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Num país nem tão distante

por Robson Assis | | 21.9.11

O rap e uma pequena analogia sociológica. Tá um saco dizer tudo isso com as mesmas palavras que todo mundo já fez por aí. Basta procurar. Então aqui, não se citam artistas, celebridades, mainstream, sequer música. É apenas uma analogia simples pra entender tudo o que está acontecendo com a música rap no Brasil em 2011.

Cenário I - Disneyland, aqui vamos nós
Imagine um país, escondido do mapa, culturalmente crucificado por transgredir alguns padrões e normas. Um país com algumas deficiências, mas em constante crescimento, ainda que pacato. Imagine que as pessoas que construíram  esse país têm a pátria estampada em seus corações, respiram a parada, fazem de tudo para que o país um dia se torne uma grande potência e possa conversar com os grandes, frente a frente, sem as barreiras erguidas pelo cinismo alheio. E aí, imagine que brecha seguida de brecha, o país começa a conquistar um certo espaço, ter uma certa visão entre os grandes. E que o resto do mundo comece a entender que o caráter transgressor de uma época é preciso ser contextualizado e estudado como parte da história daquele país. E agora que as coisas começam a caminhar bem, com todo esse apelo da mídia mundial em cima daquele país, ele comece a se tornar pop. Seus grandes avatares estampando a capa das revistas, seu estilo de vida sendo estudado minuciosamente por nichos de elite que nunca antes cogitaram tocar no assunto. Seus grandes mestres, outrora vistos como utópicos e desnecessários, transformados em formadores de opinião. E aí o país se torna o centro das atenções. Todo mundo fala do país. Todo mundo ama aquele país desde pequeno. Começa um verdadeiro êxodo, de quem nunca havia conseguido aturar ou assimilar o que aquele país costumava pregar. As pessoas começam a vir morar no país, vislumbrados pelas possbilidades, dão belos passeios pelos centros povoados, quebram algumas redomas de vidro, alguns preconceitos, alguns tabus, começam a ouvir falar de assuntos e enfoques os quais nunca prestaram a devida atenção. É tudo diversão. É tudo descoberta, embora esse bando de turistas não consiga dar a devida atenção para os habitantes naturais que construíram aquele país, pois estão olhando, ainda boquiabertos, tudo o que foi construído com o tempo.

Cenário II - Nascido e criado
Era tudo festa. A organização do nosso país impressionava, grandes eventos, comemorações ano após ano, festejando a última dúzia de meses em que batemos de frente, ou que escapamos com a cabeça erguida. E então as cidades começaram a encher. Os aluguéis de nosso país encareceram, ficou muito mais difícil manter o convívio saudável (com alguns atritos esparsos) que tínhamos antigamente. Talvez seja possível envolver todos esses novos habitantes de uma maneira que eles se sintam cada vez mais em casa, que comecem a se acomodar, espalhar seus pertences pela sala e, em troca, a cuidar disso aqui como um lugar também deles. Acho que se eu pudesse deixar uma mensagem para todos esses novos visitantes, é a de que você não deve sujar a casa de quem deixa as portas abertas para você entrar. Chegue com cuidado, seja lisonjeiro e vamos crescer todos juntos, é tudo o que espero. Mas é preciso esperar. Porque vivemos uma época de épicos, em que tudo é extravagante, excelente e maravilhoso, até que algum monitor conservadorista comece a arrebanhar novamente sua população desgarrada. E aí, os turistas vão embora. Os que restarem, talvez terão assimilado no coração tudo aquilo que o país pode lhe oferecer. E quanto a nós? Acredito que essa pergunta ofenderia muita gente como eu, afinal, nós estamos aqui há tanto tempo que não sabemos como viver de outro jeito.

Cenário III - Num fórum 'fechado' de grandes sociólogos
Era um país pequeno, que não mostrava empecilhos, que sequer fazia cócegas em nossa estrutura. Era um país ao qual não dávamos a mínima, achávamos pedante, panfletário, isso apenas pra não dizer de seus modos repugnantes, seus trejeitos moralistas, antipáticos. Seu linguajar único e suas roupas pavorosas. Em uma conspiração pra ditar a nova moda, o país entrou na onda, virou manchete, dava os primeiros sinais que poderia se tornar um problema caso deixássemos. E começou a crescer, as pessoas se movimentaram querendo descobrir o que poderia ser extraído de lá. E descobriram até demais, guiados por uma base bem organizada por aqueles que já moravam naquele país. Provavelmente nosso maior erro foi ter deixado que isso acontecesse. O que ficou pra nós é a certeza de que eles não podem ser levados a sério enquanto país e que vamos conquistar de volta todas as pessoas sem tanto poder de decisão, derrubando aos poucos os grandes líderes desse país. Mostrando seus pontos fracos, suas petulâncias, seus erros crassos, mesmo que pequenos. É tudo uma questão de enfoque, tudo uma questão de saber polemizar e entrar na mente desses pequenos idiotas que foram atraídos pelo sucesso e pelo hype que deixamos escapar de nossas rédeas. Aos poucos vamos trazendo de volta aquele conceito de que esse país é tão chato quanto parece, que seus defensores são hipócritas hippies que não merecem consideração e que a verdade está apenas do nosso lado.

Cenário IV - Revoluções internas por minuto
Não sei como pode. Vivemos nesse país praticamente durante toda a nossa vida. Conhecemos as melhores formas de crescer e sustentar as bases mínimas pra que nada fosse jogado ralo abaixo. Lutamos juntos por melhores condições, por união, pra que pudéssemos deixar de herança um futuro decente nesse país. Nada levado tanto a sério. Gente como eu aceitando dois tipos que não consigo lidar: um bando de novatos e um bando de aproveitadores. O problema é que não podemos separar o joio do trigo com destreza. Sempre sobrará um que poderá colocar tudo a perder. E isso desanima. Tanto quanto desanima ver os meus se envolvendo em projetos de outros países mais ricos e já bem desenvolvidos. Me incomoda. Saber que era a gente que mandava e desmandava em nós mesmos e o quanto pregávamos que não deveríamos dar ouvido a outros países, nem fazer alianças mesmo nos cenários mais críticos. E agora cada um criou uma olha em torno de si, cada um vê apenas o barco salva vidas que está à sua frente, ninguém enxerga o que enxergávamos antes. E sou visto como ridículo e conservador, óbvio, porque não consigo deixar de pensar naquele tempo em que estávamos juntos, em tudo aquilo que dissemos que seria pra sempre. Talvez eu tenha levado tudo um pouco a sério demais.

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