Três filmes

por Robson Assis | | 19.3.11 COMENTE!


5x Favela, outro desses épicos sobre as favelas brasileiras, embora fuja de conceitos pré-estabelecidos de que todos os moradores de favela são ligados ao tráfico de uma maneira ou outra, ou de que não existe gente comum, mas apenas os arquétipos carregados de gírias que encontramos em Cidade de Deus e Tropa de Elite 1. São cinco pequenos contos, que não se entrelaçam, mas acontecem num mesmo universo. São pessoas comuns, em vidas e histórias comuns. Um retrato da favela impresso de dentro e não a versão romanceada ou banalizada que convencionou-se fazer no cinema. 5x Favela apresenta uma visão mais novelística sem perder ritmo com voltas desnecessárias no texto. Pela primeira vez um filme brasileiro sobre a periferia que traz algo além da crítica social crua e despreparada. Existe sim, mas ela é implicita, palpável. Está presente sem que possamos notar, tamanha sua onipresença neste ambiente.


Night Catches Us, sobre um período conturbado da história negra americana. Com o final dos Panteras Negras, o próximo passo que se poderia imaginar era a polícia deixando de lado a perseguição a negros nas ruas, o que não acontece. Com um misto de raiva e conspiração, neste período, a polícia está cada vez mais segregacionista, inspirada nos fantasmas deixados pelo grupo rebelde. Uma ficção que esconde e desvenda na medida certa cada ponto sem nó que foi sendo moldado pelos negros no país-império em que os preconceitos são desfeitos com mais cautela, em que a intolerância é colocada praticamente como norma de conduta sem critério para a dor ou desprezo infligido. Cada minuto deste longa vale a pena pelo contexto histórico e pela pequena bela história que é o elo de ligação a todo este passado. O filme traz ainda algumas cenas de época, em preto e branco e um argumento definitivo para você abandonar este blog neste exato momento e correr atrás desse filme: trilha sonora executada com maestria pelo The Roots.


For Colored Girls, tenso, pesado, glorioso. Se você assistiu Precious, vai entender bem onde quer chegar o enredo. São histórias que se cruzam tanto que podem chegar a confundir o público mais desatento. Mas a comparação termina por aí. Precious é um filme com final reticente, de lamento, perda e angústia. Tudo isso está em For Colored Girls, mas em doses estridentes, que revoltam e punem toda a moral fracassada dos nossos tempos. É um filme sobre a mulher negra e para a mulher negra que vive a tragédia em seu cotidiano, que vê serem tomados à força seus sentimentos e vontade de viver. No começo do filme, a composição doentia com vozes de mulheres falando ao mesmo tempo e palavras correndo dizem 'para todas as mulheres negras que já pensaram em suicídio' como uma forma de deixar registrado mais que um simples aviso sobre o teor do que vem a seguir. Um filme forte, urgente e completo. Alguém pode se levantar dizendo que é apenas mais uma obra feminista, com alguma razão. Acredito que este tema é algo que todos gostaríamos de ver ultrapassado. Não é apenas o simples preconceito contra a mulher. Está em jogo a legitimidade e aceitação de suas escolhas pessoais, do homem como companheiro e não dono ou superior. Em atuações incríveis, cada personagem busca dentro de si uma liberdade e isto é o que de melhor o filme pode nos oferecer.

Carta aberta a Detroit

por Robson Assis | | 11.3.11 COMENTE!

O rapper Eminem lançou esta semana sua carta aberta a Detroit, uma bonita forma de demonstrar seu amor pelo local em que foi criado. Esse bairrismo saudável é tema bastante cortejado no rap e, basicamente, se confunde com sua história. No vídeo, o rapper fala sobre a luta da população local e em um texto bem elaborado embora curto, fala sobre sobre a cidade com notável paixão e comprometimento.

Abaixo o vídeo, na sequência a transcrição:



Detroit,
Existe uma resistência que nasce em algum lugar em meio às suas ruas
Não se pode definir, mas dá pra sentir
Você pode sentir isso transbordar das pessoas que te chamam de lar
Das pessoas que são sempre orgulhosas por dizer 'eu sou de Detroit'
Você levou nosso país da infância para a indústria
E seu nome ainda carrega a idéia de uma nação construída sobre aço, músculos e suor
Você se tornou a cidade que carrega o país
A cidade, como o esporte, é construída sobre sonhos
Pessoas que te dirigiriam, se sobressaíram
Quem sabe, nada é feito sem trabalho duro, sem sacrifício
Quando você se fere, nós nos ferimos
O testemunho de suas ruas é nossa luta
Seus tijolos são nossa fúria através do vazio de cada casa de portas cerradas, de cada fábrica fechada
Nós temos vivido com os altos de baixos
Mas continuamos aqui, Detroit
Nós nunca viramos as costas pra você, Detroit, porque nós somos você
Minha casa
O lar da Motown, Cadillac e Joe Louis
Com tudo isso, nós não podemos ser derrotados, porque nós nunca fomos derrotados
Você nos construiu, você nos moveu, você nos modelou
Às vezes pra baixo, mas nunca pra fora
Leve a força em nós, seu povo
Mantenha-se firme, Detroit.

O Cerrado que não para

por Robson Assis | | 28.2.11 COMENTE!

Eric Magnus e seus Contos Perdidos do Cerrado Central trazem o rap contado diretamente do Centro-Oeste brasileiro. Porque, como ele mesmo diz em uma das músicas "o universo, mesmo grande, ainda tem seu lado interno". Necessário, atual, concreto e verdadeiro, Contos Perdidos é um disco bem construído sobre rimas inteligentes e melodias ébrias muito interessantes e bem elaboradas.

O rapper, que também é responsável por grande parte das produções do disco, disponibilizou o disco para download gratuito em seu perfil no Bandcamp, embora você possa também adquirir a versão física através do email ericmagnus.som@gmail.com.

Suas letras estão balanceadas entre o engajamento e a reflexão profunda dos temas. O equilíbrio de sua temática faz do som de Eric Magnus não redundante e absolutamente sincero, em que podemos encontrar os versos certos e pontuais sobre cada situação. Magnus é como aquele amigo que sempre tem a palavra certa a nos dizer em cada momento. Para finalizar, outras aspas do rapper "eu fico aqui, a palavra é eterna, o corpo morre, mas a alma se preserva".



Leia também a entrevista para o portal O Rap Informa, onde conheci o trabalho desse rapper.

Sabotage Eterno

por Robson Assis | | 24.1.11 1 Comentário

Sabotage (1973 — 2003) era o rapper, o elo. Modelo direto de competência e visão de mundo para sua quebrada, para seu próprio mundo. Ele tinha um dom natural em mãos, sua rima entorpecente, sua levada sinistra, seus trejeitos de composição. Era o rap, dava pra sentir de longe, não precisava de teste. A vivência fazia pulsar a rua em suas veias, sabia conhecer o mundo novo que fervilhava sob seus pés. Do Canão a Cannes, sabia onde pisar e como chegar.

Hoje, a música brasileira completa oito anos sem ele.



Assista o documentário completo no Youtube

Duas leituras #001

por Robson Assis | | 8.1.11 2 Comentários

Dois textos interessantes com opiniões sobre música. Para um sábado tranquilo. Os textos estão em inglês, mas não é nada impossível de ler. So, enjoy it.

::::A ÚNICA DROGA QUE EMINEM NÃO CONSEGUE ABANDONAR #
"Certas vezes, o sonho de fazer algo é mais divertido do que a conclusão real.

Se existe algo sobre Eminem que se manteve firme durante todos estes anos é o fato de que ele odeia a idéia de ser famoso. Ele transpareceu isso em 'Say Goodbye Hollywood', de 2002, e os efeitos negativos de seu estrelato internacional tem se mostrado repetidamente desde então [...] Tudo o que ele sempre quis era ter certeza de que Hailie [filha do rapper] tivesse uma boa vida. E ele fez isso, apesar de certa relutância em aceitar os prós e contras deste processo. [...] Com isso em mente, rimar pagou suas contas e sua mais recente façanha no trabalho lhe rendeu o álbum de maior venda no ano [...] o mais orgulhoso torcedor do Detroit Red Wing expressa liricamente o emaranhado de inferno e sucesso pessoal ao qual se enfiou."

leia na íntegra [em inglês]

***

::::O QUE SIGNIFICA SER UM FÃ DE MÚSICA MAINSTREAM HOJE? #
"[...]É como se naquela época (anos 1960 e 70), cada pessoa tivesse algum grau de paixão pela música, mesmo se essa música estivesse no nível do mainstream. E eu acho que o motivo foi a qualidade global da música que eles estavam acostumados [...] a definição de um fã mainstream mudou radicalmente a partir da época de meus pais, e falando da minha época (anos 90) para agora, esta mudança é ainda mais drástica.

Hoje, o rap mainstream é um concurso de gritos. Quem faz a mais repetitiva e ignorante busca de atenção pode se destacar no ciberespaço [...] o hip-hop mainstream contemporâneo é preso na presente câmara de eco do sensacionalismo e da falta de originalidade. A maior parte dessa música é uma sombra do que ele mesmo foi em 1999 quando a geração TRL tomou conta [...] especialmente se você considerar que uma grande quantidade de hip hop hoje é realmente 'auto-destrutiva'. Sem dúvida, estes fatores têm degradado a nossa música e cultura.

Como entusiastas da música e de artistas, temos de estar conscientes do que aconteceu com o mainstream e como isso aconteceu. Além disso, temos de estar conscientes de quem é mais responsável por criar uma disparidade tão grande entre as principais correntes de ontem e de hoje. Se fizermos isso, nós podemos afetar o tipo de mudança no mainstream que, pelo menos, garante aos jovens a melhor chance de uma escolha variada de música de alta qualidade."

leia na íntegra [em inglês]