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Expo Davila Nós Somos!
por Robson Assis | tags davila nós somos, graffiti, hip-hop, rap | 20.8.12 COMENTE!
Neste final de semana rolou a Expo Davila Nós Somos!, no Campo Limpo, SP. Um evento que trouxe rap, break dance, exposição de low riders e um mutirão de graffiti para colorir os muros do jardim Umuarama, na zona sul de São Paulo. Com distribuição e venda de comida no local e famílias inteiras presentes, o evento ajudou a aproximar ainda mais os moradores do bairro da cultura hip-hop e da arte, de um modo mais amplo.
E eu? Só registrei né, não era de lá.
Sabotage Eterno
por Robson Assis | tags 2003, documentário, rap, sabotage | 24.1.11 1 Comentário
Sabotage (1973 — 2003) era o rapper, o elo. Modelo direto de competência e visão de mundo para sua quebrada, para seu próprio mundo. Ele tinha um dom natural em mãos, sua rima entorpecente, sua levada sinistra, seus trejeitos de composição. Era o rap, dava pra sentir de longe, não precisava de teste. A vivência fazia pulsar a rua em suas veias, sabia conhecer o mundo novo que fervilhava sob seus pés. Do Canão a Cannes, sabia onde pisar e como chegar.
Hoje, a música brasileira completa oito anos sem ele.
Assista o documentário completo no Youtube
Hoje, a música brasileira completa oito anos sem ele.
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Os contadores de história do rap
por Robson Assis | tags face da morte, ogi, rap, storytelling | 5.1.11 1 Comentário
O rap, declaradamente, é um estilo musical que preza pela mensagem que deve ser passada com poucos desvios, que deve ser entendida para reflexão, para melhoria de vida, pela esperança e outras consequências imediatas ou futuras. Só por esse quesito já se torna um estilo diferente dos outros quanto às formas de composição, uma vez que o desafio do compositor é tocar seu público com uma mensagem de valor.
É preciso acima de tudo libertar, mostrar o caminho para desvencilhar o público do comum, do mastigado, é preciso incitar a reflexão. Uma das grandes premissas para o rap é conseguir público através desse intuito. Tirar o moleque da rua, tirar o bandido da criminalidade, afastar os estereótipos criados para que um pobre não tenha direito. Está mais em oferecer um tipo único e inexplicável de auto estima ao povo da periferia.
Acima de tudo isso, de toda rima panfletária, manifesto ou debate, existe o storytelling, o ato de contar histórias com começo, meio, fim e uma 'moral da história' bem definida. Um poeta que consegue unir todos esses parâmetros para uma música é que realmente cria os clássicos.
Em 1999, aliado G do grupo Face da Morte cantou em 'A Vingança' a história de uma empregada doméstica que havia sido estuprada pelo filho do seu patrão, tendo em seguida seu próprio filho, que cresceu sem saber quem era o pai e teve fácil acesso até a criminalidade. A história gira até o ápice em que ele encontra seu pai na empresa em que vai assaltar a empresa de seu próprio —e desconhecido— pai: 'ahn? nem quero mais seu dinheiro, seu sangue é meu pagamento, vou cumprir meu juramento e vingar minha mãe'.
A composição de músicas com histórias não é invenção do rap, mas isso já era de se imaginar. Em 'The Day the Music Died', de 1971, Don Mc Lean canta sobre o trágico acidente aéreo que levou de uma vez Buddy Holly, Ritchie Valens e J. P. "The Big Bopper" Richardson. Outro exemplo clássico a ser citado é a história do boxeador Rubin "Hurricane" Carter, preso injustamente por assassinato. Nas palavras de Dylan, da clássica 'Hurricane': 'a história do Furacão, o homem que as autoridades acabaram culpando por algo que ele nunca fez. Colocaram-no numa cela, mas ele poderia ter sido o campeão mundial'. Bob Dylan e a história da country music americana, sem contar os inúmeros exemplos brasileiros de MPB e música sertaneja, até o Forró de Luiz Gonzaga estão repletos de canções que contam histórias belas ou tristes.
As histórias com base na realidade são sempre mais tocantes e incisivas, pois tratam não apenas de idéias e especulações ideológicas, mas de fatos sociais, de causos rotineiros. O rapper Ogi, integrante do grupo Contra Fluxo, que deve lançar seu primeiro disco solo 'Crônicas da Cidade Cinza', em março deste ano, volta toda a temática de suas letras em contar histórias. Algumas músicas já demonstram todo seu poder de englobar em suas músicas verdadeiros contos e criar personagens distintos e cheios de vida em cada uma de suas músicas.
Mais do que uma categoria, contar histórias traz a vida mais próxima à música e as pessoas mais envolvidas como parte do processo de criação. Uma vez que todos somos personagens nesta cadeia de eventos que chamamos de vida, a música serve como um grande espelho onde se encontram todas as histórias que ajudam a montar o quebra cabeça e desvendar a sociadade em que vivemos.
É preciso acima de tudo libertar, mostrar o caminho para desvencilhar o público do comum, do mastigado, é preciso incitar a reflexão. Uma das grandes premissas para o rap é conseguir público através desse intuito. Tirar o moleque da rua, tirar o bandido da criminalidade, afastar os estereótipos criados para que um pobre não tenha direito. Está mais em oferecer um tipo único e inexplicável de auto estima ao povo da periferia.
Acima de tudo isso, de toda rima panfletária, manifesto ou debate, existe o storytelling, o ato de contar histórias com começo, meio, fim e uma 'moral da história' bem definida. Um poeta que consegue unir todos esses parâmetros para uma música é que realmente cria os clássicos.
Em 1999, aliado G do grupo Face da Morte cantou em 'A Vingança' a história de uma empregada doméstica que havia sido estuprada pelo filho do seu patrão, tendo em seguida seu próprio filho, que cresceu sem saber quem era o pai e teve fácil acesso até a criminalidade. A história gira até o ápice em que ele encontra seu pai na empresa em que vai assaltar a empresa de seu próprio —e desconhecido— pai: 'ahn? nem quero mais seu dinheiro, seu sangue é meu pagamento, vou cumprir meu juramento e vingar minha mãe'.
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| Roberto Carlos Ramos, do filme O Contador de Histórias |
As histórias com base na realidade são sempre mais tocantes e incisivas, pois tratam não apenas de idéias e especulações ideológicas, mas de fatos sociais, de causos rotineiros. O rapper Ogi, integrante do grupo Contra Fluxo, que deve lançar seu primeiro disco solo 'Crônicas da Cidade Cinza', em março deste ano, volta toda a temática de suas letras em contar histórias. Algumas músicas já demonstram todo seu poder de englobar em suas músicas verdadeiros contos e criar personagens distintos e cheios de vida em cada uma de suas músicas.
Mais do que uma categoria, contar histórias traz a vida mais próxima à música e as pessoas mais envolvidas como parte do processo de criação. Uma vez que todos somos personagens nesta cadeia de eventos que chamamos de vida, a música serve como um grande espelho onde se encontram todas as histórias que ajudam a montar o quebra cabeça e desvendar a sociadade em que vivemos.
History of RAP
por Robson Assis | tags history, justin timberlake, rap | 5.10.10 3 Comentários
Performance de Justin Timberlake no Late Night com Jimmy Fallon. Um sensacional medley de quatro minutos com a história do rap:
Encontrei no blog do Maestro Billy, que disponibiliza também a tracklist.
Encontrei no blog do Maestro Billy, que disponibiliza também a tracklist.
O RAP foi pro CEU
por Robson Assis | tags programação, rap, virada cultural | 30.4.10 COMENTE!
Em 2007, após o confronto com a PM após a fatídica quase-apresentação do Racionais MCs na Virada Cultural, o RAP e seus seguidores foram execrados pela imprensa que habilidosamente culpou a música e os fãs, criando nas pessoas um sentimento de revolta por um estilo musical visto apenas como violento e errado. Não era difícil ouvir de conhecidos que o RAP não devia estar ali, uma vez que um evento deste porte não podia apoiar este estilo de música marginal.
A diminuição da presença do RAP nas edições posteriores já era esperada. Em 2008, restringiram as apresentações a um palco - o único com revista policial. Em 2009, apenas uma apresentação de DJs no centro e uma programação esparsa pelos CEUs da capital.
Em 2010, a organização da Virada Cultural restringiu os shows de RAP aos CEUs da cidade e dois shows na Pista Santa Ifigênia (Thaíde e Cabal). José Mauro Gnaspini, diretor do evento, afirmou em coletiva de imprensa que o RAP e seus entusiastas precisam buscar o seu espaço novamente: "mas aí tem que ser um passo de cada vez, quer dizer, a gente faz uma pista, não tem problema, mostra pra todo mundo que não tem problema, introduz um nome, introduz outro, e aos poucos a gente vai reconquistando esse espaço".
Gnaspini entende a importância do hip-hop para a cidade de São Paulo, diz ser também entusiasta e confessa ainda o erro da organização na edição de 2008: "em vez de premiar acabamos segregando sem querer".
Portanto, na edição de 2010, o Hip-Hop ficou restrito a pequenos e mais afastados shows. Embora tenhamos ainda Rapin Hood, EMCIDA, Nelson Triunfo, Záfrica Brasil, B Negão e outras atrações, este sem dúvida não é o suporte ideal que se esperava num evento do tamanho da Virada Cultural.
\\Programação completa em: http://viradacultural.org/programacao
A diminuição da presença do RAP nas edições posteriores já era esperada. Em 2008, restringiram as apresentações a um palco - o único com revista policial. Em 2009, apenas uma apresentação de DJs no centro e uma programação esparsa pelos CEUs da capital.
Em 2010, a organização da Virada Cultural restringiu os shows de RAP aos CEUs da cidade e dois shows na Pista Santa Ifigênia (Thaíde e Cabal). José Mauro Gnaspini, diretor do evento, afirmou em coletiva de imprensa que o RAP e seus entusiastas precisam buscar o seu espaço novamente: "mas aí tem que ser um passo de cada vez, quer dizer, a gente faz uma pista, não tem problema, mostra pra todo mundo que não tem problema, introduz um nome, introduz outro, e aos poucos a gente vai reconquistando esse espaço".
Gnaspini entende a importância do hip-hop para a cidade de São Paulo, diz ser também entusiasta e confessa ainda o erro da organização na edição de 2008: "em vez de premiar acabamos segregando sem querer".
Portanto, na edição de 2010, o Hip-Hop ficou restrito a pequenos e mais afastados shows. Embora tenhamos ainda Rapin Hood, EMCIDA, Nelson Triunfo, Záfrica Brasil, B Negão e outras atrações, este sem dúvida não é o suporte ideal que se esperava num evento do tamanho da Virada Cultural.
PROGRAMAÇÃO DE RAP NA VIRADA CULTURAL 2010
CEU - Lajeado
R. Manuel da Mota Coutinho, 293 - Lajeado
17h00 - Rappin Hood
CEU - Sapopemba
R. Manuel Quirino de Matos, s/nº - Sapopemba
18h30 - Damata
16h00 - Nelson Triunfo
CEU - Vila Curuçá
Av. Marechal Tito, 3.400 - Vila Curuçá
18h00 - EMICIDA
CEU - Vila do Sol
Av. dos Funcionários Públicos, 369 - Jd Angela
19h00 - Z'áfrica Brasil
17h00 - Bnegão
\\Programação completa em: http://viradacultural.org/programacao
O RAP pode mudar o mundo?
por Robson Assis | tags critica, musica, rap, reflexão | 19.4.10 3 Comentários
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| Foto por Luciana Faria a.k.a Playmobeats |
Estava produzindo um texto gigante sobre como o RAP se afastou de seu cunho social. Qual o verdadeiro papel social do RAP na cultura hip-hop, que obrigações poderia ter e que direitos poderia reservar. Separei tudo em tópicos e subtópicos, com explicações resumidas e conclusão em três partes. Considerei um bom tema para um TCC futuro - se um dia eu precisar fazer outro.
E então, como que por um toque divino de "esquece isso aí", encontrei essa introdução de "O Retrato de Dorian Gray", clássico de Oscar Wilde:
"O artista é o criador de coisas belas.E com toda a discussão sobre os novos trilhos do RAP nacional, cheguei a conclusão de que não vale questionar a responsabilidade da arte pelo meio social. A música deve ser entendida como uma expressão ou desabafo, um resultado do que o artista tenha a expor ou interpretar. Pode também ser analisada como uma ferramenta, mas apenas como um fim em si mesma. Para ilustrar: Um garoto pode usar o rap para se livrar do ócio e da criminalidade, mas isso não quer dizer que sua produção artística tem obrigação de ser panfletária ou assistencialista. Esta "ferramenta" já faz efeito quando um garoto deixa o crime para se tornar um artista. O que ele vai dizer quando estiver sobre os holofotes é consequência.
O objetivo da arte é revelar a arte e ocultar o artista.
O crítico é aquele que sabe traduzir de outro modo ou para um novo material a sua impressão das coisas belas.
A mais elevada, tal como a mais rasteira, forma de crítica é um modo de autobiografia.
Os que encontram significações torpes nas coisas belas são corruptos sem sedução, o que é um defeito.
Os que encontram significações belas nas coisas belas são os cultos, Para esses há esperança.
Eleitos são aqueles para quem as coisas belas apenas significam Beleza.
Um livro moral ou imoral é coisa que não existe. Os livros são bem escritos, ou mal escritos. E é tudo.
A aversão do século XIX pelo Realismo é a fúria de Caliban ao ver a sua cara ao espelho.
A aversão do século XIX pelo Romantismo é a queixa de Caliban por não ver a sua cara ao espelho.
A vida moral do homem faz parte dos temas tratados pelo artista, mas a moralidade da arte consiste no uso perfeito de um meio imperfeito. Nenhum artista quer demonstrar coisa alguma. Até as verdades podem ser demonstradas.
Nenhum artista tem simpatias éticas. Uma simpatia ética num artista é um maneirismo de estilo imperdoável.
Um artista nunca é mórbido. O artista pode exprimir tudo.
Sob o ponto de vista da forma, a arte do músico é o modelo de todas as artes. Sob o ponto de vista do sentimento, é a profissão de ator o modelo.
Toda a arte é, ao mesmo tempo, superfície e símbolo. Os que penetram para além da superfície, fazem-no a expensas suas. Os que lêem o símbolo, fazem-no a expensas suas.
O que a arte realmente espelha é o espectador, não a vida.
A diversidade de opiniões sobre uma obra de arte revela que a obra é nova, complexa e vital.
Quando os críticos divergem, o artista está em consonância consigo mesmo.
Podemos perdoar a um homem que faça alguma coisa útil, contanto que a não admire. A única justificação para uma coisa inútil é que ela seja profundamente admirada.
Toda a arte é completamente inútil."
O problema de encarar essa nova visão é ter sido "criado" em uma cena em que a expectativa sobre o rap era inversamente proporcional ao espaço e investimento disponível aos artistas. Isso criou um estilo musical controverso e marginal, que entre erros e acertos evoluiu muito. Hoje, acredito que todos sabemos, a LAPA é um celeiro de grandes artistas, o mesmo Racionais que fazia shows na Favela Godoy, faz shows na Europa e o Indie Hip-Hop vai bem, obrigado.
Continuo ouvindo os mesmos Realidade Cruel, A286, Racionais, GOG, Visão de Rua e NDee Naldinho, mas entendi porque comecei a prestar maior reverência a artistas da nova escola que ultrapassaram a barreira do rap denúncia e trataram temas menos restritos que a crítica social. Entendi os moleques que me xingaram no Youtube quando comentei em caráter pejorativo o clipe do Pixote com participação do Helião. O que entristece é o fanatismo em torno de artistas com pouco a dizer e a embaçada visibilidade para alguns rappers mais afiados.
Finalizo ainda com a frase principal deste texto de Oscar Wilde supracitado:
"A diversidade de opiniões sobre uma obra de arte revela que a obra é nova, complexa e vital."
Ainda acredito que o RAP possa mudar o mundo. Não com a mesma inocência e rebeldia, mas como um estilo musical livre, consistente e aberto a reflexão.
As Memórias Póstumas de Dina Di
por Robson Assis | tags Dina Di, rap | 25.3.10 1 Comentário
Dina Di foi uma das maiores rappers nacionais e morreu na última sexta-feira, aos 34 anos, vítima de uma infecção hospitalar após dar à luz Aline, sua segunda filha. Vocal do Visão de rua, emplacou a participação feminina no rap nacional, com letras pesadas e bem marcantes.
Seu último single, inédito, chama-se "Prova de Fogo" e parece ter sido escrito como uma memória póstuma, uma oração sem grandes pretensões que de certa forma ganhou heróica importância após sua morte. A música tem participação do grupo Paradigma e Kiko santana. Prova de fogo está disponível para download aqui.
(Achei o single no Rapevolusom)
Seu último single, inédito, chama-se "Prova de Fogo" e parece ter sido escrito como uma memória póstuma, uma oração sem grandes pretensões que de certa forma ganhou heróica importância após sua morte. A música tem participação do grupo Paradigma e Kiko santana. Prova de fogo está disponível para download aqui.
"Senhor,
Quero te servir, eu abro mão do meu tesouro
Sou pobre, cega e nua, mesmo com todo o meu ouro
E se eu morrer é pra nascer de novo e te seguir
E se eu perder é pra ganhar 100 vezes mais, evoluir
A vida é o nosso bem maior, sonhei que eu nunca morreria
Sonhei com o dia D, sonhei que Deus perdoaria
Mas há sonhos que não podem ser, olhos que não podem ver
Tempestades que não podemos prever"
(Achei o single no Rapevolusom)
Rap Genius, o significado das letras de rap
por Robson Assis | tags musica, rap, rap genius, rapgenius | 22.2.10 COMENTE!
O Rap Genius é um site colaborativo que explica algumas letras de rap de grandes artistas internacionais como Wu-Tang Clan, 2Pac, Notorious B.I.G, Nas, Jay-Z, entre outros. O site permite que o usuário ajude a explicar as letras diretamente na caixa de comentários ou enviando um e-mail com uma letra completa comentada. São as duas formas de ser colaborador.
O site conta com explicações de gírias simples/locais até momentos históricos, musicais ou não. Possui pequenas biografias das músicas comentadas e a possibilidade de ouvir a canção enquanto analisa a letra.
(dica do @andremca)
O site conta com explicações de gírias simples/locais até momentos históricos, musicais ou não. Possui pequenas biografias das músicas comentadas e a possibilidade de ouvir a canção enquanto analisa a letra.
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| Letra de Hail Mary, de 2Pac |
(dica do @andremca)
Um filme, dois discos, um quote
por Robson Assis | tags 100 proof the hangover, inside a change, intro, musica, rap, statik selektah | 19.2.10 COMENTE!
Inside a Change é um filme de Rik Cordero lançado em 2009, que não parece muito perto de chegar ao Brasil, nem nos torrents da vida. Chris Price (Efraim Benton) está prestes a servir 180 dias de prisão por um delito pela primeira vez. Quando sua mãe (Karen Chilton), o convida para jantar em casa, ele encontra seu irmão mais novo (Darrell Vanterpool) seguindo seus passos e seu irmão mais velho, Shawn (Donte Bonner) desmentindo ele. Com sua família caindo aos pedaços, Chris é forçado a reexaminar sua vida e como ele pode colocar todos juntos para o aniversário de sua mãe. A trilha sonora do filme é produzida por Rik Cordero & The Kickdrums, possui 21 músicas e não saiu do primeiro lugar na lista dos discos que mais ouvi durante esta semana. O álbum pode ser baixado neste link, disponibilizado pelo site oficial do filme.
Encontrei o Inside a Change motivado pela Introdução do novo disco do Statik Selektah, 100 Proof The Hangover, que traz uma reflexão muito bonita retirada deste filme e fala sobre relacionamentos, pessoas tóxicas ou nutritivas. Segundo a ótima resenha feita pelo Boombap Rap, 100 Proof é um disco que mostra a evolução de um grande produtor que, além de ter seu nome associado ao do DJ Premier, já trabalhou com diversos MCs e hoje dá as caras como um grande nome do rap internacional. Esta introdução é uma excelente abertura para So Close, So far, Do it 2 Death e Come Around, na minha opinião, as melhores do disco. Você consegue o disco no Noticiário Periférico. Logo abaixo, o texto da Intro:
INSIDE A CHANGE (INTRO)
Encontrei o Inside a Change motivado pela Introdução do novo disco do Statik Selektah, 100 Proof The Hangover, que traz uma reflexão muito bonita retirada deste filme e fala sobre relacionamentos, pessoas tóxicas ou nutritivas. Segundo a ótima resenha feita pelo Boombap Rap, 100 Proof é um disco que mostra a evolução de um grande produtor que, além de ter seu nome associado ao do DJ Premier, já trabalhou com diversos MCs e hoje dá as caras como um grande nome do rap internacional. Esta introdução é uma excelente abertura para So Close, So far, Do it 2 Death e Come Around, na minha opinião, as melhores do disco. Você consegue o disco no Noticiário Periférico. Logo abaixo, o texto da Intro:
INSIDE A CHANGE (INTRO)
We need to avoid people who are toxic, meaning that in every relationship between two people, people can either be toxic or nourishing toward one another. That's not to say that the same person will always be toxic or nourishing in every relationship, but the combination of two people in a relationship will always have toxic or nourishing qualities. And the important part is the test, chill with somebody, chop it up, smoke, drink whatever your demon is, it don't matter what the fuck it is, but the end of that time you gotta ask you yourself a very important question: "Do you feel tired?, or do you feel energized?". Cause if you tired then you been poisoned, if you got energy then you been nourished. You are the company you keep man, know what? Fuck your fake ass lifestyle. You look okay, but energy is tired son.
Temos de evitar pessoas que são tóxicas, o que significa que em cada relação entre duas pessoas, elas podem ser tóxicas ou nutritivas para o outro. Isso não quer dizer que a mesma pessoa sempre será tóxica ou nutritiva em todo relacionamento, mas a combinação de duas pessoas em um relacionamento sempre terá qualidades tóxicas ou nutritivas. E a parte mais importante é o teste, relaxe com alguém, converse, fume, beba o que quer que seja o seu demônio, não importa o que diabos é, mas no final desse tempo você tem que fazer a si mesmo uma questão muito importante: "Você se sente cansado?, ou você se sente energizado?". Porque se você cansado então você foi envenenado, se você tem energia, então você foi nutrido. Diga-me com quem andas, sabe? Foda-se seu estilo de vida falso. Você parece bem, você só está cansado, filho.
Os Samurais do Rap
por Robson Assis | tags critica, musica, rap | 18.2.10 COMENTE!
De uns tempos pra cá tenho visto muitas referências à cultura oriental no cenário de rap. Aconteceu pela primeira vez com o Wu-Tang Clan, cujo nome é herdado de um filme chinês chamado Shaolin & Wu-Tang. Depois, com a música Dorobô, de B Negão e Sabotage, com uma letra que mistura palavras em português e japonês que confesso não ter entendido na época. Ontem, ao ler o texto sobre o novo disco do Sniper no blog Rap Movimento, do amigo Juca Guimarães, o assunto sacudiu outra vez a mente deste que vos escreve. O rapper é campeão mundial de Kung Fu e baseia todo o seu trabalho na cultura oriental.
E foi então comecei a me lembrar.
Em 2006, o rapper Sandrão – na época em carreira solo fora do RZO – lançou um hit chamado Respeito Oriental, com a mesma temática. Talvez tenha sido um prenúncio à criação do Wu-Brasil, que hoje tem Sandrão, AC, Dj Cia e Helião como linha de frente, um projeto audacioso que colocou o Brasil na mira da maior posse de rap que o mundo já pôde conhecer.
Após o lançamento do single “E se”, do rapper Rashid, pude prestar maior atenção ao trabalho deste MC que em seu box de influências no Myspace, perdido entre nomes como Racionais, Cartola e Common, está Miyamoto Musashi, um famoso samurai que escreveu o livro dos Cinco Anéis, uma obra sobre artes marciais e estratégias militares. No Brasil, sua biografia possui dois imensos volumes publicados pela editora Estação Liberdade.
Por recomendação de um professor, nos idos de 2004 assisti Ghost Dog - O caminho do Samurai, filme de Jim Jarmusch com trilha sonora de RZA (Wu-Tang) sobre um samurai dos tempos modernos que aceita trabalhos como assassino de aluguel e serve com devoção ao homem que salvou sua vida quando criança. Protagonizado por Forest Whitaker, traz claras referências ao livro Hagakure – O Livro do Samurai, de Yamamoto Tsunetomo, lançado no Brasil pela editora Conrad. O Hagakure é um grande livro de ensinamentos que têm como base a preparação de um vassalo para servir ao seu senhor e honrá-lo. É um livro que nos leva ao passado e faz refletir sobre tradição, honra e dignidade conceitos que hoje em dia são apenas palavras bonitas. Carregado de grandes metáforas Ghost Dog é um filme que trata, em geral, de códigos de conduta, moral e respeito, uma tríade de peso para qualquer sociedade, afinal "cada lugar um lugar, cada lugar uma lei, cada lei uma razão que eu sempre respeitei", já dizem os Racionais. Pra finalizar, o Hagakure foi citado por Emicida na Revista Mais Soma, como o primeiro de um Top 5 livros que mudaram sua vida.
Se grandes rappers da atualidade estão citando a cultura oriental como influência para seus estilos de vida e suas letras, talvez seja hora de prestar maior atenção na sabedoria que o outro lado do mundo pode nos oferecer.
E foi então comecei a me lembrar.
Em 2006, o rapper Sandrão – na época em carreira solo fora do RZO – lançou um hit chamado Respeito Oriental, com a mesma temática. Talvez tenha sido um prenúncio à criação do Wu-Brasil, que hoje tem Sandrão, AC, Dj Cia e Helião como linha de frente, um projeto audacioso que colocou o Brasil na mira da maior posse de rap que o mundo já pôde conhecer.
Após o lançamento do single “E se”, do rapper Rashid, pude prestar maior atenção ao trabalho deste MC que em seu box de influências no Myspace, perdido entre nomes como Racionais, Cartola e Common, está Miyamoto Musashi, um famoso samurai que escreveu o livro dos Cinco Anéis, uma obra sobre artes marciais e estratégias militares. No Brasil, sua biografia possui dois imensos volumes publicados pela editora Estação Liberdade.
Por recomendação de um professor, nos idos de 2004 assisti Ghost Dog - O caminho do Samurai, filme de Jim Jarmusch com trilha sonora de RZA (Wu-Tang) sobre um samurai dos tempos modernos que aceita trabalhos como assassino de aluguel e serve com devoção ao homem que salvou sua vida quando criança. Protagonizado por Forest Whitaker, traz claras referências ao livro Hagakure – O Livro do Samurai, de Yamamoto Tsunetomo, lançado no Brasil pela editora Conrad. O Hagakure é um grande livro de ensinamentos que têm como base a preparação de um vassalo para servir ao seu senhor e honrá-lo. É um livro que nos leva ao passado e faz refletir sobre tradição, honra e dignidade conceitos que hoje em dia são apenas palavras bonitas. Carregado de grandes metáforas Ghost Dog é um filme que trata, em geral, de códigos de conduta, moral e respeito, uma tríade de peso para qualquer sociedade, afinal "cada lugar um lugar, cada lugar uma lei, cada lei uma razão que eu sempre respeitei", já dizem os Racionais. Pra finalizar, o Hagakure foi citado por Emicida na Revista Mais Soma, como o primeiro de um Top 5 livros que mudaram sua vida.
Se grandes rappers da atualidade estão citando a cultura oriental como influência para seus estilos de vida e suas letras, talvez seja hora de prestar maior atenção na sabedoria que o outro lado do mundo pode nos oferecer.
Cultura Freestyle e o Rap de Narciso
por Robson Assis | tags critica, rap | 27.1.10 3 Comentários
Batalhas entre rappers são eventos bastante prestigiados na música rap em geral. A chamada "rinha" de MCs cria com perfeição batalhas magistrais entre artistas que, com uma mistura de carisma e agressividade nas letras se tornam verdadeiras celebridades no meio.
Acontece assim, o primeiro rapper manda sua rima que tem por objetivo essencial rebaixar o adversário. Ao final, é a vez do outro responder no tom de sarcasmo que supere o anterior. A coisa é bem legal de assistir e eu recomendo. Como nos duelos convencionais, o rapper que se mostrar superior, vence.
Por um outro lado, esses eventos levam a música em si a um rumo diferente quando o rapper sai da rinha de Mcs e escreve uma letra, produz um disco próprio. Em geral, rappers que saem de batalhas de mcs são egocêntricos, não por erro próprio, mas pela escola da qual eles saíram, uma vez que só vence quem tiver o ego mais inflado pela ovação da platéia e o trocadilho mais afiado para insultar o adversário. Além disso, estes artistas dificilmente são parte de um grupo musical, ficam apenas com seus nomes estampados na capa dos CDs, o que lhes confere autenticidade, respeito e, em grande parte das vezes, a falta de uma boa parceria. Falta olhar outros reflexos, como não fez Narciso.
O mito de Narciso conta a história de um cara que se achava tão singular que certa vez foi olhar seu reflexo na água e, de tanto querer chegar perto, caiu dentro do lago, morrendo afogado. É assim o rapper que, ao escrever uma letra para seu disco, esquece que não existe mais nenhum adversário a sua volta, mas sim um público afim de ouvir suas idéias. Ele não precisa mais falar de si próprio, nem provar nada a ninguém.
O modelo das rinhas não enaltece o rapper que se dá melhor com as palavras, mas sim o que mais ofende o outro sem perder o caráter. Fica claro que ser bom no freestyle não é o que faz do artista um bom rapper. Se fosse assim, pra fazer uma analogia crassa, os "zé povinho" da vida real (gente que só vê o lado ruim das pessoas e sai por aí difamando Deus e o mundo) seriam grandes e incontestáveis pensadores.
Portanto, minha opinião final é que o freestyle convencional é algo excelente de assistir, exalta a criatividade e o bate-pronto dos rappers. Entretanto, do meu ponto de vista, deveria ser uma escola a mais no rap, e não apenas um celeiro de personagens genéricos. Pois o que se vê é que isso acaba criando músicas narcisistas que não enxergam muito além do próprio umbigo a realidade que tanto prega o rap. A rinha de MCs é um lugar único para exercitar a mente, sem dúvida, mas isso não vale de nada se, ao sair dali, o Narciso que existe em cada artista só reclama dos outros e exalta a si próprio.
Se a batalha de MCs é realmente fantástica como eu também acredito, seria mais vantajoso para a cultura e para o próprio artista o lançamento de discos com duelos ao vivo - e porque não - na própria Rinha de MCs. Fica a dica!
Acontece assim, o primeiro rapper manda sua rima que tem por objetivo essencial rebaixar o adversário. Ao final, é a vez do outro responder no tom de sarcasmo que supere o anterior. A coisa é bem legal de assistir e eu recomendo. Como nos duelos convencionais, o rapper que se mostrar superior, vence.O mito de Narciso conta a história de um cara que se achava tão singular que certa vez foi olhar seu reflexo na água e, de tanto querer chegar perto, caiu dentro do lago, morrendo afogado. É assim o rapper que, ao escrever uma letra para seu disco, esquece que não existe mais nenhum adversário a sua volta, mas sim um público afim de ouvir suas idéias. Ele não precisa mais falar de si próprio, nem provar nada a ninguém.
O modelo das rinhas não enaltece o rapper que se dá melhor com as palavras, mas sim o que mais ofende o outro sem perder o caráter. Fica claro que ser bom no freestyle não é o que faz do artista um bom rapper. Se fosse assim, pra fazer uma analogia crassa, os "zé povinho" da vida real (gente que só vê o lado ruim das pessoas e sai por aí difamando Deus e o mundo) seriam grandes e incontestáveis pensadores.
Portanto, minha opinião final é que o freestyle convencional é algo excelente de assistir, exalta a criatividade e o bate-pronto dos rappers. Entretanto, do meu ponto de vista, deveria ser uma escola a mais no rap, e não apenas um celeiro de personagens genéricos. Pois o que se vê é que isso acaba criando músicas narcisistas que não enxergam muito além do próprio umbigo a realidade que tanto prega o rap. A rinha de MCs é um lugar único para exercitar a mente, sem dúvida, mas isso não vale de nada se, ao sair dali, o Narciso que existe em cada artista só reclama dos outros e exalta a si próprio.
Se a batalha de MCs é realmente fantástica como eu também acredito, seria mais vantajoso para a cultura e para o próprio artista o lançamento de discos com duelos ao vivo - e porque não - na própria Rinha de MCs. Fica a dica!
Big & Pac
por Robson Assis | tags 2pac, critica, música, notorious, rap | 5.1.10 COMENTE!
A rivalidade entre as costas leste e oeste começou em meados dos anos 90, entre artistas e fãs das cenas locais de hip-hop. Os pontos focais da briga eram de um lado (leste) o rapper Tupac Shakur e sua gravadora, a Death Row Records; e, do outro (oeste), Notorious B.I.G e o selo Bad Boy Records, de Sean "Diddy" Combs (na época apenas Puff Daddy).
Uma guerra que envolveu ressentimentos declarados, muitos mal entendidos e o peso da grande mídia, mas que ao mesmo tempo levou à criação de grandes hits ofensivos como "Hit 'em Up" e "Brooklyn's Finest", por exemplo. Em uma entrevista (traduzida no Noticiário Periférico), Notorious B.I.G diz que se tivesse resolvido as coisas diretamente com Tupac, seria mais fácil:
Revista Vibe: Quem são eles?
Notorious: A midia. Tupac nunca disse: "todos vocês da West Coast tem que odiar a East Coast" e eu nunca disse: "todos vocês da East Coast tem que odiar a West Coast". Eles fizeram o seguinte, ele é do West, eu sou do East... Então é East contra o West.
A história acabou mal, óbvio, com os dois rappers assassinados.
Mas em 1999, algo aconteceu. Afeni Shakur e Voletta Wallace, mães dos artistas, apareceram em público no VMA para apresentar o Melhor Clipe de Rap do ano. Com uma mensagem de esperança, disseram basicamente que apesar de tudo estavam unidas cuidando do legado de seus filhos e que estavam lá para mostrar como a fé, amizade e esperança podem aproximar as pessoas.
Um vídeo sensacional e histórico para o hip-hop!
Fica uma bela lição aos poucos rappers de hoje em dia: existem coisas que vão muito além da sua marra e sua cara de mau. E não é preciso ser o John Lennon pra fazer do seu mundo um lugar melhor.
Racionais MC's e os rumos do rap no Brasil
por Robson Assis | tags critica, mano brown na rolling stone, mulher elétrica, música, racionais, rap | 11.12.09 2 Comentários
Não é preciso muito para dar mérito ao grupo Racionais MC's. Eles têm uma biografia invejável no rap nacional, gravaram discos que foram sucessos incontestáveis de venda e crítica, sem esbarrar num erro, num beat. E então, caíram no temido século XXI, após a decadência do rap americano, transformado no "estilo hip hop".
A idéia desse texto se deve completamente ao blog Mundo do Rap, um excelente blog crítico sobre rap nacional e que, neste texto de Bruno Rico, me provou o que a algum tempo eu já previa: Os Racionais MC's moldam o cenário rap de acordo com o disco que lançam. Claro que eles não previram isso, nem agem de má-fé, isso seria criar mais uma conspiração em torno do grupo.
Tudo começou com os discos Holocausto Urbano (1990), Escolha seu Caminho (1992) e Raio X do Brasil (1993). É início dos anos 90, pós Diretas, Impeachment de Fernando Collor, o íncio do Brasil piada pronta que temos hoje em dia. Foi dali que surgiram sons mais pesados como Pânico na Zona Sul, Homem na Estrada e Tempos Difíceis, esta última uma excelente música daquelas que não envelhecem nunca, cantada por Edi Rock.
Foi o despontar de grandes nomes como GOG, de Brasília, já com três discos e a mesma temática baseada nas subcondições de vida da periferia, lançando o hit Brasília Periferia em 1994. Da mesma época são os clássicos "Só se Não quiser Ser", do MRN e o "Humildade e Coragem são nossas armas para lutar" de Thaíde e DJ Hum, que tinham na época tanta ou até mais visibilidade que os Racionais.
Nada nesta época era considerado muito inovador e referência, talvez porque os grupos nacionais seguiam à risca a linha do rap criado nos EUA por Grandmaster Flash e popularizado com Public Enemy e NWA. Apesar de tudo, foi uma época um tanto quanto apagada em relação ao que estava por vir. Em paralelo à essa guinada inicial, Gabriel o Pensador, em alta na mídia, cantava rap para a classe média carioca, mas o rap ainda era discriminado, marginalizado e como acontece com qualquer música de protesto, ninguém (ou quase ninguém) dava ouvidos.
SOBREVIVENDO NO INFERNO, O AUGE
Em 1997, o Racionais volta com o disco Sobrevivendo no Inferno, um divisor de águas (o clichê é gratuito) no rap nacional. Foi o impulso que o rap precisava para se impor. Daí pra frente, a periferia tomou espaço na mídia e a música negra ganhou seu merecido e batalhado destaque.
O disco trazia obras primas de até 11 minutos, como Fórmula Mágica da Paz e sons que ganharam o imaginário popular da vida dos presidiários como em Diário de um Detento. Um disco com 12 músicas recheado de protestos velados, letras bem escritas como nunca antes se havia feito.
Os Racionais então reinavam absolutos no cenário rap brasileiro após ganhar o Video Music Brasil na categoria Escolha da Audiência com o clipe Diário de um Detento, em 1998.
Grandes discos foram lançados durante o final da década de 90 e o começo dos anos 2000 como "Versos Sangrentos" e "A Marcha Fúnebre Prossegue", do Facção Central, "Só Sangue Bom" do Realidade Cruel e ainda o fantástico "CPI da Favela", de GOG. O cenário rap ganhou ainda maior notoriedade com Sabotage e sua rima precisa e invocada do disco "Rap é Compromisso", de 2001.
Neste começo de século as coisas andavam muito bem, SNJ e Apocalipse 16 lançavam canções tranquilas com uma positividade inigualável. Xis, Doctor MC's e SP Funk faziam um som dançante e descolado, 509-E despontava como grande descoberta com o excelente Provérbios 13 e o rap ia conquistando cada vez mais espaço na música nacional. Não houve outra época com tantos lançamentos bons e referências pululando das quebradas brasileiras.
INFELIZMENTE, HAVIA UM DIA APÓS O OUTRO DIA
Estávamos chegando perto da Copa do Mundo de 2002 quando o Racionais emplacou mais um clásico: álbum Nada como Um dia após o outro dia, menos introspectivo e pesado que o anterior. As músicas apresentavam um lado bem mais gangsta do grupo, com letras sobre respeito, amigos e a famigerada família Vida Loka dos bonés e carros customizados, influência da cultura mexicana, os Vatos Lokos, como no filme Marcados pelo Sangue.
A morte de Sabotage em 2003 também ajudou para um certo enfraquecimento da música rap em geral neste período. A coisa toda ainda funcionava mas com um certo ritmo decadente, shows esparsos em quadras de escolas de samba, Indie Hip hop lutando com todas as forças e trazendo grandes nomes gringos para os palcos do Sesc Santo André, e então alguma coisa aconteceu: A indústria da black music.
Foi nessa época que ouvi os primeiros comentários de alguém dizer que estava ouvindo hip hop. A parte principal do que me veio à cabeça nessa hora foi: "Não se ouve um movimento". E o Bruno Rico do blog Mundo do Rap faz um ótimo comentário sobre isso em seu texto intitulado "Prevejo a divisão no rap nacional":
E então os grupos começaram a fazer rap com uma visão diferente, aproveitando o que o Racionais fez de melhor e adaptando modelos gringos. Dessa época são os discos Falcão, O Bagulho é Doido do MV Bill, Exilado Sim, Preso não do Dexter, Deus do Morro, do Detentos do Rap e Tarja Preta, do Gog.
Veja bem, gosto muito dos discos de rap deste período, mas posso dizer que, nesta época comecei a limar tudo o que ouvia de forma mais crítica. Foi a partir daí que a coisa começou a caminhar mal e seguir caminhos errados, infelizmente, mas isso não quer dizer que todas as músicas da época são ruins, muito pelo contrário, apenas o que a black music da Rihanna, Akon e afins trouxe ao rap nacional
RACIONAIS 2010 E A CONSPIRAÇÃO DO FIM DO RAP DE PROTESTO
No Brasil, a black music começou a expandir como gremilins numa piscina tomando conta de todas as rádios e toques de celular junto com o funk e outras aberrações musicais. Quem começou a curtir rap depois do último disco do Racionais teve uma excelente base do que já havia passdo, afinal, era o exemplo maior do rap com conteúdo revolucionário e prático, mas em doses menores e menos bons artistas para seguir.
O fato é que daí pra frente, ninguém mais quis saber do que o 2Pac falava em suas letras, o que a treta dele com o Notorius BIG trouxe de bom - musicalmente falando - para o rap. Dali pra frente se ouvia falar de Akon, Kanye West e suas devidas roupas e garotas. Tornou-se glamour.
E muito do rap nacional, entrou na dança. As maiores contradições da história do rap despontaram de uns anos pra cá. MV Bill no Faustão, Racionais fazendo música para a Nike, clipe do Pixote com o Helião (RZO), gravado em Paris, na frente da Torre Eifel, falando de quebrada e de humildade. A pergunta é: Para onde estamos indo e o que diabos os artistas estão fazendo do rap?
Sou fã confesso de Racionais e não acredito que eles possam fazer algo tão ruim como tanto vêm especulando os veículos de comunicação, blogs e gente envolvida. Acredito que esse burburinho todo tenha sido causado pela canção "Mulher Elétrica", que fala sobre mulheres e realmente possui uma postura bem mais pop que Mulheres Vulgares, por exemplo e provavelmente pela divulgação da revista Rolling Stone com o Mano Brown na capa.
O próximo disco do Racionais vai cair nas graças do público de qualquer forma, seja ele só dançante, só brutal ou só polêmico. O problema é como ele será encarado pelo rap em si e pela galera que curte de verdade. Minha parca opinião tem um resquício de esperança: prevejo um retorno ao marasmo do começo dos anos 90, mas por um outro lado muita vergonha alheia patrocinada por grandes nomes e comerciais chulos. Para terminar, me lembro de um trecho do filme Quase Famosos, em que o garoto aspirante a jornalista mantém um interessante diálogo com seu mentor, uma homenagem clara ao jornalista crítico mais ácido da história, Lester Bangs. Eles conversam sobre o rock, mas a analogia é válida. Talvez um garoto desses pudesse salvar o rumo da música rap. Talvez:
- Então é você que me manda aqueles artigos feitos para o jornal da escola?
- Tenho enviado umas coisas de fanzines também.
- Como é sua popularidade na escola?
- Eles me odeiam.
- Você vai conhecer muitos deles contra você nessa jornada. Sua escrita é muito boa. É uma pena você ter perdido o rock & roll.
- Perdi?
- Sim, acabou.
- Acabou?
- Acabou. Você chegou a tempo do último chacoalhão da morte, do último suspiro!
- Bem, pelo menos eu estou aqui pra isso.
A idéia desse texto se deve completamente ao blog Mundo do Rap, um excelente blog crítico sobre rap nacional e que, neste texto de Bruno Rico, me provou o que a algum tempo eu já previa: Os Racionais MC's moldam o cenário rap de acordo com o disco que lançam. Claro que eles não previram isso, nem agem de má-fé, isso seria criar mais uma conspiração em torno do grupo.
Tudo começou com os discos Holocausto Urbano (1990), Escolha seu Caminho (1992) e Raio X do Brasil (1993). É início dos anos 90, pós Diretas, Impeachment de Fernando Collor, o íncio do Brasil piada pronta que temos hoje em dia. Foi dali que surgiram sons mais pesados como Pânico na Zona Sul, Homem na Estrada e Tempos Difíceis, esta última uma excelente música daquelas que não envelhecem nunca, cantada por Edi Rock.
Foi o despontar de grandes nomes como GOG, de Brasília, já com três discos e a mesma temática baseada nas subcondições de vida da periferia, lançando o hit Brasília Periferia em 1994. Da mesma época são os clássicos "Só se Não quiser Ser", do MRN e o "Humildade e Coragem são nossas armas para lutar" de Thaíde e DJ Hum, que tinham na época tanta ou até mais visibilidade que os Racionais.
Nada nesta época era considerado muito inovador e referência, talvez porque os grupos nacionais seguiam à risca a linha do rap criado nos EUA por Grandmaster Flash e popularizado com Public Enemy e NWA. Apesar de tudo, foi uma época um tanto quanto apagada em relação ao que estava por vir. Em paralelo à essa guinada inicial, Gabriel o Pensador, em alta na mídia, cantava rap para a classe média carioca, mas o rap ainda era discriminado, marginalizado e como acontece com qualquer música de protesto, ninguém (ou quase ninguém) dava ouvidos.
SOBREVIVENDO NO INFERNO, O AUGE
Em 1997, o Racionais volta com o disco Sobrevivendo no Inferno, um divisor de águas (o clichê é gratuito) no rap nacional. Foi o impulso que o rap precisava para se impor. Daí pra frente, a periferia tomou espaço na mídia e a música negra ganhou seu merecido e batalhado destaque.
O disco trazia obras primas de até 11 minutos, como Fórmula Mágica da Paz e sons que ganharam o imaginário popular da vida dos presidiários como em Diário de um Detento. Um disco com 12 músicas recheado de protestos velados, letras bem escritas como nunca antes se havia feito.
Os Racionais então reinavam absolutos no cenário rap brasileiro após ganhar o Video Music Brasil na categoria Escolha da Audiência com o clipe Diário de um Detento, em 1998.
Grandes discos foram lançados durante o final da década de 90 e o começo dos anos 2000 como "Versos Sangrentos" e "A Marcha Fúnebre Prossegue", do Facção Central, "Só Sangue Bom" do Realidade Cruel e ainda o fantástico "CPI da Favela", de GOG. O cenário rap ganhou ainda maior notoriedade com Sabotage e sua rima precisa e invocada do disco "Rap é Compromisso", de 2001.
Neste começo de século as coisas andavam muito bem, SNJ e Apocalipse 16 lançavam canções tranquilas com uma positividade inigualável. Xis, Doctor MC's e SP Funk faziam um som dançante e descolado, 509-E despontava como grande descoberta com o excelente Provérbios 13 e o rap ia conquistando cada vez mais espaço na música nacional. Não houve outra época com tantos lançamentos bons e referências pululando das quebradas brasileiras.
INFELIZMENTE, HAVIA UM DIA APÓS O OUTRO DIA
Estávamos chegando perto da Copa do Mundo de 2002 quando o Racionais emplacou mais um clásico: álbum Nada como Um dia após o outro dia, menos introspectivo e pesado que o anterior. As músicas apresentavam um lado bem mais gangsta do grupo, com letras sobre respeito, amigos e a famigerada família Vida Loka dos bonés e carros customizados, influência da cultura mexicana, os Vatos Lokos, como no filme Marcados pelo Sangue.
A morte de Sabotage em 2003 também ajudou para um certo enfraquecimento da música rap em geral neste período. A coisa toda ainda funcionava mas com um certo ritmo decadente, shows esparsos em quadras de escolas de samba, Indie Hip hop lutando com todas as forças e trazendo grandes nomes gringos para os palcos do Sesc Santo André, e então alguma coisa aconteceu: A indústria da black music.
Foi nessa época que ouvi os primeiros comentários de alguém dizer que estava ouvindo hip hop. A parte principal do que me veio à cabeça nessa hora foi: "Não se ouve um movimento". E o Bruno Rico do blog Mundo do Rap faz um ótimo comentário sobre isso em seu texto intitulado "Prevejo a divisão no rap nacional":
"Um grande e simples exemplo do que estou querendo dizer é que hoje em dia o rap americano virou apenas hip hop, as pessoas ouvem hip hop, como elas conseguem eu não sei, mas elas juram que ouvem hip hop."
E então os grupos começaram a fazer rap com uma visão diferente, aproveitando o que o Racionais fez de melhor e adaptando modelos gringos. Dessa época são os discos Falcão, O Bagulho é Doido do MV Bill, Exilado Sim, Preso não do Dexter, Deus do Morro, do Detentos do Rap e Tarja Preta, do Gog.
Veja bem, gosto muito dos discos de rap deste período, mas posso dizer que, nesta época comecei a limar tudo o que ouvia de forma mais crítica. Foi a partir daí que a coisa começou a caminhar mal e seguir caminhos errados, infelizmente, mas isso não quer dizer que todas as músicas da época são ruins, muito pelo contrário, apenas o que a black music da Rihanna, Akon e afins trouxe ao rap nacional
RACIONAIS 2010 E A CONSPIRAÇÃO DO FIM DO RAP DE PROTESTO
No Brasil, a black music começou a expandir como gremilins numa piscina tomando conta de todas as rádios e toques de celular junto com o funk e outras aberrações musicais. Quem começou a curtir rap depois do último disco do Racionais teve uma excelente base do que já havia passdo, afinal, era o exemplo maior do rap com conteúdo revolucionário e prático, mas em doses menores e menos bons artistas para seguir.
O fato é que daí pra frente, ninguém mais quis saber do que o 2Pac falava em suas letras, o que a treta dele com o Notorius BIG trouxe de bom - musicalmente falando - para o rap. Dali pra frente se ouvia falar de Akon, Kanye West e suas devidas roupas e garotas. Tornou-se glamour.
E muito do rap nacional, entrou na dança. As maiores contradições da história do rap despontaram de uns anos pra cá. MV Bill no Faustão, Racionais fazendo música para a Nike, clipe do Pixote com o Helião (RZO), gravado em Paris, na frente da Torre Eifel, falando de quebrada e de humildade. A pergunta é: Para onde estamos indo e o que diabos os artistas estão fazendo do rap?
Sou fã confesso de Racionais e não acredito que eles possam fazer algo tão ruim como tanto vêm especulando os veículos de comunicação, blogs e gente envolvida. Acredito que esse burburinho todo tenha sido causado pela canção "Mulher Elétrica", que fala sobre mulheres e realmente possui uma postura bem mais pop que Mulheres Vulgares, por exemplo e provavelmente pela divulgação da revista Rolling Stone com o Mano Brown na capa.
O próximo disco do Racionais vai cair nas graças do público de qualquer forma, seja ele só dançante, só brutal ou só polêmico. O problema é como ele será encarado pelo rap em si e pela galera que curte de verdade. Minha parca opinião tem um resquício de esperança: prevejo um retorno ao marasmo do começo dos anos 90, mas por um outro lado muita vergonha alheia patrocinada por grandes nomes e comerciais chulos. Para terminar, me lembro de um trecho do filme Quase Famosos, em que o garoto aspirante a jornalista mantém um interessante diálogo com seu mentor, uma homenagem clara ao jornalista crítico mais ácido da história, Lester Bangs. Eles conversam sobre o rock, mas a analogia é válida. Talvez um garoto desses pudesse salvar o rumo da música rap. Talvez:
- Então é você que me manda aqueles artigos feitos para o jornal da escola?
- Tenho enviado umas coisas de fanzines também.
- Como é sua popularidade na escola?
- Eles me odeiam.
- Você vai conhecer muitos deles contra você nessa jornada. Sua escrita é muito boa. É uma pena você ter perdido o rock & roll.
- Perdi?
- Sim, acabou.
- Acabou?
- Acabou. Você chegou a tempo do último chacoalhão da morte, do último suspiro!
- Bem, pelo menos eu estou aqui pra isso.
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