilação de imagens de quadrinhos que lembra alguns antigos encartes da revista RAP Brasil.
Ainda nos extras, uma entrevista esclarecedora feita pelo jornalista Paulo Lima que sintetiza o pensamento do escritor sobre política, pobreza, amor e revolução. E pra finalizar, Ferréz apresenta o processo criativo utilizado na criação do livro Manual Prático do Ódio, de 2003.
Literatura e Resistência mostra a trajetória de uma das vozes mais ativas das periferias brasileiras e responsável pela reafirmação cultural do Capão Redondo, tema que já foi abordado neste blog. Tudo isso percorrendo um caminho que tira as máscaras do autor e o coloca como um ser humanizado e pensador, que ganha seu público com a palavra simples e dita de coração, de igual para igual. Ao final, o espectador fica com o mesmo sentimento de Chico César em seu depoimento que abre o DVD: “Ferréz é um dos maiores escritores vivos do país, eu tenho orgulho de ser seu contemporâneo”.
O documentário de quase uma hora traz fragmentos em vídeo do escritor, que conta histórias de sua vida e do conturbado começo de sua carreira. Em grande parte, são vídeos caseiros de curta duração, interligados pelas histórias contadas pelo próprio Ferréz, parentes, amigos de infância e nobres convidados, entre eles: Eduardo (Facção Central), Chico César, Paulo Lins (autor de Cidade de Deus), Marcelino Freire e Lourenço Mutarelli.
Pra quem não sabe, Ferréz também ataca humildemente no rap com rimas pesadas e bem elaboradas, embora contestável flow. Portanto, nos extras, três clipes: Judas, Periferia Lado Bom e Os Inimigos não mandam flores, este último uma compilação de imagens de quadrinhos que lembra alguns antigos encartes da revista RAP Brasil.
Ainda nos extras, uma entrevista esclarecedora feita pelo jornalista Paulo Lima que sintetiza o pensamento do escritor sobre política, pobreza, amor e revolução. E pra finalizar, Ferréz apresenta o processo criativo utilizado na criação do livro Manual Prático do Ódio, de 2003.
Literatura e Resistência mostra a trajetória de uma das vozes mais ativas das periferias brasileiras e responsável pela reafirmação cultural do Capão Redondo, tema que já foi abordado neste blog. Tudo isso percorrendo um caminho que tira as máscaras do autor e o coloca como um ser humanizado e pensador, que ganha seu público com a palavra simples e dita de coração, de igual para igual. Ao final, o espectador fica com o mesmo sentimento de Chico César em seu depoimento que abre o DVD: “Ferréz é um dos maiores escritores vivos do país, eu tenho orgulho de ser seu contemporâneo”.
Os Samurais do Rap
por Robson Assis | tags critica, musica, rap | 18.2.10 COMENTE!
De uns tempos pra cá tenho visto muitas referências à cultura oriental no cenário de rap. Aconteceu pela primeira vez com o Wu-Tang Clan, cujo nome é herdado de um filme chinês chamado Shaolin & Wu-Tang. Depois, com a música Dorobô, de B Negão e Sabotage, com uma letra que mistura palavras em português e japonês que confesso não ter entendido na época. Ontem, ao ler o texto sobre o novo disco do Sniper no blog Rap Movimento, do amigo Juca Guimarães, o assunto sacudiu outra vez a mente deste que vos escreve. O rapper é campeão mundial de Kung Fu e baseia todo o seu trabalho na cultura oriental.
E foi então comecei a me lembrar.
Em 2006, o rapper Sandrão – na época em carreira solo fora do RZO – lançou um hit chamado Respeito Oriental, com a mesma temática. Talvez tenha sido um prenúncio à criação do Wu-Brasil, que hoje tem Sandrão, AC, Dj Cia e Helião como linha de frente, um projeto audacioso que colocou o Brasil na mira da maior posse de rap que o mundo já pôde conhecer.
Após o lançamento do single “E se”, do rapper Rashid, pude prestar maior atenção ao trabalho deste MC que em seu box de influências no Myspace, perdido entre nomes como Racionais, Cartola e Common, está Miyamoto Musashi, um famoso samurai que escreveu o livro dos Cinco Anéis, uma obra sobre artes marciais e estratégias militares. No Brasil, sua biografia possui dois imensos volumes publicados pela editora Estação Liberdade.
Por recomendação de um professor, nos idos de 2004 assisti Ghost Dog - O caminho do Samurai, filme de Jim Jarmusch com trilha sonora de RZA (Wu-Tang) sobre um samurai dos tempos modernos que aceita trabalhos como assassino de aluguel e serve com devoção ao homem que salvou sua vida quando criança. Protagonizado por Forest Whitaker, traz claras referências ao livro Hagakure – O Livro do Samurai, de Yamamoto Tsunetomo, lançado no Brasil pela editora Conrad. O Hagakure é um grande livro de ensinamentos que têm como base a preparação de um vassalo para servir ao seu senhor e honrá-lo. É um livro que nos leva ao passado e faz refletir sobre tradição, honra e dignidade conceitos que hoje em dia são apenas palavras bonitas. Carregado de grandes metáforas Ghost Dog é um filme que trata, em geral, de códigos de conduta, moral e respeito, uma tríade de peso para qualquer sociedade, afinal "cada lugar um lugar, cada lugar uma lei, cada lei uma razão que eu sempre respeitei", já dizem os Racionais. Pra finalizar, o Hagakure foi citado por Emicida na Revista Mais Soma, como o primeiro de um Top 5 livros que mudaram sua vida.
Se grandes rappers da atualidade estão citando a cultura oriental como influência para seus estilos de vida e suas letras, talvez seja hora de prestar maior atenção na sabedoria que o outro lado do mundo pode nos oferecer.
E foi então comecei a me lembrar.
Em 2006, o rapper Sandrão – na época em carreira solo fora do RZO – lançou um hit chamado Respeito Oriental, com a mesma temática. Talvez tenha sido um prenúncio à criação do Wu-Brasil, que hoje tem Sandrão, AC, Dj Cia e Helião como linha de frente, um projeto audacioso que colocou o Brasil na mira da maior posse de rap que o mundo já pôde conhecer.
Após o lançamento do single “E se”, do rapper Rashid, pude prestar maior atenção ao trabalho deste MC que em seu box de influências no Myspace, perdido entre nomes como Racionais, Cartola e Common, está Miyamoto Musashi, um famoso samurai que escreveu o livro dos Cinco Anéis, uma obra sobre artes marciais e estratégias militares. No Brasil, sua biografia possui dois imensos volumes publicados pela editora Estação Liberdade.
Por recomendação de um professor, nos idos de 2004 assisti Ghost Dog - O caminho do Samurai, filme de Jim Jarmusch com trilha sonora de RZA (Wu-Tang) sobre um samurai dos tempos modernos que aceita trabalhos como assassino de aluguel e serve com devoção ao homem que salvou sua vida quando criança. Protagonizado por Forest Whitaker, traz claras referências ao livro Hagakure – O Livro do Samurai, de Yamamoto Tsunetomo, lançado no Brasil pela editora Conrad. O Hagakure é um grande livro de ensinamentos que têm como base a preparação de um vassalo para servir ao seu senhor e honrá-lo. É um livro que nos leva ao passado e faz refletir sobre tradição, honra e dignidade conceitos que hoje em dia são apenas palavras bonitas. Carregado de grandes metáforas Ghost Dog é um filme que trata, em geral, de códigos de conduta, moral e respeito, uma tríade de peso para qualquer sociedade, afinal "cada lugar um lugar, cada lugar uma lei, cada lei uma razão que eu sempre respeitei", já dizem os Racionais. Pra finalizar, o Hagakure foi citado por Emicida na Revista Mais Soma, como o primeiro de um Top 5 livros que mudaram sua vida.
Se grandes rappers da atualidade estão citando a cultura oriental como influência para seus estilos de vida e suas letras, talvez seja hora de prestar maior atenção na sabedoria que o outro lado do mundo pode nos oferecer.
Cultura Freestyle e o Rap de Narciso
por Robson Assis | tags critica, rap | 27.1.10 3 Comentários
Batalhas entre rappers são eventos bastante prestigiados na música rap em geral. A chamada "rinha" de MCs cria com perfeição batalhas magistrais entre artistas que, com uma mistura de carisma e agressividade nas letras se tornam verdadeiras celebridades no meio.
Acontece assim, o primeiro rapper manda sua rima que tem por objetivo essencial rebaixar o adversário. Ao final, é a vez do outro responder no tom de sarcasmo que supere o anterior. A coisa é bem legal de assistir e eu recomendo. Como nos duelos convencionais, o rapper que se mostrar superior, vence.
Por um outro lado, esses eventos levam a música em si a um rumo diferente quando o rapper sai da rinha de Mcs e escreve uma letra, produz um disco próprio. Em geral, rappers que saem de batalhas de mcs são egocêntricos, não por erro próprio, mas pela escola da qual eles saíram, uma vez que só vence quem tiver o ego mais inflado pela ovação da platéia e o trocadilho mais afiado para insultar o adversário. Além disso, estes artistas dificilmente são parte de um grupo musical, ficam apenas com seus nomes estampados na capa dos CDs, o que lhes confere autenticidade, respeito e, em grande parte das vezes, a falta de uma boa parceria. Falta olhar outros reflexos, como não fez Narciso.
O mito de Narciso conta a história de um cara que se achava tão singular que certa vez foi olhar seu reflexo na água e, de tanto querer chegar perto, caiu dentro do lago, morrendo afogado. É assim o rapper que, ao escrever uma letra para seu disco, esquece que não existe mais nenhum adversário a sua volta, mas sim um público afim de ouvir suas idéias. Ele não precisa mais falar de si próprio, nem provar nada a ninguém.
O modelo das rinhas não enaltece o rapper que se dá melhor com as palavras, mas sim o que mais ofende o outro sem perder o caráter. Fica claro que ser bom no freestyle não é o que faz do artista um bom rapper. Se fosse assim, pra fazer uma analogia crassa, os "zé povinho" da vida real (gente que só vê o lado ruim das pessoas e sai por aí difamando Deus e o mundo) seriam grandes e incontestáveis pensadores.
Portanto, minha opinião final é que o freestyle convencional é algo excelente de assistir, exalta a criatividade e o bate-pronto dos rappers. Entretanto, do meu ponto de vista, deveria ser uma escola a mais no rap, e não apenas um celeiro de personagens genéricos. Pois o que se vê é que isso acaba criando músicas narcisistas que não enxergam muito além do próprio umbigo a realidade que tanto prega o rap. A rinha de MCs é um lugar único para exercitar a mente, sem dúvida, mas isso não vale de nada se, ao sair dali, o Narciso que existe em cada artista só reclama dos outros e exalta a si próprio.
Se a batalha de MCs é realmente fantástica como eu também acredito, seria mais vantajoso para a cultura e para o próprio artista o lançamento de discos com duelos ao vivo - e porque não - na própria Rinha de MCs. Fica a dica!
Acontece assim, o primeiro rapper manda sua rima que tem por objetivo essencial rebaixar o adversário. Ao final, é a vez do outro responder no tom de sarcasmo que supere o anterior. A coisa é bem legal de assistir e eu recomendo. Como nos duelos convencionais, o rapper que se mostrar superior, vence.O mito de Narciso conta a história de um cara que se achava tão singular que certa vez foi olhar seu reflexo na água e, de tanto querer chegar perto, caiu dentro do lago, morrendo afogado. É assim o rapper que, ao escrever uma letra para seu disco, esquece que não existe mais nenhum adversário a sua volta, mas sim um público afim de ouvir suas idéias. Ele não precisa mais falar de si próprio, nem provar nada a ninguém.
O modelo das rinhas não enaltece o rapper que se dá melhor com as palavras, mas sim o que mais ofende o outro sem perder o caráter. Fica claro que ser bom no freestyle não é o que faz do artista um bom rapper. Se fosse assim, pra fazer uma analogia crassa, os "zé povinho" da vida real (gente que só vê o lado ruim das pessoas e sai por aí difamando Deus e o mundo) seriam grandes e incontestáveis pensadores.
Portanto, minha opinião final é que o freestyle convencional é algo excelente de assistir, exalta a criatividade e o bate-pronto dos rappers. Entretanto, do meu ponto de vista, deveria ser uma escola a mais no rap, e não apenas um celeiro de personagens genéricos. Pois o que se vê é que isso acaba criando músicas narcisistas que não enxergam muito além do próprio umbigo a realidade que tanto prega o rap. A rinha de MCs é um lugar único para exercitar a mente, sem dúvida, mas isso não vale de nada se, ao sair dali, o Narciso que existe em cada artista só reclama dos outros e exalta a si próprio.
Se a batalha de MCs é realmente fantástica como eu também acredito, seria mais vantajoso para a cultura e para o próprio artista o lançamento de discos com duelos ao vivo - e porque não - na própria Rinha de MCs. Fica a dica!
Finalmente, AVATAR
por Robson Assis | tags 3d, avatar, critica, filmes, imax, james cameron, natureza | 20.1.10 COMENTE!
Dessa vez, não vou contar a minha saga, mas sim a de Jake Sully.
Avatar conta a saga deste ex-fuzileiro naval cadeirante, incapacitado de exercer serviços militares levado a um outro planeta explorado por uma corporação da Terra que busca Unobitanium, um mineral milionário para nosso planeta. Jake vai comandar um avatar criado a partir de biotecnologia. Ele precisa aprender os costumes do povo Na´Vi, os nativos, para ajudar a criar um acordo entre os dois povos e para que os interesses da companhia não sejam perdidos. Caso falhe a diplomacia - e isso fica claro desde o início - o "povo do céu" vai lidar da forma como sabe melhor: a guerra.

O roteiro é realmente fraco, sem novidades. Dizem por aí que se parece muito com o de Pocahontas. Como nunca vi Pocahontas, fica apenas a referência. A narrativa é intuitiva, rápida, como nos melhores (ou piores) blockbusters. É, no fundo, uma história bem contada, mas de forma simples, como histórias de amor épicas e dramas geniais que sempre existiram.
A contar apenas com o roteiro, James Cameron teria tudo para naufragar junto de seu mundinho, mas não. Ele conseguiu entrelaçar outros dois fatores extremamente importantes em uma ficção científica deste porte: estética e originalidade.
É primordial ver este filme em uma sala 3D, como em algumas do Cinemark ou no unânime Imax. Todas as cenas, eu disse TODAS, flertam com profundidade incomparável, mesmo as mais simples. Isso coloca o espectador dentro do filme, espantando as moscas luminosas que aparecem volta e meia. E, com o desenrolar da trama dá pra perceber que era realmente essa a idéia. Colocar o espectador em primeiro plano vivendo em Pandora, sentindo, mesmo que por apenas 3 horas, as sensações de um mundo exterior quase real.
Cameron criou um mundo extraterrestre singular, não apenas com fauna e flora próprios, mas com sutilezas e costumes tão intrincados que parece que aquele lugar realmente existe. Cada animal, cada olhar ou palavra transpiram. É possível estar em posições diferentes e sentir a profunda ligação dos nativos com seu planeta, como é possível ver os olhos transbordando sangue do general que encoraja o holocausto Na´Vi. Você é jogado dentro de Pandora sem perceber.
O outro ponto que citei foi a originalidade. Segundo esta matéria do New York Times publicada também pelo Terra, o filme criou em torno de si milhares de correntes a favor ou contra, das mais diversas formas. Um ponto chave da filmografia de Cameron é fazer filmes maiores que seu gênero. É possível ver o filme como uma frívola guerra de mundos da mesma forma que é possível encontrar analícamente uma crítica social em cada trecho.
Cameron disse em entrevista que AVATAR é uma parábola ecológica e sim, faz todo o sentido. Fala sobre a condição humana de avassalar os recursos naturais de um planeta por pura ambição. Com exceção dos heróis da trama, tudo o que envolve o terráqueo ou o "povo do céu" neste filme é cercado por doses cavalares de ódio e ganância. De certa forma, isso garante o desconforto em ser humano, que se agrava ainda mais quando a natureza é colocada como ponto focal do filme. Quando se percebe a ligação que aquele povo têm com a natureza, a ponto de se sentir mal em matar outro animal ou chorar ao ver a destruição de uma vegetação é que vemos o quanto damos a mínima para nossa origem. Como neste trecho abaixo, a humanidade se considera completa demais e o pensamento de se voltar à natureza é como regredir.
Avatar conta a saga deste ex-fuzileiro naval cadeirante, incapacitado de exercer serviços militares levado a um outro planeta explorado por uma corporação da Terra que busca Unobitanium, um mineral milionário para nosso planeta. Jake vai comandar um avatar criado a partir de biotecnologia. Ele precisa aprender os costumes do povo Na´Vi, os nativos, para ajudar a criar um acordo entre os dois povos e para que os interesses da companhia não sejam perdidos. Caso falhe a diplomacia - e isso fica claro desde o início - o "povo do céu" vai lidar da forma como sabe melhor: a guerra.

A contar apenas com o roteiro, James Cameron teria tudo para naufragar junto de seu mundinho, mas não. Ele conseguiu entrelaçar outros dois fatores extremamente importantes em uma ficção científica deste porte: estética e originalidade.
É primordial ver este filme em uma sala 3D, como em algumas do Cinemark ou no unânime Imax. Todas as cenas, eu disse TODAS, flertam com profundidade incomparável, mesmo as mais simples. Isso coloca o espectador dentro do filme, espantando as moscas luminosas que aparecem volta e meia. E, com o desenrolar da trama dá pra perceber que era realmente essa a idéia. Colocar o espectador em primeiro plano vivendo em Pandora, sentindo, mesmo que por apenas 3 horas, as sensações de um mundo exterior quase real.
Cameron criou um mundo extraterrestre singular, não apenas com fauna e flora próprios, mas com sutilezas e costumes tão intrincados que parece que aquele lugar realmente existe. Cada animal, cada olhar ou palavra transpiram. É possível estar em posições diferentes e sentir a profunda ligação dos nativos com seu planeta, como é possível ver os olhos transbordando sangue do general que encoraja o holocausto Na´Vi. Você é jogado dentro de Pandora sem perceber.
O outro ponto que citei foi a originalidade. Segundo esta matéria do New York Times publicada também pelo Terra, o filme criou em torno de si milhares de correntes a favor ou contra, das mais diversas formas. Um ponto chave da filmografia de Cameron é fazer filmes maiores que seu gênero. É possível ver o filme como uma frívola guerra de mundos da mesma forma que é possível encontrar analícamente uma crítica social em cada trecho.Cameron disse em entrevista que AVATAR é uma parábola ecológica e sim, faz todo o sentido. Fala sobre a condição humana de avassalar os recursos naturais de um planeta por pura ambição. Com exceção dos heróis da trama, tudo o que envolve o terráqueo ou o "povo do céu" neste filme é cercado por doses cavalares de ódio e ganância. De certa forma, isso garante o desconforto em ser humano, que se agrava ainda mais quando a natureza é colocada como ponto focal do filme. Quando se percebe a ligação que aquele povo têm com a natureza, a ponto de se sentir mal em matar outro animal ou chorar ao ver a destruição de uma vegetação é que vemos o quanto damos a mínima para nossa origem. Como neste trecho abaixo, a humanidade se considera completa demais e o pensamento de se voltar à natureza é como regredir.
MO'AT: Por que você veio até nós?JAKE: Eu vim para aprender.MO'AT: Nós temos tentado ensinar outras "pessoas do céu". É difícil encher um copo que já está cheio.
O que mais me surpreendeu neste filme foi o fato de uma obra que começou a ser produzida no final dos anos 90 ter ainda tanta força ideológica 10 anos depois. Ainda somos primários, ainda somos os mesmos. Outro ponto foi a ficção científica baseada em alegorias. É possível contar histórias sobre problemas humanos reais sem falar diretamente de política, simplesmente com um pano de fundo em que as sensações e emoções por um mundo e um modo de vida mais simples superam a exatidão e a morosidade de nossos dias.
Big & Pac
por Robson Assis | tags 2pac, critica, música, notorious, rap | 5.1.10 COMENTE!

A rivalidade entre as costas leste e oeste começou em meados dos anos 90, entre artistas e fãs das cenas locais de hip-hop. Os pontos focais da briga eram de um lado (leste) o rapper Tupac Shakur e sua gravadora, a Death Row Records; e, do outro (oeste), Notorious B.I.G e o selo Bad Boy Records, de Sean "Diddy" Combs (na época apenas Puff Daddy).
Uma guerra que envolveu ressentimentos declarados, muitos mal entendidos e o peso da grande mídia, mas que ao mesmo tempo levou à criação de grandes hits ofensivos como "Hit 'em Up" e "Brooklyn's Finest", por exemplo. Em uma entrevista (traduzida no Noticiário Periférico), Notorious B.I.G diz que se tivesse resolvido as coisas diretamente com Tupac, seria mais fácil:
Revista Vibe: Quem são eles?
Notorious: A midia. Tupac nunca disse: "todos vocês da West Coast tem que odiar a East Coast" e eu nunca disse: "todos vocês da East Coast tem que odiar a West Coast". Eles fizeram o seguinte, ele é do West, eu sou do East... Então é East contra o West.
A história acabou mal, óbvio, com os dois rappers assassinados.
Mas em 1999, algo aconteceu. Afeni Shakur e Voletta Wallace, mães dos artistas, apareceram em público no VMA para apresentar o Melhor Clipe de Rap do ano. Com uma mensagem de esperança, disseram basicamente que apesar de tudo estavam unidas cuidando do legado de seus filhos e que estavam lá para mostrar como a fé, amizade e esperança podem aproximar as pessoas.
Um vídeo sensacional e histórico para o hip-hop!
Fica uma bela lição aos poucos rappers de hoje em dia: existem coisas que vão muito além da sua marra e sua cara de mau. E não é preciso ser o John Lennon pra fazer do seu mundo um lugar melhor.
Jay-Z, Sir
por Robson Assis | tags critica | 29.12.09 COMENTE!
Conheci o trabalho de Jay-Z através de uns artistas da Roc-A-Fella, sua própria gravadora, no começo da década 00. Certa vez, de bobeira em casa e zapeando canais, caí num Telecine qualquer que passava o documentário Fade to Black, sobre a vida do rapper, com cenas reais dele em estúdio, gravando o The Black Album, um dos últimos grandes discos antes da derrocada da música pop e da avalanche de batidas e samples eletrônicos, chatos e sistemáticos.
Sinceramente, depois desse trecho do filme (abaixo), fiquei empolgado por ouvir tudo o que o rapper fez até então e o que faria dali pra frente. Claro, não sem antes pensar na possibilidade de ser uma jogada publicitária afim de exaltar um dos maiores ídolos de hip-hop do mundo. Preferi acreditar que ele é melhor rapper que ator. E ficamos bem assim.
Com vocês, Sir Shawn Corey Carter (ou seria melhor dizer Shawn Knowles Carter?), JAY-Z!
Sinceramente, depois desse trecho do filme (abaixo), fiquei empolgado por ouvir tudo o que o rapper fez até então e o que faria dali pra frente. Claro, não sem antes pensar na possibilidade de ser uma jogada publicitária afim de exaltar um dos maiores ídolos de hip-hop do mundo. Preferi acreditar que ele é melhor rapper que ator. E ficamos bem assim.
Com vocês, Sir Shawn Corey Carter (ou seria melhor dizer Shawn Knowles Carter?), JAY-Z!
Os melhores raps nacionais dos anos 00 - parte II (definitiva)
por Robson Assis | tags critica | 19.12.09 1 Comentário
A segunda e definitiva parte dos melhores do rap nos anos 00. Foi uma difícil seleção de músicas e, sem dúvida ficaram de fora outros grandes clássicos da primeira década do novo milênio, mas fica a certeza de que rolou muita música de qualidade e idéias sinceras.
Fiquem com a mixtape! E confiram também a primeira parte.
A FIRMA - ÁFRICA
Uma música EXCELENTE, para não economizar adjetivos. Obviamente fala sobre escravidão e preconceito, e termina com um dos melhores discursos do Thaíde.
GOG - O AMOR VENCEU A GUERRA
Uma história heróica, cantada pelo poeta de Brasília, em uma batida simples e verdadeira, com muito sentimento. A trilha de fundo, do Legião Urbana é de arrepiar.
SABOTAGE - MUN-RÁ
Optei não colocar nenhuma do disco Rap é Compromisso, deixei para uma possível lista de intocáveis do rap. Essa música define o Sabotage. Ele era esse rapper que ironizava o mundo em sua rima, falava de seus filhos e sobrinhos, é quebrada e sabe exatamente a que veio.
MV BILL - SOLDADO DO MORRO
Acredito que um sociólogo não faria melhor descrição do tráfico nos morros do Rio de Janeiro como o rapper faz nessa música. A batida cria camadas densas de um discurso político pesado.
RACIONAIS - VIDA LOKA (pt. I e II)
Como disse nesse texto aqui, o grupo deu uma desritmada com o Nada como um dia após o outro dia. Mas isso não os livrou de lançar esta epopéia. As duas partes de Vida Loka definem o Capão Redondo e o sentimento que Mano Brown tem por sua quebrada e seus amigos. Merecem ser uma só.
EDI ROCK E SNJ - NÃO SEJA MAIS UM PILANTRA
Do disco solo do Edi Rock. Sim, o rapper tem um disco solo pouco conhecido com participações e uma segunda versão de Rapaz Comum, do Sobrevivendo no Inferno. Esse som, com participação do SNJ, tem uma batida tensa e fala sobre a decadência de um viciado.
DEXTER - FÊNIX
A imprescindível alfinetada no antigo parceiro de grupo do rapper saiu no disco Exilado sim, Preso Não, de 2005. Letra ácida e desafiadora.
THAÍDE & DJ HUM, RZO, SNJ e Xis - ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE
Quatro "monstros consagrados" (Faustão detected) do rap nacional. Por conta de tanta participação, a música passa por vários momentos, com uma batida muito boa em que cada rapper adapta ao seu estilo de rima. Na lista das músicas essenciais.
APOCALIPSE 16 - MUITA TRETA
Estava na dúvida, mas depois de ouvir a mensagem dessa música, optei por ela. É a base do rap nacional como se fazia antigamente, fala sobre drogas e até discursa sobre a hipocrisia do rap. Com participação de WDee, do Consciência Humana.
SNJ - PENSAMENTOS
Uma música que me emociona só de lembrar. Mistura crença, esperança, com uma dose gigante de verdade, que parece ser o compromisso do grupo.
Fiquem com a mixtape! E confiram também a primeira parte.
A FIRMA - ÁFRICA
Uma música EXCELENTE, para não economizar adjetivos. Obviamente fala sobre escravidão e preconceito, e termina com um dos melhores discursos do Thaíde.
"Mas se liga, a coisa não mudou muito e a parada é daqui pra frente
Tirando a corrente e o tronco a situação não é muito diferente
O que era Quilombo hoje é chamado favela
O conceito de igualdade para o povo já era
A polícia mata de um lado e o governo bate do outro
E a gente sempre acorda com a corda no pescoço
Mas, calma aí, seu moço, pra que o desespero?
O giz é branco, mas não ensina nada sem o quadro negro"
GOG - O AMOR VENCEU A GUERRA
Uma história heróica, cantada pelo poeta de Brasília, em uma batida simples e verdadeira, com muito sentimento. A trilha de fundo, do Legião Urbana é de arrepiar.
"A semana toda passei agoniado
Lá estava eu, madrugada de sábado
O encontrei no jardim aguando as plantas
Ali mesmo tivemos uma conversa franca
Ali mesmo ensopei minha camisa branca
Me senti aliviado, tirei um nó da garganta
A violência com atitude impensada gera
Não sou mais um entre a ganância e a capela"
SABOTAGE - MUN-RÁ
Optei não colocar nenhuma do disco Rap é Compromisso, deixei para uma possível lista de intocáveis do rap. Essa música define o Sabotage. Ele era esse rapper que ironizava o mundo em sua rima, falava de seus filhos e sobrinhos, é quebrada e sabe exatamente a que veio.
"Se liga na fita danados otários estão maquinados no morro
falaram que pode atirar na sequência se pa vão prestarem socorro
mas abre olho, o cara piolho, é sempre um mano dos nossos
o inimigo meu tem Astra, Barca, Blazer, também tem Moto"
MV BILL - SOLDADO DO MORRO
Acredito que um sociólogo não faria melhor descrição do tráfico nos morros do Rio de Janeiro como o rapper faz nessa música. A batida cria camadas densas de um discurso político pesado.
"Tô ligado bolado quem é o culpado?
Que fabrica a guerra e nunca morre por ela
Distribui a droga que destrói a favela
Fazendo dinheiro com a nossa realidade
Me deixaram entre o crime e a necessidade"
RACIONAIS - VIDA LOKA (pt. I e II)
Como disse nesse texto aqui, o grupo deu uma desritmada com o Nada como um dia após o outro dia. Mas isso não os livrou de lançar esta epopéia. As duas partes de Vida Loka definem o Capão Redondo e o sentimento que Mano Brown tem por sua quebrada e seus amigos. Merecem ser uma só.
"Meu melhor Marvin Gaye, sabadão na Marginal
O que será, será, é nóis vamo até o final
Liga eu, liga nóis, onde preciso for
No Paraíso ou no dia do Juízo, Pastor
E liga eu e os irmão
É o ponto que eu peço,
Favela, Fundão, imortal nos meus versos"
EDI ROCK E SNJ - NÃO SEJA MAIS UM PILANTRA
Do disco solo do Edi Rock. Sim, o rapper tem um disco solo pouco conhecido com participações e uma segunda versão de Rapaz Comum, do Sobrevivendo no Inferno. Esse som, com participação do SNJ, tem uma batida tensa e fala sobre a decadência de um viciado.
"Sobrevivente aqui é você que menos culpa tem
Quem vem dar ajuda quando você precisa?
Maluf ama São Paulo, o povo veste a camisa
Se lugar de bandido fosse na cadeia
Ele estaria atrás das grades numa cela cheia
Ia ser réu comum, digno de dó
Só, mano ia ficar só o pó"
DEXTER - FÊNIX
A imprescindível alfinetada no antigo parceiro de grupo do rapper saiu no disco Exilado sim, Preso Não, de 2005. Letra ácida e desafiadora.
"6 meses em Bernardes me fez entender
Que o pior cego é o que não quer ver
Mas eu vi e percebi, descobri quem é quem
Hoje sei quem chegou quando precisei"
THAÍDE & DJ HUM, RZO, SNJ e Xis - ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE
Quatro "monstros consagrados" (Faustão detected) do rap nacional. Por conta de tanta participação, a música passa por vários momentos, com uma batida muito boa em que cada rapper adapta ao seu estilo de rima. Na lista das músicas essenciais.
"Eu ouço uma sirene, desespero,
Colei na grade e não gostei do que vi pelo espelho
Os manos impacientes, descontrolados
Chegou a hora acabou foi o que deu no rádio"
APOCALIPSE 16 - MUITA TRETA
Estava na dúvida, mas depois de ouvir a mensagem dessa música, optei por ela. É a base do rap nacional como se fazia antigamente, fala sobre drogas e até discursa sobre a hipocrisia do rap. Com participação de WDee, do Consciência Humana.
"O sonho que não se realiza, poder matando vidas
Controle da população, criação de homicidas
O compasso seduz, peço paz, chamo a luz
O meu caminho é guiado por CH e um homem chamado Jesus"
SNJ - PENSAMENTOS
Uma música que me emociona só de lembrar. Mistura crença, esperança, com uma dose gigante de verdade, que parece ser o compromisso do grupo.
"Parei para refletir, e viajei,
Fatos do passado vários que não acreditei,
Como é bom guardar na recordação.
Independente de tudo aprender a lição"
Os melhores raps nacionais dos anos 00 - parte I
por Robson Assis | tags critica | COMENTE!
A primeira parte da lista das melhores músicas de rap nacional da década.
509-E - SAUDADES MIL
Se fosse uma lista de músicas mais representativas, sem dúvida a escolhida seria Oitavo Anjo, também um ótimo som. Mas essa música conta uma história, uma carta respondida, tem mais sentimento, é mais verdadeira.
CONEXÃO DO MORRO - SUPER BILLY
Se um dia, num futuro muito distante, encontrarem essa música em algum arquivo MP3, vão entender exatamente como era a vida de um adolescente de cabeça vazia e influenciável na periferia das grandes cidades. Uma história triste, mas muito sincera.
FACÇÃO CENTRAL - MENINO DO MORRO
Um grupo não só polêmico. Ninguém consegue ser só polêmico quando lança 4 discos com cutucadas viscerais ao governo e ao modus operandi do sistema. Música aboslutamente genial, sobre um garoto que se deu bem com o crime. O Facção Central nunca lançou um som sequer em que o ouvinte não tenha que parar e refletir.
XIS - DE ESQUINA (VERSÃO BRISA)
"Esquina paranóia delirante" é um refrão que tocou durante anos na minha mente. Essa "versão brisa", do disco Seja como for é fascinante e esteve até no set do acústico da Cássia Eller.
SP FUNK - FÚRIA DE TITÃS
O grupo me mostrou um tipo de rap mais simplista, rimas carregadas de analogias engraçadas e sutis, numa linha bem rinha de MCs, vale a pena escutar.
TRILHA SONORA DO GUETO - 3a OPÇÃO
Primeira música que ouvi deste grupo. A batida e a letra são tão tensas quanto o clima de que algo vai explodir a qualquer momento.
AO CUBO - 1980
Confesso que sempre tive certo receio com grupos de rap gospel, mas ao Ao Cubo entrou na lista dos que realmente têm algo a dizer. Canção autobiográfica e uma das mais belas já escritas. Vale prestar atenção no clímax da emocionante versão ao vivo.
RAPPIN HOOD - RAP DU BOM (pt. II)
Com participação de Caetano Veloso, considero um épico. Dançante, bem escrita e possui uma melodia sensacional no violão. A música ainda emprestou o nome para do programa do rapper, na rádio 105FM, de São Paulo.
MARCELO D2 - A MALDIÇÃO DO SAMBA
Pelo rapper que foi, Marcelo D2 merece estar nessa lista com a melhor canção do A Procura da Batida Perfeita - disco que fez uma clara alusão pouco criativa ao clássico do Afrika Bambaata Looking for The Perfect Beat e que me fez perder o gosto pelo som deste artista. Mas essa música em especialtem classe, pompa, mashup de samba de velha guarda com rap em grande estilo.
JIGABOO e CHARLIE BROWN JR. - VAI PIRAR
Depois do sucesso de Corre-Corre, o Jigaboo ganhou minha atenção total. Lançaram essa música com participação do Chorão (Charlie Brown Jr.) que até não errou tanto na criação da letra. PMC e Suave indiscutivelmente grandes rappers esquecidos pelo tempo. O diferencial é que a música mistura rap e rock sem pender pra nenhum dos lados.
509-E - SAUDADES MIL
Se fosse uma lista de músicas mais representativas, sem dúvida a escolhida seria Oitavo Anjo, também um ótimo som. Mas essa música conta uma história, uma carta respondida, tem mais sentimento, é mais verdadeira.
"É foda, a vida é assim mesmo
Nem tudo é do jeito, do modo que queremos
Infelizmente retroceder não dá mais
Bola pra frente é assim que se faz
Jorge cantou que Charles ia voltar
E como Charles eu também pode acreditar
Com este dia não paro de sonhar
Quero ver o morro inteiro feliz e pá"
CONEXÃO DO MORRO - SUPER BILLY
Se um dia, num futuro muito distante, encontrarem essa música em algum arquivo MP3, vão entender exatamente como era a vida de um adolescente de cabeça vazia e influenciável na periferia das grandes cidades. Uma história triste, mas muito sincera.
"Ao passar do tempo Billy se recupera
Tira a colher debaixo da língua e vai buscar uma pedra
Pra você ver Billy no role é normal sair na captura de 1 real
Sem dinheiro no bolso tem maluco que passa mal"
FACÇÃO CENTRAL - MENINO DO MORRO
Um grupo não só polêmico. Ninguém consegue ser só polêmico quando lança 4 discos com cutucadas viscerais ao governo e ao modus operandi do sistema. Música aboslutamente genial, sobre um garoto que se deu bem com o crime. O Facção Central nunca lançou um som sequer em que o ouvinte não tenha que parar e refletir.
"Dou risada de quem acredita na justiça,
Mais fácil camelo na agulha do que eu na delegacia
Sou traficante intocável pro tribunal
Que no foguete da NASA faz safári sideral,
Tô na lista vip dos cassinos clandestinos,
Quer ser presidente, traz a campanha que eu financio"
XIS - DE ESQUINA (VERSÃO BRISA)
"Esquina paranóia delirante" é um refrão que tocou durante anos na minha mente. Essa "versão brisa", do disco Seja como for é fascinante e esteve até no set do acústico da Cássia Eller.
"A esquina é perigosa atraente
Nossa quanta gente, que movimento interessante
Um carro desse o outro sobe pro boite do Natal
Pra 11 esquinas da Cohab 2
Todo mundo a vontade, cuidado, mano que é mano tá ligado
Chega como eu cheguei, fica como eu fiquei,
Faz como eu fiz... eu sou o Xis"
SP FUNK - FÚRIA DE TITÃS
O grupo me mostrou um tipo de rap mais simplista, rimas carregadas de analogias engraçadas e sutis, numa linha bem rinha de MCs, vale a pena escutar.
"Me passa o microfone eu faço logo um improviso
Te boto no chão faço como no jiu-jitsu
Por que comigo o verbo é fluente ao natural
Vacila na minha eu te mastigo como um canibal."
TRILHA SONORA DO GUETO - 3a OPÇÃO
Primeira música que ouvi deste grupo. A batida e a letra são tão tensas quanto o clima de que algo vai explodir a qualquer momento.
"Ai xará é o seguinte eu só vou me entregar
Quando aquele sem futuro do Datena me filmar
Tô ligado que pra vocês eu não 'valo' um real
Só que vocês invadirem o refém vai passa mal
Ele tá todo borrado, tá mijado, tá com medo
Tá pagando até com juros o racismo e o preconceito"
AO CUBO - 1980
Confesso que sempre tive certo receio com grupos de rap gospel, mas ao Ao Cubo entrou na lista dos que realmente têm algo a dizer. Canção autobiográfica e uma das mais belas já escritas. Vale prestar atenção no clímax da emocionante versão ao vivo.
"Ficou muito rebelde em meio sua adolescência,
Começou a usar drogas por más influências
Mas num certo dia por um sonho sua vida ia mudar
Pois Deus estava prestes a por seu plano em prática"
RAPPIN HOOD - RAP DU BOM (pt. II)
Com participação de Caetano Veloso, considero um épico. Dançante, bem escrita e possui uma melodia sensacional no violão. A música ainda emprestou o nome para do programa do rapper, na rádio 105FM, de São Paulo.
"Saiba você que eu encontrei uma melhor saída
No hip hop conheci o meu estilo de vida,
Que não é pop, não faz pose, não faz cara de mal,
Mas não da boi pra mauricinho, intelectual"
MARCELO D2 - A MALDIÇÃO DO SAMBA
Pelo rapper que foi, Marcelo D2 merece estar nessa lista com a melhor canção do A Procura da Batida Perfeita - disco que fez uma clara alusão pouco criativa ao clássico do Afrika Bambaata Looking for The Perfect Beat e que me fez perder o gosto pelo som deste artista. Mas essa música em especialtem classe, pompa, mashup de samba de velha guarda com rap em grande estilo.
"E sangue bom, eu disse sangue bom
Tem coisas que invadem o coração já disse o João
Não, ninguém faz samba porque prefere
Sobre o poder da criação força nenhuma no mundo interfere"
JIGABOO e CHARLIE BROWN JR. - VAI PIRAR
Depois do sucesso de Corre-Corre, o Jigaboo ganhou minha atenção total. Lançaram essa música com participação do Chorão (Charlie Brown Jr.) que até não errou tanto na criação da letra. PMC e Suave indiscutivelmente grandes rappers esquecidos pelo tempo. O diferencial é que a música mistura rap e rock sem pender pra nenhum dos lados.
"Quem foi que disse que isso é uma loucura
Que raça pura? A gente gosta mesmo é de mistura
Rap, rock e hip-hop só quero que toque
Não importa se otário me chamar de pop"
Racionais MC's e os rumos do rap no Brasil
por Robson Assis | tags critica, mano brown na rolling stone, mulher elétrica, música, racionais, rap | 11.12.09 2 Comentários
Não é preciso muito para dar mérito ao grupo Racionais MC's. Eles têm uma biografia invejável no rap nacional, gravaram discos que foram sucessos incontestáveis de venda e crítica, sem esbarrar num erro, num beat. E então, caíram no temido século XXI, após a decadência do rap americano, transformado no "estilo hip hop".
A idéia desse texto se deve completamente ao blog Mundo do Rap, um excelente blog crítico sobre rap nacional e que, neste texto de Bruno Rico, me provou o que a algum tempo eu já previa: Os Racionais MC's moldam o cenário rap de acordo com o disco que lançam. Claro que eles não previram isso, nem agem de má-fé, isso seria criar mais uma conspiração em torno do grupo.
Tudo começou com os discos Holocausto Urbano (1990), Escolha seu Caminho (1992) e Raio X do Brasil (1993). É início dos anos 90, pós Diretas, Impeachment de Fernando Collor, o íncio do Brasil piada pronta que temos hoje em dia. Foi dali que surgiram sons mais pesados como Pânico na Zona Sul, Homem na Estrada e Tempos Difíceis, esta última uma excelente música daquelas que não envelhecem nunca, cantada por Edi Rock.
Foi o despontar de grandes nomes como GOG, de Brasília, já com três discos e a mesma temática baseada nas subcondições de vida da periferia, lançando o hit Brasília Periferia em 1994. Da mesma época são os clássicos "Só se Não quiser Ser", do MRN e o "Humildade e Coragem são nossas armas para lutar" de Thaíde e DJ Hum, que tinham na época tanta ou até mais visibilidade que os Racionais.
Nada nesta época era considerado muito inovador e referência, talvez porque os grupos nacionais seguiam à risca a linha do rap criado nos EUA por Grandmaster Flash e popularizado com Public Enemy e NWA. Apesar de tudo, foi uma época um tanto quanto apagada em relação ao que estava por vir. Em paralelo à essa guinada inicial, Gabriel o Pensador, em alta na mídia, cantava rap para a classe média carioca, mas o rap ainda era discriminado, marginalizado e como acontece com qualquer música de protesto, ninguém (ou quase ninguém) dava ouvidos.
SOBREVIVENDO NO INFERNO, O AUGE
Em 1997, o Racionais volta com o disco Sobrevivendo no Inferno, um divisor de águas (o clichê é gratuito) no rap nacional. Foi o impulso que o rap precisava para se impor. Daí pra frente, a periferia tomou espaço na mídia e a música negra ganhou seu merecido e batalhado destaque.
O disco trazia obras primas de até 11 minutos, como Fórmula Mágica da Paz e sons que ganharam o imaginário popular da vida dos presidiários como em Diário de um Detento. Um disco com 12 músicas recheado de protestos velados, letras bem escritas como nunca antes se havia feito.
Os Racionais então reinavam absolutos no cenário rap brasileiro após ganhar o Video Music Brasil na categoria Escolha da Audiência com o clipe Diário de um Detento, em 1998.
Grandes discos foram lançados durante o final da década de 90 e o começo dos anos 2000 como "Versos Sangrentos" e "A Marcha Fúnebre Prossegue", do Facção Central, "Só Sangue Bom" do Realidade Cruel e ainda o fantástico "CPI da Favela", de GOG. O cenário rap ganhou ainda maior notoriedade com Sabotage e sua rima precisa e invocada do disco "Rap é Compromisso", de 2001.
Neste começo de século as coisas andavam muito bem, SNJ e Apocalipse 16 lançavam canções tranquilas com uma positividade inigualável. Xis, Doctor MC's e SP Funk faziam um som dançante e descolado, 509-E despontava como grande descoberta com o excelente Provérbios 13 e o rap ia conquistando cada vez mais espaço na música nacional. Não houve outra época com tantos lançamentos bons e referências pululando das quebradas brasileiras.
INFELIZMENTE, HAVIA UM DIA APÓS O OUTRO DIA
Estávamos chegando perto da Copa do Mundo de 2002 quando o Racionais emplacou mais um clásico: álbum Nada como Um dia após o outro dia, menos introspectivo e pesado que o anterior. As músicas apresentavam um lado bem mais gangsta do grupo, com letras sobre respeito, amigos e a famigerada família Vida Loka dos bonés e carros customizados, influência da cultura mexicana, os Vatos Lokos, como no filme Marcados pelo Sangue.
A morte de Sabotage em 2003 também ajudou para um certo enfraquecimento da música rap em geral neste período. A coisa toda ainda funcionava mas com um certo ritmo decadente, shows esparsos em quadras de escolas de samba, Indie Hip hop lutando com todas as forças e trazendo grandes nomes gringos para os palcos do Sesc Santo André, e então alguma coisa aconteceu: A indústria da black music.
Foi nessa época que ouvi os primeiros comentários de alguém dizer que estava ouvindo hip hop. A parte principal do que me veio à cabeça nessa hora foi: "Não se ouve um movimento". E o Bruno Rico do blog Mundo do Rap faz um ótimo comentário sobre isso em seu texto intitulado "Prevejo a divisão no rap nacional":
E então os grupos começaram a fazer rap com uma visão diferente, aproveitando o que o Racionais fez de melhor e adaptando modelos gringos. Dessa época são os discos Falcão, O Bagulho é Doido do MV Bill, Exilado Sim, Preso não do Dexter, Deus do Morro, do Detentos do Rap e Tarja Preta, do Gog.
Veja bem, gosto muito dos discos de rap deste período, mas posso dizer que, nesta época comecei a limar tudo o que ouvia de forma mais crítica. Foi a partir daí que a coisa começou a caminhar mal e seguir caminhos errados, infelizmente, mas isso não quer dizer que todas as músicas da época são ruins, muito pelo contrário, apenas o que a black music da Rihanna, Akon e afins trouxe ao rap nacional
RACIONAIS 2010 E A CONSPIRAÇÃO DO FIM DO RAP DE PROTESTO
No Brasil, a black music começou a expandir como gremilins numa piscina tomando conta de todas as rádios e toques de celular junto com o funk e outras aberrações musicais. Quem começou a curtir rap depois do último disco do Racionais teve uma excelente base do que já havia passdo, afinal, era o exemplo maior do rap com conteúdo revolucionário e prático, mas em doses menores e menos bons artistas para seguir.
O fato é que daí pra frente, ninguém mais quis saber do que o 2Pac falava em suas letras, o que a treta dele com o Notorius BIG trouxe de bom - musicalmente falando - para o rap. Dali pra frente se ouvia falar de Akon, Kanye West e suas devidas roupas e garotas. Tornou-se glamour.
E muito do rap nacional, entrou na dança. As maiores contradições da história do rap despontaram de uns anos pra cá. MV Bill no Faustão, Racionais fazendo música para a Nike, clipe do Pixote com o Helião (RZO), gravado em Paris, na frente da Torre Eifel, falando de quebrada e de humildade. A pergunta é: Para onde estamos indo e o que diabos os artistas estão fazendo do rap?
Sou fã confesso de Racionais e não acredito que eles possam fazer algo tão ruim como tanto vêm especulando os veículos de comunicação, blogs e gente envolvida. Acredito que esse burburinho todo tenha sido causado pela canção "Mulher Elétrica", que fala sobre mulheres e realmente possui uma postura bem mais pop que Mulheres Vulgares, por exemplo e provavelmente pela divulgação da revista Rolling Stone com o Mano Brown na capa.
O próximo disco do Racionais vai cair nas graças do público de qualquer forma, seja ele só dançante, só brutal ou só polêmico. O problema é como ele será encarado pelo rap em si e pela galera que curte de verdade. Minha parca opinião tem um resquício de esperança: prevejo um retorno ao marasmo do começo dos anos 90, mas por um outro lado muita vergonha alheia patrocinada por grandes nomes e comerciais chulos. Para terminar, me lembro de um trecho do filme Quase Famosos, em que o garoto aspirante a jornalista mantém um interessante diálogo com seu mentor, uma homenagem clara ao jornalista crítico mais ácido da história, Lester Bangs. Eles conversam sobre o rock, mas a analogia é válida. Talvez um garoto desses pudesse salvar o rumo da música rap. Talvez:
- Então é você que me manda aqueles artigos feitos para o jornal da escola?
- Tenho enviado umas coisas de fanzines também.
- Como é sua popularidade na escola?
- Eles me odeiam.
- Você vai conhecer muitos deles contra você nessa jornada. Sua escrita é muito boa. É uma pena você ter perdido o rock & roll.
- Perdi?
- Sim, acabou.
- Acabou?
- Acabou. Você chegou a tempo do último chacoalhão da morte, do último suspiro!
- Bem, pelo menos eu estou aqui pra isso.
A idéia desse texto se deve completamente ao blog Mundo do Rap, um excelente blog crítico sobre rap nacional e que, neste texto de Bruno Rico, me provou o que a algum tempo eu já previa: Os Racionais MC's moldam o cenário rap de acordo com o disco que lançam. Claro que eles não previram isso, nem agem de má-fé, isso seria criar mais uma conspiração em torno do grupo.
Tudo começou com os discos Holocausto Urbano (1990), Escolha seu Caminho (1992) e Raio X do Brasil (1993). É início dos anos 90, pós Diretas, Impeachment de Fernando Collor, o íncio do Brasil piada pronta que temos hoje em dia. Foi dali que surgiram sons mais pesados como Pânico na Zona Sul, Homem na Estrada e Tempos Difíceis, esta última uma excelente música daquelas que não envelhecem nunca, cantada por Edi Rock.
Foi o despontar de grandes nomes como GOG, de Brasília, já com três discos e a mesma temática baseada nas subcondições de vida da periferia, lançando o hit Brasília Periferia em 1994. Da mesma época são os clássicos "Só se Não quiser Ser", do MRN e o "Humildade e Coragem são nossas armas para lutar" de Thaíde e DJ Hum, que tinham na época tanta ou até mais visibilidade que os Racionais.
Nada nesta época era considerado muito inovador e referência, talvez porque os grupos nacionais seguiam à risca a linha do rap criado nos EUA por Grandmaster Flash e popularizado com Public Enemy e NWA. Apesar de tudo, foi uma época um tanto quanto apagada em relação ao que estava por vir. Em paralelo à essa guinada inicial, Gabriel o Pensador, em alta na mídia, cantava rap para a classe média carioca, mas o rap ainda era discriminado, marginalizado e como acontece com qualquer música de protesto, ninguém (ou quase ninguém) dava ouvidos.
SOBREVIVENDO NO INFERNO, O AUGE
Em 1997, o Racionais volta com o disco Sobrevivendo no Inferno, um divisor de águas (o clichê é gratuito) no rap nacional. Foi o impulso que o rap precisava para se impor. Daí pra frente, a periferia tomou espaço na mídia e a música negra ganhou seu merecido e batalhado destaque.
O disco trazia obras primas de até 11 minutos, como Fórmula Mágica da Paz e sons que ganharam o imaginário popular da vida dos presidiários como em Diário de um Detento. Um disco com 12 músicas recheado de protestos velados, letras bem escritas como nunca antes se havia feito.
Os Racionais então reinavam absolutos no cenário rap brasileiro após ganhar o Video Music Brasil na categoria Escolha da Audiência com o clipe Diário de um Detento, em 1998.
Grandes discos foram lançados durante o final da década de 90 e o começo dos anos 2000 como "Versos Sangrentos" e "A Marcha Fúnebre Prossegue", do Facção Central, "Só Sangue Bom" do Realidade Cruel e ainda o fantástico "CPI da Favela", de GOG. O cenário rap ganhou ainda maior notoriedade com Sabotage e sua rima precisa e invocada do disco "Rap é Compromisso", de 2001.
Neste começo de século as coisas andavam muito bem, SNJ e Apocalipse 16 lançavam canções tranquilas com uma positividade inigualável. Xis, Doctor MC's e SP Funk faziam um som dançante e descolado, 509-E despontava como grande descoberta com o excelente Provérbios 13 e o rap ia conquistando cada vez mais espaço na música nacional. Não houve outra época com tantos lançamentos bons e referências pululando das quebradas brasileiras.
INFELIZMENTE, HAVIA UM DIA APÓS O OUTRO DIA
Estávamos chegando perto da Copa do Mundo de 2002 quando o Racionais emplacou mais um clásico: álbum Nada como Um dia após o outro dia, menos introspectivo e pesado que o anterior. As músicas apresentavam um lado bem mais gangsta do grupo, com letras sobre respeito, amigos e a famigerada família Vida Loka dos bonés e carros customizados, influência da cultura mexicana, os Vatos Lokos, como no filme Marcados pelo Sangue.
A morte de Sabotage em 2003 também ajudou para um certo enfraquecimento da música rap em geral neste período. A coisa toda ainda funcionava mas com um certo ritmo decadente, shows esparsos em quadras de escolas de samba, Indie Hip hop lutando com todas as forças e trazendo grandes nomes gringos para os palcos do Sesc Santo André, e então alguma coisa aconteceu: A indústria da black music.
Foi nessa época que ouvi os primeiros comentários de alguém dizer que estava ouvindo hip hop. A parte principal do que me veio à cabeça nessa hora foi: "Não se ouve um movimento". E o Bruno Rico do blog Mundo do Rap faz um ótimo comentário sobre isso em seu texto intitulado "Prevejo a divisão no rap nacional":
"Um grande e simples exemplo do que estou querendo dizer é que hoje em dia o rap americano virou apenas hip hop, as pessoas ouvem hip hop, como elas conseguem eu não sei, mas elas juram que ouvem hip hop."
E então os grupos começaram a fazer rap com uma visão diferente, aproveitando o que o Racionais fez de melhor e adaptando modelos gringos. Dessa época são os discos Falcão, O Bagulho é Doido do MV Bill, Exilado Sim, Preso não do Dexter, Deus do Morro, do Detentos do Rap e Tarja Preta, do Gog.
Veja bem, gosto muito dos discos de rap deste período, mas posso dizer que, nesta época comecei a limar tudo o que ouvia de forma mais crítica. Foi a partir daí que a coisa começou a caminhar mal e seguir caminhos errados, infelizmente, mas isso não quer dizer que todas as músicas da época são ruins, muito pelo contrário, apenas o que a black music da Rihanna, Akon e afins trouxe ao rap nacional
RACIONAIS 2010 E A CONSPIRAÇÃO DO FIM DO RAP DE PROTESTO
No Brasil, a black music começou a expandir como gremilins numa piscina tomando conta de todas as rádios e toques de celular junto com o funk e outras aberrações musicais. Quem começou a curtir rap depois do último disco do Racionais teve uma excelente base do que já havia passdo, afinal, era o exemplo maior do rap com conteúdo revolucionário e prático, mas em doses menores e menos bons artistas para seguir.
O fato é que daí pra frente, ninguém mais quis saber do que o 2Pac falava em suas letras, o que a treta dele com o Notorius BIG trouxe de bom - musicalmente falando - para o rap. Dali pra frente se ouvia falar de Akon, Kanye West e suas devidas roupas e garotas. Tornou-se glamour.
E muito do rap nacional, entrou na dança. As maiores contradições da história do rap despontaram de uns anos pra cá. MV Bill no Faustão, Racionais fazendo música para a Nike, clipe do Pixote com o Helião (RZO), gravado em Paris, na frente da Torre Eifel, falando de quebrada e de humildade. A pergunta é: Para onde estamos indo e o que diabos os artistas estão fazendo do rap?
Sou fã confesso de Racionais e não acredito que eles possam fazer algo tão ruim como tanto vêm especulando os veículos de comunicação, blogs e gente envolvida. Acredito que esse burburinho todo tenha sido causado pela canção "Mulher Elétrica", que fala sobre mulheres e realmente possui uma postura bem mais pop que Mulheres Vulgares, por exemplo e provavelmente pela divulgação da revista Rolling Stone com o Mano Brown na capa.
O próximo disco do Racionais vai cair nas graças do público de qualquer forma, seja ele só dançante, só brutal ou só polêmico. O problema é como ele será encarado pelo rap em si e pela galera que curte de verdade. Minha parca opinião tem um resquício de esperança: prevejo um retorno ao marasmo do começo dos anos 90, mas por um outro lado muita vergonha alheia patrocinada por grandes nomes e comerciais chulos. Para terminar, me lembro de um trecho do filme Quase Famosos, em que o garoto aspirante a jornalista mantém um interessante diálogo com seu mentor, uma homenagem clara ao jornalista crítico mais ácido da história, Lester Bangs. Eles conversam sobre o rock, mas a analogia é válida. Talvez um garoto desses pudesse salvar o rumo da música rap. Talvez:
- Então é você que me manda aqueles artigos feitos para o jornal da escola?
- Tenho enviado umas coisas de fanzines também.
- Como é sua popularidade na escola?
- Eles me odeiam.
- Você vai conhecer muitos deles contra você nessa jornada. Sua escrita é muito boa. É uma pena você ter perdido o rock & roll.
- Perdi?
- Sim, acabou.
- Acabou?
- Acabou. Você chegou a tempo do último chacoalhão da morte, do último suspiro!
- Bem, pelo menos eu estou aqui pra isso.
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