Vou deixar que o site oficial da feira fale por si só:
A Plataforma Cultural Feira Preta é um espaço de celebração, reflexão e inquietação do movimento cultural de coletivos e artistas negros, ou que se dedicam a temática negra. Além de potencializar as iniciativas empreendedoras comerciais e culturais. Ao longo do ano são realizadas ações com a finalidade de preparar os participantes para o maior aproveitamento das atividades da Feira.
Não é preciso muito para dar mérito ao grupo Racionais MC's. Eles têm uma biografia invejável no rap nacional, gravaram discos que foram sucessos incontestáveis de venda e crítica, sem esbarrar num erro, num beat. E então, caíram no temido século XXI, após a decadência do rap americano, transformado no "estilo hip hop".
A idéia desse texto se deve completamente ao blog Mundo do Rap, um excelente blog crítico sobre rap nacional e que, neste texto de Bruno Rico, me provou o que a algum tempo eu já previa: Os Racionais MC's moldam o cenário rap de acordo com o disco que lançam. Claro que eles não previram isso, nem agem de má-fé, isso seria criar mais uma conspiração em torno do grupo.
Tudo começou com os discos Holocausto Urbano (1990), Escolha seu Caminho (1992) e Raio X do Brasil (1993). É início dos anos 90, pós Diretas, Impeachment de Fernando Collor, o íncio do Brasil piada pronta que temos hoje em dia. Foi dali que surgiram sons mais pesados como Pânico na Zona Sul, Homem na Estrada e Tempos Difíceis, esta última uma excelente música daquelas que não envelhecem nunca, cantada por Edi Rock.
Foi o despontar de grandes nomes como GOG, de Brasília, já com três discos e a mesma temática baseada nas subcondições de vida da periferia, lançando o hit Brasília Periferia em 1994. Da mesma época são os clássicos "Só se Não quiser Ser", do MRN e o "Humildade e Coragem são nossas armas para lutar" de Thaíde e DJ Hum, que tinham na época tanta ou até mais visibilidade que os Racionais.
Nada nesta época era considerado muito inovador e referência, talvez porque os grupos nacionais seguiam à risca a linha do rap criado nos EUA por Grandmaster Flash e popularizado com Public Enemy e NWA. Apesar de tudo, foi uma época um tanto quanto apagada em relação ao que estava por vir. Em paralelo à essa guinada inicial, Gabriel o Pensador, em alta na mídia, cantava rap para a classe média carioca, mas o rap ainda era discriminado, marginalizado e como acontece com qualquer música de protesto, ninguém (ou quase ninguém) dava ouvidos.
SOBREVIVENDO NO INFERNO, O AUGE
Em 1997, o Racionais volta com o disco Sobrevivendo no Inferno, um divisor de águas (o clichê é gratuito) no rap nacional. Foi o impulso que o rap precisava para se impor. Daí pra frente, a periferia tomou espaço na mídia e a música negra ganhou seu merecido e batalhado destaque.
O disco trazia obras primas de até 11 minutos, como Fórmula Mágica da Paz e sons que ganharam o imaginário popular da vida dos presidiários como em Diário de um Detento. Um disco com 12 músicas recheado de protestos velados, letras bem escritas como nunca antes se havia feito.
Os Racionais então reinavam absolutos no cenário rap brasileiro após ganhar o Video Music Brasil na categoria Escolha da Audiência com o clipe Diário de um Detento, em 1998.
Grandes discos foram lançados durante o final da década de 90 e o começo dos anos 2000 como "Versos Sangrentos" e "A Marcha Fúnebre Prossegue", do Facção Central, "Só Sangue Bom" do Realidade Cruel e ainda o fantástico "CPI da Favela", de GOG. O cenário rap ganhou ainda maior notoriedade com Sabotage e sua rima precisa e invocada do disco "Rap é Compromisso", de 2001.
Neste começo de século as coisas andavam muito bem, SNJ e Apocalipse 16 lançavam canções tranquilas com uma positividade inigualável. Xis, Doctor MC's e SP Funk faziam um som dançante e descolado, 509-E despontava como grande descoberta com o excelente Provérbios 13 e o rap ia conquistando cada vez mais espaço na música nacional. Não houve outra época com tantos lançamentos bons e referências pululando das quebradas brasileiras.
INFELIZMENTE, HAVIA UM DIA APÓS O OUTRO DIA
Estávamos chegando perto da Copa do Mundo de 2002 quando o Racionais emplacou mais um clásico: álbum Nada como Um dia após o outro dia, menos introspectivo e pesado que o anterior. As músicas apresentavam um lado bem mais gangsta do grupo, com letras sobre respeito, amigos e a famigerada família Vida Loka dos bonés e carros customizados, influência da cultura mexicana, os Vatos Lokos, como no filme Marcados pelo Sangue.
A morte de Sabotage em 2003 também ajudou para um certo enfraquecimento da música rap em geral neste período. A coisa toda ainda funcionava mas com um certo ritmo decadente, shows esparsos em quadras de escolas de samba, Indie Hip hop lutando com todas as forças e trazendo grandes nomes gringos para os palcos do Sesc Santo André, e então alguma coisa aconteceu: A indústria da black music.
Foi nessa época que ouvi os primeiros comentários de alguém dizer que estava ouvindo hip hop. A parte principal do que me veio à cabeça nessa hora foi: "Não se ouve um movimento". E o Bruno Rico do blog Mundo do Rap faz um ótimo comentário sobre isso em seu texto intitulado "Prevejo a divisão no rap nacional":
"Um grande e simples exemplo do que estou querendo dizer é que hoje em dia o rap americano virou apenas hip hop, as pessoas ouvem hip hop, como elas conseguem eu não sei, mas elas juram que ouvem hip hop."
E então os grupos começaram a fazer rap com uma visão diferente, aproveitando o que o Racionais fez de melhor e adaptando modelos gringos. Dessa época são os discos Falcão, O Bagulho é Doido do MV Bill, Exilado Sim, Preso não do Dexter, Deus do Morro, do Detentos do Rap e Tarja Preta, do Gog.
Veja bem, gosto muito dos discos de rap deste período, mas posso dizer que, nesta época comecei a limar tudo o que ouvia de forma mais crítica. Foi a partir daí que a coisa começou a caminhar mal e seguir caminhos errados, infelizmente, mas isso não quer dizer que todas as músicas da época são ruins, muito pelo contrário, apenas o que a black music da Rihanna, Akon e afins trouxe ao rap nacional
RACIONAIS 2010 E A CONSPIRAÇÃO DO FIM DO RAP DE PROTESTO No Brasil, a black music começou a expandir como gremilins numa piscina tomando conta de todas as rádios e toques de celular junto com o funk e outras aberrações musicais. Quem começou a curtir rap depois do último disco do Racionais teve uma excelente base do que já havia passdo, afinal, era o exemplo maior do rap com conteúdo revolucionário e prático, mas em doses menores e menos bons artistas para seguir.
O fato é que daí pra frente, ninguém mais quis saber do que o 2Pac falava em suas letras, o que a treta dele com o Notorius BIG trouxe de bom - musicalmente falando - para o rap. Dali pra frente se ouvia falar de Akon, Kanye West e suas devidas roupas e garotas. Tornou-se glamour.
E muito do rap nacional, entrou na dança. As maiores contradições da história do rap despontaram de uns anos pra cá. MV Bill no Faustão, Racionais fazendo música para a Nike, clipe do Pixote com o Helião (RZO), gravado em Paris, na frente da Torre Eifel, falando de quebrada e de humildade. A pergunta é: Para onde estamos indo e o que diabos os artistas estão fazendo do rap?
Sou fã confesso de Racionais e não acredito que eles possam fazer algo tão ruim como tanto vêm especulando os veículos de comunicação, blogs e gente envolvida. Acredito que esse burburinho todo tenha sido causado pela canção "Mulher Elétrica", que fala sobre mulheres e realmente possui uma postura bem mais pop que Mulheres Vulgares, por exemplo e provavelmente pela divulgação da revista Rolling Stone com o Mano Brown na capa.
O próximo disco do Racionais vai cair nas graças do público de qualquer forma, seja ele só dançante, só brutal ou só polêmico. O problema é como ele será encarado pelo rap em si e pela galera que curte de verdade. Minha parca opinião tem um resquício de esperança: prevejo um retorno ao marasmo do começo dos anos 90, mas por um outro lado muita vergonha alheia patrocinada por grandes nomes e comerciais chulos. Para terminar, me lembro de um trecho do filme Quase Famosos, em que o garoto aspirante a jornalista mantém um interessante diálogo com seu mentor, uma homenagem clara ao jornalista crítico mais ácido da história, Lester Bangs. Eles conversam sobre o rock, mas a analogia é válida. Talvez um garoto desses pudesse salvar o rumo da música rap. Talvez:
- Então é você que me manda aqueles artigos feitos para o jornal da escola? - Tenho enviado umas coisas de fanzines também. - Como é sua popularidade na escola? - Eles me odeiam. - Você vai conhecer muitos deles contra você nessa jornada. Sua escrita é muito boa. É uma pena você ter perdido o rock & roll. - Perdi? - Sim, acabou. - Acabou? - Acabou. Você chegou a tempo do último chacoalhão da morte, do último suspiro! - Bem, pelo menos eu estou aqui pra isso.
Na semana passada tive a oportunidade de ver dois grandes shows internacionais com público pagante incrivelmente abaixo do esperado (do meu ponto de vista, é claro). Ficam aí minhas considerações sobre as apresentações, uma delas mundialmente consagrada, outra conhecida por um público mais restrito. São contrastes de estilos e gostos, mas deu pra separar algumas conclusões sobre o fato de que show é show em qualquer lugar, seja os Beatles no Carneggie Hall ou o Cólera no Tendal da Lapa.
THE BEACH BOYS @ Credicard Hall, 02/12/2009 Na quarta-feira (02) aconteceu em SP o show de comemoração aos 40 anos do disco Pet Sounds, segundo melhor disco de todos os tempos de acordo com a lista da Rolling Stone gringa, perdendo apenas para Sgt Pepper's Lonely Heart, dos Beatles, mas isso dá um outro post com toda a discussão.
Galera na frente do Credicard Hall, sem aglomeração, pouca fila, seguranças gentis (talvez pelo fraco movimento). Entramos e pegamos os lugares marcados. Com casa vazia, a organização do evento liberou as poltronas no piso térreo. Pista lotada, ainda ficaram lugares vagos e muita gente lá em cima! Tudo pronto, banda no palco, para uma das melhores apresentações que vi na vida.
Iniciaram o show com um medley de Catch a Wave, Hawaii, Do It Again, Surf City e Surfin Safari e tocaram um repertório escolhido a dedo, com a competência que só uma banda histórica que emplacou hits durante décadas pode ter.
A apresentação seguiu e casais começaram a dançar o surf music ao lado do palco, num clima bem anos 60 para o auge da apresentação, quando o set list começou a mesclar canções do Pet Sounds como Wouldn't it be nice, God Only Knows e Sloop John B, que emocionaram muita gente, acompanhados ainda da fantástica Good Vibrations, com um espetáculo de luzes não menos instigante.
Foi um show tão espetacular como eu esperava e mais mágico do que eu poderia imaginar.
SAMIAM @ Hangar 110, ontem 06/12/2009 O Hangar 110 sempre teve uma história que se confundiu com a história do hardcore nacional. Afinal, foi lá que apareceram muitas bandas boas e promissoras, que hoje, inclusive, garantem seu espaço no maistream e outras que optaram a vida livre e desprendida da música independente.
Era um domingo, de tarde, a rua Rodolfo Miranda cheia, mas não lotada. O ingresso de R$ 60 era muito pra ver uma banda da california que já havia visitado o Brasil antes? Pode ser um motivo. Parei na frente, vi alguns rostos conhecidos e entrei lá pelas 19h. Pouco depois, entra no palco o First Driven, banda legal, que me lembrou Foo Fighters, Hot Water Music e até Samiam mesmo.
Na sequência, ZANDER. E escrevo em caixa alta pois era uma banda da qual eu não esperava tanto e que me surpreendeu como poucas bandas até hoje. Riffs pesados, guitarras numa harmonia brutal e o vocal do Noção de Nada, que dispensa adjetivações. Depois de um tempo indo em shows e frequentando a cena, você entende quando os integrantes de uma banda estão tocando aquilo que gostam e acreditam apenas por vê-los tocar.
Pra finalizar a noite, SAMIAM. Banda da California, tocando o hardcore classe que nasceu e se consagrou por lá. Faz lembrar garotos andando de skate naquele sol, a praia ao fundo e a sensação de poder esquecer o mundo que nada mais importa. Era exatamente esse o clima do show.
Uma boa parte do set list não tinha como errar. Sucessos do Astray, o melhor disco, seriam cantados em coro. Assim se passou com Mexico, Dull e até a lenta Mud Hill. O hit Sunshine foi também alucinante como eu esperava e seria a melhor do show, não fosse um dos stage divers subir no palco e tentar cantar o refrão todo desafinado, roubando o backing vocal do baixista.
Samiam finalizou o show mostrando porque se tornou uma banda referência para o hardcore melódico mundial, com riffs de guitarra marcantes e uma musicalidade muito mais que verdadeira.
O rap brasileiro sempre foi contestador. Nunca esteve presente na grande mídia, nunca tocou numa rádio mainstream, mas como sempre acontece, os anos se passam. O Racionais MC's atingiu finalmente fatias de público e méritos antes inimagináveis. Fizeram música com a Nike, seu disco novo é tão ou mais aguardado que o de Roberto Carlos.
Mas os Racionais não são os únicos. MV Bill não fez por menos e estreou o documentário Falcão Meninos do Tráfico, no Fantástico, está envolvido com política, é o último agraciado com a estatueta do VMB na categoria Rap e se tornou pop, apesar de suas letras ainda tratarem temas sociais pesados, como o crime, a mídia e o entretenimento barato proporcionado pela TV. Hoje ele está em grandes programas de TV, jogando feixes de luz na programação dominical. Mas não é sempre que isso dá certo. Repare o que acontece a partir dos 5'34" de vídeo:
Faustão tenta alegar que MV Bill está improvisando e tentar cortar dizendo "ae!" - imagino a placa 'aplausos/euforia' subindo para a platéia - mas quando percebe que chegou o refrão final, ele sai de cena noavmente e deixa rolar.
São as provas de que a televisão está se destruindo de dentro pra fora e que não sabe mais onde está colocando os pés. Não é fácil ouvir umas verdades, diz aí, Faustão?! Próximo convidado: Garotos Podres, no programa da Xuxa, cantando Papai Noel Filho da Puta! #ficaadica
Semana turbulenta. Só ouvi falar merda. Uma mina vai com um vestido curto e nego faz a revolução na faculdade, no twitter e nas revistas masculinas. O pior de tudo é o debate moral envolvendo o nome da faculdade (se é que isso um dia existiu, tratando-se de instituições particulares), o caráter da garota e a qualidade do ensino no país. Teve um que ficou revoltado com o New York Times dizendo que as brasileiras gostam de usar pouca roupa. Mas bater na porta da Rede TV reclamando das minas de biquini do Pânico ele não vai. Uma canalhice atrás da outra.
E o apagão? Passava das 10 da noite, eu voltava do trabalho, na marginal pinheiros quando vi a cidade inteira escurecer (achei que nunca teria a oportunidade de contar minha história). Ficou claro que o rádio a pilha ainda é útil demais, uma vez que nem os celulares funcionavam direito. Fiquei à luz de velas, ouvindo a Jovem Pan e me servindo de comida descongelada.
Depois a Record. Ahhh, a Record. Em um link ao vivo, aconteceu talvez a maior patacoada da novela Globo x Record. A repórter tentou invadir o espaço e horário cedidos à Globo, na tentativa de falar com o ministro de minas e energia. Os horários estavam acertados, o erro da produção em colocar o link naquele momento e a insistência do apresentador para que a repórter tentasse novamente a entrevista ficaram claros e constrangedores no vídeo. Em processo de decomposição, Roberto Marinho ria um riso maléfico, dentro de seu caixão.
Se seguiu uma série de terror absurda, que culminou na sexta-feira 13 e a batida piada, bem lembrada pelo mal humorado perfil @bomdiaporque: "cuidado, hein?"