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O RAP pode mudar o mundo?

por Robson Assis | | 19.4.10

Foto por Luciana Faria a.k.a Playmobeats

Estava produzindo um texto gigante sobre como o RAP se afastou de seu cunho social. Qual o verdadeiro papel social do RAP na cultura hip-hop, que obrigações poderia ter e que direitos poderia reservar. Separei tudo em tópicos e subtópicos, com explicações resumidas e conclusão em três partes. Considerei um bom tema para um TCC futuro - se um dia eu precisar fazer outro.

E então, como que por um toque divino de "esquece isso aí", encontrei essa introdução de "O Retrato de Dorian Gray", clássico de Oscar Wilde:
"O artista é o criador de coisas belas.
O objetivo da arte é revelar a arte e ocultar o artista.
O crítico é aquele que sabe traduzir de outro modo ou para um novo material a sua impressão das coisas belas.
A mais elevada, tal como a mais rasteira, forma de crítica é um modo de autobiografia.
Os que encontram significações torpes nas coisas belas são corruptos sem sedução, o que é um defeito.
Os que encontram significações belas nas coisas belas são os cultos, Para esses há esperança.
Eleitos são aqueles para quem as coisas belas apenas significam Beleza.
Um livro moral ou imoral é coisa que não existe. Os livros são bem escritos, ou mal escritos. E é tudo.
A aversão do século XIX pelo Realismo é a fúria de Caliban ao ver a sua cara ao espelho.
A aversão do século XIX pelo Romantismo é a queixa de Caliban por não ver a sua cara ao espelho.
A vida moral do homem faz parte dos temas tratados pelo artista, mas a moralidade da arte consiste no uso perfeito de um meio imperfeito. Nenhum artista quer demonstrar coisa alguma. Até as verdades podem ser demonstradas.
Nenhum artista tem simpatias éticas. Uma simpatia ética num artista é um maneirismo de estilo imperdoável.
Um artista nunca é mórbido. O artista pode exprimir tudo.
Sob o ponto de vista da forma, a arte do músico é o modelo de todas as artes. Sob o ponto de vista do sentimento, é a profissão de ator o modelo.
Toda a arte é, ao mesmo tempo, superfície e símbolo. Os que penetram para além da superfície, fazem-no a expensas suas. Os que lêem o símbolo, fazem-no a expensas suas.
O que a arte realmente espelha é o espectador, não a vida.
A diversidade de opiniões sobre uma obra de arte revela que a obra é nova, complexa e vital.
Quando os críticos divergem, o artista está em consonância consigo mesmo.
Podemos perdoar a um homem que faça alguma coisa útil, contanto que a não admire. A única justificação para uma coisa inútil é que ela seja profundamente admirada.
Toda a arte é completamente inútil."
E com toda a discussão sobre os novos trilhos do RAP nacional, cheguei a conclusão de que não vale questionar a responsabilidade da arte pelo meio social. A música deve ser entendida como uma expressão ou desabafo, um resultado do que o artista tenha a expor ou interpretar. Pode também ser analisada como uma ferramenta, mas apenas como um fim em si mesma. Para ilustrar: Um garoto pode usar o rap para se livrar do ócio e da criminalidade, mas isso não quer dizer que sua produção artística tem obrigação de ser panfletária ou assistencialista. Esta "ferramenta" já faz efeito quando um garoto deixa o crime para se tornar um artista. O que ele vai dizer quando estiver sobre os holofotes é consequência.

O problema de encarar essa nova visão é ter sido "criado" em uma cena em que a expectativa sobre o rap era inversamente proporcional ao espaço e investimento disponível aos artistas. Isso criou um estilo musical controverso e marginal, que entre erros e acertos evoluiu muito. Hoje, acredito que todos sabemos, a LAPA é um celeiro de grandes artistas, o mesmo Racionais que fazia shows na Favela Godoy, faz shows na Europa e o Indie Hip-Hop vai bem, obrigado.

Continuo ouvindo os mesmos Realidade Cruel, A286, Racionais, GOG, Visão de Rua e NDee Naldinho, mas entendi porque comecei a prestar maior reverência a artistas da nova escola que ultrapassaram a barreira do rap denúncia e trataram temas menos restritos que a crítica social. Entendi os moleques que me xingaram no Youtube quando comentei em caráter pejorativo o clipe do Pixote com participação do Helião. O que entristece é o fanatismo em torno de artistas com pouco a dizer e a embaçada visibilidade para alguns rappers mais afiados.

Finalizo ainda com a frase principal deste texto de Oscar Wilde supracitado:
"A diversidade de opiniões sobre uma obra de arte revela que a obra é nova, complexa e vital."

Ainda acredito que o RAP possa mudar o mundo. Não com a mesma inocência e rebeldia, mas como um estilo musical livre, consistente e aberto a reflexão.

3 comentários:

BrunoricO. disse...

Excelente matéria irmão, e de fato engana-se quem acha que o rap pode mudar o mundo, na verdade as pessoas esperam a mudança de coisas alheias, quando na verdade a mudança tem que partir delas, e é foda isso. No cd novo do Bill ele manda várias indiretas pro público do rap nacional, achei maneiro isso, vou ate postar um som depois la no blog.
Hasta.

BrunoricO. disse...

Aí parceiro, tava precisando trocar uma idéia contigo de uns projetos literários que to escrevendo, se der adiciona no msn: rikoln@hotmail.com ou no orkut, se tiver, é só procurar brunorico.

Pedro Luiz disse...

E aí, cara, firmeza?

Achei seu blog pesquisando sobre o Capão Redondo. Achei também um blog de um cara que fala sobre a área, queria saber se vc conhece - http://migre.me/zJsl parece que ele é da região!

Abraço!

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