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Dias sem fim (Conto) #02

por Robson Assis | | 29.3.10 COMENTE!

Em direção ao ponto de ônibus algo lhe aconteceu. Sentiu o sono apertar e o chão amolecer sob seus pés. Caminhou mais rápido até o coletivo que já o esperava, sentou-se. Era o 175 rumo a Lapa, pensou em alguns minutos em pegar O Oscar Wilde que lia, mas talvez adormecesse sem perceber e deixasse o livro cair. Pensou outras possibilidades mais confusas e decidiu ler na volta do trabalho, se lhe fosse conveniente.

Conversou qualquer bobagem com o cobrador. Tinham uma cumplicidade desmedida, eram amigos sem o ser. A última rodada do campeonato estadual de futebol, o caso daqueles meninos brutalmente assassinados. Ao mesmo tempo que seus assuntos eram mutáveis e rasos, a relação era discreta e para ambos agradável.

Viu uma mulher com bebê de colo, um garoto com roupas velhas e cabelo arrumado passando por baixo da catraca. Dormiu um sono inocente, involuntário e sem pretensões. Foi acordado pelo cobrador. Levantou sem pensar e rosnou ao quase amigo quando viu que havia passado seu ponto. Não sabia onde estava. Ligou pro trabalho, o telefone não existia ou estava fora da área de cobertura. A operadora sempre exterminava os números, quando se precisava deles. Entrou num prédio qualquer sem saber porque. Tinha a chave, o acesso fora sutil ao receber um bom dia do porteiro. O botão do elevador lhe pareceu intuitivo quando apertou o oitavo andar.

Não sabia o que estava fazendo. Tinha que sair dali, tinha que ir trabalhar, "porra, uma falta" foi a primeira frase que lhe veio à cabeça. Mas não sabia o que estava fazendo, por onde estava andando, como aquela chave do portão havia parado em sua mão. O elevador parou no sexto. Uma garota entra e o cumprimenta com um nome que ele não entende. Saia em tom rubro chocante, jeito descuidado e chiclete sem sabor quase em denúncia de sua falta de pudores. "Tá subindo?", diz a pequena, com um olhar que agora a denunciava completamente. "Sim, mas só mais dois". "Ah, então vou com você... Eles tão em casa?". A primeira pergunta mental foi "quem, porra, quem? Onde diabos estou indo?", mas só lhe respondeu não saber.

Outra vez, ao sair do elevador, estranhou já conhecer o caminho do lugar que não conhecia. Foram pelo corredor, parou em frente ao 86. Um momento de dúvida lhe disse que não devia estar ali. Olhou para sua quase conhecida, depois para as chaves em sua mão. Cutucou a mochila, ainda estava lá. Não era tão mal assim, aquele ainda era mesmo ele. Sorriu para a garota que o olhou intrigada e se dispôs a retrucar "vamos, pára de brincar" e o empurrou para o apartamento 88, do outro lado do corredor.

As chaves entraram e o estalo da fechadura o fez assustar num pulo do banco: "seu trampo já é no próximo, mano" o cobrador o acordava dentro do ônibus.

Dias sem fim (Conto)

por Robson Assis | | 17.3.10 1 Comentário

Não conseguia se virar. Era outra noite de insônia. A televisão em baixo volume que sempre ajudou, hoje era sua pior inimiga. Desligou e abriu as janelas. Voltou a se deitar, esforçar os olhos a cair no sombrio. Revirou-se por outra hora inteira. Levantou com sono, mas precisava de um cigarro. Foi para a janela. Noite de quinta-feira. Ouvia vozes de alguém conversando, no fim da rua. A biqueira nunca parava. Fumou e sentou no sofá, com o livro que tentava ler antes de decidir não dormir. No terceiro capítulo, deixou o volume sobre a mesa. Ligou a TV e acendeu a luz, não ia dormir.

Zapeou canais até decidir que não veria nenhum crente cagar suas regras. A MTV repetia clipes estranhos a seu gosto nostálgico para música, lembrou-se da idéia de assinar uma TV a cabo. Um dia, assim que as coisas começassem a se rearranjar. Precisava dormir, acordaria cedo. Não o fez. Desligou a TV, outro capítulo lido, agora sem dar vestígios de sono. Cansado de palavras - seu ofício pela manhã era vendedor de loja de sapatos - pegou a coleção de clássicos que tardou a completar, "pela primeira vez" pensou, "ter comprado essas merdas fez algum sentido".

Não tinha um gosto tão apurado, sabia que gostava daquela música, mas não sabia explicar o porquê. Colocou Haydn e, na segunda sinfonia, Bach, substituído no meio de um dos Concertos de Brandenburgo por Wagner e suas Valquírias. Deixou o disco no rádio e acendeu outro cigarro. Saiu até o portão. Gostava das noites longas, mas aquela não parecia durar tanto tempo mais. Olhava as estrelas e gostava de tentar entender o universo por 30 segundos. Depois era tomado por um pavor incontrolável pelo que não poderia explicar. Talvez ninguém o pudesse. O mundo era em si, algo inexplicável, ao qual, concluía, "nunca vamos saber a lógica, nem conhecer a verdade". Depois pensava onde ia terminar aquele dia, em qual boteco, com quais amigos, em quais circunstâncias. Quem lhe diria que chegou atrasado porque a Paulista estava parada de trânsito? Quem daria risadas de suas piadas com pouco apelo ao inventário popular de anomalias às quais se pode rir? Quem lhe daria o amor que nunca sonhou e cobraria os custos de hospedagem após uma hora completa? Quem faria seu dia acontecer de forma menos linear?

Voltou pra dentro quando viu o céu negro tomar proporção púrpura, seguido de anil intenso. O sol despontava em algum lugar, sentia. O céu estava clareando e ele, droga, havia passado a noite com todos esses monstros.

Sentou na mesa, viu o relógio, faltava pouco mais de uma hora para o horário de acordar. Fez um café forte em poucos instantes. Despiu-se enquanto a água fervia, caminhou nu até a cozinha, pegou a mesma caneca velha de todas as manhãs. Tomou a droga do café e pigarreou.

Ao entrar no banheiro, deixou a água cair sobre o corpo e fechou os olhos. Pela primeira vez, teve sono. Riu disso. Saiu de casa dez minutos adiantado de seu horário habitual, com a mochila nas costas e a esperança de que seu dia tivesse fim.

Esta é a primeira parte de uma novela de 3, 4 ou mais capítulos, em breve aqui no blog.

Quando o 'Carpe Diem' não funciona

por Robson Assis | | 19.7.09 1 Comentário

Adilson se sentia sozinho. 36 anos, morador incólume e pouco notável de um bairro marginalizado no subúrbio de São Paulo, cidade onde nasceu. Sua família não lhe dava a mínima, tal qual seus amigos e conhecidos do trabalho. Passava noites em claro à beira da janela de seu pequeno apartamento numa COHAB como qualquer outra.

Saía cedo, ainda que com a mordomia de não ter que pegar ônibus, pois tinha seu chevette 78, com vidros escuros, bancos reformados, lá pelo 19º dono. Ao chegar, um pingado e um pão na chapa, a lei de todo frequentador assíduo de padaria. Aquilo era seu último contato com o dia claro. Dentro da empresa de contabilidade em que trabalhava até às oito da noite era apenas o assistente de almoxarifado.

Sua rotina o mantinha numa ode ao fracasso que certa hora ia estourar seu cérebro.

O ano novo caía num sábado. Chamou todos os parentes próximos, mandou convites personalizados com o dinheiro que vinha juntando para a comemoração. COnvidou também seus colegas de trabalho, o pessoal do bairro, ia ser um churrasco e tanto na casa de sua mãe, dona Clara. Comprou tanta carne e bebida que no mercado perguntaram se estava abrindo um bar, restaurante ou coisa parecida.

Aquilo talvez servisse de apoio à sua já permanente decadência, talvez trouxesse de volta, ou mesmo o deixasse num estágio em que poderia engrenar sua ascensão à felicidade que não acreditava.

No final, apareceram dois tios, um amigo próximo e três vizinhos no final da noite, bêbados, sem graça e sem destino, que ficaram apenas pela quantidade de bebida que havia na casa.

Revoltado, tentou devolver suas compras, sem sucesso. Fez um estoque em sua casa. Um novo ano que começou deprimente e estático. Os dias pareciam mais longos e sua vida cada vez mais vazia. Havia perdido algo, em algum ponto de sua vida que jamais iria recuperar. Passou a falar pouco, rir pouco e começou a nutrir uma fobia pela sociedade e por todas as pessoas que o rodeavam.

Não demorou a iniciar suas tentativas de auto destruição. Bebia como nunca, trocou a padaria por um baseado e uma carreira de cocaína antes do serviço. Viu que precisava ser mais drástico e certo dia, passou de seu local de trabalho, seguiu com o carro até a rodovia dos bandeirantes.

Bebendo conhaque na garrafa, ele jogou seu carro no meio fio, passando para a outra pista, seguindo na contramão por outros três quilômetros, quando puxou o freio de mão e rodopiou na pista. os carros tentavam desviar. Ele parou desacordado, no meio fio, com metade do veículo ainda na pista. Um caminhão não conseguiu brecar e bateu em sua traseira, causando ainda mais danos.

Acordou dias depois num hospital público de uma outra cidade. Por pouco não havia morrido. Os médicos alegaram múltiplas fraturas, inclusive no crânio, mas nada que comprometesse sua vida ou sua salubridade, ele parecia ter mesmo dado muita sorte. Desapontado, olhou para o teto e perguntou a Deus se não podia sequer morrer por sua própria vontade. Uma enfermeira entrou e o viu acordado, chamou um doutor que o analisou e minutos depois o deixou novamente sozinho no quarto.

Sem mais o que pensar, sem forças para continuar, sabia que sofreria uma acusação de tentativa de homicídio culposo, isso se ninguém houvesse morrido. O fato de poder estar preso ou internado, de certa forma o reconfortou. Sua mãe entra na sala, acompanhada de sua irmã mais nova, que morava em Minas Gerais.

Adilson se esforçou para pegar a mão de sua mãe e confessar que não tinha mais sentido sua vida sem ninguém ao seu redor. As pessoas se afastaram, ele se afastou e confessou viver num verdadeiro abismo de solidão em seu apartamento, em sua rotina. Não sabia quem poderia ajudá-lo, não sabia quem mais se importava.

Sua mãe, chorando, saiu do quarto. Dirlene tentou o consolar dizendo que ele estava completamente errado e que não havia motivos para pensar nisso, dizia que podia provar. Sua mãe abriu as portas de seu quarto. Ele viu entrar praticamente toda sua família de São Paulo e quase todos os primos e sobrinhos mineiros. O pessoal de sua empresa não trabalhou para ir ao hospital visitá-lo. Chorou ao ver muitos de seus vizinhos no fundo da sala de espera, se espremendo no canto do chão.

E ele finalmente conseguiu sua festa de ano novo, dentro de um hospital, num bairrozinho qualquer, de uma cidadezinha qualquer.

Amores, Trágédias e Valquírias no Anonimato S/A

por Robson Assis | | 18.5.09 1 Comentário

Escrevi um épico do centro da cidade chamado Amores, Tragédias e Valquírias para o site Anonimato S/A. A história junta vários mundos, vidas e visões num só:

http://www.anonimatosa.com/index.php?option=com_content&task=category§ionid=3&id=4

Esta edição da revista digital traz ainda uma excelente matéria sobre o Concurso Miss Guaianases, garotas da periferia que sonham com o estrelato, além do emocionante relato de um brasileiro que viveu na Irlanda e está se aventurando pelo mundo. Ele conta histórias, como é para um brasileiro estar fora do país e fala muito sobre seus empregos, o que me fez lembrar de Bukowski e seu Factótum, apesar de Luiz Roberto, o autor, não apreciar muito o fumo e a bebida - Momento pessoal: será que é o mesmo Luiz Roberto que estudou comigo na faculdade? Bem, de qualquer forma, vale a pena a leitura. Tão legal quanto isso só a história de Agô, no blog do Anonimato S/A.

De olhos fechados

por Robson Assis | | 19.3.09 COMENTE!

O relógio marcava quatro da madrugada. Gostava de acordar mais cedo para tomar um café da manhã sossegado, cansado, assistindo o primeiro jornal do dia, antes de sair para o mundo que já acontecia naquele momento. Saí de casa e caminhei pela rua escura até o ponto de ônibus próximo. Garotos voltavam de algum lugar conversando alto e rindo. Me sentei e encostei na parede, começava a grande jornada rumo ao trabalho, no outro extremo da cidade.

O coletivo já ia relativamente lotado às 4h30. 'Relativamente' é quando se consegue ficar imóvel sem ser perturbado. Lotado é quando a coisa lembra realmente uma lata de sardinha. Ia em meu lugar de pé, ouvindo Tupac no tocador de música. Changes. As coisas que mudaram, que não mudaram, sentia meu cotidiano triste, refletia sobre o dia anterior e prestava atenção no sono dos que, com sorte, conseguiam lugar para ir sentados até o centro da cidade.

Passando o cruzamento com a Espraiada, pela avenida Santo Amaro, já não cabia mais ninguém naquele veículo. O motorista sabia disso. O cobrador sabia disso. os cento e poucos passageiros encurrlados nas entre os balaústres de metal sabiam disso. Dali pra frente começavam a descer os que trabalhavam no Brooklyn e no Itaim, ia melhorar. Feito. Acreditei por um segundo que pudesse viver um dia inteiro de olhos fechados. Era fácil, nossa rotina pode ser contada. De olhos fechados eu poderia saber o que aconteceria em cada hora do meu dia. Pedi perdão a Deus pelo mau pensamento, mas sabia que podia ao menos narrar meu dia sem vivê-lo, isso me confundiu por alguns segundos até que uma moça de vestido social preto se levantou e cedeu seu lugar, já havia chegado ao seu destino. Me sentei e esqueci disso.

Dormi um pouco, acordei na parte baixa da avenida nove de julho, depois da praça 14 Bis. Esfreguei meus olhos e o dia já espreguiçava, mas ainda era escuro. O coletivo já esvaziava, finalmente me alonguei e desci com um bocejo típico, não sem antes acordar um ou outro passageiro que ainda dormia mesmo após a chegada ao ponto final.

Saí do terminal bandeira faltando dez minutos para as seis horas da manhã. Saí atrás do metrô Anhangabaú e alguma coisa me fez sorrir. Talvez aquele sol que aparecia fraco e sonolento, os tiozinhos montando as barracas de bilhete de metrô, tudo aquilo tinha uma certa magia que não conseguia explicar. Subi as escadas do metrô e avistei a Xavier de Toledo. Esperei o farol fechar e atravessei. Na metade da faixa de pedestres, o tempo começou a andar mais devagar. Ela era morena, tinha saias compridas, um tom rubro escuro, vestia um chapéu e tinha a pela mais lisa de todas. Sabia que não conseguiria dizer uma palavra, segui caminhando, ela deu um trago no cigarro e me olhou por dois segundos que bastaram para que me lembrasse de seu rosto pelo resto de minha vida. Ela passou depressa, talvez com medo. Desceu as escadas e sumiu para sempre. Nunca esqueci aquela cena.

Esperei outro ônibus no ponto final. O cobrador decidiu abrir a porta após devorar seu pingado com pão chapa. Poucos passageiros subiram. Saiu vazio o coletivo, rumo ao terminal Pirituba. Era um bom caminho. Avenida São João, Lapa, Raimundo Pereira de Magalhães, final. Eram 7 horas e começavam a abrir as borracharias, bares. As cabelereiras varriam o chão ainda com a porta do salão fechada. Estava chegando novamente em outro ponto final.

Sete e meia, milhares de pessoas vão e vem dentro do terminal de ônibus. Eu desço, vou ao banheiro, bebo um pouco de água, sigo para a última linha do dia. O Vila Zatt sai em disparada, faltam dez minutos para o horário de trabalho. Bem são só alguns pontos. Olho aquele bairro como se pudesse morar ali em pensamento, era tão igual ao Campo Limpo, mas de um lado tão distante. Fiquei olhando pela janela, quando avistei o galpão onde ficava meu trabalho, passando ao longe. Desci e voltei um pouco a pé. Sempre dava dessas.

Trabalhava para um grande livraria, arrumava o estoque, empilhava caixas, contava, etiquetava, haveria uma grande Bienal nas semanas subsequentes, o que fez aumentar meu serviço. Novos empregados também foram contratados, todos pareciam vir de lugares simples. Hoje, pela primeira vez, parecíamos mais próximos, todos eles. Nos encontramos no pátio e subimos até o local escuro e seco onde trabalhávamos.

O dia estava quente, mas o trabalho ajudava a manter a cabeça distante. Empilhava caixas, organizava os livros, conferia as notas fiscais e colocava nas estantes. Todos se ajudavam, arrumavam os papelões em locais distantes para que um tiozinho de idade inteira viesse buscar a cada uma hora, com um carrinho. Ele passava tanto por ali que ganhamos certa intimidade para fazer piadas e brincadeiras. Seu Valdo era gente boa, gostava das coisas certas, só rosnava quando via as caixas abertas fora das pilhas, tinha dois filhos com sua esposa, morava na Lapa, apesar de não morar lá, imaginei que fosse um bom lugar.

Durante o almoço, dois moleques saíram para fumar um baseado. Não gostei quando vi, mas cada um tem a sua escolha, sabe o que é melhor pra si. Prefiro acreditar assim. Quando saí do refeitório e desci no pátio, consegui vê-los na praça do lado de fora, assoprando fumaça e rindo à toa.

Voltamos para o trabalho, continuamos a rotina. Aquele dia quente estava rendendo de maneira supreendente. Eram três da tarde quando Seu Valdo apareceu e viu dois papelões fora do lugar.

- Aí Moleque, disse olhando pra mim.

Foi quando sem imaginar, fiz brilhar uma estrela dentro de todos nós naquele galpão. Como já tínhamos certa proximidade, cantei um trecho do Racionais compulsivamente caminhando em sua direção:

- "Aí moleque, me diz, então, ce quer o quê? A vaga tá lá esperando você. Pega todos seus artigos importados, seu currículo no crime, limpa o rabo."

Valdo recolheu os papéis e virou as costas. Continuei e vi que todos me olhavam. Continuei a música, era sempre assim, ela não saía da minha mente. Cantarolei baixinho, até que alguém ouviu e me seguiu. Em cinco minutos estávamos todos cantando aquele som um pouco mais alto, fazendo as entradas, as passagens como um Wu-Tang-Clan de estoquistas.

Acabou o som, de longe eu ouvi alguém cantando outra coisa. Era 509-E, Saudades Mil. Seguimos. Espantosamente, todos nós sabíamos cantar todas as músicas que, aleatóriamente, alguém começava. Thaíde & DJ Hum, SNJ, Consciência Humana, Detentos do Rap, Facção Central, Xis, RZO. Cantávamos 'Paz Interior', quando a supervisora chegou. Abaixamos o tom, fomos amenizando. Ela vestia saia e camisa social, cabelo amarrado, salto alto. Parou, encaixou as mãos sobre a cintura, lembrando uma professora de pré-escola encontrando os alunos aprontando alguma. Era um tanto velha e tinha uma cara um tanto suja. Arrumou os óculos de armação grossa e disse:

- Vocês acham que estão num show é? Aqui é uma empresa. Olhem lá pra cima. É um escritório, as pessoas precisam de concentração!

Todos ficamos quietos e continuamos o serviço, sem jeito e até um pouco envergonhados, admito. Ela saiu. Caminhou até o elevador social, virou para nós e as portas se fecharam. Deu até pra ver ela se sentando naquele escritório todo de vidro, no mezanino, com máquinas de café, impressoras a laser e poltronas reclináveis. Senti um pouco de pena de nós, nem os escravos eram impedidos de cantar em seus quilombos.

Gui terminou de recolher os papéis na empilhadeira e desceu do carrinho. Chegou perto de todo mundo e assobiou o começo de Burguesia, do De Menos Crime, de forma idêntica à música. Ainda deu-nos as primeiras frases: "A minha voz não calo, não sou otário, burguesia do caralho...". Bem baixinho, todos cantávamos mais músicas. A supervisora lenvantou outra vez e nos olhava lá de cima. Balançou a cabeça negativamente e voltou a se sentar. Ali dentro, nós éramos o rap nacional, a revolucionária geração dos anos 90, os guerreiros mostrando serviço.

O relógio bateu às oito da noite. Penduramos os aventais bege nos ganchos e saímos em direção ao bolsário. Pegamos as mochilas. Ainda voltei ao prédio administrativo. Aquela supervisora não estaria lá, meus chefes não estariam lá, chefes dos meus chefes talvez já estivessem em casa, jogando golf no tapete e acionando os alarmes do portão. Ali seríamos eu e a máquina de café apenas. Um vício que adquiri na última semana, quando descolei a brecha. A secretária ficava até tarde, Jolene, mas era gente fina, sabia conversar, gostava de música e das coisas boas da vida, se é que você me entende.

Naquele dia, Jolene parecia tensa, trocou meia-dúzia de palavras comigo e mergulhou dentro de uma pilha de papéis sobre sua mesa. Parecia ser vigiada. Peguei duas moedas, coloquei na máquina, me servi de um capuccino, sentei no sofá. Uma folheada na revista Cult, sempre tinha alguma coisa da qual eu nunca tinha ouvido falar. Aquela falava sobre Baudelaire. Já tinha lido As flores do Mal, sabia que o livro tinha sido proibido na época, embora nunca tenha ouvido nada a respeito do autor. Mais algumas páginas, deixei a mochila no chão, entrou alguém pela sala, percebi, mas não olhei.

Fechei a revista e terminei a bebida. Fui até a máquina e me encarreguei de outra mais pesada. Um café forte e seco, era o que precisava. A Caros Amigos daquele mês falava sobre as Leis do Islã. Comecei a ler, esqueci um pouco o café e fui mais a fundo. Li Glauco Matoso, Ferréz, a entrevista. Hora de ir embora. Encostei o exemplar sobre a mesa, o senhor de óculos na outra poltrona me perguntou se eu gostava daquela revista. Não era um cara mal-vestido, mas não aparentava ser chefe de ninguém. Disse que gostava, tinha uma coleção em casa com vários números.

- Mas é uma revista de esquerda não é?, me questionou o senhor
- Sim, a gente precisa respirar a rebeldia.


Abriu um sorriso breve, jogou seu copo no lixo. Saiu e acendeu um cigarro no pátio, Jolene parecia transpirar na mesa. Olhava para o lado de fora como se houvesse um monstro pernicioso prestes a entrar e assassiná-la. Disse tchau, ela acenou com a mão, sem me olhar nos olhos, mal podia falar comigo.

Do lado de fora, também acendi um cigarro. Comentei algo sobre as estrelas e citei Kerouac. Ele sorriu novamente.

- Você trabalha aqui?
- Sim, no estoque, estamos arrumando as coisas para a Bienal. E o senhor?
- Sou do administrativo. Parece ler muito, não?
- É, gosto. Estudei Jornalismo. Trabalho aqui porque gosto de livros e o mundo para alguns não oferece muitas chances.
- Que tal trabalhar no prédio, revisando livros?
- Por mim, ótimo.


Nunca mais voltei a ver aquele que, certa vez me disseram, de acordo com a descrição que fiz, era o presidente daquela companhia. Não sei o trabalho de um presidente, mas acredito ser um quase dono. Um quase dono sem cara de chefe. Era o que precisava ser. Consegui o cargo de revisor, trouxe mais dois amigos do estoque, que trouxeram mais dois.

Aquele dia se passou, aquele trânisto, aquele café, a Jolene, o Valdo, tudo se fez passar como numa história de esperança, contada para crianças. Em alguns anos, enchemos aquela sala de ex-estoquistas que não desacostumaram da idéia de trabalhar cantando rap.

E nunca mais quis viver meus dias de olhos fechados.

Memórias privadas, pensamentos soltos

por Robson Assis | | 5.12.08 COMENTE!

Luzes apagadas. Hoje o dia não começou bem, pra variar. Alguns sempre voltam a este lugar com expectativas de reencontrar a esperança, ou coisa que o valha. E eles gritam. De noite, eles gritam por dentro, choram, agonizam, morrem e voltam no outro dia, os bastardos.

O cheiro podre exala dentro de nós, a merda desse esgoto que passa aqui ao lado é como um pequeno rio do inferno em que o Diabo não veste Prada e não desfila com sua bela donzela em barquinhos venezianos. Ele caminha sobre túnicas de entulho com cheiro de cadáveres, em pedaços de madeira cobertos de estilhaços de vidro sobre a merda acumulada de ricos imundos que também passa por aqui.

E eu que já não sonho mais estar naquela sala grande, fechada com vidros e quadros, laptops e um telefone sem fio importado, pouco me lixo para os que lá estão. Sei que não gostam de mim e eles sabem que meu ódio por eles talvez seja o triplo. Quem apanha acumula mais sentimentos maus. Só não quero imaginar o que acontece quando a gente coloca todos esses sentimentos pra fora.

Mas o dia segue sem luz. Continuo minha viagem louca pelo mundo afora, mesmo dentro destas grades. Sabe aquela sensação de que tudo vai continuar do mesmo jeito pelo resto de nossas vidas? Aqui isso acontece o tempo todo. Se houvesse um purgatório que levasse só para o inferno, talvez esse fosse o lugar.

Não falava disso, falava sobre expectativas. Só resiste quem as possui. E só é possível tê-las, com o pensamento longe daqui. Além dessa lógica quase que abstrata, existe um sentido mútuo em nossas esperanças. Todas elas nos querem bem, mesmo que tenhamos de fazer o mal para consegui-las. Quem foi o cara que disse "os meios justificam os fins"? Enfim, a esperança segue em mim e talvez só por isso eu ainda esteja vivo, era isso o que queria dizer.

Sobre a luz dessas velas eu tento tampar meus ouvidos para não escutar todo esse silêncio fúnebre que me rodeia. Uma experiência de morte em sua própria vida, sabe. Ser preso em uma estação de trabalho é resumir um espaço de tempo de sua vida em um local quatro por quatro, uma cabine em que você tem direito às suas necessidades básicas de sobrevivência, às vezes menos do que isso. E, acredite, privar você de coisas habituais como ver o sol pela manhã ou ouvir o barulho das árvores balançando, não é tão bom quanto parece ser nos longas metragens de Hollywood.

"Negra Ângela" no Anonimato S/A

por Robson Assis | | 21.11.08 1 Comentário

Salve salve,

Saiu um novo conto meu intitulado Negra Ângela, para a revista digital Anonimato S/A. Uma história sem final feliz, com alguma emoção e certo sentimento, feita para a seção Amores Urbanos, que escrevo mensalmente.

Nesta edição o site traz também a festa de aniversário do padre Hamilton Enes, com uma missa que ressalta a cultura afro numa paróquia católica do Brás, zona leste de São Paulo. A inusitada seleção brasileira de futebol de rua, composta por meninos moradores de periferia que vão participar do campeonato mundial em Melbourne, em 2009. Um relato sobre casais que optam por namorar em estações de metrô. E para fechar 'Periferia: uma autobiografia', uma ótima matéria sobre arte na quebrada, uma aula de vontade e, sobretudo, resistência.

Leitura obrigatória, jornalismo lírico e não convencional!

www.anonimatosa.com

Reflexões acerca do cárcere de trabalhar

por Robson Assis | | 23.10.08 1 Comentário

I.
De manhã me levanto com aquele despertador
Que mais parece querer que eu me suicide naquele instante
Tudo na porra do meu dia parece querer isso
Me entreolho no espelho, com as luzes apagadas
Para não acordar ninguém que ainda esteja sonhando
Vejo meus livros, meus K7s, minhas revistas
E por mais forte e pesado que eu insista
Não consigo mais ver vida dentro daquele lugar
Pego o carro, passo por bairros conhecidos
Uma estrada que chega até o rio e me leva ao trabalho.
Estaciono, passo o crachá em algumas catracas
Subo sonolento as escadas, com raiva
A última catraca me cede passagem, sento à mesa
Mensagens, cobranças, planilhas, notas fiscais
Certamente há quem sinta pena
Vejo o dia clarear, o sol adentra a sala por uma janela com frisos
Realmente parece um cadeião para condenados.
Na hora do almoço, cruzou outras duas catracas
Me sirvo de um bandeco comida sem gosto e pálido
E, pelo menos, me sirvo.

II.
A tarde chega, um calor, telefones que tocam, conversas
Uma dor nas costas provoca e amaldiçoa o desânimo
Vejo milhares de pessoas, milhares de máquinas
Sedentos por algo além de tocável, que se possa mostrar
Carros do ano, apartamentos de luxo, brindes de champagne no natal
E eu com este gosto podre, este fel infernal
Vou matando os segundos até que as horas tenham fim
Não me empenho, não prospero, não tenho esperança
Acho que muito disso morreu em mim ainda quando criança
E o que sobrou foram os restos mortais de um anjo frustrado
Minhas paixões são cada vez mais sobrepostas por esse tédio
Criamos em nossas mentes, ilusões perfeitas
E a omissão a nós mesmos acaba sendo a cura para todas as doenças
Quem sabe um dia isso não terá um fim incerto
Tenho certeza que não vou ouvir isso de ninguém aqui perto.

III.
Mais de 10 horas neste lugar me traz uma angústia
Que eu sequer consigo demonstrar
Entro no carro após o expediente, ligo o rádio
Boto pra escutar as mixtapes que gravo e trago comigo
Volto pela mesma estrada, os mesmos lugares
Os mesmos acidentes, o mesmo trânsito opaco e frio
O próprio sol já se encarregou de descansar
Cansou de me esperar para ir deitar
Chego em casa, abro a porta
Sinto quando minha presença incomoda
E minha casa se torna o único lugar do mundo
Em que não me sinto em casa.

IV.
Passo a tentar ler algum livro, coisa que o valha
Deito na cama, ligo o som, pego o Baudelaire
Dez minutos depois, sinto que nem ele me quer
E adormeço para no outro dia recomeçar este martírio
Uma detenção sem muros que o poeta cantou
E que por muitos e muitos anos
Ainda aqui estou.

As Flores Malditas

por Robson Assis | | 17.10.08 COMENTE!

- A decisão foi sua, o dinheiro era pra semana passada.
- Calma, mano, me dá mais uns dias, a gente é irmão, truta, por fav...

Dona Maria ouviu o disparo como se tivesse sido dentro da sua casa, mas não era. Três ruas acima, na boca do Tiziu, Sandrinho, seu filho, acabara de morrer na mão de traficantes para quem devia dinheiro do crack que havia tentado vender na última festinha da zona norte, com o pessoalzinho da USP. Não conseguiu vender nem metade. Seu vício o fez usar a festa toda, sem miséria. É como se colocassem um crocodilo para tomar conta de um açougue.

Naquele momento Maria, mãe/pai de família, sozinha, havia tirado a mente da TV por alguns instantes. Foi como se o tiro lhe dissesse que havia algo errado na ordem natural das coisas. Levantou, bebeu água, voltou a sentar na frente do aparelho e tentou se distrair. Certa aflição a rondava, não podia imaginar o que era. Assistia a cena do casal romântico, na época o Tarcísio e a Glória, mas nem eles a prendiam mais a atenção.

Percebe que seu maço estava acabando quando acende o primeiro cigarro, vício adquirido após a derrocada de Sandrinho, seu filho, nas drogas, pelas várias vezes que o buscou em lugares distantes, metido em encrencas com a polícia, ou largado após uma boa surra. Sempre se segurava para não ir, tinha dito a si mesma que jamais aceitaria uma coisa dessas em sua casa. Mas nunca tinha jeito, Dona Maria era mãe. E ao lembrar destes dias, de seu filho, da perdição, do primeiro dia em que dormiu chorando quando ele passou um tempo na recuperação paga pelos tios lá de Brasília, da raiva quando expulsou o menino de casa quando ele "noiou" o radinho da sala, ela surtou em silêncio, apertou uma das almofadas do sofá com força, como se fosse rasgá-la. Parou. Aumentou o volume da TV, talvez fosse isso.

Continuou a prestar atenção com certo desprendimento, muitas vezes sem ouvir o que diziam os atores. Parecia olhar mais o relógio do que a própria TV. Finalmente acabou o capítulo. Desligou a TV, arrumou objetos jogados na sala, pegou o boné que Sandrinho havia esquecido e levou ao quarto do rapaz, sentou em sua cama e chorou um pouco. Estava infeliz com a vida que levava, não entendia porque seu filho tinha de se envolver com gente errada, como conseguia se viciar daquele jeito tão triste em compostos químicos que não sabia nem de onde vinham.

Secou as lágrimas, foi até seu quarto. Em um silêncio quase mortal, arrumou a cama de casal que, após a morte de seu marido quatro anos atrás, dividia apenas com suas mágoas e os pensamentos de esperança que enchiam o quarto de uma luz que não existia em nenhum outro lugar do mundo. Se deitou e em exatos seis minutos após a oração levantou e decidiu que não ia conseguir dormir. Talvez esperar o filho, e que dessa vez ele não tenha feito na errado de novo.

Voltou a sala, ligou a TV para desbaratinar o tempo que passava ali. Fumou os dois últimos cigarros do maço. O Jornal trazia algumas notícias de fazendas invadidas por sem-terra cansados de esperar a reforma agrária, crises econômicas quebrando bancos, nada que entendesse muito. Já passava das 11 da noite, seu filho não voltava. Talvez dormisse fora, como em outras ocasiões, mas o estado de alerta dizia que não era bem isso o que tinha acontecido.

Trancou a porta e foi até o bar sem perceber o movimento na travessa, ruas acima de sua casa. Pediu um Lucky Strike, "pra dar sorte", sonhava. Percebeu que os presentes a entreolhavam com desânimo e certo receio. Saiu sem entender nada.

Antes de cruzar o farol, percebeu o movimento. Caminhou pra ver o que era, tinha muita gente na rua e aquela sensação estranha ficava cada vez mais forte com os passos em direção ao tumulto. Aqueles que fechavam a roda sobre o ocorrido olharam pra trás e deram espaço à ela. Todos saíam aos poucos quando viam Dona Maria se aproximando, até que ela conseguiu ver o corpo de seu filho com um tiro no peito. Ajoelhou, colocou as mãos no rosto e finalmente desabou em prantos.

No outro dia, Pilé, um dos meninos envolvidos com o tráfico da região em que morava estava no enterro. Era 'amigo' do finado e sentiu que devia estar lá para presenciar os últimos momentos do corpo do rapaz. Comprou uma rosa na entrada do cemitério e entrou com ela. Parecia mesmo triste, mas conformado e entendedor da situação. Dona Maria o conhecia, sabia de seu envolvimento na boca de fumo. Viu ele de longe, mas não conseguia dizer qualquer palavra desde que acordou.

Ao lado do caixão, Dona Maria ouviu o padre encaminhar a alma de seu filho para os céus. E viu os parentes e conhecidos jogarem as flores sobre seu corpo.

Quando Pilé se aproximou, Dona Maria pegou a flor de sua mão e disse não querer que seu filho subisse ao céu com lembranças dos dias negros que passou neste universo. Pilé ouviu e deu as costas num êxtase momentaneo que o dividia entre a raiva e o discernimento das palavras que aquela mulher acabara de lhe dizer. Dona Maria pisou e viu as pétalas se desfazerem na terra daquele lugar que voltaria anos depois apenas para lembrar seu filho nas datas comemorativas que mais gostava quando pequeno, como seu aniversário, a Páscoa e o Natal.

Dona Maria era mãe. E mais uma vez - ou pela última vez - livrou Sandrinho das flores malditas.

A Nova Ordem do Caos

por Robson Assis | | 15.10.08 COMENTE!

ou "O dia em que João saiu de casa com uma 12 no punho"

"Pesadelo do Sistema não tem medo da morte"
Racionais MC's

Ele descia a rua a milhão. Estava impregnado em seus olhos, claro como as brasas do inferno. A vingança era sua única sede. O ódio sua única verdade. Caminhava sobre as luzes dos postes e pessoas que devagar abriam suas janelas para ver o que acontecia lá fora. Aquele barulho, aquela agitação. Quem será o fulano dessa vez? Carregava consigo uma arma de pesado calibre numa das mãos, no outro, o corpo de um policial já desfigurado de tanto apanhar. Ele não sabia onde tudo aquilo iria acabar, talvez ele nem quisesse que tudo aquilo tivesse fim. Descia, acelerado, solitário e raivoso, descia.

Cansado da polícia, cansado da ordem que os homens de farda colocavam no seu bairro, a ordem fajunta que fazia homens inocentes morrerem em detrimento de um grupo seleto de traficantes que sustentavam estatísticas como a mortalidade infantil e os índices de criminalidade. Ao pensar nisto, suas veia do rosto saltavam e pareciam linhas de trem que cortavam sua face de ponta a ponta. Suor, sangue, e dessa vez sem lágrimas de sua parte.

Mais alguns metros, refletiu sobre o que estava fazendo. Parou, encostou num carro, largou a arma de canto. Esqueceu por alguns momentos o motivo de toda a cena miserável que lhe rodeava. Pôs a mão no rosto, para não ver mais a rua, nem a enxurrada de água que descia junto à guia. Ouviu barulho de carros, música. Quatro garotos desciam devagar com um Fusca, tocando algo que parecia funk carioca. Colocou a mão sobre os ouvidos, não queria voltar. Olhou para a entrada estreita da favela, onde tinha parado. Outros garotos fumavam algo escondido num canto e sussurravam com medo. Largou seus braços, se livrou da água que batia violentamente contra sua face.

Abordou o Fusca. Os garotos estranharam, mas pararam o carro. Um deles apontou uma faca. Quando viu o cano duplo, deixou cair o artefato entre os dedos. Abriu a porta de um dos lados. Disse um simples e furioso: Saiam! Os quatro, possivelmente menores de idade corriam como ratos pelas frestas e entradas escuras da favela.

Olhou por dentro do carro. Viu que o som era de última geração, desses mais caros do que muitos daqueles barracos de palafita que estava acostumado a ver. Deu o primeiro tiro. O capô do carro, aberto, também condenava um alto-falante potente, destruído pelo segundo tiro. Soltou o freio de mão e deixou o carro descer. Para o azar do que premeditava - ver o dito descer até o fim da rua, passar o cruzamento e ter um fim trágico - o automóvel desalinhado bateu no terceiro poste, após passar raspando um Golf estacionado na frente de um bar fechado.

Deu um chute na cara do corpo do policial que carregava e prosseguiu.

Inventava orações hereges durante todo esse trajeto: "Deus dos fortes e justos, me dá alívio na morte de meus inimigos, me dá esperança na tragédia anunciada daqueles que querem o mal da humanidade. Me curvo perante sua bondade e apelo para que não tenha pena de meus adversários e os deixe padecer no conforto do esquecimento eterno. Pela morte cruel, indigna e pela putrefação das almas destes idiotas, Amém".

Faltavam 300 metros para acabar a ladeira, viu uma travessa escura, a qual já havia morado quando menor, com seus pais. O lugar parecia uma ilha perdida no meio do inferno. Ali até gatos e cachorros viviam em harmonia, velhos sentavam na rua até tarde. Viu uma criança que brincava na garagem de casa, despreocupada, sem pensar em maldades alheias, como se estivesse vigiada por uma equipe de seguranças treinados pela CIA. E o fato de haver gente no mundo preocupada com maldade e cercada 24 horas diárias por homens armados e vidros blindados o trazia de volta à sua descomunal condição de monstro.

Ao olhar pra frente, o pesadelo se fez real. Cerca de 8 viaturas fechavam a rua que tinha apenas aquela saída. As travessas e ruazinhas não levavam ao mesmo local. Grande parte delas era sem saída. Um policial fala em um megafone pede para que se entregue. Ele pára. Olha pra trás, vê algumas luzes acesas, janelas entreabertas e olhos escondidos na escuridão daquela noite chuvosa. Olha para frente e larga o corpo por alguns instantes.

Correu para trás de um carro. Alguns policiais que já corriam na frente foram atigidos por seus primeiros tiros. Os outros se seguravam atrás das portas de suas viaturas, com receio do maluco que tinha uma doze na mão. Abriu pelo quebra-vento aquele Gol 91, desvirou o volante, respirou. Tirou da cintura a Automática que havia levado. Soltou o freio de mão.

O carro descia fielmente alinhado, como esperava. Ele, atrás, corria, gritava e atirava nos policiais que revidavam sobre o Gol, que servia de escudo. Arrastou consigo o corpo que trazia. Por algum motivo tinha de levá-lo. Algo parecido com uma gosma já ficava no chão, de tanto arrastar aquela cabeça.

A essa hora, ele já devia saber no que havia se metido. Foi quando tomou um tiro no ombro e provou seu sangue pela primeira vez. Do cartucho de sua automática, saíram os tiros que derrubaram outros três policiais. As baixas da corporação já eram tantas que ele já nem sentia seu tiro, satisfeito do que estava fazendo, gargalhava sob um céu negro e pouco poético da periferia de São Paulo.

Um homem cansado não consegue esperar por um outro dia de sossego. Fizeram de sua vida uma merda, o caos declarado, a guerra fria, ninguém se mexe, ninguém fala, ninguém se levanta. Era só mais um dia comum para ele. Mas naquele dia o senso comum lhe disse que seus ossos não suportariam sequer mais um dia sem poder provar a si mesmo a fragilidade do mundo e a força dos humanos comuns.

Seu pesadelo terminou com 16 tiros no peito e um corpo que definhava em outra cova num cemitério da periferia paulistana. Os jornais do dia seguinte o entregavam como maluco. Alguns faziam referências a Serial Killers, filmes sobre psicopatas. Michael Meyers, Conspiração, Sociopatia, palavras que não faltavam nos periódicos daquela manhã cinzenta. Houve páginas de dedicação aos heróis que salvaram o mundo daquele terrorista e homenagem com presença do prefeito da cidade, cavalaria e salva de tiros.

No outro dia de noite a biqueira pegava fogo, moleques continuavam a esmolar e furtar bolsas de tiazinhas para sustentar seus vícios, fogos de artifício durante o dia todo diziam que a quebrada tava fervendo, o estoque de entorpecentes na boca de fumo estava cheio. O contra-cheque da PM estava pronto, a parte deles feita. Policiais cretinos rezavam de noite para que ninguém mais se revoltavasse contra a ordem que eles mesmos estabeleceram.

Nosso João só queria justiça para os seus.

"E João não conseguiu o que queria quando desceu o Jd. Brasília pra com o diabo ter. Ele queria era falar pro presidente pra por um fim em toda essa gente que só faz sofrer."

Western Day

por Robson Assis | | COMENTE!

Ele descia a rua a milhão. Estava impregnado em seus olhos, claro como as brasas do inferno. A vingança era sua única sede. O ódio sua única verdade. Caminhava sobre as luzes dos postes e pessoas que devagar abriam suas janelas para ver o que acontecia lá fora. Aquele barulho, aquela agitação. Quem será o fulano dessa vez? Carregava consigo uma arma de pesado calibre numa das mãos, no outro, o corpo de um policial já desfigurado de tanto apanhar. Ele não sabia onde tudo aquilo iria acabar, talvez ele nem quisesse que tudo aquilo tivesse fim. Descia, acelerado, solitário e raivoso, descia.

Cansado da polícia, cansado da ordem que os homens de farda colocavam no seu bairro, a ordem fajunta que fazia homens inocentes morrerem em detrimento de um grupo seleto de traficantes que sustentavam estatísticas como a mortalidade infantil e os índices de criminalidade. Ao pensar nisto, suas veia do rosto saltavam e pareciam linhas de trem que cortavam sua face de ponta a ponta. Suor, sangue, e dessa vez sem lágrimas de sua parte.

Mais alguns metros, refletiu sobre o que estava fazendo. Parou, encostou num carro, largou a arma de canto. Esqueceu por alguns momentos o motivo de toda a cena miserável que lhe rodeava. Pôs a mão no rosto, para não ver mais a rua, nem a enxurrada de água que descia junto à guia. Ouviu barulho de carros, música. Quatro garotos desciam devagar com um Fusca, tocando algo que parecia funk carioca. Colocou a mão sobre os ouvidos, não queria voltar. Olhou para a entrada estreita da favela, onde tinha parado. Outros garotos fumavam algo escondido num canto e sussurravam com medo. Largou seus braços, se livrou da água que batia violentamente contra sua face.

Abordou o Fusca. Os garotos estranharam, mas pararam o carro. Um deles apontou uma faca. Quando viu o cano duplo, deixou cair o artefato entre os dedos. Abriu a porta de um dos lados. Disse um simples e furioso: Saiam! Os quatro, possivelmente menores de idade corriam como ratos pelas frestas e entradas escuras da favela.

Olhou por dentro do carro. Viu que o som era de última geração, desses mais caros do que muitos daqueles barracos de palafita que estava acostumado a ver. Deu o primeiro tiro. O capô do carro, aberto, também condenava um alto-falante potente, destruído pelo segundo tiro. Soltou o freio de mão e deixou o carro descer. Para o azar do que premeditava - ver o dito descer até o fim da rua, passar o cruzamento e ter um fim trágico - o automóvel desalinhado bateu no terceiro poste, após passar raspando um Golf estacionado na frente de um bar fechado.

Deu um chute na cara do corpo do policial que carregava e prosseguiu.

Inventava orações hereges durante todo esse trajeto: "Deus dos fortes e justos, me dá alívio na morte de meus inimigos, me dá esperança na tragédia anunciada daqueles que querem o mal da humanidade. Me curvo perante sua bondade e apelo para que não tenha pena de meus adversários e os deixe padecer no conforto do esquecimento eterno. Pela morte cruel, indigna e pela putrefação das almas destes idiotas, Amém".

Faltavam 300 metros para acabar a ladeira, viu uma travessa escura, a qual já havia morado quando menor, com seus pais. O lugar parecia uma ilha perdida no meio do inferno. Ali até gatos e cachorros viviam em harmonia, velhos sentavam na rua até tarde. Viu uma criança que brincava na garagem de casa, despreocupada, sem pensar em maldades alheias, como se estivesse vigiada por uma equipe de seguranças treinados pela CIA. E o fato de haver gente no mundo preocupada com maldade e cercada 24 horas diárias por homens armados e vidros blindados o trazia de volta à sua descomunal condição de monstro.

Ao olhar pra frente, o pesadelo se fez real. Cerca de 8 viaturas fechavam a rua que tinha apenas aquela saída. As travessas e ruazinhas não levavam ao mesmo local. Grande parte delas era sem saída. Um policial fala em um megafone pede para que se entregue. Ele pára. Olha pra trás, vê algumas luzes acesas, janelas entreabertas e olhos escondidos na escuridão daquela noite chuvosa. Olha para frente e larga o corpo por alguns instantes.

Correu para trás de um carro. Alguns policiais que já corriam na frente foram atigidos por seus primeiros tiros. Os outros se seguravam atrás das portas de suas viaturas, com receio do maluco que tinha uma dose na mão. Abriu pelo quebra-vento aquele Gol 91, desvirou o volante, respirou. Tirou da cintura a Automática que havia levado. Soltou o freio de mão.

O carro descia fielmente alinhado, como esperava. Ele, atrás, corria, gritava e atirava nos policiais que revidavam sobre o Gol, que servia de escudo. Arrastou consigo o corpo que trazia. Por algum motivo tinha de levá-lo. Algo parecido com uma gosma já ficava no chão, de tanto arrastar aquela cabeça.

A essa hora, ele já devia saber no que havia se metido. Foi quando tomou um tiro no ombro e provou seu sangue pela primeira vez. Do cartucho de sua automática, saíram os tiros que derrubaram outros três policiais. As baixas da corporação já eram tantas que ele já nem sentia seu tiro, satisfeito do que estava fazendo, gargalhava sob um céu negro e pouco poético da periferia de São Paulo.

Um homem cansado não consegue esperar por um outro dia de sossego. Fizeram de sua vida uma merda, o caos declarado, a guerra fria, ninguém se mexe, ninguém fala, ninguém se levanta. Era só mais um dia comum para ele. Mas naquele dia o senso comum lhe disse que seus ossos não suportariam sequer mais um dia sem poder provar a si mesmo a fragilidade do mundo e a força dos humanos comuns.

Seu pesadelo terminou com 16 tiros no peito. Os jornais do dia seguinte o entregavam como maluco. Alguns faziam referências a Serial Killers, filmes sobre psicopatas. Michael Meyers, Conspiração, Sociopatia, palavras que não faltavam nos periódicos daquela manhã cinzenta. Houve páginas de dedicação aos heróis que salvaram o mundo daquele terrorista e homenagem com presença do prefeito da cidade, cavalaria e salva de tiros.

No outro dia de noite a biqueira pegava fogo, moleques continuavam a esmolar e furtar bolsas de tiazinhas para sustentar seus vícios, fogos de artifício durante o dia todo diziam que a quebrada tava fervendo, o estoque de entorpecentes na boca de fumo estava cheio. O contra-cheque da PM estava pronto, a parte deles feita. Policiais cretinos rezavam de noite para que ninguém mais se revoltavasse contra a ordem que eles mesmos estabeleceram.

Nosso João só queria justiça para os seus.

"E João não conseguiu o que queria quando desceu o Jd. Brasília pra com o diabo ter. Ele queria era falar pro presidente pra por um fim em toda essa gente que só faz sofrer."

A vida continua...

por Robson Assis | | 20.8.08 COMENTE!

Péu caminha de lá pra cá no centro movimentado da cidade. É só passar pelo Anhangabaú ao entardecer, naquele horário em que os office-boys se encontram com os vendedores de loja e carros escuros blindados para vê-lo passar com um saco de cola na mão, se der sorte no dia, ele até dorme num lugar coberto, com seu saquinho do lado, dividindo espaço com as baratas e o mau cheiro do centro velho de São Paulo.

Sangue nos olhos desde recém-nascido, Péu não é de deixar qualquer oportunidade passar batido. É dia de show na Tiradentes, milhares de pessoas passam em direção ao local, portando garrafas de bebida, com os mais diversos estilos e cores, malandragens e odores. Ele espera embaixo do viaduto.

Cinco garotos e uma garota passam na frente, se destacando dos outros três atrás. Péu cola na banca que restou pra trás e dá a multa:

- Vai, boyzão, solta uma moeda pra nós aí.
- E aí, mano, suave?

Nunca haviam trocado idéia com ele nestas horas. Geralmente o "boyzão" se caga, dá duas notas de 10, o relógio e sai andando. Péu fica surpreso com a idéia de um cara vir falar algo além de "calma, fica calmo, vou te dar".

- Suave o que, tiozão? Solta o bagulho - Péu tenta outra vez intimidar
- Então, mano, a gente não tem dinheiro não, tio, tamo indo pro show lá que é de graça.
- É memo, e se achar?
- ô, truta, a gente veio lá do Jd. Elba na leste, tamo osso memo.
- Pode cre, mas e os moleque que passaram aí, tem nada também?
- Tem nada, mano, compramos a bebida e viemos.
- Pode cre, moleque, constou a idéia, vocês são pela ordem.
- Firmeza então.
- Mas aí, deixa um gole pra nós desse esquema aí?

Péu pega uma garrafa 600ml que trazia consigo e enche da bebida dos meninos. Os outros três, mais adeptos a fazer amizades com alheios e anônimos, param pra conversar com Péu e abandonam o outro grupo que esperava mais à frente, destacado. Contam de onde vieram, que eram trabalhadores e também suavam frio com a polícia, mas por outro motivo, portavam entorpecentes e tapa da polícia de graça era coisa que ninguém gostava.

O grupo caminha até um dos bancos do Vale e se sentam junto. Conversam, bebem, fumam e começam a dar risada sobre os transeuntes e suas roupas esquisitas. Péu se sentia entre amigos, fato este que não sabia o que era desde 1998, quando o destino lhe tirou de maneira trágica o Bequinha, amigo de infância que, anos depois, ficou sabendo ser seu irmão de sangue por conta das peripécias de sua mãe.

Diz sobre como veio parar na rua para assaltar playboys e ganhar dinheiro diário, conta sobre a outra vida que tinha quando morava num barraco 2x2 na zona oeste e o que aconteceu quando incendiaram a favela em que morava, os primeiros dias na rua, o sopão, a caminhada até o centro e a vida complicada e cruel de hoje.

Conta aos garotos a história de sua vida, desabafa, como dizem os velhos. Logo terminam a garrafa de conhaque bruta que lhes descia o estômago em rasgos absurdos pela garganta. Já relativamente bem consigo mesmo por culpa da bebida, os garotos decidem ir embora para o show que ainda estava longe de começar, mas iriam encontrar seus outros amigos. Se despedem de Péu, que os cumprimenta e agradece por aquela meia hora em que estiveram perto e conseguiram o deixar com a mente distante de tudo o que vivia.

- Firmeza, Péu, demorou, mano, a gente se tromba ainda por aí, cola lá no show?!
- Que nada, boy. A vida continua por aqui, vou ficar no aguardo da vítima.



** A imagem é uma adaptação do flickr do Juca Fii

O Opala

por Robson Assis | | COMENTE!

Era outro dia como estas terças-feiras comuns. Renato tinha acabado de chegar do trabalho e estava a trocar idéia com os seus, no bar do Maurinho, ali mesmo, na vila. Dizia algo sobre como a Veraneio Cinza tinha passado quase tirando tinta de seu carro, com dois manos do lado de dentro. Imaginou em uma fração de segundos como estavam se sentindo aqueles dois, talvez sardinhas enlatadas fossem melhor tratadas e continuou a divagação sobre o que aconteceria se o carro amassasse.

- Imagina se rala... Mano, sei lá, na hora é foda, o sangue sobe, acho que vou atrás.

O Opalão era azul, com quase tudo original, a não ser o som que Tinho, como Renato era conhecido, havia instalado pra "manter o peso da caranga", segundo ele próprio. Pintura metálica, subwoofer, módulo de seis canais, tela de DVD. Se orgulhava até hoje pelo carro estar no principal cartaz daquela oficina de Tuning do centro da cidade.

Tinho era um aficcionado pelo carro. Vivia por ele, trabalhava e honrava todas as suas dívidas, exceto se um acaso tornasse o veículo alvo da degradação do tempo. E todos os seis anos em que estava com o carro, jamais deixara sequer a lâmpada da seta quebrada por mais de dois dias.

- Desce uma gelada que eu tô tenso, pede o malandro.

De praxe, sai por instantes do bar e liga o som e se serve de um copo. Estava tocando aquele programa de rádio que todo mundo do bairro ouvia, então ele ajudava a transmitir aumentando o volume para que até as ruas mais distantes da vila pudessem escutar. Volta cantando Tupac Shakur e gesticulando aos amigos, como se fosse o próprio, em pessoa.

Três cervejas e Nelsinho dichavava a história do Corinthians por pelo menos 15 minutos. Dizia sobre como ele foi parar na segunda divisão, a fraqueza da diretoria até a falta de firmeza da delegação. Tinho ouvia comovido a história de seu time do coração e trocava poucas palavras com o malandro, de tanta atenção que prestava ao que ouvia. havia esquecido dos policiais, quando dois PM's entram pela porta:

- Vai, mão pra cima, filho da puta, mão pra cima, vagabundo!!

A primeira frase do PM depois da geral e das perguntas-procedimento nos seis malandros que estavam no bar foi: "de quem que é essa porra desse carro aqui fora?". Tinho levanta a mão e a cabeça, trêmulo, mas de certa forma, acostumado com essa abordagem policial. Após vários gritos do PM, o primeiro tapa na cara. Tinho novamente abaixa a cabeça e ouve, sem negar nada do que lhe era questionado.

O tempo foi passando, 20, 30 minutos e o policial "embarreirando", palavra com a qual ele contaria o fato na sexta-feira, quando estivesse no rolê com seus parceiros. O fardado caminhava a passos curtos, com um discurso sobre a moral e respeito, que onde eles moravam era um lixo e isso e aquilo, eram "todos vagabundos" e mais. Às vezes parava na frente de um dos suspeitos-de-crime-algum e "pedia" para levantar a cabeça, mandava outra sessão de descarrego de palavras chulas. Seguia o enquadro.

Chamou então os malandros pra fora do bar e pediu para que Maurinho "gentilmente" fechasse as portas àquela hora. Encostados no muro, de braços pra trás, na rua relativamente vazia do boteco, os fulanos, entre eles Tinho, escutavam mais asneiras do PM. "Puta porco insuportável" era o que rondava a mente de todos.

A Veraneio cinza estava parada, dois homens, um em pé e um de dentro do carro, faziam a contenção, enquanto o vacilão do PM, já menos tenso, andou perto do Opala de Tinho e, sem querer esbarrou o cassetete no retrovisor.

- Não, caral..! - Sai espontâneo o grito de Tinho
- Que foi, ladrão, você é maluco? - peita o policial, de encontro ao rapaz.
- Nada mano, é que...
- Mano?!??

Algumas cacetadas e gemidos de dor fizeram um dos PM's na Veraneio levantar e ir "ajudar" o outro policial a "conter a ira" do "suspeito".

Tinho ainda estava no chão quando o policial manda os outros irem embora correndo, "que aquele ali não ia conseguir correr mesmo". Sentam o malandro de frente pro carro e quebram os dois retrovisores, lanternas traseiras e furam o pneu do carro.

- Tá liberado, filho da puta.

O rapaz, sentado no chão da calçada fria da vila, vê seu carro destruído pelos verdadeiros vândalos da ordem social. Além do estrago feito pela vistoria atrás de entorpecentes e armas, agora prejuízos concretos. Ele pega então, do chão, um caco de vidros caído de seu possante e joga na rua, em forma de lamentos. Pensou com seus botões em como seria melhor se eles tivessem apenas ralado seu carro.

Anonimato S/A

por Robson Assis | | 15.8.08 2 Comentários

Saiu um conto meu (Paranóia Passional) no Anonimato S/A. O site traz histórias que não entram para a história, como o próprio Luiz Alberto, dono do site, diz. Escrevo na seção de crônicas e contos chamadas Amores Urbanos e daqui pra frente deve sair uma parada mensal minha no site dele, não deixe de conferir.

Recomendo também as matérias de capa do site, excelentes, informativas e reais.
http://www.anonimatosa.com

Os primeiros dias da primavera

por Robson Assis | | 11.8.08 COMENTE!

A garotinha segura uma pomba branca que tenta a todo custo escapar de suas mãos. Não entende o que é um enterro, não entende que sua mãe está dentro daquele caixão e que jamais voltará. Morta em tiroteio entre bandidos e policiais: lugar errado, hora errada, a história de suas vidas. O cemitério São Luis cheirava mal como os outros lugares.

O padre discursa, sua família pequena chora exaustivamente ao lado do caixão, jogam flores, se negam a acreditar. A vida é dura para quem nasce aqui. Um dia ela vai entender quando ver que existe gente de verdade que tem aquele iate da novela, compra roupas em lojas tão caras quanto o barraco em que ela vive, às vezes mais caras, a vida real falha.

Dois funcionários se encarregam de destinar o caixão ao seu devido buraco, vizinho de outros corpos e histórias, algumas inocentes, outras tão culpadas quanto a própria morte. Seu pai joga uma flor e ajoelha, em prantos, a garotinha ainda não entende nada até que começam a jogar terra sobre o leito final de sua mãe.

Ela vai até perto e olha para o pai procurando explicação. As primeiras lágrimas saem de seus olhos como o ácido sobre a rosa mais pura. Nunca havia pensado sobre a morte, sobre a existência ou a falta dela. Talvez a vida fosse outra dali pra frente. A terra cobria cada vez mais o caixão de madeira de sua mãe. Chorava insuportavelmente durante um sol negro de um dos primeiros dias da primavera.

Só então soltou a pomba branca, que voou livre sobre o céu azul esperança do Parque Santo Antônio.

Os Incautos do Centro Velho I

por Robson Assis | | 31.7.08 COMENTE!

Na rua é tudo tão complicado. Pra domir, o de sempre. Cobertor que ganhei de meu tio Mané, em 2001. Herança, por assim dizer. Eu devia ter uns 13 anos. Já perdi as contas. Não vejo muito futuro na minha frente. Não sou o bacana que pensa em aplicar em fundos de investimento e levar a vida com a aposentadoria aos 60 anos. Eu não faço idéia do que significa investir. Mas tava na capa do jornal algo sobre isso. Leio sempre na banca a maravilha do mundo em que não participo. Meu tio Mané sempre se revoltava: "Covardes", ele dizia puto da vida. E ainda terminava "Neco, a gente é pobre, miserável, você sabe disso. Mas vou te contar, tem dias que, mesmo na rua, não me sinto mais solitário do que era quando tinha uma vida média".

Nunca entendi direito as coisas que ele dizia. Morreu no frio. Mas não de frio. Acho que era novembro, o shopping Light já estava com iluminação de natal. Terça-feira o pessoal daquela Kombi vinha dar sopa perto do escadão do Viaduto do Chá. Lembro como se fosse um sonho estranho. Dessa vez vieram com eles um pessoal diferente com uma câmera, uns seis deles. Um povo assustado, nem desceram da Kombi, sequer abriram a porta. Seu Nelson veio conversar com a gente. Disse que eram de uma faculdade, estudavam jornalismo, estavam fazendo uma reportagem sobre a distribuição de comida nas ruas.

De longe, e com a normal cara de insatisfeito, Mané ouvia tudo. A palavra "câmera", para ele era um trauma, dizia. Eram todos uns mentirosos, falsos, hipócritas. Naquela época eu nem imaginava o que era ser hipócrita. Anos depois fiquei sabendo que meu tio apareceu uma vez na televisão, quando foi espancado por um bando de bacanas em uma travessa da Paulista, três ou quatro anos antes de morrer. Os boys foram soltos, ele não recebeu nem médico. Apareceu ao vivo, todo arrebentado em pleno meio-dia. Foi tido como derrotado pela galera do Anhangabaú.

- Mas eles não vão falar nada comigo não, disse meu tio.
- Po, Mané, calma, eles são gente fina, vieram na boa, estão com a gente.
- É o cacete, vamo ver se alguém desce com câmera aqui, disse já gritando e apontando para a Van, poucos metros à frente.
- Tá bom, deixa pra lá, eu falo com eles, seu Nelson finalizava a idéia.

De dentro do carro, Maurinho, do terceiro ano, provavelmente ouvia Mané dizendo tudo. Esse moleque era maluco. Depois fiquei sabendo, o maluco era lá do Brooklyn. Mas da parte boa, sabe. Abriu a porta e fingia estar apenas ajeitando a câmera, mas todo mundo já tinha visto a luz vermelha acesa. Mané apontava de longe e ainda dava pra ouvir os gritos dos outros. "Fecha a porta, Mau, que merda!".

Meu tio correu em disparda pra cima do moleque. Tirou a câmera da mão dele, afastou todo mundo. Deitou o fulano no chão e distribuiu. Jogou a câmera com força umas 3 vezes na cara, o garotão ensanguentado, já tinha parado de reagir há um bom tempo. Os gêmeos, que estavam segurando o pessoal da sopa, soltaram, apavorados. Seguraram os braços de meu tio, que chorava e tremia muito, não se sabe o porquê.

Mané voltou a correr quando uma viatura parou em cima do viaduto e viu a confusão. Os policiais desciam a milhão os degraus, pulando lances de escada, pareciam uns animais caçando uma presa. Só os mais velhos ficaram no local e ainda assim, foram agredidos até Seu Nelson dizer que eles não tinham nada a ver e comentar sobre meu tio. Eu, que já tinha corrido, fingia dormir do lado oposto de onde estava o tumulto, mas conseguia ver tudo.

Outra vez os policiais farejaram sua caça e foram atrás. O camburão deu a volta e fechou a rua na frente do terminal bandeira. Alguns dizem ter visto meu tio com algemas, outros dizem que ele apanhou como um cão e havia tomado um tiro nas costas. bem que eu havia ouvido uns disparos no dia. A única certeza que tive ao acordar no outro dia de manhã foi a de que jamais veria meu tio novamente. Mas algo dele parece ainda estar em mim. Talvez o espírito de lutar pelo que temos, mesmo sem termos nada, é o que me faz sobreviver dia após dia, sozinho, no inferno do centro de São Paulo.

Um dia em comum com o resto do mundo

por Robson Assis | | 23.7.08 COMENTE!

"E eu seria então o mano mais firmeza da quebrada, só por você..."
Xis

São quatro e trinta e cinco da manhã. Meus olhos quase não conseguem abrir, mas ninguém me mandou ficar acordado até tarde. Com aquele monte de policial na rua não dava pra dormir direito. Certeza que subiam a Principal na captura de alguém. O problema era a gritaria dentro dos becos, os avisos e o silêncio que se fazia quando se ouvia vozes de PMs. Fiquei da laje vendo tudo, enquanto Aninha, minha esposa, já na cama, reclamava.

E agora essa, tudo bem, vou acordar. Naquele momento, desligar o despertador parece a tarefa mais árdua do mundo, mas quando chega a hora do rush a gente esquece disso e percebe que tem coisa pior para enfrentar.

Finalmente consigo me sentar na cama. No disco que coloco no rádio, um Herbert Viana mais jovem e esperançoso canta: "Da cama pro banho, do banho pra sala, o sono persiste, o sol já não tarda, a vida insiste em seguir um velho ritual que sempre segue a tantos outros, o mesmo pão comido aos poucos", quando ouço esse trecho escovando os dentes e me olhando no espelho, pergunto a mim mesmo se o pessoal da rádio pensa nessas coisas.

São cinco e dois da manhã quando coloco os dois pés para fora de casa e desço a Principal, para pegar o primeiro ônibus da viagem. Nesta caminhada passo por algumas marcas de pneu no asfalto e lembro da polícia do dia anterior. Até que hora teriam ficado infernizando? Mão no bolso e sigo em frente.

Mais lá embaixo, vejo a fila quase vazia de ônibus e três garotos esperando o ônibus sentido bairro, dormindo cobertos com suas próprias blusas com marcas de skate que até hoje, vergonhosamente desconheço. Eles entram em um carro, talvez o primeiro do dia para aqueles lados. Eu continuo de pé, na fila.

- Moço, que horas são, por favor? - Me pergunta uma senhora de óculos e voz doce.
- Cinco e quarenta, senhora.
- Obrigado, viu. Tá uma demora esses ônibus, né?

É lei. Se você informar a hora para uma tiazinha e vocês estiverem em filas, salas de espera ou dentro de elevadores, ela vai emendar alguma conversa. Dando um pouco mais de corda, descobri que a senhora estava indo ao médico e pretendia chegar bem cedo. Disse sobre suas filhas, seus netos, mostrou fotos. Fui conversando com ela até o Hospital do Servidor Público, no final da Ibirapuera. Depois disso sentou um fulano que dormiu até às seis e cinquenta, quando chegamos no ponto final. Tive que acordar o cara. Isso, depois de ser acordado por outro que do banco de trás me deu dois tapinhas nas costas, indicando o ponto de chegada.

Desço a Praça da Sé tranquilamente, ainda me dá tempo de parar no boteco do Barba para tomar um café, comprar um maço de cigarros, trocar duas palavras sobre a quebra da invencibilidade do Corinthians na Série B. Chego no prédio dez minutos antes de meu horário. Faço uma brincadeira com Dona Ana, secretária, e vou para a sala.

O dia passa seco. Almoço no Barba, pra variar. Na quarta-feira ele faz a melhor feijuca do centro de São Paulo. Relatórios, arquivos, faço de tudo nessa empresa. Tenho até dois cargos, mas, óbvio, como em qualquer organização de cunho capitalista, recebo apenas por um deles. Já são quatro e vinte e daqui a pouco volto para o ponto que me entregou aqui pouco depois do sol nascer.

Acho que não existe nada mais contrastante do que ver o pôr-do-sol de cima do viaduto do chá. É uma cena lindíssima, gostaria que alguém fotografasse um dia. Ao mesmo tempo em que correm contra a morte os meninos com o saco de cola na mão e as meninas que limpam vidros de carro atrás de trocados.

Apertei um pouco o passo, cheguei no terminal Às seis da tarde.A fila já ganhava proporções que poucos podem imaginar. Duas, três filas de espera. Os ônibus chegam, lotam e saem. As filas só aumentam. As tiazinhas pensam no absurdo que é pegar um ônibus, várias pessoas conversam e sorriem, como se aquilo fosse bonito, ou realmente engraçado. Estranho jeito de levar a vida esse tipo de gente, eu acho. Não consegue entrar no ônibus porque está muito lotado, sorri. É maltratado pela balconista do banco, sorri. Vai entender.

Dessa vez, talvez pelo horário, não consigo lugar para sentar. Vou ao lado da porta, entre a escada de saída e o corredor. Ali é tranquilo. É impressionante como todos os dias eu acho que venho no coleitov mais lotado da cidade. Cada dia um pior. O sistema de transporte da cidade é ridículo, milhares de pessoas e três linhas para o mesmo lugar. Um celular toca funk enquanto dois caras conversam sobre alguma garota em comum.

Nesta hora, pensei na conspiração que rege o mundo: Ou estou sendo muito zoado por alguém que criou essa merda toda, ou é tudo verdade e as pessoas são realmente vazias. Esqueço isso quando vejo uma morena caminhar em plena Avenida santo amaro, com uma saia de seda e um decote que faria qualquer ser humano ter o mais primitivo dos desejos carnais. Dei risada quando lembrei que também sou vazio.

Desço no final, pego outro coletivo ou pouco mais cheio, talvez por ser menor. Pelo menos chego em casa rápido. Vejo a bolsa de Aninha jogada no sofá e imagino que acabou de chegar. Ouço o fogão ligado e a televisão da sala na novela das sete e minha linda mulher assitindo entre a cozinha e a sala. Ela não é a Julia Roberts, mas nem se fosse eu a amaria tanto.

Ainda um pouco suado - não do trabalho, da condução - chego ao seu lado e lhe dou um beijo no rosto, um abraço. Ela pergunta o que eu tenho. Respondo: amor. E ela ri, caminhando para a cozinha e terminando nossa comida. Também dou risada, nem eu mesmo acredito em mim. Mas acho que, sem o amor, nada destes dias tensos e dessa correria maluca por sobrevivência, iria funcionar muito bem.

Neste momento olho para o relógio que marca vinte e três e quarenta e oito. Minha princesa dorme e eu tenho algumas horas de sono para esquecer um pouco toda essa polícia, essa condução, esse capitalismo e essa gente doida - incluindo eu mesmo - do mundo em que vivo. Poucas coisas na vida conseguem dizer "Eu te amo" com tanta propriedade como ver sua garota dormindo ao seu lado. É tanta responsabilidade, tanta mente em parafuso, tanta maluquice, relatório, intriga, briga, desigualdade, maldade e tortura social que às vezes esquecemos de sentir uma simples saudade.

Contos da Sul

por Robson Assis | | 22.7.08 COMENTE!

Letra do grupo Apocalipse 16 que inspirou a criação deste blog. Esta música conta três histórias tenebrosas envolvendo criminalidade e injustiça e são grande fonte de inspiração. Para quem quiser ouvir, a música está no disco "Segunda Vinda, a Cura", de 2000. O último trecho é meio que um manifesto espiritual do rapper Pregador Luo, mas as três histórias são marcantes demais, vale a pena.

Esperança, eu sempre tive esperança. Sempre acreditei num mundo melhor, mesmo quando engravidei ainda sendo de menor. O pai do meu filho, ele me abandonou. Mas ainda assim eu acreditava nas pessoas. Acreditava que um dia pudesse ser feliz. Eu estudava, procurava de todas as formas ser uma mulher honrada. Sonhava com um futuro melhor pro meu filho e minha família. Todo dia cedo ia do Jardim Ângela pro centro à procura de emprego. Meus pais ganhavam pouco, eu tinha que ajudar no susteno na casa. Um dia recebi um telegrama que dizia que eu estava contratada. Naquele dia fui dormir em paz pois logo estaria empregada.

Primeiro dia de trabalho, estava muito feliz, pois minha vida estava começando a ser como eu sempre quis que fosse, todos no escritório foram gentis e doces. Passou a manhã, veio a tarde, o primeiro dia se foi, fui pra casa naquelas condições, condução lotada, porém feliz, estava empregada. Segundo dia de trabalho fiquei até mais tarde a pedido do meu patrão pois havia uma reunião e eu não podia recusar, pois havia o risco dele me dispensar. Deu 21h30 saí, desci, sentido Praça da Bandeira, apertei o passo, fui ligeira no caminho de SAnto Amaro toda parada, dormia, acordava e nada, não via a hora de chegar. Desci do ônibus olhei no rológio, 23h30, vi a rua escura vazia e molhada. Só eu Deus e mais nada. Fui pelo caminho normal, beirando o matagal, tive um presságio mal, parecia que estava próximo o meu final. Mas que nada, nem terminei o colegial, besteira, pensamento normal, antes fosse. Meu pensamento foi interrompido por três indivíduos que não foram doces. Uma pancada na cabeça me deixou atordoada, lembro de ver o mato se abrir e pra dentro ser arrastada. Tive minha roupa rasgada, fui estuprada, torturada, meus sonhos foram sumindo até se transformarem em nada. Dois dias depois fui encontrada, morta, com a cara desfigurada.

Contos da sul!

Lá no Nordeste, eu sempre ecutava falar que São paulo era a terra da oportunidade, imaginei que vindo pra cá eu podia me transformar em alguém de verdade. Onde eu morava tinha seca, faltava água, a comida nunca dava. Acabei vindo pra São Paulo, cheguei aqui sem nada. Só com a esperança de com o meu trabalho conquistar meu carro, minha casa, mandar dinheiro pros meus irmãos. Não demorou pra perceber que era tudo ilusão, acabei tendo que me sujeitar. A maioria dos que vem do norte acaba sempre na periferia. Fui parar num lugar chamado Capão Redondo, onde o crime é cruel o tempo todo, polícia versus ladrão. Aqui eu era só mais um servente de pedreiro, sem nenhuma qualificação.

Logo arrumei um trampo numa construção, emprego de peão, mas para mim já estava bom. Tinha almoço, janta, 100 reais pra começar, um lugar pra me alojar. Não podia reclamar, a memória do meu pai eu jurei que iria honrar. Ele dizia pra eu trabalhar e nunca jamais roubar. Também dizia que isto estava escrito na bíblia em algum lugar. Três meses completou que estou em São Paulo, a mão cheia de calo, o trabalho é pesado, cinco da manhã já estou acordado, ah como eu queria ter estudado. Deito e levanto nisso desde que cheguei aqui, nunca saí nem mesmo pra me divertir. Chegou sexta-feira e os outros caras me chamaram pra ir no bar tomar um trago, jogar carta, dominó ou bilhar, que mal há em os acompanhar? Tava contente, pois pra mim era um presente, um trabalho de verdade, sentia orgulho, eu era gente. De repente, um Opala freou bruscamente na porta do bote eu fiquei esperto, dois cara armado. O de capuz na cara entrou, um deles gritando perguntou quem era o baiano. Me levantei da mesa em que estava sentado tremendo, suando, assustado. Pois esse era o apelido que os mano da obra tinham me dado. O cara de capuz que estava com a automática na mão me mandou deitar no chão, chamou o ouyto, engatilhou, apontou pra minha cabeça e fuzilou. A única coisa que me lembro é do meu sangue escorrendo e os caras saindo correndo. Antes de morrer, ouvi alguém dizer que o Baiano que os cara procurava era o nóia da área, que cheirava e não pagava, não pagava.

Contos da sul!

Na periferia, é sempre assim. O pior fica pra você, o pior fica pra mim. Crescer sem pai, sem mãe, é difícil. O fato de saber que eles morreram num assalto me deixa revoltado, morô? Ai de mim se não fosse o meu avô que me criou, me botou na escola. Se não fosse ele acho que nem tava mais vivo. Mas aí, estar vivo até hoje acho que é o meu castigo. Tem marcas que nunca vão ser apagadas, tem feridas qe vão doer pra sempre na alma da gente. A estrada que eu to até hoje não tem volta, também não dá pra ir pra frente. Quando era pivete, imaginava que tudo fosse diferente.

Lembro-me na infância, eu, moleque, cheio de esperança correndo no campão de terra atrás da bola, perdi a conta de quantas vezes cabulava na escola. O dia todo debaixo do sol, a única coisa que eu queria era ser um jogador de futebol. Era melhor que a maioria dos moleque, jogava o dia inteiro e para mim não tinha breque. Meu avô que me criou, sempre me apoiou, foi ele que me levou a primeira vez no estádio. Quando vi o campo meus olhos brilharam. Meu avô era o único que comigo se importava, ele era a única pessoa que eu tinha, minha família e eu o amava. O tempo passando e eu sempre no campão treinando. Já estava com 16, fiz vários testes no Corinthians, São Paulo, Palmeiras, mas consegui entrar no Juniors da Portuguesa. Meu avô bancava tudo, até minha chuteira, era ponta firme. Queria me ver titular do time, longe do crime. Um dia eu estava treinando no campão junto com os outros manos quando vi um maluco se aproximando. Parou o jogo, chamou todo mundo de canto, olhou pra mim, me deu um barato estranho, percebi que era um pó branco. Mesmo sabendo o que era resolvi experimentar, foi ali que minha vida começou a mudar. Perdi minha paz, sempre queria muito, sempre queria mais e mais, esqueci o futebol e agora jogava o jogo de satanás. Minha vida passou a ser outra, não demorou muito e eu já estava envolvido com os parceiros da vida louca. Mano, como tudo mudou em apenas um ano. Não conseguia me libertar, não tava com disposição, nem mais para assaltar. Era dia do meu aVô retirar a aposentadoria, ele chegou em casa, tinha acabado de receber. No descontrole segurei-o e comecei a bater. Tava na nóia brava, ele gritava dizendo que me amava, eu não ouvia e nem me importava, mas no fundo, em algum lugar aqueles gritos me machucavam. revistei-o por inteiro, mas ele tinha escondido o dinheiro. Saquei o oitão e pá, dei o primeiro. Tentou me explicar que havia guardado para me pagar um tratamento. Infelizmente, nem deu tempo, sem dó descarreguei a arma. Naquele momento matava a única pessoa que me amava, naquele momento eu perdi a minha alma, hoje só tenho lembranças e mais nada. Atrás das grades do Carandiru até a minha honra foi tirada. Preso há quatro anos, sem previsão para sair. Estupro, espancamento e um vírus que está me consumindo por dentro. Mano, eu só lamento, meu Deus, como eu queria poder voltar no tempo, poder voltar no tempo.

Contos da sul!

As injustiças, as desigualdades, um dia vão ter fim. O sol da justiça vai brilhar na periferia, morô? O sangue vai deixar de escorrer pela calçada,a pivetada vai estar segura por aí, correndo. As mães não usarão mais luto pelos seus filhos. Não haverá mais tiros, nem sirenes, não vai ter mais humilhação pela polícia, nem corpos no chão à espera da perícia. As prostitutas e o dinheiro não vão salvar ninguém, morô? A BMW do boy não vai servir pra nada, nem as jóias, nem o ouro, nem a prata. Está chegando o dia da redenção dos humildes. Está chegando o dia da segunda vinda, a cura. Segunda vinda do filho de Deus, Jesus, o Senhor dos senhores, rei dos reis. Então escuta com atenção, confia nele, meu mano, confia nele, mina, somente Deus pra dar paz a sua vida. A paz não é um sonhos, sua palavra senhor é lâmpada pros meus pés. Guia-me pelas veredas da justiça, ele virá, vai voltar pra buscar os justos, os humildes de todas as quebradas do Jardim Guarujá, Vila Moraes, Vila Nhocuné, Vila Cachoeirinha, a paz não é um sonho Heliópolis, Campanário, Jardim Herculano, vocês vão ter paz quando Ele voltar. Monte Azul, Vila Brasilina, Jardim São Bento, Jabaquara, Jardim Damasceno, Parada de Taipas, Morro do Macaco, aí mano, a paz não é um sonho, escuta o que eu to te falando, aí, é muita treta, mas é, vai voltar. Acredita nisso periferia.

Paranóia Passional

por Robson Assis | | 17.7.08 COMENTE!

"É bem mais fácil falar da dor.
É bem mais fácil que falar do amor.
Dá mais ibope, chama atenção pros parceiros, pro mundão, né não?"
Genival Oliveira Gonçalves, GOG

Helena estava cansada. Não suportava mais aquelas homenagens que recebia na igreja da Graça Celestial, que freqüentava no Jd. Monte Azul. Seu casamento era, deveras, o mais duradouro de todas as jovens do local, ela sabia disso, não eram necessários os semestrais buquês de rosa e as declarações de amigos e conhecidos ao final do culto. No próximo mês, seria aniversário dos dois, ela não queria nem imaginar.

Mas dessa vez, Jucilene, amiga do casal, falara tão a fundo sobre o relacionamento que fez Helena suspeitar. Ao sair do culto agradeceu a todos e viu de longe o cochicho de seu marido Carlinhos com a amiga. A adrenalina de poder enxergar os dois sem ser vista lhe fez saltar os olhos para um bilhete que Jucilene deixara no bolso de seu marido.

No caminho a pé entre as subidas e descidas de terra do bairro, o casal falava sobre como era bom estar juntos por tanto tempo e serem felicitados assim sempre. E Helena dizia tudo de maneira tão jocosa, que desta vez quem desconfiou foi Carlinhos, mas ainda assim não queria perder tempo e seguiu até em casa sem questionar.

Ao chegar, Helena o colocou contra a parede. Ele, receoso, viu a garota tirar botão por botão de sua camisa ao mesmo tempo que mordia a língua.

- Agora não, Leninha.
- Mas hoje a gente tem que comemorar, retruca a moça.
- To muito cansado, querida, depois a gente vê isso melhor.

Claro que jamais desconfiou da esperteza da garota com quem se casou. Era uma menina simples demais para bolar planos mirabolantes. Helena o viu colocar as roupas no canto do quarto, como de praxe, e entrar no banheiro resmungando algo. Correu para o quarto e apanhou o bilhete no bolso do rapaz. Um papel amassado e dobrado quatro vezes dizia:

“Carlinhos, é muito perigoso fazer o que fizemos no meio do culto. Se a Helena perceber vai melar tudo. Amanhã passo no seu trabalho às 18h30. Lá conversamos melhor. Ju.”

Fez questão de guardar o bilhete do jeito que encontrou. Finalmente, viu que não era apenas ela que estava cansada de seu relacionamento. E então as horas extras que ele dizia ter acumulado e nunca recebido começaram a fazer sentido, assim como as noites de sábado em que dizia estar no inventário. A traição de seu marido começava a se desenhar, bem na sua frente.

Naquela noite, não dormiu, o sangue fervilhava vingança. Havia esquecido todas as bençãos, todos os trechos bíblicos que fazia questão de decorar, queria apenas mudar de vida e sabia que não era nada difícil. Já havia imaginado os dois no local em que teve seus primeiros pecados da carne, o banheiro de deficientes inutilizado pela igreja. Outra vez o sangue parecia explodir de ódio.

Carlinhos acordou, saiu às 5h20 da madrugada de sexta, era sua rotina. Era o dia de pagar as contas, levou o dinheiro que sempre guardava nos cantos escondidos de sua casa. No caminho encontrou o bando que mais assustava os moradores da região. Julinho, Neca, Alemão e o pior deles, Garrincha. Esse último, parou e desceu do carro, encarando nosso personagem. Aos berros trocava com Carlinhos:

- Ce ta me tirando, doidão? Diz o furioso.
- Não, cla-claro que não, eu não fiz nada, responde Carlinhos temeroso pelo dinheiro que portava.
- Ah, e eu sou bobo então, sou bobo né.. Isso que ce ta me dizendo?
- Mas o que foi? Eu não fiz nada absolutame..
- To te zuando, mermão - dizia o malandro já rindo da cara do outro com seus parceiros – Vamo ali tomar uma breja pra finalizar essa noite, vamo!
- Não, que isso, preciso trabalhar ainda, mas valeu.
- Porra, to falando pra vir com a gente, maluco!

Após ver a arma na cintura de Garrincha e o estado ora tranqüilo, ora caótico do malandro, decidiu ir com eles e inventar qualquer desculpa para o atraso.

No boteco do Jé, tomou algumas doses de cachaça barata e saiu tropeçando na cadeira em que estava. Garrincha e Alemão, cumprimentaram o rapaz que às 6h30 partia sentido centro.

- Ele gelou, mano, mancada – Diz Alemão.
- Mancada? Mancada é trabalhar pros outro. Um dia zicado abre os olhos da gente.

E todos na mesa riram fervorosamente ao ver Carlinhos tropeçar outra vez na guia em frente ao bar.

Como há muito não bebia por conta de sua religião, Carlinhos percebeu a merda que tinha acabado de fazer. Completamente bêbado, sentou no final do escadão e chorou. Precisava contar a Helena sobre seu plano com Jucilene, precisava pedir demissão. Mesmo se passasse fome, se sentiria mais vivo. Havia, então, tomado uma decisão. Queria viver.

Helena acordara às 7 e meia com um ar estranho entre a angústia e a sede de vingança, desceu à padaria. No caminho, ao passar pelo bar do Jé, viu malandros assobiando, bêbados, dizendo palavras chulas em relação à ela. Virou a cara e neste segundo, enquanto olhava para o outro lado, pela primeira vez se permitiu olhar de volta os fulanos que bebiam de maneira incessante. “Chega aí, morena, tem um lugar aqui pra você”, grita Alemão.

Ela dá outros três passos e volta ao bar.

Entra, finge não ver os rapazes na mesa, que a olham como Lobos que cercam uma presa. Compra um maço de cigarros, fato este que não fazia desde os 17 anos, quando era uma garota rebelde, e pergunta ao Jé se tem fósforos. “Mas ela não é aquela mina da igreja?” se perguntam aos cochichos os quatro malandros. Quando Jé se vira para pegar os fósforos:

- Aqui, morena, pode acender aqui – Alemão estende o braço com o isqueiro para a moça.

Ela acende. Olha para os rapazes durantes três segundos e solta os cabelos. Os quatro se sentem num filme em câmera lenta. Ela se senta, olha para os rostos apavorados dos boquiabertos malandros. Se serve de um copo de cerveja.

- E então? Pergunta a garota enquanto dá seu primeiro gole.

Nenhum daqueles jamais havia visto aquilo. Afinal, eles infernizam a vida de milhares de garotas do bairro. Nenhuma delas, a não ser as mais conhecidas e atiradas, nunca ousou virar o rosto, olhar para eles. E a que menos esperavam, a crente, como chamavam, se voltou, sentou à mesa e pegou uma cerveja. Após três vezes perguntando para si mesmo se estava bêbado demais, Garrincha despertou:

- É, morena, ce é gata demais. Qual é a sua graça, meu bem?
- A que você quiser, responde uma Helena quase inconcebível de sensualidade.

Carlinhos acabara de acordar na guia. Não sabe como havia dormido, nem como tinha parado ali. Olhou para os lados e notou o desprezo das pessoas no ponto de ônibus, como se fossem testemunhas vivas da degradação da pior das espécies. Procurou sua bolsa e não encontrou. Só então percebeu no que havia se metido. Levaram seu dinheiro e o que restava de sua moral. Ele decidiu ir pra casa, encontrar sua mulher, dizer que queria outra vida, em outro lugar e assim falar sobre seu segredo com Jucilene.

Andou com a cabeça fervendo até chegar na rua de sua casa. Pensava em seu trabalho, nas desculpas que teria de arrumar, na reação de sua esposa para o que iria lhe oeferecer. Abriu a porta de casa e deu de cara com Alemão fumando um cigarro no sofá. Não entendeu nada. “Como o filho da puta sabe onde eu moro?”, o primeiro pensamento que lhe veio à cabeça.

Olhando surpreso e calado para o malandro, Carlinhos recobra os pensamentos e começa ouvir barulhos parecidos com sexo. Antes de pensar em Helena, vê sair de seu quarto Garrincha puxando o zíper das calças e, antes que ele fechasse a porta, nosso personagem tem a visão certa do inferno: Julinho e Neca sobre sua mulher, em movimentos bruscos e posições que jamais imaginara.

Caiu de ombros como um derrotado. Não pensou em Helena, ou em qualquer um dos quatro malandros que invadiram sua casa. Temos agora outro personagem em busca de vingança. Garrincha tentou entrar no quarto para avisar os três na cama, mas era tarde demais. Carlinhos já havia se levantado e não pensou duas vezes quando viu a arma em cima da mesa: “Porra!” Deu um grito que assustou Dona Maria, vizinha da casa, que ao mesmo tempo parou de lavar a louça para ouvir o alvoroço.

Saía então do quarto uma Helena de cabelos bagunçados, camisola amassada e maquiagem estragada, mesmo àquela hora da manhã. Carlinhos jamais ousou imaginar a cena. Os outros dois, medrosos, vestiam rápido suas roupas, podia se ver na fresta da porta entreaberta.

- Helena, o que você está fazendo? Diz Carlinhos desesperado.
- Diz você, o que você tem feito com a vaca da Jucilene no meio do culto?

Arregalou os olhos. Como será que sua esposa descobrira o tal segredo dos dois? Mesmo assim abriu um sorriso desesperançoso por imaginar o que ela estava pensando.

- O que você sabe?
- Sei que ela anda te mandando uns bilhetinhos. Que vocês fazem coisas escondidas no meio do culto. No meio do culto, Carlos?
- Ela trabalha numa imobiliária, você sabia disso?
- Dane-se, e eu quero lá saber onde essa piranha trabalha? Retruca Helena.
- Chega! Carlinhos interrompe com um grito como da primeira vez.

Carlinhos estava mais cansado do que com raiva. Em uma manhã que seria comum, teve sua vida toda despedaçada. Agora estava apenas nervoso e cansado. Então alinhou os malandros ao lado de sua esposa. A arma que tinha nas mãos era a única dos quatro. Pensou bastante antes de tomar a decisão e deu o primeiro e único tiro da história. Em sua própria cabeça.

Os malandros saíram em disparada, afinal, quem acreditaria na versão deles? Além disso, Neca era foragido da polícia. No último Dia das Mães deixou o presídio em que estava e não voltou mais. Correram sem perceber Dona Maria que da janela ouviu o disparo e se abaixou, mas ainda conseguiu ver os quatro em disparada e ligar rapidamente para a polícia.

Helena, em estado deplorável, gritava de horror pela cena que presenciara. Ao lado de seu marido ensanguentado, leva às mãos a arma que o matou e faz o mesmo. Não conseguiria explicar nem a si mesma o que havia feito nesta manhã. A polícia chega e encontra os dois corpos sobrepostos. Dona Maria não consegue explicar nada aos oficiais.

O dia inteiro se passa, os dois vão ao IML, amigos da igreja preparam o velório, mas não conseguem falar com Jucilene, que às 18h45 espera Carlinhos e não entende nada por ele não aparecer. Pergunta na portaria, descobre que o amigo havia faltado no trabalho. Deixou um recado ao porteiro do prédio, para ser entregue ao amigo junto a um documento:

"Carlinhos, a casa nova está pronta! Como não sei quando vou te ver novamente, na semana que vem, na data do aniversário de vocês, eu entrego a chave. Este documento do envelope é a escritura. Achei que gostaria de ver. A Helena ainda nem desconfia de nada! Ela quase nos viu ontem, mas sem dúvida a hora que souber da casa nova vai ficar muito feliz! Beijos, Ju."

O envelope nunca saiu da gaveta do porteiro.