Expo Davila Nós Somos!
por Robson Assis | tags davila nós somos, graffiti, hip-hop, rap | 20.8.12 COMENTE!
Neste final de semana rolou a Expo Davila Nós Somos!, no Campo Limpo, SP. Um evento que trouxe rap, break dance, exposição de low riders e um mutirão de graffiti para colorir os muros do jardim Umuarama, na zona sul de São Paulo. Com distribuição e venda de comida no local e famílias inteiras presentes, o evento ajudou a aproximar ainda mais os moradores do bairro da cultura hip-hop e da arte, de um modo mais amplo.
E eu? Só registrei né, não era de lá.
De bombeta e moletom #6
por Robson Assis | tags de bombeta e moleton, mixtape | 12.5.12 COMENTE!
Da Rua é o novo blog da Folha sobre graffiti. Lá você encontra dicas de arte urbana pelo mundo, documentários, convites para exposições e muito mais. Com "curadoria" dos fotógrafos Louise Chin e Ignacio Aronovich, criadores do site Lost Art, um ótimo lugar para se encontrar ao que vem acontecendo pelas ruas do mundo todo.
http://darua.blogfolha.uol.com.br/
Sexta edição da mixtape de periodicidade mais duvidosa do #RAPBR. E se você guarda rancores do rap gangsta, romântico, alternativo ou ainda dá atenção a estes micro rótulos é sua última chance de desistir antes de dar o play. Temos aqui doses medicinais de lirismo, peso e vida, num panorama maior. Então não perde tempo e fecha com a gente. De bombeta e moletom #006 nas veias imaginárias da internet:
01. Cone Crew & Don L, 'Special'
02. Projota, 'O Suficiente'
03. Síntese, 'Se Encontrar'
04. Dragões de Komodo, 'Ataque de gafanhotos'
05. Meek Mill part. Rick Ross, 'Tupac Back'
06. Próprios Punhos, 'Berço do Barulho'
07. AXL part. Projota, Kamau, Rashid e Mattenie, 'É Noiz'
08. Emicida, 'Dedo na Ferida'
09. Dope D.O.D, 'Snap'
10. Prodigio Cris, 'To de volta'
11. Rivais part. Bill Coyote & James Bantu, 'Preta'
III Agita Sampaio
por Robson Assis | tags agita sampaio, zona sul | 26.3.12 COMENTE!
Neste final de semana aconteceu o III Agita Sampaio, festa anual que acontece no Jd. Maria Sampaio, zona sul de São Paulo, com suporte da prefeitura e organização própria. Um evento que trouxe à quebrada bandas de rock, reggae, rap (Fernandinho Beatbox & Funk Buia, Gaspar - Z'áfrica Brasil - entre outros), discotecagem, pista de skate e sessões de graffiti, além da distribuição de prêmios e brindes aos presentes. Famílias inteiras reunidas, muitas crianças participando em um saudável ambiente de coletividade local, até onde pude enxergar.
E eu? 'só registrei né, não era de lá...' (fotos do celular):
E eu? 'só registrei né, não era de lá...' (fotos do celular):
"O que todo marginal tem, o verso"
por Robson Assis | tags bootleg, mixtape, músicas novas, racionais, rara, singles | 11.2.12 COMENTE!
Dava pra fazer uma belíssima mixtape com ao menos dez músicas lançadas pelo Racionais nesse hiato desde 'Nada como um dia após o outro dia', de 2002 (dez anos, cadê a foto-montagem no Facebook dizendo que estou ficando velho?). Alguns sons ao vivo, alguns ripados da rádio, alguns raros e perdidos no computador dos amigos, como 'República dos Lokos' (o título do post é um trecho da música), que chegou ao Youtube durante essa semana por benfeitoria de André Caramante responsável, entre outras coisas por aquela matéria de capa na Rolling Stone no final de 2009.
Nesse meio tempo, o Racionais conseguiu ainda criar outra cena em torno de si mesmo com a internet produzindo versões paródia para Negro Drama (procurem, não vou colocar link, sério) ou cada nova edição de Vida Loka, como a parte III, IV etc (vai até a parte VIII, com um retorno do Guina, segundo o @bigdree). Com toda essa expectativa, não é de estranhar que tenha virado coqueluche colocar "música nova racionais" nas tags de vídeos do youtube. Muitas vezes isso é usado como blackhat, o termo que designa um conjunto de estratégias anti-éticas para conseguir mais acessos. A pior parte é que algumas músicas são boas, como postaram essa do "vulgo Grilo", de São Matheus, um rap cabuloso, que infelizmente ganha acessos por colocar no título "racionais 2012 lançamento".
Outro fato que me incomoda é a crítica desses singles por uma galera que já entende essas músicas como "o novo trabalho do Racionais" e não como singles, como pequenas doses do que está por vir. Sou fã, eu sei. Racionais faz parte da criação e eu não tive como fugir disso aí, eu sou mais um (uso frases de músicas com frequência também). Na escola eu aprendi português, matemática, ciências e Racionais, portanto minha opinião pode ser desconsiderada, mas eu acredito que se um disco demora mais de dez anos pra ser lançado é preciso ser minimamente respeitado (Dr. Dre e Detox mandam abraços).
Disse no começo que dava pra fazer uma mixtape de 10 músicas, mas menti, consegui achardezesseis*. Já é bootleg em nossos corações.
(são dezesseis mesmo, o Soundcloud ainda não atualizou a lista com "Mulher Elétrica" e "Umbabarauma". Se achar alguma que não entrou, avise nos comentários)
*vou atualizando conforme encontrar músicas novas =)
Nesse meio tempo, o Racionais conseguiu ainda criar outra cena em torno de si mesmo com a internet produzindo versões paródia para Negro Drama (procurem, não vou colocar link, sério) ou cada nova edição de Vida Loka, como a parte III, IV etc (vai até a parte VIII, com um retorno do Guina, segundo o @bigdree). Com toda essa expectativa, não é de estranhar que tenha virado coqueluche colocar "música nova racionais" nas tags de vídeos do youtube. Muitas vezes isso é usado como blackhat, o termo que designa um conjunto de estratégias anti-éticas para conseguir mais acessos. A pior parte é que algumas músicas são boas, como postaram essa do "vulgo Grilo", de São Matheus, um rap cabuloso, que infelizmente ganha acessos por colocar no título "racionais 2012 lançamento".
Outro fato que me incomoda é a crítica desses singles por uma galera que já entende essas músicas como "o novo trabalho do Racionais" e não como singles, como pequenas doses do que está por vir. Sou fã, eu sei. Racionais faz parte da criação e eu não tive como fugir disso aí, eu sou mais um (uso frases de músicas com frequência também). Na escola eu aprendi português, matemática, ciências e Racionais, portanto minha opinião pode ser desconsiderada, mas eu acredito que se um disco demora mais de dez anos pra ser lançado é preciso ser minimamente respeitado (Dr. Dre e Detox mandam abraços).
Disse no começo que dava pra fazer uma mixtape de 10 músicas, mas menti, consegui achar
(são dezesseis mesmo
*vou atualizando conforme encontrar músicas novas =)
#RapBR 2011, um editorial retrospectivo
por Robson Assis | tags 2011, editorial, rapBR | 27.12.11 COMENTE!
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| "You never thought that hip hop would take it this far" |
A frase na legenda da foto é do Biggie, em Juicy, 'Você nunca pensou que o hip hop fosse chegar tão longe', se referindo ao sucesso do refrão Dah-ha, Dah-ha, do Rappin Duke, também citado na letra. Notorious B.I.G, além de um dos rappers mais famosos que o mundo já conheceu, começou a carreira fazendo história nas batalhas de freestyle nas ruas do Brooklyn. O mesmo freestyle da Rinha dos MCs, a Liga dos MCs, a Batalha do Santa Cruz e de muitos outros eventos espalhados pelo Brasil. Eventos que revelaram em 2011 um núcleo artístico de fazer encolher a língua qualquer Barbara Gância de ideias talhadas nos preconceitos com estilos musicais que se tornem populares demais e pouco manejáveis.
E aí você começa a lembrar do que fizeram esses dois da foto esse ano. Começa a ver que, independente do que acreditam, foram os melhores do ano não só nas maiores premiações musicais, mas em tudo ao que se proporam. Estiveram pelo menos em todas as listas de melhores do ano que você encontrar. São revolucionários por um ponto de vista de quem só ouviu falar deles depois do Coachella ou do VMB. Daquele lado que conheceu o rap esse ano, que DESCOBRIU o Criolo, que não entendeu como o Emicida e o Kamau fizeram freestyles monstros em entrevistas de última hora, que se espantaram com a criatividade aliada desse pessoal ganhando o mainstream com a facilidade de quem ganha uma rifa de panetone e com o respeito e aval dos mestres de outrora.
'A virada' não define muito bem. Talvez 'O Acerto', 'A Confirmação' e porque não 'É Tudo nosso'? Esse ano vimos o rap roubar a cena do jeito que qualquer fã -mesmo os ortodoxos- sempre sonharam, sem mais, nem menos. Vimos uma discussão de cabeças grandes da música saindo do círculos de tios do pavê da crítica especializada. Tudo isso remanescente do barulho proporcionado pelo incrível Nó na Orelha que Criolo deu em todos que ouviram sua obra. Mais que isso, vimos esses dois nomes da foto no topo encabeçarem todas as rodas de discussão sobre música, das rodas de boteco às colunas especializadas. E foram muito mais longe do que se podia imaginar, B.I.G tinha razão.
Algo me incomoda sempre que ouço alguém dizendo que o rap precisa se afastar da favela, precisa parar de cantar o sofrimento, porque a dor não vende (o que contraria absolutamente o raciocínio que tornou o Datena sucesso de público). De certa forma, eu concordo com parte dessa mudança toda, é realmente mais comercial falar da madrugada e da rua do que de um barraco três por quatro com goteira no teto e invadido pela PM. E se existe algo de que o rap estava precisando em 2011 era abandonar algumas amarras e saber caminhar na corda bamba que diz 'OK, somos da periferia, passamos por dificuldades também, mas somos felizes e talvez isso soe melhor no disco'. Sem o moralismo de ter que denunciar o que todo o mundo já sabe, ou deveria saber.
Mas não me entenda errado. Por um outro lado, se não existe mais público para a realidade, isso não a impede de existir, certo? Então, na construção dessa base sólida, a periferia continua ativa, como numa primavera de Praga, diria Sérgio Vaz. Você encontra shows de rap em escolas, eventos de fechar a avenida, um programa de rap em canal aberto e salvo por iniciativa do público, saraus, ensaios comunitários, palestras, workshops em grandes feiras literárias, cursos, bibliotecas, centros culturais para crianças, revistas e, bem, talvez seja melhor resumir isso numa palavra: oportunidade. Existe ainda aquela vertente de pensamento de que isso precisa deixar de existir, a ideia de que a música salva pessoas do crime. Acho que negar isso é invalidar o próprio poder transformador da música. Essa história não serve apenas para o crime, o rap pode salvar as pessoas da ignorância, da mediocridade. Negar isso é desmerecer a música como opção de vida, como alternativa para esse mundo de caos ordenado e ineficaz.
Frases só se tornam eternas quando dizem algo que ultrapassa as fronteiras do tempo. Biggie, numa frase simples e sem rodeios, apontou na cara das pessoas dizendo: vocês nunca acharam que isso aqui ia pra frente, né? E em 2011, eles entraram pelo seu rádio, tomaram e você nem viu. Pra terminar antes que esse monte de citações de paráfrases deixem de fazer sentido, estou com Sérgio Vaz quando: "que 2012 seja pior... pior para quem estiver no nosso caminho".
Feliz e próspero 2012 ao #RapBR e a todo mundo desse lado aí.
De bombeta e moletom #5
por Robson Assis | tags de bombeta e moleton, mixtape | 23.9.11 COMENTE!
O blog A Polaroid Story fala sobre uma garota que tenta fotografar seus artistas preferidos em uma Polaroid. E sobre a dificuldade dessa aventura em busca de uma foto perfeita, uma vez que é preciso posar na frente (uma vez que a Polaroid parece não trabalhar muito bem com pessoas em movimento). Lá você vai encontrar fotos de J. Cole, Erykah Badu, Method Man, MoS Def, Mayer Howthorne, Guru e Gil Scott-Heron (RIP para os dois últimos), entre muitas outras personalidades da música black.
Neste volume da mixtape deveriam entrar a indicação dos amigos Biw (Biggie Smalls & Frank Sinatra, com Juicy, New York) e Glauber (Promoe, com Long Distance Runner), mas fica aí apenas o link, porque nessa edição, especialmente, tendo em vista esse monte de patacoada teórica sobre a popularização do Criolo e uma pá de Barbara Gancias saindo do armário, temos apenas rap nacional. Pros críticos em geral (e não só 'os intocáveis' da mídia especializada). E um forte abraço a todos os (subdes)envolvidos.
Para baixar, chega aí. Para ouvir o streaming, basta dar o play!
01. Akis Kinte, 'Às escuras e as cegas'
02. Emicida, part. Rael da Rima e Fióti, 'Licença Aqui'
03. Terceira Safra part. Projota, 'Assim Segue'
04. Doncesão, 'A Ilusionista'
05. Ogi, 'Eu me perdi na madrugada'
06. AXL & Skeeter, 'Preciso Voltar'
07. Criolo, 'Lion Man'
08. Trilha Sonora do Gueto, 'Fusão Leste-SUl'
09. Inquérito, 'Meu Super-herói'
10. Projota, 'Mais do que pegadas'
Num país nem tão distante
por Robson Assis | tags critica, rapBR | 21.9.11 COMENTE!
O rap e uma pequena analogia sociológica. Tá um saco dizer tudo isso com as mesmas palavras que todo mundo já fez por aí. Basta procurar. Então aqui, não se citam artistas, celebridades, mainstream, sequer música. É apenas uma analogia simples pra entender tudo o que está acontecendo com a música rap no Brasil em 2011.
Cenário I - Disneyland, aqui vamos nós
Imagine um país, escondido do mapa, culturalmente crucificado por transgredir alguns padrões e normas. Um país com algumas deficiências, mas em constante crescimento, ainda que pacato. Imagine que as pessoas que construíram esse país têm a pátria estampada em seus corações, respiram a parada, fazem de tudo para que o país um dia se torne uma grande potência e possa conversar com os grandes, frente a frente, sem as barreiras erguidas pelo cinismo alheio. E aí, imagine que brecha seguida de brecha, o país começa a conquistar um certo espaço, ter uma certa visão entre os grandes. E que o resto do mundo comece a entender que o caráter transgressor de uma época é preciso ser contextualizado e estudado como parte da história daquele país. E agora que as coisas começam a caminhar bem, com todo esse apelo da mídia mundial em cima daquele país, ele comece a se tornar pop. Seus grandes avatares estampando a capa das revistas, seu estilo de vida sendo estudado minuciosamente por nichos de elite que nunca antes cogitaram tocar no assunto. Seus grandes mestres, outrora vistos como utópicos e desnecessários, transformados em formadores de opinião. E aí o país se torna o centro das atenções. Todo mundo fala do país. Todo mundo ama aquele país desde pequeno. Começa um verdadeiro êxodo, de quem nunca havia conseguido aturar ou assimilar o que aquele país costumava pregar. As pessoas começam a vir morar no país, vislumbrados pelas possbilidades, dão belos passeios pelos centros povoados, quebram algumas redomas de vidro, alguns preconceitos, alguns tabus, começam a ouvir falar de assuntos e enfoques os quais nunca prestaram a devida atenção. É tudo diversão. É tudo descoberta, embora esse bando de turistas não consiga dar a devida atenção para os habitantes naturais que construíram aquele país, pois estão olhando, ainda boquiabertos, tudo o que foi construído com o tempo.
Cenário II - Nascido e criado
Era tudo festa. A organização do nosso país impressionava, grandes eventos, comemorações ano após ano, festejando a última dúzia de meses em que batemos de frente, ou que escapamos com a cabeça erguida. E então as cidades começaram a encher. Os aluguéis de nosso país encareceram, ficou muito mais difícil manter o convívio saudável (com alguns atritos esparsos) que tínhamos antigamente. Talvez seja possível envolver todos esses novos habitantes de uma maneira que eles se sintam cada vez mais em casa, que comecem a se acomodar, espalhar seus pertences pela sala e, em troca, a cuidar disso aqui como um lugar também deles. Acho que se eu pudesse deixar uma mensagem para todos esses novos visitantes, é a de que você não deve sujar a casa de quem deixa as portas abertas para você entrar. Chegue com cuidado, seja lisonjeiro e vamos crescer todos juntos, é tudo o que espero. Mas é preciso esperar. Porque vivemos uma época de épicos, em que tudo é extravagante, excelente e maravilhoso, até que algum monitor conservadorista comece a arrebanhar novamente sua população desgarrada. E aí, os turistas vão embora. Os que restarem, talvez terão assimilado no coração tudo aquilo que o país pode lhe oferecer. E quanto a nós? Acredito que essa pergunta ofenderia muita gente como eu, afinal, nós estamos aqui há tanto tempo que não sabemos como viver de outro jeito.
Cenário III - Num fórum 'fechado' de grandes sociólogos
Era um país pequeno, que não mostrava empecilhos, que sequer fazia cócegas em nossa estrutura. Era um país ao qual não dávamos a mínima, achávamos pedante, panfletário, isso apenas pra não dizer de seus modos repugnantes, seus trejeitos moralistas, antipáticos. Seu linguajar único e suas roupas pavorosas. Em uma conspiração pra ditar a nova moda, o país entrou na onda, virou manchete, dava os primeiros sinais que poderia se tornar um problema caso deixássemos. E começou a crescer, as pessoas se movimentaram querendo descobrir o que poderia ser extraído de lá. E descobriram até demais, guiados por uma base bem organizada por aqueles que já moravam naquele país. Provavelmente nosso maior erro foi ter deixado que isso acontecesse. O que ficou pra nós é a certeza de que eles não podem ser levados a sério enquanto país e que vamos conquistar de volta todas as pessoas sem tanto poder de decisão, derrubando aos poucos os grandes líderes desse país. Mostrando seus pontos fracos, suas petulâncias, seus erros crassos, mesmo que pequenos. É tudo uma questão de enfoque, tudo uma questão de saber polemizar e entrar na mente desses pequenos idiotas que foram atraídos pelo sucesso e pelo hype que deixamos escapar de nossas rédeas. Aos poucos vamos trazendo de volta aquele conceito de que esse país é tão chato quanto parece, que seus defensores são hipócritas hippies que não merecem consideração e que a verdade está apenas do nosso lado.
Cenário IV - Revoluções internas por minuto
Não sei como pode. Vivemos nesse país praticamente durante toda a nossa vida. Conhecemos as melhores formas de crescer e sustentar as bases mínimas pra que nada fosse jogado ralo abaixo. Lutamos juntos por melhores condições, por união, pra que pudéssemos deixar de herança um futuro decente nesse país. Nada levado tanto a sério. Gente como eu aceitando dois tipos que não consigo lidar: um bando de novatos e um bando de aproveitadores. O problema é que não podemos separar o joio do trigo com destreza. Sempre sobrará um que poderá colocar tudo a perder. E isso desanima. Tanto quanto desanima ver os meus se envolvendo em projetos de outros países mais ricos e já bem desenvolvidos. Me incomoda. Saber que era a gente que mandava e desmandava em nós mesmos e o quanto pregávamos que não deveríamos dar ouvido a outros países, nem fazer alianças mesmo nos cenários mais críticos. E agora cada um criou uma olha em torno de si, cada um vê apenas o barco salva vidas que está à sua frente, ninguém enxerga o que enxergávamos antes. E sou visto como ridículo e conservador, óbvio, porque não consigo deixar de pensar naquele tempo em que estávamos juntos, em tudo aquilo que dissemos que seria pra sempre. Talvez eu tenha levado tudo um pouco a sério demais.
Cenário I - Disneyland, aqui vamos nós
Imagine um país, escondido do mapa, culturalmente crucificado por transgredir alguns padrões e normas. Um país com algumas deficiências, mas em constante crescimento, ainda que pacato. Imagine que as pessoas que construíram esse país têm a pátria estampada em seus corações, respiram a parada, fazem de tudo para que o país um dia se torne uma grande potência e possa conversar com os grandes, frente a frente, sem as barreiras erguidas pelo cinismo alheio. E aí, imagine que brecha seguida de brecha, o país começa a conquistar um certo espaço, ter uma certa visão entre os grandes. E que o resto do mundo comece a entender que o caráter transgressor de uma época é preciso ser contextualizado e estudado como parte da história daquele país. E agora que as coisas começam a caminhar bem, com todo esse apelo da mídia mundial em cima daquele país, ele comece a se tornar pop. Seus grandes avatares estampando a capa das revistas, seu estilo de vida sendo estudado minuciosamente por nichos de elite que nunca antes cogitaram tocar no assunto. Seus grandes mestres, outrora vistos como utópicos e desnecessários, transformados em formadores de opinião. E aí o país se torna o centro das atenções. Todo mundo fala do país. Todo mundo ama aquele país desde pequeno. Começa um verdadeiro êxodo, de quem nunca havia conseguido aturar ou assimilar o que aquele país costumava pregar. As pessoas começam a vir morar no país, vislumbrados pelas possbilidades, dão belos passeios pelos centros povoados, quebram algumas redomas de vidro, alguns preconceitos, alguns tabus, começam a ouvir falar de assuntos e enfoques os quais nunca prestaram a devida atenção. É tudo diversão. É tudo descoberta, embora esse bando de turistas não consiga dar a devida atenção para os habitantes naturais que construíram aquele país, pois estão olhando, ainda boquiabertos, tudo o que foi construído com o tempo.
Cenário II - Nascido e criado
Era tudo festa. A organização do nosso país impressionava, grandes eventos, comemorações ano após ano, festejando a última dúzia de meses em que batemos de frente, ou que escapamos com a cabeça erguida. E então as cidades começaram a encher. Os aluguéis de nosso país encareceram, ficou muito mais difícil manter o convívio saudável (com alguns atritos esparsos) que tínhamos antigamente. Talvez seja possível envolver todos esses novos habitantes de uma maneira que eles se sintam cada vez mais em casa, que comecem a se acomodar, espalhar seus pertences pela sala e, em troca, a cuidar disso aqui como um lugar também deles. Acho que se eu pudesse deixar uma mensagem para todos esses novos visitantes, é a de que você não deve sujar a casa de quem deixa as portas abertas para você entrar. Chegue com cuidado, seja lisonjeiro e vamos crescer todos juntos, é tudo o que espero. Mas é preciso esperar. Porque vivemos uma época de épicos, em que tudo é extravagante, excelente e maravilhoso, até que algum monitor conservadorista comece a arrebanhar novamente sua população desgarrada. E aí, os turistas vão embora. Os que restarem, talvez terão assimilado no coração tudo aquilo que o país pode lhe oferecer. E quanto a nós? Acredito que essa pergunta ofenderia muita gente como eu, afinal, nós estamos aqui há tanto tempo que não sabemos como viver de outro jeito.
Cenário III - Num fórum 'fechado' de grandes sociólogos
Era um país pequeno, que não mostrava empecilhos, que sequer fazia cócegas em nossa estrutura. Era um país ao qual não dávamos a mínima, achávamos pedante, panfletário, isso apenas pra não dizer de seus modos repugnantes, seus trejeitos moralistas, antipáticos. Seu linguajar único e suas roupas pavorosas. Em uma conspiração pra ditar a nova moda, o país entrou na onda, virou manchete, dava os primeiros sinais que poderia se tornar um problema caso deixássemos. E começou a crescer, as pessoas se movimentaram querendo descobrir o que poderia ser extraído de lá. E descobriram até demais, guiados por uma base bem organizada por aqueles que já moravam naquele país. Provavelmente nosso maior erro foi ter deixado que isso acontecesse. O que ficou pra nós é a certeza de que eles não podem ser levados a sério enquanto país e que vamos conquistar de volta todas as pessoas sem tanto poder de decisão, derrubando aos poucos os grandes líderes desse país. Mostrando seus pontos fracos, suas petulâncias, seus erros crassos, mesmo que pequenos. É tudo uma questão de enfoque, tudo uma questão de saber polemizar e entrar na mente desses pequenos idiotas que foram atraídos pelo sucesso e pelo hype que deixamos escapar de nossas rédeas. Aos poucos vamos trazendo de volta aquele conceito de que esse país é tão chato quanto parece, que seus defensores são hipócritas hippies que não merecem consideração e que a verdade está apenas do nosso lado.
Cenário IV - Revoluções internas por minuto
Não sei como pode. Vivemos nesse país praticamente durante toda a nossa vida. Conhecemos as melhores formas de crescer e sustentar as bases mínimas pra que nada fosse jogado ralo abaixo. Lutamos juntos por melhores condições, por união, pra que pudéssemos deixar de herança um futuro decente nesse país. Nada levado tanto a sério. Gente como eu aceitando dois tipos que não consigo lidar: um bando de novatos e um bando de aproveitadores. O problema é que não podemos separar o joio do trigo com destreza. Sempre sobrará um que poderá colocar tudo a perder. E isso desanima. Tanto quanto desanima ver os meus se envolvendo em projetos de outros países mais ricos e já bem desenvolvidos. Me incomoda. Saber que era a gente que mandava e desmandava em nós mesmos e o quanto pregávamos que não deveríamos dar ouvido a outros países, nem fazer alianças mesmo nos cenários mais críticos. E agora cada um criou uma olha em torno de si, cada um vê apenas o barco salva vidas que está à sua frente, ninguém enxerga o que enxergávamos antes. E sou visto como ridículo e conservador, óbvio, porque não consigo deixar de pensar naquele tempo em que estávamos juntos, em tudo aquilo que dissemos que seria pra sempre. Talvez eu tenha levado tudo um pouco a sério demais.
Então toma (uma reflexão)
por Robson Assis | tags emicida, então toma, rapBR | 1.7.11 4 Comentários
Refletia esses dias sobre os clipes novos do rap nacional. Percebi que grande parte essa produção audiovisual dos novos artistas é ligada a estratégia simples e quase inocente de uma câmera na mão e uma idéia na cabeça: preciso fazer um vídeo do meu grupo. Não importa se não houver um diretor de fotografia, ou alguém para gerir a direção artística. Esse pensamento, imagino, deve ser geralmente seguido de "Eu conheço alguém que conhece alguém que..." e o "clipe" se resume ao rapper cantando em frente a um graffiti, fazendo passinhos desastrados numa avenida, na praia, pecados de edição, pouco desafio e pobre linguagem visual.
Aqui entra aquele velho debate do RapBR proposto pelo Giberto Yoshinaga e que volta e meia vem à tona: o fato de que Nem todos serão MC's. A questão navega por quanto seu trampo merece de dedicação, de gente trabalhando em cima. Seu grupo gera emprego, ainda que seja tudo voltado a você, à sua produção, você precisa de gente em volta pra estruturar seu avanço.
Quando vemos um clipe como o novíssimo "Então Toma", do Emicida, fica claro o apreço pelo que é bom, a escolha totalmente acertada de referências não musicais, mas artísticas — se você não viu nesse clipe referências a Cães de Aluguel ou qualquer outro filme de Tarantino precisa urgentemente começar a buscar algumas listas de melhores filmes das décadas passadas —, o que certamente não é algo a se julgar, quando tudo o que falta nesse meio são referências.
O Rap nacional está crescendo a um ponto em que começa a esconder e limar o que é ruim num processo natural em que levar seu grupo nas coxas é algo que deve ser descartado de imediato se você pretende figurar entre os ao menos "aceitáveis". Porque os melhores dedicam todos os seus esforços e tratam o rap como a própria vida, e vice-versa. Nas palavras de Rashid "e se o rap te tratasse como criança já que você trata ele como brincadeira?". Portanto, é preciso correr atrás e acertar, sempre que possível.
Como o Vinicius também citou, é inevitável lembrar de "Sabotage", dos Beastie Boys, um dos clipes mais aclamados da história dos videoclipes.
É até meio evidente citar Tarantino ao tratar desse novo clipe do Emicida. Eu mesmo vi tantas outras referências que quase desisti de escrever o texto. Claro que existe aquele fator pulsante quando você procura referências no que quer que seja: você pode acabar enxergando até o que não existe. Aquele clássico de quando você olha para uma nuvem jurando que ela se parece com um dragão.
O clipe começa com um diálogo nonsense e tem todos os outros elementos básicos dos melhores filmes do diretor: a mala de dinheiro, o corte seco de imagem e áudio entre as cenas, o fator inesperado (neste caso, um homem se debatendo com uma frase do Criolo, rapper que contracena com Emicida no clipe: "não é de bom tom você ter um corpo amarrado na sala da tua casa").
"Então Toma" tudo de uma só vez: Essa história dos diálogo nonsense entre dois personagens no início da trama te leva direto para Pulp Fiction; Os nomes dos personagens no início é a clara referência ao cinema Western que Tarantino sempre gostou de homenagear em seus filmes; Emicida, de terno, nos faz lembrar quase instantaneamente de Cães de Aluguel (sim, você também precisa parar de achar que o CQC inventa alguma coisa) e todo aquele diálogo sobre música e uma possível dupla Emi & Cida, como elemento tragicômico, tal qual a quase piada interna dos integrantes do NX Zero se revoltando ao ler a matéria Rap rouba a cena, da Folha (não sei se preciso lembrar aqui do "Projeto Paralelo" do NX Zero em que o mesmo Emicida participa da música Só Rezo 0.2). Seguindo com os personagens, Chitarra parece nossa Beatrix Kiddo, a especilista em facas protagonista de Kill Bill ao passo que Lola la Loca, poderia facilmente ser uma provável alusão à Jackie Brown (?). É nesse ponto que me imagino vendo muitos dragões em nuvens e prefiro parar de achar referências e curtir os quase seis minutos de vídeo.
Acima de tudo, "Então toma" é uma mensagem ao público de que o rap tem muito mais a dizer do que as gírias e dos protestos que o marcaram no final dos anos 90 (pelo menos aqui no Brasil). Acho que a mensagem certa é: "Não é porque eu vim da favela que todos meus clipes vão ser como versões de Click, Clack, Bang do Conexão do Morro", um clipe também elementar para a história do rap brasileiro, antes que me critiquem. Além disso, é a prova de que o rap vai continuar sua evolução, independente de ser ou não apenas uma bola da vez para o mercado mainstream. "Estamos vivos", diria KL Jay.
Aqui entra aquele velho debate do RapBR proposto pelo Giberto Yoshinaga e que volta e meia vem à tona: o fato de que Nem todos serão MC's. A questão navega por quanto seu trampo merece de dedicação, de gente trabalhando em cima. Seu grupo gera emprego, ainda que seja tudo voltado a você, à sua produção, você precisa de gente em volta pra estruturar seu avanço.
Quando vemos um clipe como o novíssimo "Então Toma", do Emicida, fica claro o apreço pelo que é bom, a escolha totalmente acertada de referências não musicais, mas artísticas — se você não viu nesse clipe referências a Cães de Aluguel ou qualquer outro filme de Tarantino precisa urgentemente começar a buscar algumas listas de melhores filmes das décadas passadas —, o que certamente não é algo a se julgar, quando tudo o que falta nesse meio são referências.
O Rap nacional está crescendo a um ponto em que começa a esconder e limar o que é ruim num processo natural em que levar seu grupo nas coxas é algo que deve ser descartado de imediato se você pretende figurar entre os ao menos "aceitáveis". Porque os melhores dedicam todos os seus esforços e tratam o rap como a própria vida, e vice-versa. Nas palavras de Rashid "e se o rap te tratasse como criança já que você trata ele como brincadeira?". Portanto, é preciso correr atrás e acertar, sempre que possível.
Como o Vinicius também citou, é inevitável lembrar de "Sabotage", dos Beastie Boys, um dos clipes mais aclamados da história dos videoclipes.
É até meio evidente citar Tarantino ao tratar desse novo clipe do Emicida. Eu mesmo vi tantas outras referências que quase desisti de escrever o texto. Claro que existe aquele fator pulsante quando você procura referências no que quer que seja: você pode acabar enxergando até o que não existe. Aquele clássico de quando você olha para uma nuvem jurando que ela se parece com um dragão.
O clipe começa com um diálogo nonsense e tem todos os outros elementos básicos dos melhores filmes do diretor: a mala de dinheiro, o corte seco de imagem e áudio entre as cenas, o fator inesperado (neste caso, um homem se debatendo com uma frase do Criolo, rapper que contracena com Emicida no clipe: "não é de bom tom você ter um corpo amarrado na sala da tua casa").
"Então Toma" tudo de uma só vez: Essa história dos diálogo nonsense entre dois personagens no início da trama te leva direto para Pulp Fiction; Os nomes dos personagens no início é a clara referência ao cinema Western que Tarantino sempre gostou de homenagear em seus filmes; Emicida, de terno, nos faz lembrar quase instantaneamente de Cães de Aluguel (sim, você também precisa parar de achar que o CQC inventa alguma coisa) e todo aquele diálogo sobre música e uma possível dupla Emi & Cida, como elemento tragicômico, tal qual a quase piada interna dos integrantes do NX Zero se revoltando ao ler a matéria Rap rouba a cena, da Folha (não sei se preciso lembrar aqui do "Projeto Paralelo" do NX Zero em que o mesmo Emicida participa da música Só Rezo 0.2). Seguindo com os personagens, Chitarra parece nossa Beatrix Kiddo, a especilista em facas protagonista de Kill Bill ao passo que Lola la Loca, poderia facilmente ser uma provável alusão à Jackie Brown (?). É nesse ponto que me imagino vendo muitos dragões em nuvens e prefiro parar de achar referências e curtir os quase seis minutos de vídeo.
Acima de tudo, "Então toma" é uma mensagem ao público de que o rap tem muito mais a dizer do que as gírias e dos protestos que o marcaram no final dos anos 90 (pelo menos aqui no Brasil). Acho que a mensagem certa é: "Não é porque eu vim da favela que todos meus clipes vão ser como versões de Click, Clack, Bang do Conexão do Morro", um clipe também elementar para a história do rap brasileiro, antes que me critiquem. Além disso, é a prova de que o rap vai continuar sua evolução, independente de ser ou não apenas uma bola da vez para o mercado mainstream. "Estamos vivos", diria KL Jay.
"Em vez de reclamar que eu não toco no Espaço Rap, eu fui trabalhar e arrumei espaço pro meu Rap"
--Emicida
Três filmes
por Robson Assis | tags filmes | 19.3.11 COMENTE!
5x Favela, outro desses épicos sobre as favelas brasileiras, embora fuja de conceitos pré-estabelecidos de que todos os moradores de favela são ligados ao tráfico de uma maneira ou outra, ou de que não existe gente comum, mas apenas os arquétipos carregados de gírias que encontramos em Cidade de Deus e Tropa de Elite 1. São cinco pequenos contos, que não se entrelaçam, mas acontecem num mesmo universo. São pessoas comuns, em vidas e histórias comuns. Um retrato da favela impresso de dentro e não a versão romanceada ou banalizada que convencionou-se fazer no cinema. 5x Favela apresenta uma visão mais novelística sem perder ritmo com voltas desnecessárias no texto. Pela primeira vez um filme brasileiro sobre a periferia que traz algo além da crítica social crua e despreparada. Existe sim, mas ela é implicita, palpável. Está presente sem que possamos notar, tamanha sua onipresença neste ambiente.
Night Catches Us, sobre um período conturbado da história negra americana. Com o final dos Panteras Negras, o próximo passo que se poderia imaginar era a polícia deixando de lado a perseguição a negros nas ruas, o que não acontece. Com um misto de raiva e conspiração, neste período, a polícia está cada vez mais segregacionista, inspirada nos fantasmas deixados pelo grupo rebelde. Uma ficção que esconde e desvenda na medida certa cada ponto sem nó que foi sendo moldado pelos negros no país-império em que os preconceitos são desfeitos com mais cautela, em que a intolerância é colocada praticamente como norma de conduta sem critério para a dor ou desprezo infligido. Cada minuto deste longa vale a pena pelo contexto histórico e pela pequena bela história que é o elo de ligação a todo este passado. O filme traz ainda algumas cenas de época, em preto e branco e um argumento definitivo para você abandonar este blog neste exato momento e correr atrás desse filme: trilha sonora executada com maestria pelo The Roots.
For Colored Girls, tenso, pesado, glorioso. Se você assistiu Precious, vai entender bem onde quer chegar o enredo. São histórias que se cruzam tanto que podem chegar a confundir o público mais desatento. Mas a comparação termina por aí. Precious é um filme com final reticente, de lamento, perda e angústia. Tudo isso está em For Colored Girls, mas em doses estridentes, que revoltam e punem toda a moral fracassada dos nossos tempos. É um filme sobre a mulher negra e para a mulher negra que vive a tragédia em seu cotidiano, que vê serem tomados à força seus sentimentos e vontade de viver. No começo do filme, a composição doentia com vozes de mulheres falando ao mesmo tempo e palavras correndo dizem 'para todas as mulheres negras que já pensaram em suicídio' como uma forma de deixar registrado mais que um simples aviso sobre o teor do que vem a seguir. Um filme forte, urgente e completo. Alguém pode se levantar dizendo que é apenas mais uma obra feminista, com alguma razão. Acredito que este tema é algo que todos gostaríamos de ver ultrapassado. Não é apenas o simples preconceito contra a mulher. Está em jogo a legitimidade e aceitação de suas escolhas pessoais, do homem como companheiro e não dono ou superior. Em atuações incríveis, cada personagem busca dentro de si uma liberdade e isto é o que de melhor o filme pode nos oferecer.
Carta aberta a Detroit
por Robson Assis | tags detroit, eminem, video | 11.3.11 COMENTE!
O rapper Eminem lançou esta semana sua carta aberta a Detroit, uma bonita forma de demonstrar seu amor pelo local em que foi criado. Esse bairrismo saudável é tema bastante cortejado no rap e, basicamente, se confunde com sua história. No vídeo, o rapper fala sobre a luta da população local e em um texto bem elaborado embora curto, fala sobre sobre a cidade com notável paixão e comprometimento.
Abaixo o vídeo, na sequência a transcrição:
Abaixo o vídeo, na sequência a transcrição:
Detroit,
Existe uma resistência que nasce em algum lugar em meio às suas ruas
Não se pode definir, mas dá pra sentir
Você pode sentir isso transbordar das pessoas que te chamam de lar
Das pessoas que são sempre orgulhosas por dizer 'eu sou de Detroit'
Você levou nosso país da infância para a indústria
E seu nome ainda carrega a idéia de uma nação construída sobre aço, músculos e suor
Você se tornou a cidade que carrega o país
A cidade, como o esporte, é construída sobre sonhos
Pessoas que te dirigiriam, se sobressaíram
Quem sabe, nada é feito sem trabalho duro, sem sacrifício
Quando você se fere, nós nos ferimos
O testemunho de suas ruas é nossa luta
Seus tijolos são nossa fúria através do vazio de cada casa de portas cerradas, de cada fábrica fechada
Nós temos vivido com os altos de baixos
Mas continuamos aqui, Detroit
Nós nunca viramos as costas pra você, Detroit, porque nós somos você
Minha casa
O lar da Motown, Cadillac e Joe Louis
Com tudo isso, nós não podemos ser derrotados, porque nós nunca fomos derrotados
Você nos construiu, você nos moveu, você nos modelou
Às vezes pra baixo, mas nunca pra fora
Leve a força em nós, seu povo
Mantenha-se firme, Detroit.
O Cerrado que não para
por Robson Assis | tags eric magnus, musica | 28.2.11 COMENTE!
Eric Magnus e seus Contos Perdidos do Cerrado Central trazem o rap contado diretamente do Centro-Oeste brasileiro. Porque, como ele mesmo diz em uma das músicas "o universo, mesmo grande, ainda tem seu lado interno". Necessário, atual, concreto e verdadeiro, Contos Perdidos é um disco bem construído sobre rimas inteligentes e melodias ébrias muito interessantes e bem elaboradas.
O rapper, que também é responsável por grande parte das produções do disco, disponibilizou o disco para download gratuito em seu perfil no Bandcamp, embora você possa também adquirir a versão física através do email ericmagnus.som@gmail.com.
Suas letras estão balanceadas entre o engajamento e a reflexão profunda dos temas. O equilíbrio de sua temática faz do som de Eric Magnus não redundante e absolutamente sincero, em que podemos encontrar os versos certos e pontuais sobre cada situação. Magnus é como aquele amigo que sempre tem a palavra certa a nos dizer em cada momento. Para finalizar, outras aspas do rapper "eu fico aqui, a palavra é eterna, o corpo morre, mas a alma se preserva".
Leia também a entrevista para o portal O Rap Informa, onde conheci o trabalho desse rapper.
O rapper, que também é responsável por grande parte das produções do disco, disponibilizou o disco para download gratuito em seu perfil no Bandcamp, embora você possa também adquirir a versão física através do email ericmagnus.som@gmail.com.
Suas letras estão balanceadas entre o engajamento e a reflexão profunda dos temas. O equilíbrio de sua temática faz do som de Eric Magnus não redundante e absolutamente sincero, em que podemos encontrar os versos certos e pontuais sobre cada situação. Magnus é como aquele amigo que sempre tem a palavra certa a nos dizer em cada momento. Para finalizar, outras aspas do rapper "eu fico aqui, a palavra é eterna, o corpo morre, mas a alma se preserva".
Leia também a entrevista para o portal O Rap Informa, onde conheci o trabalho desse rapper.
Sabotage Eterno
por Robson Assis | tags 2003, documentário, rap, sabotage | 24.1.11 1 Comentário
Sabotage (1973 — 2003) era o rapper, o elo. Modelo direto de competência e visão de mundo para sua quebrada, para seu próprio mundo. Ele tinha um dom natural em mãos, sua rima entorpecente, sua levada sinistra, seus trejeitos de composição. Era o rap, dava pra sentir de longe, não precisava de teste. A vivência fazia pulsar a rua em suas veias, sabia conhecer o mundo novo que fervilhava sob seus pés. Do Canão a Cannes, sabia onde pisar e como chegar.
Hoje, a música brasileira completa oito anos sem ele.
Assista o documentário completo no Youtube
Hoje, a música brasileira completa oito anos sem ele.
Assista o documentário completo no Youtube
Duas leituras #001
por Robson Assis | tags hip-hop is read, indicações, textos | 8.1.11 2 Comentários
Dois textos interessantes com opiniões sobre música. Para um sábado tranquilo. Os textos estão em inglês, mas não é nada impossível de ler. So, enjoy it.
::::A ÚNICA DROGA QUE EMINEM NÃO CONSEGUE ABANDONAR #
"Certas vezes, o sonho de fazer algo é mais divertido do que a conclusão real.
Se existe algo sobre Eminem que se manteve firme durante todos estes anos é o fato de que ele odeia a idéia de ser famoso. Ele transpareceu isso em 'Say Goodbye Hollywood', de 2002, e os efeitos negativos de seu estrelato internacional tem se mostrado repetidamente desde então [...] Tudo o que ele sempre quis era ter certeza de que Hailie [filha do rapper] tivesse uma boa vida. E ele fez isso, apesar de certa relutância em aceitar os prós e contras deste processo. [...] Com isso em mente, rimar pagou suas contas e sua mais recente façanha no trabalho lhe rendeu o álbum de maior venda no ano [...] o mais orgulhoso torcedor do Detroit Red Wing expressa liricamente o emaranhado de inferno e sucesso pessoal ao qual se enfiou."
leia na íntegra [em inglês]
***
::::O QUE SIGNIFICA SER UM FÃ DE MÚSICA MAINSTREAM HOJE? #
"[...]É como se naquela época (anos 1960 e 70), cada pessoa tivesse algum grau de paixão pela música, mesmo se essa música estivesse no nível do mainstream. E eu acho que o motivo foi a qualidade global da música que eles estavam acostumados [...] a definição de um fã mainstream mudou radicalmente a partir da época de meus pais, e falando da minha época (anos 90) para agora, esta mudança é ainda mais drástica.
Hoje, o rap mainstream é um concurso de gritos. Quem faz a mais repetitiva e ignorante busca de atenção pode se destacar no ciberespaço [...] o hip-hop mainstream contemporâneo é preso na presente câmara de eco do sensacionalismo e da falta de originalidade. A maior parte dessa música é uma sombra do que ele mesmo foi em 1999 quando a geração TRL tomou conta [...] especialmente se você considerar que uma grande quantidade de hip hop hoje é realmente 'auto-destrutiva'. Sem dúvida, estes fatores têm degradado a nossa música e cultura.
Como entusiastas da música e de artistas, temos de estar conscientes do que aconteceu com o mainstream e como isso aconteceu. Além disso, temos de estar conscientes de quem é mais responsável por criar uma disparidade tão grande entre as principais correntes de ontem e de hoje. Se fizermos isso, nós podemos afetar o tipo de mudança no mainstream que, pelo menos, garante aos jovens a melhor chance de uma escolha variada de música de alta qualidade."
leia na íntegra [em inglês]
::::A ÚNICA DROGA QUE EMINEM NÃO CONSEGUE ABANDONAR #
"Certas vezes, o sonho de fazer algo é mais divertido do que a conclusão real.
Se existe algo sobre Eminem que se manteve firme durante todos estes anos é o fato de que ele odeia a idéia de ser famoso. Ele transpareceu isso em 'Say Goodbye Hollywood', de 2002, e os efeitos negativos de seu estrelato internacional tem se mostrado repetidamente desde então [...] Tudo o que ele sempre quis era ter certeza de que Hailie [filha do rapper] tivesse uma boa vida. E ele fez isso, apesar de certa relutância em aceitar os prós e contras deste processo. [...] Com isso em mente, rimar pagou suas contas e sua mais recente façanha no trabalho lhe rendeu o álbum de maior venda no ano [...] o mais orgulhoso torcedor do Detroit Red Wing expressa liricamente o emaranhado de inferno e sucesso pessoal ao qual se enfiou."
leia na íntegra [em inglês]
***
::::O QUE SIGNIFICA SER UM FÃ DE MÚSICA MAINSTREAM HOJE? #
"[...]É como se naquela época (anos 1960 e 70), cada pessoa tivesse algum grau de paixão pela música, mesmo se essa música estivesse no nível do mainstream. E eu acho que o motivo foi a qualidade global da música que eles estavam acostumados [...] a definição de um fã mainstream mudou radicalmente a partir da época de meus pais, e falando da minha época (anos 90) para agora, esta mudança é ainda mais drástica.
Hoje, o rap mainstream é um concurso de gritos. Quem faz a mais repetitiva e ignorante busca de atenção pode se destacar no ciberespaço [...] o hip-hop mainstream contemporâneo é preso na presente câmara de eco do sensacionalismo e da falta de originalidade. A maior parte dessa música é uma sombra do que ele mesmo foi em 1999 quando a geração TRL tomou conta [...] especialmente se você considerar que uma grande quantidade de hip hop hoje é realmente 'auto-destrutiva'. Sem dúvida, estes fatores têm degradado a nossa música e cultura.
Como entusiastas da música e de artistas, temos de estar conscientes do que aconteceu com o mainstream e como isso aconteceu. Além disso, temos de estar conscientes de quem é mais responsável por criar uma disparidade tão grande entre as principais correntes de ontem e de hoje. Se fizermos isso, nós podemos afetar o tipo de mudança no mainstream que, pelo menos, garante aos jovens a melhor chance de uma escolha variada de música de alta qualidade."
leia na íntegra [em inglês]
Os contadores de história do rap
por Robson Assis | tags face da morte, ogi, rap, storytelling | 5.1.11 1 Comentário
O rap, declaradamente, é um estilo musical que preza pela mensagem que deve ser passada com poucos desvios, que deve ser entendida para reflexão, para melhoria de vida, pela esperança e outras consequências imediatas ou futuras. Só por esse quesito já se torna um estilo diferente dos outros quanto às formas de composição, uma vez que o desafio do compositor é tocar seu público com uma mensagem de valor.
É preciso acima de tudo libertar, mostrar o caminho para desvencilhar o público do comum, do mastigado, é preciso incitar a reflexão. Uma das grandes premissas para o rap é conseguir público através desse intuito. Tirar o moleque da rua, tirar o bandido da criminalidade, afastar os estereótipos criados para que um pobre não tenha direito. Está mais em oferecer um tipo único e inexplicável de auto estima ao povo da periferia.
Acima de tudo isso, de toda rima panfletária, manifesto ou debate, existe o storytelling, o ato de contar histórias com começo, meio, fim e uma 'moral da história' bem definida. Um poeta que consegue unir todos esses parâmetros para uma música é que realmente cria os clássicos.
Em 1999, aliado G do grupo Face da Morte cantou em 'A Vingança' a história de uma empregada doméstica que havia sido estuprada pelo filho do seu patrão, tendo em seguida seu próprio filho, que cresceu sem saber quem era o pai e teve fácil acesso até a criminalidade. A história gira até o ápice em que ele encontra seu pai na empresa em que vai assaltar a empresa de seu próprio —e desconhecido— pai: 'ahn? nem quero mais seu dinheiro, seu sangue é meu pagamento, vou cumprir meu juramento e vingar minha mãe'.
A composição de músicas com histórias não é invenção do rap, mas isso já era de se imaginar. Em 'The Day the Music Died', de 1971, Don Mc Lean canta sobre o trágico acidente aéreo que levou de uma vez Buddy Holly, Ritchie Valens e J. P. "The Big Bopper" Richardson. Outro exemplo clássico a ser citado é a história do boxeador Rubin "Hurricane" Carter, preso injustamente por assassinato. Nas palavras de Dylan, da clássica 'Hurricane': 'a história do Furacão, o homem que as autoridades acabaram culpando por algo que ele nunca fez. Colocaram-no numa cela, mas ele poderia ter sido o campeão mundial'. Bob Dylan e a história da country music americana, sem contar os inúmeros exemplos brasileiros de MPB e música sertaneja, até o Forró de Luiz Gonzaga estão repletos de canções que contam histórias belas ou tristes.
As histórias com base na realidade são sempre mais tocantes e incisivas, pois tratam não apenas de idéias e especulações ideológicas, mas de fatos sociais, de causos rotineiros. O rapper Ogi, integrante do grupo Contra Fluxo, que deve lançar seu primeiro disco solo 'Crônicas da Cidade Cinza', em março deste ano, volta toda a temática de suas letras em contar histórias. Algumas músicas já demonstram todo seu poder de englobar em suas músicas verdadeiros contos e criar personagens distintos e cheios de vida em cada uma de suas músicas.
Mais do que uma categoria, contar histórias traz a vida mais próxima à música e as pessoas mais envolvidas como parte do processo de criação. Uma vez que todos somos personagens nesta cadeia de eventos que chamamos de vida, a música serve como um grande espelho onde se encontram todas as histórias que ajudam a montar o quebra cabeça e desvendar a sociadade em que vivemos.
É preciso acima de tudo libertar, mostrar o caminho para desvencilhar o público do comum, do mastigado, é preciso incitar a reflexão. Uma das grandes premissas para o rap é conseguir público através desse intuito. Tirar o moleque da rua, tirar o bandido da criminalidade, afastar os estereótipos criados para que um pobre não tenha direito. Está mais em oferecer um tipo único e inexplicável de auto estima ao povo da periferia.
Acima de tudo isso, de toda rima panfletária, manifesto ou debate, existe o storytelling, o ato de contar histórias com começo, meio, fim e uma 'moral da história' bem definida. Um poeta que consegue unir todos esses parâmetros para uma música é que realmente cria os clássicos.
Em 1999, aliado G do grupo Face da Morte cantou em 'A Vingança' a história de uma empregada doméstica que havia sido estuprada pelo filho do seu patrão, tendo em seguida seu próprio filho, que cresceu sem saber quem era o pai e teve fácil acesso até a criminalidade. A história gira até o ápice em que ele encontra seu pai na empresa em que vai assaltar a empresa de seu próprio —e desconhecido— pai: 'ahn? nem quero mais seu dinheiro, seu sangue é meu pagamento, vou cumprir meu juramento e vingar minha mãe'.
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| Roberto Carlos Ramos, do filme O Contador de Histórias |
As histórias com base na realidade são sempre mais tocantes e incisivas, pois tratam não apenas de idéias e especulações ideológicas, mas de fatos sociais, de causos rotineiros. O rapper Ogi, integrante do grupo Contra Fluxo, que deve lançar seu primeiro disco solo 'Crônicas da Cidade Cinza', em março deste ano, volta toda a temática de suas letras em contar histórias. Algumas músicas já demonstram todo seu poder de englobar em suas músicas verdadeiros contos e criar personagens distintos e cheios de vida em cada uma de suas músicas.
Mais do que uma categoria, contar histórias traz a vida mais próxima à música e as pessoas mais envolvidas como parte do processo de criação. Uma vez que todos somos personagens nesta cadeia de eventos que chamamos de vida, a música serve como um grande espelho onde se encontram todas as histórias que ajudam a montar o quebra cabeça e desvendar a sociadade em que vivemos.
Os últimos livros de 2010 (Os livros de dezembro)
por Robson Assis | tags 2010, estatística, leituras, livros | 3.1.11 COMENTE!
O Livro Negro dos Estados Unidos, Peter Scowen - Na estante particular há mais de 7 anos, Scowen me trouxe de volta muito do que aprendi lendo Michael Moore aos 19 anos. Três capítulos essenciais são os que falam sobre os governos da América do Sul, sobre comida enlatada e fast-food e o magnífico 'Cultura Vazia' sobre cultura pop norte-americana, que trabalha com dilemas como a diferença dos conceitos 'artista' e 'celebridade'. Os demais capítulos, embora maiores e mais complicados, são também excelentes e ligados a política externa, governos influenciáveis e guerras. Irmão de uma quase vítima dos ataques de 11 de setembro, o autor tenta entender como o resto do mundo deve enxergar seu país, apoiado em documentos reais, pesquisas e citações de outros autores, montando um panorama aterrorizante dos EUA. Muitos assuntos são passíveis de conspiração, claro, portanto o livro deve ser lido com cuidado extra. Um dos livros básicos para começar a perceber e analisar estranhos fenômenos de globalização que surgem do 'american dream'.
Esboço do Juízo Final, Vittorio Alfieri - Literatura italiana de qualidade, crítica e sarcástica na medida certa, bem ao contrário do que li nas resenhas que encontrei sobre o livro que tratam o autor como 'o perfeito tipo do individualista revoltado na literatura européia', Alfieri mantém o humor e a crítica da condição humana em nível adequado à sua história, em tom irônico e desconcertante, tratando das misérias sociais ou da bondade com o mesmo peso. O autor joga também com a imagem católica de um tribunal de contas a prestar diante de Deus, que confunde os homens até o ponto em que acreditam que a defesa sobre seus próprios erros e a aceitação como pecador anula imediatamente a culpa e a punição. Um livro engraçado, com um humor ao mesmo tempo agressivo e bastante refinado.
***
Em 2010 pude ler todos estes livros, alcançando essa marca inacreditável de apenas duas prateleiras cheias no quarto. Um dia, quando parar de comprar livros, talvez consiga zerar isso e, quem sabe, fazer aquele cartão da biblioteca ou comprar um iPad, essas conquistas menores. Vamos à lista:
Bartleby, o escriturário: Uma Historia de Wall Street, Herman Melville - Um conto curto, livro pocket, para ser lido em uma fila grande, ou na volta da viagem de reveillón. Confesso que achei perturbador demais, vindo do autor de Moby Dick. Melville conta a história desse sujeito excêntrico e quase patológico, que tinha uma maneira particular de negar suas obrigações diárias como funcionário de um escritório, dizendo como resposta a qualquer função que lhe designassem apenas "prefiro não o fazer". É algo além da procrastinação pura e simples. É renuncia, desprendimento moral, afasia. A propósito, o personagem principal deu origem a Síndrome de Bartleby, nome dado pelo escritor Enrique Vila-Matas ao mal que assola escritores que ao atingirem o sucesso literário deixam de produzir novas obras.
Esboço do Juízo Final, Vittorio Alfieri - Literatura italiana de qualidade, crítica e sarcástica na medida certa, bem ao contrário do que li nas resenhas que encontrei sobre o livro que tratam o autor como 'o perfeito tipo do individualista revoltado na literatura européia', Alfieri mantém o humor e a crítica da condição humana em nível adequado à sua história, em tom irônico e desconcertante, tratando das misérias sociais ou da bondade com o mesmo peso. O autor joga também com a imagem católica de um tribunal de contas a prestar diante de Deus, que confunde os homens até o ponto em que acreditam que a defesa sobre seus próprios erros e a aceitação como pecador anula imediatamente a culpa e a punição. Um livro engraçado, com um humor ao mesmo tempo agressivo e bastante refinado.
O Assassinato e outras histórias, Antón Tchekhóv - Um dos maiores contistas de todos os tempos, responsável por grandes mudanças no estilo conto. Li tudo isso na Vida e Obra, ao final do volume - esta coleção da Abril pensou em tudo - embora o pensamento "Não sei qual é a desse Tchekhóv", tenha perdurado na minha cabeça durante todo o desenrolar do livro. Entendi seus contos sistemáticos, suas histórias nem tanto confusas, seus personagens tão profundos que dariam um livro por si só, mas não entendi onde ele quer chegar com tantas reticências filosóficas no final dos contos. Compreendi, por outro lado, que suas histórias acontecem e devem ser apreciadas como um todo e não apenas como uma linha cronológica de acontecimentos; e que o final é apenas onde a história precisa parar de acontecer e ao leitor é permitido começar a refletir. E foi assim que, no final, entendi qual era a dele.
***
Em 2010 pude ler todos estes livros, alcançando essa marca inacreditável de apenas duas prateleiras cheias no quarto. Um dia, quando parar de comprar livros, talvez consiga zerar isso e, quem sabe, fazer aquele cartão da biblioteca ou comprar um iPad, essas conquistas menores. Vamos à lista:
- Você já pensou em escrever um livro?, Sônia Belloto
- Subúrbio, Fernando Bonassi
- Voláteis, Paulo Scott
- Antologia - Literatura no Brasil, vários autores
- Memórias do Subsolo, Dostoiévski
- Alta Fidelidade, Nick Hornby
- 1984, George Orwell
- O Apanhador no Campo de Centeio, J.D Salinger
- Mulheres da Máfia, Clare Longrigg
- Coleção Arte de Bolso (5 livros)
- Contos, Virgínia de Medeiros
- A Mensageira das Violetas, Florbela Espanca
- Eva Trout, Elizabeth Bowen
- A Tragédia de Eloá, Márcio Campos
- Amor Lúbrico, Vários autores
- Leite Derramado, Chico Buarque
- Olho de Gato, Margareth Atwood
- Sandman ed. definitiva vol. 1, Neil Gaiman
- Cartas a um jornalista, Voltaire
- Cândido, Voltaire
- A Origem da Desigualdade do Homem, Rousseau
- Persépolis, Marjane Satrapi
- Senhor dos Anéis vol. 1, A Sociedade do Anel, J.R.R. Tolkien
- Caco Barcellos, Rota 66
- Charles Baudelaire, Escritos sobre arte
- Os sofrimentos do jovem Werther, Goethe
- Mensagem, Fernando Pessoa
- O Abusado - O dono do morro Dona Marta, Caco Barcellos
- Ratos e Homens, Jonh Steinbeck
- Wunder Blogs, Vários autores
- Gothica, Gustave Flaubert
- Um grande garoto, Nick Hornby
- Elite da Tropa, Luis Eduardo Soares, Rodrigo Pimentel e André Batista
- O Gato preto e outras histórias, Edgar Allan Poe
- Antes tarde do que sempre, Bertoldo Gontijo
- Cartas do yage, William Burroughs e Allen Ginsberg
- O senhor dos anéis, As duas torres, J.R.R Tolkien
- O mundo fora dos eixos, crônicas, resenhas e ficções, Bernardo Carvalho
- O Velho e o Mar, Ernest Hemingway
- O Livro Negro dos Estados Unidos, Peter Scowen
- Bartleby, o escriturário: Uma Historia de Wall Street, Herman Melville
- Esboço do Juízo Final, Vittorio Alfieri
- O Assassinato e outros contos, Antón Tchekhóv
2011, um novo começo
por Robson Assis | tags 2011, analytics, começo | 30.12.10 COMENTE!
Amigos, em 2010 foram quase 4 mil visitas e 6400 pageviews (Analytics, seu lindo), mas isso é de importância menor. Este ano de 2010 fiz incríveis amigos, conheci pessoas novas não tão próximas e descobri meu lugar onde menos esperava. Não estou sempre presente, mas o coração está. É muito importante que seja sempre assim.
Que entre as metas de 2011 estejam o crescimento individual e a felicidade nas pequenas coisas. E que a cada dia tenhamos uma nova busca, um novo caminho que nos guie ao único.
Para o ano que vem, espero poder ter mais tempo para postar e me dedicar aos textos, resenhas e crônicas deste blog. Já estou me programando, sério, espero que não seja só mais um tópico na wishlist.
Feliz 2011 a todos.
Que entre as metas de 2011 estejam o crescimento individual e a felicidade nas pequenas coisas. E que a cada dia tenhamos uma nova busca, um novo caminho que nos guie ao único.
Para o ano que vem, espero poder ter mais tempo para postar e me dedicar aos textos, resenhas e crônicas deste blog. Já estou me programando, sério, espero que não seja só mais um tópico na wishlist.
"Um por um, Deus por nós, tô aqui de passagem / Vida loka, eu não tenho dom pra vítima / Justiça e liberdade, a causa é legítima / Meu rap faz o cântico, dos loucos e dos românticos, vou / Por um sorriso de criança aonde eu for / Pros parceiros, tenho a oferecer minha presença / Talvez até confusa, mas real e intensa..."Racionais MC's, Vida Loka parte II
Feliz 2011 a todos.
De bombeta e moletom #4 (mixtape)
por Robson Assis | tags de bombeta e moleton, mixtape, música | 8.12.10 COMENTE!
Ilustradora freelancer e designer, Diana Koehne trabalha com pinturas e colagens em diversas esferas da arte. Em seu site oficial, podemos encontrar uma vasta gama de trabalhos desde obras em shapes de skate, até ilustrações publicadas em revistas e livros. Uma das mais impressionantes - embora toda a obra mereça reconhecimento - são seus personagens, sempre caricatos e irreais, às vezes desenhados em post-its, outras em caixas, mas sempre com seu toque e detalhe pessoal.
A mixtape mais despretensiosa da internet volta à baila em sua quarta edição e traz uma coleção de músicas que venho ouvindo no repeat nos últimos meses (ou nos últimos dias, como o caso do single Olha pros Neguinho, do Xará com participação do Emicida). Tem uma indicação boa do meu camarada Max, que me mostrou o Thai, rap asiático, com a música Lost and Confused, além de várias boas, escolhidas sem critério e ao sabor dos ventos.
Tendo isso em vista, ouça abaixo pelo streaming, ou baixe aqui (52.15 MB).
01. SNJ, Se Tu Lutas Tu Conquistas
02. Projota, Véia
03. Blacastan part. Moe Pope, City II City
04. Parteum part. Kamau e Rick, Época de Épicos
05. Xará part. Emicida, Olha Pros Neguinho
06. Eminem part. Dr. Dre e 50 Cent, Crack A Bottle
07. Pentágono, O Q
08. Xis, Tudo Por Você Também
09. Nel Sentimentum, Bóra pro Rolê
10. Wiz Khalifa part. Wale and Trae, The Breeze Cool
11. Primeira Função part. Black Lion, Sociedade Quilombo
12. Thai, Lost and Confused
13. Rashid part. Marechal, Acendam as Luzes
Os livros de novembro
por Robson Assis | tags leituras, livros, novembro | 6.12.10 3 Comentários
Cartas do yage, William Burroughs e Allen Ginsberg - Geração beat em sua forma mais devotada. O livro fora escrito primeiramente com base nas cartas enviadas por Burroughs a Ginsberg na viagem que o escritor empreendeu ao Peru e Colômbia após a morte de sua mulher (ia inserir aqui o 'fatídica morte de sua mulher', mas me pareceu irrelevante). Suas cartas contam sobre a região, a pobreza e a escassez de espíritos livres. É a visão de um turista à procura de uma alucinação, da ayahuasca, como se conhece melhor por aqui, uma droga que promete libertação através dos poderes anestésicos da natureza. Sete anos mais tarde, Ginsberg fez a mesma viagem e a relatou também através de cartas (e alguns desenhos absurdos) para o amigo. Observa-se uma visão limitada e fria sobre a miséria dos países de terceiro mundo do hemisfério sul. Um visão de intelectual norte-americano sobre o que não consegue entender. De qualquer forma, a viagem e as viagens afluentes são extremamente interessantes e absolutamente bem escritas, dignas de apreciação. O livro, curto, de rápida leitura, termina com um texto poético de Burroughs intitulado Estou morrendo, mister?, depois O vinho das visões prodigiosas, de Eduardo Bueno, sobre a geração beat e esta pequena nota de Ginsberg, datada de 1963, que diz muito sobre o livro: A quem interessar possa: autodecifra-se esta correspondência assim: a visão dos anjos-guias que meus companheiros homens e mulheres vislumbraram inteiramente pela primeira vez enquanto o curandero cantarolava com suavidade no estado de transe de 1960 foi a profética transfiguração da autoconsciência, da sensação de medo eterno da alma sem lar na encarnação do corpo sentindo felicidade real.
O mundo fora dos eixos, crônicas, resenhas e ficções, Bernardo Carvalho - Uma coletânea com 50 textos publicados originalmente na Folha de São Paulo, entre 1995 e 2005, do autor de Mongólia e diversos outros livros. Além disso, o volume conta ainda com 10 resenhas e seis contos curtos e ficcionais. A maior e mais interessante seção do livro são as crônicas, que, baseadas em um livro, filme, peça de teatro ou obra de arte, trata sobre temas que permeiam o elemento cultural em questão até concluir o ponto em que o autor quer fazer entender. Impossível destacar qualquer crônica destas a não ser por uma divisão estilística ou de gênero. De acordo com meu conceito vago sobre as pessoas que acessam este blog, deixo indicado aqui o texto A tentação de Santo Antônio: ler para ver, em que o autor cita o K.O.S (Kids of Survival), grupo formado no South Bronx, em Nova York, que, sob a orientação de um artista plástico, cria obras de arte a partir de discussões sobre a leitura de textos literários, relacionando a história de sua principal característica (pintar sobre as páginas do livro) ao texto de Flaubert chamado As tentações de Santo Antônio, que na época ganharia uma montagem de Bob Wilson. Bernardo Carvalho consegue perfeitamente englobar em seus textos idéias e conceitos díspares e chegar a um ponto comum de maneira inacreditavelmente lúcida ao transpor o leitor para diversas esferas de pensamento.
O senhor dos anéis, As duas torres, J.R.R Tolkien - A continuação. Só depois do segundo, descobri que comecei errado ao ler primeiro a trilogia e não O Hobbit, aventura que explica muito algumas passagens obscuras da saga do anel. Sinceramente, não achei que fosse suportar toda a série após o primeiro livro que traz muita conversa perdida e pouca aventura consistente. A parte disso tudo, As Duas Torres tem algumas aventuras que envolvem escolhas morais simples, mas não menos problemáticas e termina com uma sacada excelente (e que, provavelmente, vai fazer de Sam Gamgi a personificação do sentimento de culpa no terceiro livro). Tem aquilo que já havia falado sobre A Sociedade do Anel, de transportar o leitor para um outro mundo completo, desligar o botão da Terra e o colocar como espectador da história de Frodo e o Anel na Terra Média. A segunda parte de As Duas Torres tem alguns diálogos sensacionais entre Frodo e Sam. Conversas triviais, mas espetaculares e bem encaixadas no contexto da história, do que passou e do que vem pela frente. É, sem dúvida, um livro fluente, que prende sem martirizar ou encher de balelas metafóricas. A história segue em frente e sobram questões demais para O Retorno do Rei, último livro da história. E, bem, ainda não vi os filmes de Peter Jackson e já me alertaram sobre o outro erro que é ler os livros antes de ver os filmes, embora isso não caracterize um grande problema, na minha opinião.
O mundo fora dos eixos, crônicas, resenhas e ficções, Bernardo Carvalho - Uma coletânea com 50 textos publicados originalmente na Folha de São Paulo, entre 1995 e 2005, do autor de Mongólia e diversos outros livros. Além disso, o volume conta ainda com 10 resenhas e seis contos curtos e ficcionais. A maior e mais interessante seção do livro são as crônicas, que, baseadas em um livro, filme, peça de teatro ou obra de arte, trata sobre temas que permeiam o elemento cultural em questão até concluir o ponto em que o autor quer fazer entender. Impossível destacar qualquer crônica destas a não ser por uma divisão estilística ou de gênero. De acordo com meu conceito vago sobre as pessoas que acessam este blog, deixo indicado aqui o texto A tentação de Santo Antônio: ler para ver, em que o autor cita o K.O.S (Kids of Survival), grupo formado no South Bronx, em Nova York, que, sob a orientação de um artista plástico, cria obras de arte a partir de discussões sobre a leitura de textos literários, relacionando a história de sua principal característica (pintar sobre as páginas do livro) ao texto de Flaubert chamado As tentações de Santo Antônio, que na época ganharia uma montagem de Bob Wilson. Bernardo Carvalho consegue perfeitamente englobar em seus textos idéias e conceitos díspares e chegar a um ponto comum de maneira inacreditavelmente lúcida ao transpor o leitor para diversas esferas de pensamento.
O Velho e o Mar, Ernest Hemingway - Minha idéia sobre livros que você sempre quis ler é a de que, invariavelmente, eles acabam caindo na sua mão da maneira menos provável. Encontrei meu exemplar de O Velho e o Mar num destes sebos-banca-de-jornal do centro de São Paulo, quando procurava algum clássico esquecido entre os milhares de livrinhos pocket com histórias eróticas camufladas em nomes de garotas (Jessica, Bianca etc). A história de Santiago não faz alusão a alguma moral ou a um estado de espírito, tampouco se coloca no papel de criticar ordens pré-estabelecidas. É uma excelente história sobre a luta de um homem contra a natureza, mas sem a caretice extrapolada dos neo ambientalistas, sem a visão embaçada e parcial dos que lutam por uma causa. É a história de um velho pescador que tem o mar como segundo lar, como pai, irmão e amante. Um senhor que após mais de 80 dias sem pescar nada em alto mar, consegue um grande feito que o eterniza naquilo ao que realmente dedicou toda a sua vida. Foi o último livro escrito por Hemingway, que não ficou entre os mais bem comentados pela crítica, mas até hoje figura como um de seus clássicos mais influentes e indispensáveis para toda a sua obra.
Duas visões e Um caminho
por Robson Assis | tags lao tse, rio de janeiro, um so caminho | 29.11.10 COMENTE!
Duas visões completamente necessárias para entender o que acontece nas incursões de pacificação ao Morro do Alemão Rio de Janeiro. A primeira, 'Vale tudo: O Estado pode usar os métodos de criminosos?' no blog do Sakamoto, trata de interesses de governo, mídia e avaliações de caráter moral sobre a onda de pacificação 24 horas em toda a programação da TV aberta.
Do outro lado, Bruno Rico e um conto chamado A guerra em primeira pessoa, que expressa e destrincha o sentimento da periferia à sua maneira poética, mas não como aquela carta entregue ao Jornal Nacional. Rico é meu amigo, morador do RJ, compartilha diversas opiniões como a minha sobre música e literatura marginal, além disso, escreveu alguns dos melhores contos que li este ano. Além do blog Sentimento Crítico, que reúne toda sua produção literária, ainda escreve o excelente blog de opinião Mundo do Rap.
Ficamos por aqui, apenas com este trecho do Tao te Ching, escrito chinês de 600 a.C, uma das leituras do mês que veio bastante a calhar:
Do outro lado, Bruno Rico e um conto chamado A guerra em primeira pessoa, que expressa e destrincha o sentimento da periferia à sua maneira poética, mas não como aquela carta entregue ao Jornal Nacional. Rico é meu amigo, morador do RJ, compartilha diversas opiniões como a minha sobre música e literatura marginal, além disso, escreveu alguns dos melhores contos que li este ano. Além do blog Sentimento Crítico, que reúne toda sua produção literária, ainda escreve o excelente blog de opinião Mundo do Rap.
Ficamos por aqui, apenas com este trecho do Tao te Ching, escrito chinês de 600 a.C, uma das leituras do mês que veio bastante a calhar:
"o demasiado
o desmesurado
o desqualificado
os que ajudam o soberano pelo curso
esses não violam com armas o mundo
tal ação provoca reação
onde campeiam tropas aí crescem espinhos
após grandes combates sempre anos nefastos
bom é apenas o desfecho
e basta!
não ousar dominar com violência
o desfecho sem apoteose
o desfecho sem repressão
o desfecho sem arrogância
o desfecho porque irremediável
o desfecho sem violência
as coisas reforçando-se caducam
isto se diz: sem curso
sem curso
logo o decurso"
Tao Te Ching, 'O Livro do Caminho e da sua Virtude', Lao Tse
36 anos de Hip-Hop
por Robson Assis | tags 36 anos, brasil, hip-hop, musica | 12.11.10 2 Comentários
Falo do Brasil, de uma cena independente mais aberta e informal. Do hip-hop que conheci através de amigos que cantarolavam um refrão do Racionais que nunca mais saiu da minha cabeça.
As décadas de 70/80, cerne de toda essa cultura que hoje agrega cada vez mais seguidores, nos entregou o hip-hop e suas primeiras rimas, moinhos de vento, scratches e bombers na parede. E hoje, os precursores de toda essa história colhem seus louros, se não apenas em dinheiro, também em consideração e respeito.
Somam-se quatro programas de rap em São Paulo, na rádio 105FM, um programa na TV aberta, o Manos e Minas que, por ter sua continuidade tão batalhada, tornou-se também, neste 2010, um tópico indiscutível para a história do rap nacional.
Vivemos o começo de uma nova década onde já se debate com menos frequência a virtualização da música, e ainda assim, um MC de talento e vontade surpreendentes consegue montar e vender, sozinho, 10 mil cópias de um disco produzido em casa, com a ajuda de amigos. Se ele não pode ter o direito dos discos de ouro no Faustão, o hip-hop entra em cena e, como um pai que acende a vela do bolo, faz sua própria homenagem.
O graffiti está nos principais museus do mundo, DJs e Bboys ganham respeito, são valorizados enquanto artistas, cotados para ministrar workshops sociais na periferia e trabalhar nas brechas do Estado, o limbo sócio cultural em que nasce a população menos favorecida.
Na internet, o hip-hop está mais presente do que nunca, com portais de informação e debate como a Central Hip-Hop, o Rapevolusom e o Rap Nacional, blogs especializados que trabalham com informação mais focada, reflexiva e detalhista como o Per Raps, XXL Co e Do Lado de Cá. Além das milhares de colaborações e blogs com menos acessos diários, espalhados pela rede, como este em que você está.
Sem falar nos produtores de filmes, como o Jeferson De, responsável pelo já tão premiado Bróder, sobre o Capão Redondo; e o Alessandro Buzo, que recebeu medalha de menção honrosa no 18º Gramado Cine Vídeo pelo documentário Profissão MC; os saraus na periferia da cidade seguem ganhando cadeiras cativas nas palestras das bienais e conquistando espaços cada vez mais inusitados por todo o Brasil. Jornalistas como o Gilberto Yoshinaga e Jessica Balbino, são essenciais para a cultura com seus projetos pessoais, coberturas e comprometimento, guiando os meus caminhos (e o de muitos outros como eu) com suas lanternas, ainda que quilômetros à frente dos meus pés.
Apesar de toda essa evolução e sem uma busca aprofundada a respeito do assunto, as críticas esparsas sobre o hip-hop nos veículos de imprensa tratam esse pequeno pedaço de toda a história negra como uma parte pobre da cultura popular, como um exemplo claro da arte emburrecida e banalizada. A culpa, como sempre, é direcionada às massas por algum erro de percurso com os trilhos excludentes da arte.
Que desculpem o ego, a pompa e circunstância, mas hoje a festa é apenas deste lado. A toda essa catarse de falso moralismo da mídia, o Hip-Hop manda um abraço e, incisivo, deixa o aviso pelas palavras de Thaíde: 'NADA PODE ME PARAR'.
***
Robson Assis, jornalista, conheceu o hip-hop em 1998, enquanto se divertia com os amigos num hidrante quebrado, na periferia de São Paulo. É feliz proprietário de seus blogs, seu carro, uma vasta coleção de livros e do coração de uma garota. Além disso, escreve perfis próprios em terceira pessoa, só por diversão.
MAIS SOBRE OS 36 ANOS DE HIP-HOP
As décadas de 70/80, cerne de toda essa cultura que hoje agrega cada vez mais seguidores, nos entregou o hip-hop e suas primeiras rimas, moinhos de vento, scratches e bombers na parede. E hoje, os precursores de toda essa história colhem seus louros, se não apenas em dinheiro, também em consideração e respeito.
Somam-se quatro programas de rap em São Paulo, na rádio 105FM, um programa na TV aberta, o Manos e Minas que, por ter sua continuidade tão batalhada, tornou-se também, neste 2010, um tópico indiscutível para a história do rap nacional.
Vivemos o começo de uma nova década onde já se debate com menos frequência a virtualização da música, e ainda assim, um MC de talento e vontade surpreendentes consegue montar e vender, sozinho, 10 mil cópias de um disco produzido em casa, com a ajuda de amigos. Se ele não pode ter o direito dos discos de ouro no Faustão, o hip-hop entra em cena e, como um pai que acende a vela do bolo, faz sua própria homenagem.
O graffiti está nos principais museus do mundo, DJs e Bboys ganham respeito, são valorizados enquanto artistas, cotados para ministrar workshops sociais na periferia e trabalhar nas brechas do Estado, o limbo sócio cultural em que nasce a população menos favorecida.
Na internet, o hip-hop está mais presente do que nunca, com portais de informação e debate como a Central Hip-Hop, o Rapevolusom e o Rap Nacional, blogs especializados que trabalham com informação mais focada, reflexiva e detalhista como o Per Raps, XXL Co e Do Lado de Cá. Além das milhares de colaborações e blogs com menos acessos diários, espalhados pela rede, como este em que você está.
Sem falar nos produtores de filmes, como o Jeferson De, responsável pelo já tão premiado Bróder, sobre o Capão Redondo; e o Alessandro Buzo, que recebeu medalha de menção honrosa no 18º Gramado Cine Vídeo pelo documentário Profissão MC; os saraus na periferia da cidade seguem ganhando cadeiras cativas nas palestras das bienais e conquistando espaços cada vez mais inusitados por todo o Brasil. Jornalistas como o Gilberto Yoshinaga e Jessica Balbino, são essenciais para a cultura com seus projetos pessoais, coberturas e comprometimento, guiando os meus caminhos (e o de muitos outros como eu) com suas lanternas, ainda que quilômetros à frente dos meus pés.
Apesar de toda essa evolução e sem uma busca aprofundada a respeito do assunto, as críticas esparsas sobre o hip-hop nos veículos de imprensa tratam esse pequeno pedaço de toda a história negra como uma parte pobre da cultura popular, como um exemplo claro da arte emburrecida e banalizada. A culpa, como sempre, é direcionada às massas por algum erro de percurso com os trilhos excludentes da arte.
Que desculpem o ego, a pompa e circunstância, mas hoje a festa é apenas deste lado. A toda essa catarse de falso moralismo da mídia, o Hip-Hop manda um abraço e, incisivo, deixa o aviso pelas palavras de Thaíde: 'NADA PODE ME PARAR'.
***
Robson Assis, jornalista, conheceu o hip-hop em 1998, enquanto se divertia com os amigos num hidrante quebrado, na periferia de São Paulo. É feliz proprietário de seus blogs, seu carro, uma vasta coleção de livros e do coração de uma garota. Além disso, escreve perfis próprios em terceira pessoa, só por diversão.
MAIS SOBRE OS 36 ANOS DE HIP-HOP
- Central Hip-Hop | Hip-Hop, 36 anos: história e reflexões
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