Ali, Bumaye

por Robson Assis | | 4.11.10 2 Comentários

Quando Éramos Reis conta a história de Muhammad Ali, um dos maiores atletas de toda a história da humanidade

Conheci a figura de Muhammad Ali ao ver pela TV aquela Olimpíada em que ele acendeu a tocha, ovacionado por todo o estádio ao qual não consigo me recordar agora. Já era um senhor e portava com óbvia tristeza e marcas de superação o seu Mal de Parkinson. Esta semana, o Telecine Cult transmitiu o documentário Quando Éramos Reis, de 1996, sobre a luta do século entre Ali e George Foreman, que aconteceu no Zaire (atual Congo), em 1974.

O vídeo é baseado na história da luta, primeira organizada pelo polêmico Don King, embora o roteiro seja mais centrado em Ali. Amigos, parentes e jornalistas falam sobre o pugilista com a fidelidade que só compete a testemunhas oculares, comentando seus trejeitos espalhafatosos, embora carismáticos e suas frases soltas sempre (ou em grande parte das vezes) provocativas, quando não políticas e panfletárias.

Em meio a uma América do Norte separada pelo apartheid, Cassius Clay (nome real do lutador) enfrenta principalmente a mídia esportiva que o ridicularizava em comparação ao até então campeão mundial George 'brutamontes' Foreman; e as forças armadas com a qual teve de se explicar por ter se negado a participar da Guerra do Vietnã.

Já em solo Africano, Ali encontra uma multidão e se torna ídolo imediatamente, ao entrar em contato mais próximo ao povo local, fazendo uma multidão gritar 'Ali, bumaye' que significa algo como 'Ali, mate-o'. Em um trecho, um africano comenta que Foreman, mesmo sendo mais negro que Ali, representava o povo branco norte-americano, talvez por seu distanciamento, seu caráter recluso e seu comportamento de celebridade. O fato é que Ali, ao se misturar na multidão, se tornou representante de seus fãs africanos apenas por seu carisma e cumplicidade.

Uma das cenas mais tocantes do vídeo é quando, após ter vencido a luta (pronto, contei, mas você já devia saber) Ali diz que aprendeu muito com o povo africano, e uma de suas citações não gravada, mas dita no dia seguinte à luta e comentada por um dos jornalistas, me chamou a atenção. Ali disse algo como: 'Povo africano, na América, não somos tão bons quanto vocês. Alguns de nós somos ricos em Nova York, mas vocês tem uma dignidade em sua pobreza que nós não temos. Nós somos mimados na América, nós perdemos o que vocês têm aqui na África'.

Quando Éramos Reis mostra todos os lados daquele que é considerado o maior pugilista - e, por que não, atleta - de toda a história. De atleta e popstar carismático com a humildade de um verdadeiro rei, até seus inflados discursos, sejam eles egocentristas ou políticos, Muhammad Ali mostra porque deve ser lembrado durante muitas gerações.

O vídeo está disponível em oito partes no Youtube, sem legendas, pra quem quiser se arriscar.

Os livros de setembro e outubro

por Robson Assis | | 3.11.10 3 Comentários

Desculpas pela ausência estão ficando repetitivas uma vez que os motivos continuam os mesmos: Trabalho e falta de tempo. Portanto, amigos, aí estão os livros dos dois últimos meses.

Wunder Blogs, Vários autores - O nome do livro é retirado de um antigo (2004) portal de blogs (alguns ainda hoje disponíveis no Apostos.com) reunindo textos de seus autores com idéias esparsas sobre literatura, filosofia, a vida, o universo e tudo o mais. Cada um a seu modo tratando assuntos de interessse pessoal com indiscutível originalidade e senso de humor oblíquo. O livro traz textos de 11 autores da era de ouro da blogosfera brasileira, posso dizer. Uma ótima leitura, obviamente homogênea. Em cada novo capítulo um autor diferente lhe tranposrta a um mundo completamente distinto quando se trata de estilo e narrativa. Indico aqui também uma excelente entrevista com Felipe Ortiz na Folha, que define bastante o portal de blogs. Wunderblogs.com é um livro que você precisa ler com a mente desapegada e livre de preconceitos, sejam eles quais forem.

Gothica, Gustave Flaubert - Contos juvenis do autor de Madame Bovary. Personagens problemáticos e diabólicos em impressionantes diálogos e reflexões. Um total de cinco contos em um excelente livrinho pocket. Histórias sinistras, fúnebres, um lado mais psicótico e um pensamento menos tolerante sobre a humanidade. Lidos estrategicamente no escuro, antes de dormir, para contribuir com o clima sombrio. Curto, de fácil leiturae com histórias tão completas que acaba garantindo seu entretenimento. Corriqueio, enigmático. Ainda não li Madame Bovary, clássico do autor. Mas pelo que me permito conhecer da história, ela não passa perto do ambiente de Gothica, um livro infitamente mais adolescente e desprendido de regras. Como diz a introdução, uma aventura do autor pela parafernalha gótica dos contos de horror. Um bom companheiro para distrair a mente, isso posso assegurar.

Um grande garoto, Nick Hornby - O segundo romance da carreira de Nick Hornby. Tal como Alta Fidelidade, virou filme retrato-de-uma-geração. Confesso ter achado meio enfadonho todo aquele clima do sujeito vagabundo que não entendia a vida mesmo depois dos trinta - como se em alguma idade a gente pudesse compreender tudo -, mas o livro começa a embalar pela forma que a história é contada a partir de diversos pontos de vista. Do vagabundo trintão, do garoto que usa uma lógica ortodoxa para lidar com situações corriqueiras, de sua mãe depressivo-maníaca, até do Kurt Cobain em fase terminal. Ao final de tudo, uma história simples de famílias desestruturadas e um personagem alheio a humanidade se torna uma trajetória emocionante de confiança, respeito e aprendizado, escrita no melhor estilo que o Nick Hornby sabe fazer, ilustrando cenas com músicas, nomes de cantores e jogadores do Arsenal.

Elite da Tropa, Luis Eduardo Soares, Rodrigo Pimentel e André Batista - Existe aquela teoria de que a história do livro é sempre melhor que a história do filme. Neste caso, considero a história de Elite da Tropa contada de maneira mais pesada e cruel do que no filme, provavelmente por questões de mercado. As duas histórias são excelentes, sem dúvida, mas o livro revolta mais, deixa a ferida mais aberta ao denunciar - ainda que por meio da ficção, os golpes e esquemas praticados pela Polícia Militar. O livro é dividido em duas partes: na primeira, contam-se causos sobre a polícia corrupta, com um discurso sanguinário a ponto de louvar a execução de marginais na frente de seus parentes, quando não a execução sumária de seus parentes, extinguindo possíveis testemunhas. Na segunda parte, uma só história que envolve guerras entre favelas e facções rivais gerenciada pelos interesses político-econômicos de secretários, deputados, delegados e, inclusive, o governador. Interessante, para não dizer trágico, Elite da Tropa é uma denúncia maior do que o discurso 'quem financia quem?' do primeiro filme, colocando na vitrine uma polícia despreparada que trabalha através do jogo, dos pequenos golpes e da certeza de impunidade.

O Gato preto e outras histórias, Edgar Allan Poe - Releitura do clássico. Lembro de ter lido este volume nos idos de 2003/2004, provavelmente algum exemplar emprestado da livraria em que trabalhava na época. Gosto do clima sombrio de seus contos, dos personagens emparedados, das histórias macabras, da tenue relação entre o mundo real e diabólico. Personagens em um momento tranquilos, no outro bêbados e esquartejando a esposa. Poe cria climas pesados e agoniantes em histórias comuns. Cria como um maestro sua obra, que vai evoluindo até um ponto que você não consegue mais acelerar a leitura para saber o que acontece na cena seguinte. E o ápice é seguido de um final deslumbrante e inesperado, sem largar a expectativa, ou a emoção, ou a sensação de estar encurralado, sem poder respirar e sem forças para se livrar dos grilhões que o afligem. Chega de besteira, O Gato Preto e outros contos é um livro para ser lido diversas vezes, de muitos modos. Um livro curto e empolgante demais para acabar tão rápido. Apesar disso, deve ser lido em uma sentada, como dizia Poe.

Antes tarde do que sempre, Bertoldo Gontijo - "O relógio do Mickey marcava 8h45. Acordei com saudade. Saudade de mim mesmo. Do tempo em que eu encarei meus medos e venci. Do tempo em que eu peguei a rotina à unha e mudei meu destino". Indicado no último post dos livros do mês, por minha grande chegada Mirian Pulga, o livro de Bertoldo Gontijo conta a história do mesmo personagem em duas épocas de sua vida. Como a infância influenciou e modelou sua maturidade (ou a falta dela). Me lembrou muito de Alta Fidelidade e aquelea história do homem de meia idade perdido em suas próprias más escolhas. Além disso, o livro é cercado por uma atmosfera quase adolescente, embora envolva problemas e crises adultas. O autor brinda cada capítulo com uma trilha sonora adequada perfeitamente à história, desde os covers de Alice Cooper e Stones executados por sua antiga banda até 'What's Wrong with This Picture?', do Van Morrison, em uma fase mais confusa de sua vida. Poético e bem estruturado, um livro com muitas histórias em apenas uma, para ler em pressa e com a mente aberta. O livro possui versão digital que pode ser baixada gratuitamente no Livros Grátis, para quem quiser.

Jay-Z, Bing e Marketing de Guerrilha

por Robson Assis | | 18.10.10 COMENTE!

Jay-Z se uniu ao serviço de buscas Bing e à agência Droga5 para a divulgação de seu primeiro livro de memórias já intitulado Decoded, que deve chegar às lojas norte-americanas em novembro.

Nos EUA, páginas do livro serão colocadas em locais estratégicos de Nova York, como por exemplo o bairro onde Jay-Z cresceu, com dicas fornecidas através do Bing, Bing Maps e Bing Entertainment.

A ação promocional vai fornecer um total  de 200 prêmios aos usuários que encontrarem páginas do livro pela cidade, incluindo um grande prêmio com dois ingressos para os shows de Jay-z e Coldplay, em Las Vegas, na véspera do ano novo.

Esta ação de marketing utiliza técnicas de guerrilha - meios não convencionais para atingir de maneira inusitada um determinado público alvo - acontece quase um mês antes do lançamento do livro, que tem data prevista para 16 de novembro.

via Mashable e Media Bistro

*só pra constar, o post dos livros de setembro fica pra novembro, junto com os livros de outubro. Complicado assim, desculpem o transtorno.

History of RAP

por Robson Assis | | 5.10.10 3 Comentários

Performance de Justin Timberlake no Late Night com Jimmy Fallon. Um sensacional medley de quatro minutos com a história do rap:


Encontrei no blog do Maestro Billy, que disponibiliza também a tracklist.

Quem sampleou?

por Robson Assis | | 4.10.10 COMENTE!



O Who Sampled é um site gringo que oferece uma base completa de dados sobre músicas sampleadas e remixadas de diversos artistas. O texto institucional detalha: 'Este site é sobre a descoberta de novas e antigas músicas, a exploração de influências musicais e o compartilhamento do conhecimento'.

Sem a internet podemos acreditar que essa busca só seria possível por meio de uma pesquisa quase paleológica em sebos e lojas de discos. Ou com a sorte de ter um seleto grupo de amigos wikipédicos.

Aniversariante ainda recente - completou dois anos de existência no dia primeiro deste mês - o site conta com a impressionante marca de 26 mil artistas cadastrados e 64 mil músicas e samples disponíveis. E os números não param de assustar: são 3 mil moderadores, 15 mil usuários registrados e cerca de dois milhões de visitas, desde sua criação.

Através de algumas regras simples explicadas com minúcias no FAQ, qualquer um pode enviar informações sobre um sample que em seguida deve ser analisado pelos moderadores antes de ser disponibilizado.

Em uma busca simples por artistas nacionais, encontrei páginas do RZO, Racionais, Thaíde & DJ Hum, Xis e 509-E. Além da infinidade de artistas internacionais. Excelente para descobrir e orientar a discussão sobre influências no mundo da música.